Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
11 Fevereiro de 2011
É comum as empresas bem organizadas disporem de Planos Sucessórios para todas as funções consideradas cruciais. Objectivo principal? Resposta pronta, e sem percalços, a eventuais fenómenos de erosão ou mesmo naturais abandonos por limite de idade, vulgo passagem a situações de reforma. Não é habitual, contudo, que estas práticas sejam do conhecimento da generalidade dos trabalhadores. Justificação mais habitual? Os gestores de topo e os DRH (Departamentos de Recursos Humanos) consideram que estas listas, embora com evidentes preocupações estruturantes, têm carácter conjuntural, devendo os elementos que as constituem estar sob permanente avaliação. Daí resulta que as entradas e saídas nestes “grupos de talentos” não tenham data anunciada. Se entrar num grupo deste tipo pode gerar expectativas que poderão não se confirmar, ser excluído será sempre interpretado como uma penalização ou, no mínimo um reforço negativo, para utilizar a tradicional terminologia de B. F. Skinner já abordada em ”Mudança da Gestão ou Gestão da Mudança?”. Qualquer destas consequências afecta sem dúvida a motivação individual, pelo que a justificação se apresenta como aceitável.
Os Planos Sucessórios são uma das componentes do Processo Integrado de Gestão por Competências (PIGC).
Vejamos a importância capital dos Soft Skills nalgumas vertentes do PIGC, e como tudo isto se complementa e gera sinergias quando o endereçamento é correcto.
Sobre a Cultura Organizacional
A Cultura Organizacional está para as organizações como o carácter para os indivíduos. Ambos identificam as entidades onde enraízam, e nem uma nem o outro se modificam com facilidade. Como o conceito de Cultura, seus benefícios e implicações negativas, varia conforme quem a cita e com a envolvente, é conveniente recordar aqui em que âmbito a situo.
Embora nos dias de hoje, em que poucos conceitos empresariais assumem perenidade, junto-me aos que acham que quando se cria uma empresa é para durar, e não com preocupações de horizontes temporais. Dito doutra forma, as empresas devem ser sustentáveis, não devem viver sob o espectro da extinção a todo o momento. Com isto quero relevar que os espaços físicos, os equipamentos, os mercados, os produtos, os clientes, os fornecedores, mudam e ainda bem que assim é, pois a esta volatilidade as organizações respondem com criatividade e inovação, desafios que as fazem renascer permanentemente. Mas, no que diz respeito à Cultura e à Liderança, há que lidar com grande sensibilidade – o caminho, que não assim tão simples, passa pela criação duma verdadeira Cultura Criativa e Inovadora, e uma genuína e eficaz Liderança Sustentável da Mudança. É crucial que os novos líderes disponham de adequadas competências relacionais (Soft Skills).
Gestão do Desempenho
Nunca é demais enfatizar que Gestão do Desempenho (GD) e Avaliação do Desempenho (AD) são construtos distintos. GD é o processo integrado que endereça as competências individuais face aos contextos operacionais actuais e previsíveis. AD é uma das práticas compreendidas pela GD, que visa comparar as contribuições individuais contra os objectivos acordados pelas partes, profissional e organização.
A AD confronta, assim, o acordado com o atingido. Embora uma das óbvias consequências seja a diferenciação das contribuições para os resultados finais, esta quantificação incide somente sobre o que o profissional realizou naquele determinado contexto. Jamais visa a catalogação da pessoa.
A AD, em si mesma e numa visão tradicional, é uma prática quantitativa, suportada essencialmente na eficiência de aplicação de Hard Skills, as chamadas competências técnicas.
Hoje em dia, no entanto, as empresas de sucesso tendem a introduzir nas avaliações componentes relacionais (Soft Skills). Actualmente, a AD procura afinar a avaliação quantitativa (O que se atingiu) com a avaliação qualitativa (Como foi atingido). Por que esta variante pode ser confundida com subjectividade, capaz de afectar a objectividade da aproximação quantitativa, torna-se necessário anunciar previamente aos intervenientes do que se trata, como se articulará com as habituais métricas aplicáveis, e que efeitos globais se pretende atingir.
Aprendizagem e Desenvolvimento
Aprendizagem e Desenvolvimento contínuos e sistémicos tornaram-se indispensáveis às organizações ganhadoras, como Aries de Geus e Peter Senge demonstraram e eu enquadrei em ”Do Serviço de Pessoal ao Departamento de Recursos Humanos”. A figura de ”Organização Aprendiz” (Learning Organization) é claramente uma metáfora, pois as organizações não têm capacidade para aprender, conseguem-no através das pessoas. Hoje, contudo, já é possível armazenar “saberes” e “conhecimentos” em ferramentas informáticas, mas o estado da arte da Inteligência Artificial ainda é muito rudimentar.
A Aprendizagem e Desenvolvimento pessoais extravasam, a montante e a jusante, os procedimentos de Avaliação do Desempenho. A montante porque pressupõem a existência de competências pessoais para as tarefas a desempenhar, e a jusante porque as carências detectadas no período de avaliação em causa, permitirão identificar as formas de as colmatar.
As competências a que me refiro são as estrategicamente identificadas pela organização, estando por isso em completa sintonia com os grandes desígnios globais.
O Desenvolvimento Individual configura âmbito mais abrangente, em especial à Gestão de Talentos. Por talentos entende-se indivíduos com elevado potencial, e não as ideias de heróis, génios, ou outros quaisquer estereótipos. Em princípio todos os empregados devem ser desafiados e estimulados a explorarem as suas potencialidades até ao limite das suas capacidades. Obviamente que tal não é possível de aplicar a todos os profissionais da empresa por questões de custo-benefício. Assim sendo, o caminho possível passa por escolhas criteriosas que não conflituem com a generalidade da população que não possa receber atenção equivalente.
O segredo na implementação destas práticas e na obtenção de resultados ambiciosos, passa por uma correcta gestão relacional, ou seja e de novo, exploração de Soft Skills.
Remunerações e outras formas de recompensa
Reconhecer prestações acima do esperado e penalizar o oposto é uma das atribuições mais importantes de quem tem responsabilidades sobre pessoas. Reconhecer pode ter múltiplos significados e assumir diversas formas, mas para quem recebe há uma que está sempre presente – recompensa. Chamemos-lhe retribuição, compensação, remuneração, tanto faz.
É por isso fundamental que se esclareça “o que se entende aqui” por aumento salarial, prémios pecuniários, progressões, e promoções.
Defendo que os aumentos salariais e os prémios se devem destinar exclusivamente a recompensar prestações que excedam o acordado. Consigo aceitar que em ambientes específicos, como profissões indiferenciadas, se recorra a aumentos automáticos, por exemplo, indexados à inflação ou aos número de anos na função, mas não consigo ver neles qualquer incentivo à satisfação ou motivação de quem trabalha. Quanto muito diminui os níveis de insatisfação. Por princípio quem cumpre com os objectivos acordados não justifica qualquer tratamento de excepção. É contra-senso.
Por tudo isto, as entrevistas de Avaliação do Desempenho e de Planeamento de Desenvolvimento Pessoal e Perspectivação de Carreira, devem ocorrer em alturas diferentes, pois têm objectivos distintos. É essencial que a população não tenha dúvidas sobre isto. E é natural que a primeira preceda a segunda, até por questões de lógica – uma endereça o passado, a outra o futuro.
O Planeamento de Carreira, eventualmente envolvendo progressões e promoções, exige grande perspicácia relacional. É por isso que a coloco sem qualquer dúvida na esfera dos Soft Skills - trata-se de aferir comportamentos e tentar prever atitudes.
Planeamento de Sucessões
Regressando ao ponto inicial – É responsabilidade de todos os líderes funcionais na organização planear substituições, normais ou acidentais, de todas as funções-chave. É uma questão de sobrevida dos órgãos fundamentais da organização que servem.
E porquê voltar agora atrás quando nos aproximamos do fim do artigo? Porque conceber e gerir um plano de sucessão depende das disciplinas que abordámos no entretanto.
A verdadeira base de dados de saberes e conhecimentos da organização é o seu ficheiro de pessoal. A responsabilidade de o manter permanentemente actualizado recai em todos os líderes funcionais devidamente enquadrados pelos especialistas do Departamento de Recursos Humanos. Um adequado suporte informático facilitará a exploração eficaz desta base de dados, através de ferramentas de pesquisa-perfuração (drill down) das diversas informações nele depositadas. Os interfaces aplicacionais com os utilizadores têm de ser simpáticos e simples em abono da produtividade.
Mais uma vez, as soluções ideais podem colidir com os recursos financeiros disponíveis. O modelo custo-benefício ditará o que deve e pode ser feito. É uma questão de prioridades, de estratégia, de bom senso, de Soft Skills.
Arrisquemos, então, uma tentativa de guião, se bem que em questões como esta tentar um “fato de medida única” não seja a táctica mais aconselhada.
Ao planear sucessões:
1. Identifique as competências cruciais, as necessárias, e as dispensáveis;
2. Identifique quem são os responsáveis pelo programa;
3. Integre os responsáveis por novas contratações;
4. Não caia na tentação de considerar que só vale a pena preocupar-se com as chefias;
5. Assegure-se de que dispõe duma base dados de competências fidedigna;
6. Arranque só com os programas que tenham financiamento garantido.
A propósito - Já pensou na sua própria sucessão?
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
CHINA – Medidas contra a ameaça de inflação (2) - Na Casa e na Alimentação
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
22 Dezembro de 2010
Na China tudo tem enormes dimensões e acontece muito depressa. A 20 de Novembro, e com base nos indicadores que foram dados a conhecer pelas autoridades chinesas no mês anterior, questionei-me sobre os reais impactes que a inflação desregrada poderia trazer a este gigante durante tanto tempo adormecido. Terminei o artigo dizendo que o início de 2011 nos iria trazer importantes novidades neste domínio. Mal poderia imaginar que um dia após, teria de voltar ao tema face às medidas que o poder acabara de anunciar para tentar controlar a subida generalizada dos preços que ameaçavam desestabilizar a nação.
E aqui estou de novo, ainda antes do fecho de 2010, reflectindo sobre tão importante questão. Os dados mais recentes sobre o aumento das despesas domésticas confirmam as preocupações com o agravamento da situação.
As despesas fixas de Liu Qi
A versão em Inglês do diário Sina publicou há quase um ano – 21 de Janeiro de 2010 – um interessante artigo sobre o aumento de preços na China, recorrendo ao exemplo de Liu Qi, uma jovem de 29 anos empregada há oito numa empresa de publicidade em Pequim.
Naquela quinta-feira, Liu Qi gastara 80 yuans (11.7 US$, 9 €) no supermercado – metade em comida, metade em necessidades diárias. Esta jovem que dispunha de 6500 yuans mensais, supostamente já deduzidos de impostos, afirmou gastar mensalmente 1200 yuans em comida, 1300 em alojamento e despesas associadas, 1000 a jantar fora e diversões com amigos, 500 em roupa, e 200 em comunicações de telemóvel, sobrando-lhe assim 2300 yuans, o equivalente a 260 €. A sua principal preocupação consistia em como juntar dinheiro para comprar uma casa.
O preço das casas na China
Na Segunda Circular de Pequim, em 2009, o preço de venda das casas em segunda mão aumentara 43% e os alugueres 5% em média, segundo o artigo citado. Esta não será a regra no imenso e muito diversificado território chinês, mas é um exemplo real.
Desde Fevereiro de 2009 que os protestos populares por causa desta cavalgada de preços vinham preocupando as autoridades, que implementaram novas regras para o sistema bancário, quer pela via fiscal quer pelos empréstimos concedidos a este tipo de negócio. Os resultados não se fizeram esperar, e o efeito directo sobre a inflação já foi praticamente insignificante em Novembro. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) deverá fixar-se entre 3 e 4% em 2010, ano sobre ano.
Contudo, as despesas de habitação incluem outras rubricas para além do aluguer ou da amortização, como a água, a electricidade, e os custos de manutenção. O National Bureau of Statistics (NBS) calcula assim a evolução do peso das despesas com a habitação no cabaz IPC – 9.7% em 2000, 13.2% em 2006, estimando 13.6% para 2010 (a rubrica custos de aquisição de habitação não faz parte do cabaz IPC).
Apesar da tradicional falta de informações oficiais na China, os analistas não oficiais calculam que as pessoas como Liu Qi gastem com a habitação cerca de 20% dos seus rendimentos, longe dos 13.6% referidos pelo NBS.
A evolução dos preços no mercado
Segundo o Xiong Peng, analista sénior do Bank of Communications (BOC), os preços dos alimentos subiram 5.3% em Dezembro de 2009, o que justificou um agravamento de 1.74% no IPC. Os alugueres da casa ao subirem 1.5% foram responsáveis pelo crescimento de 0.21% do IPC.
O governo tem, portanto, pela frente duas frentes de batalha prioritárias para travar a inflação – Imobiliário e Alimentação.
Ao impor o reforço das reservas bancárias para 18%, o governo pensa que as concessões de crédito passarão a ser mais rigorosas. Dito doutra forma, dificultarão as acções especulativas nos domínios imobiliário e commodities, apesar de se saber que este tipo de medidas não é do agrado dos investidores, podendo mesmo vir a originar alguma desaceleração no crescimento económico .
Consideram os economistas que foi o excesso de liquidez, associado a deficientes políticas monetárias nos últimos oito anos, que fomentaram a especulação e trouxeram a inflação para níveis indesejáveis. O aumento dos custos de produção e a política de juros negativos, encarregaram-se do resto.
Os receios dos investidores
Os investidores não gostam de medidas disciplinadoras. Temem-nas, e é isso que está a acontecer.
Quem investe antecipa-se, não espera para reagir. E, de facto, a maioria dos analistas prevê que as taxas de crescimento da ordem dos 12% não voltarão a verificar-se, embora se pense que poderão rondar 7 a 8% durante a próxima década, um valor ainda muito elevado, atendendo a que, quanto mais uma economia cresce, mais difícil será manter as taxas de crescimento.
Mas todos estão cientes que forçar o aumento das reservas financeiras dos bancos, subir os juros, e controlar alguns preços cruciais não é suficiente, nem estruturante.
A bolha imobiliária está escondida?
Há uns meses, correu a notícia, entretanto desmentida pelas empresas de energia, que poderiam existir 64.5 milhões de habitações não ocupadas . O fundamento de tal estimativa baseava-se no não consumo de electricidade nessas casas por seis meses consecutivos. A ser verdade, isto significaria duas coisas – oferta de habitação não correspondida para cerca de 200 milhões de pessoas (um número, de facto, impressionante), e, ou os preços estariam propositadamente inflacionados, ou desadequados face às reais capacidades dos potenciais compradores.
Será que os actuais proprietários estão a apostar no aumento da inflação, esperando por melhor altura para venderem os apartamentos? Mas, esta opção tende a provocar, ela mesma, uma espiral inflacionista. Se não venderem pelo preço que pretendem, poderão vir a alugá-los por rendas mais elevadas, influenciando assim negativamente o IPC.
Contudo, e comparando com situação semelhante noutros países – USA, Islândia, Irlanda, UK, Espanha, etc. - onde ocorreram bolhas imobiliárias com as nefastas consequências que se conhecem, os analistas apreçam-se a estabelecer a diferença: na China não existe o perigo de bolha imobiliária em preços, mas pode haver em quantidade.
A história tem mostrado, que quando estas bolhas crescem juntas, os efeitos podem ser devastadores. O exemplo do Sudoeste Asiático na década de 1990 e de Taiwan nos finais de 1980, ainda estão bem presentes. Bem como os efeitos da bolha de preços americana que desencadeou a actual crise económica global, que ainda parece longe de estar superada.
Uma crise chinesa neste domínio, nos tempos mais próximos, poderia ter consequências avassaladoras a nível global.
A habitação na China é, de facto, um caso diferente
Tem-se construído imenso na China nos últimos anos. Calcula-se (sempre a mesma carência de informações fidedignas), que se tenham construído perto de 60 milhões de apartamentos privados nos últimos 10 anos. Actualmente, crê-se que estejam em construção mais cerca de 20 milhões de habitações particulares, e que as administrações locais e governamentais estejam a construir outros 20 a 30 milhões.
Nos últimos anos, cerca de 1000 milhões de metros quadrados habitáveis foram reconstruídos, faltando ainda proceder de igual forma sobre os 9000 milhões que continuam em condições insustentáveis para vida digna.
Não são só as autoridades políticas que estão envolvidas neste gigantesco processo, mas também as empresas que constroem para os seus trabalhadores habitarem, como no passado. Apesar disso, calcula-se que cerca de 200 milhões de trabalhadores migrantes, deslocados do interior para as periferias dos grandes aglomerados industrias e urbanos, continuem a viver em dormitórios subterrâneos, geralmente uma só divisão sem janelas. Um expediente a que muitos jovens recorrem em início de carreira.
As novas habitações chinesas
Calcula-se que, em 2009, a venda de casas novas na China, tenha representado mais de 14% do PIB – uma cifra impressionante. Surpreendente, também, é a dimensão média per capita dos novos apartamentos na maioria das cidades - entre 28 a 30 metros quadrados. Este valor situa-se entre as posições 148 e 153 da lista de 355 cidades mundiais, superando por exemplo, Las Palmas, Nápoles, Varsóvia, São Peterburgo, Zagreb, Belgrado, Gdansk, ou Budapeste.
Mesmo que o valor estimativo de 64.5 milhões de apartamentos desocupados, esteja errado, e que só metade deles se encontre nessa situação, isso equivale a cerca de 20% de todos os domicílios urbanos. Num mercado em tão rápida mutação, e com tantos cidadãos a deslocarem-se para outras localizações, esta taxa não se pode considerar anormal.
A questão muda de figura, se esta oferta estiver, de facto, distante da procura efectiva, e desadequada para o cidadão comum.
Os governos locais, altamente endividados por força dos investimentos que fizeram para atrair capitais, precisam das receitas provenientes das trocas imobiliárias. Especula-se, pois não se conhecem dados oficiais, que os governos locais e regionais tenham, em média, receitas correspondentes a 20% das dívidas acumuladas. Se as receitas do imobiliário não entrarem, só há uma alternativa – reduzir despesas. E sabe-se como os políticos são avessos a este caminho.
A renovação política
Dentro de menos de dois anos, a China irá para eleições. Os actuais dirigentes políticos darão lugar a uma nova classe de quadros, cada vez mais distantes dos valores que conduziram Mao e o Partido Comunista ao poder em 1 de Outubro de 1949. Possuem cada vez mais mentalidade capitalista.
Pelo que ficou exposto, conclui-se que se exigem medidas estruturantes. Os dirigentes chineses, que já deram imensas provas de serem exímios planeadores, sabem que adiar soluções pode custar muito caro, incluindo contestação social ao regime, se a economia interromper o ritmo de crescimento das duas últimas décadas.
Mas todos sabemos, também, como os políticos são avessos a tomar medidas impopulares antes de eleições.
Alguns perigos se vislumbram no horizonte, portanto. E não só para a China.
O que lá vier a acontecer interessará ao mundo inteiro.
vitor.trigo@gmail.com
22 Dezembro de 2010
Na China tudo tem enormes dimensões e acontece muito depressa. A 20 de Novembro, e com base nos indicadores que foram dados a conhecer pelas autoridades chinesas no mês anterior, questionei-me sobre os reais impactes que a inflação desregrada poderia trazer a este gigante durante tanto tempo adormecido. Terminei o artigo dizendo que o início de 2011 nos iria trazer importantes novidades neste domínio. Mal poderia imaginar que um dia após, teria de voltar ao tema face às medidas que o poder acabara de anunciar para tentar controlar a subida generalizada dos preços que ameaçavam desestabilizar a nação.
E aqui estou de novo, ainda antes do fecho de 2010, reflectindo sobre tão importante questão. Os dados mais recentes sobre o aumento das despesas domésticas confirmam as preocupações com o agravamento da situação.
As despesas fixas de Liu Qi
A versão em Inglês do diário Sina publicou há quase um ano – 21 de Janeiro de 2010 – um interessante artigo sobre o aumento de preços na China, recorrendo ao exemplo de Liu Qi, uma jovem de 29 anos empregada há oito numa empresa de publicidade em Pequim.
Naquela quinta-feira, Liu Qi gastara 80 yuans (11.7 US$, 9 €) no supermercado – metade em comida, metade em necessidades diárias. Esta jovem que dispunha de 6500 yuans mensais, supostamente já deduzidos de impostos, afirmou gastar mensalmente 1200 yuans em comida, 1300 em alojamento e despesas associadas, 1000 a jantar fora e diversões com amigos, 500 em roupa, e 200 em comunicações de telemóvel, sobrando-lhe assim 2300 yuans, o equivalente a 260 €. A sua principal preocupação consistia em como juntar dinheiro para comprar uma casa.
O preço das casas na China
Na Segunda Circular de Pequim, em 2009, o preço de venda das casas em segunda mão aumentara 43% e os alugueres 5% em média, segundo o artigo citado. Esta não será a regra no imenso e muito diversificado território chinês, mas é um exemplo real.
Desde Fevereiro de 2009 que os protestos populares por causa desta cavalgada de preços vinham preocupando as autoridades, que implementaram novas regras para o sistema bancário, quer pela via fiscal quer pelos empréstimos concedidos a este tipo de negócio. Os resultados não se fizeram esperar, e o efeito directo sobre a inflação já foi praticamente insignificante em Novembro. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) deverá fixar-se entre 3 e 4% em 2010, ano sobre ano.
Contudo, as despesas de habitação incluem outras rubricas para além do aluguer ou da amortização, como a água, a electricidade, e os custos de manutenção. O National Bureau of Statistics (NBS) calcula assim a evolução do peso das despesas com a habitação no cabaz IPC – 9.7% em 2000, 13.2% em 2006, estimando 13.6% para 2010 (a rubrica custos de aquisição de habitação não faz parte do cabaz IPC).
Apesar da tradicional falta de informações oficiais na China, os analistas não oficiais calculam que as pessoas como Liu Qi gastem com a habitação cerca de 20% dos seus rendimentos, longe dos 13.6% referidos pelo NBS.
A evolução dos preços no mercado
Segundo o Xiong Peng, analista sénior do Bank of Communications (BOC), os preços dos alimentos subiram 5.3% em Dezembro de 2009, o que justificou um agravamento de 1.74% no IPC. Os alugueres da casa ao subirem 1.5% foram responsáveis pelo crescimento de 0.21% do IPC.
O governo tem, portanto, pela frente duas frentes de batalha prioritárias para travar a inflação – Imobiliário e Alimentação.
Ao impor o reforço das reservas bancárias para 18%, o governo pensa que as concessões de crédito passarão a ser mais rigorosas. Dito doutra forma, dificultarão as acções especulativas nos domínios imobiliário e commodities, apesar de se saber que este tipo de medidas não é do agrado dos investidores, podendo mesmo vir a originar alguma desaceleração no crescimento económico .
Consideram os economistas que foi o excesso de liquidez, associado a deficientes políticas monetárias nos últimos oito anos, que fomentaram a especulação e trouxeram a inflação para níveis indesejáveis. O aumento dos custos de produção e a política de juros negativos, encarregaram-se do resto.
Os receios dos investidores
Os investidores não gostam de medidas disciplinadoras. Temem-nas, e é isso que está a acontecer.
Quem investe antecipa-se, não espera para reagir. E, de facto, a maioria dos analistas prevê que as taxas de crescimento da ordem dos 12% não voltarão a verificar-se, embora se pense que poderão rondar 7 a 8% durante a próxima década, um valor ainda muito elevado, atendendo a que, quanto mais uma economia cresce, mais difícil será manter as taxas de crescimento.
Mas todos estão cientes que forçar o aumento das reservas financeiras dos bancos, subir os juros, e controlar alguns preços cruciais não é suficiente, nem estruturante.
A bolha imobiliária está escondida?
Há uns meses, correu a notícia, entretanto desmentida pelas empresas de energia, que poderiam existir 64.5 milhões de habitações não ocupadas . O fundamento de tal estimativa baseava-se no não consumo de electricidade nessas casas por seis meses consecutivos. A ser verdade, isto significaria duas coisas – oferta de habitação não correspondida para cerca de 200 milhões de pessoas (um número, de facto, impressionante), e, ou os preços estariam propositadamente inflacionados, ou desadequados face às reais capacidades dos potenciais compradores.
Será que os actuais proprietários estão a apostar no aumento da inflação, esperando por melhor altura para venderem os apartamentos? Mas, esta opção tende a provocar, ela mesma, uma espiral inflacionista. Se não venderem pelo preço que pretendem, poderão vir a alugá-los por rendas mais elevadas, influenciando assim negativamente o IPC.
Contudo, e comparando com situação semelhante noutros países – USA, Islândia, Irlanda, UK, Espanha, etc. - onde ocorreram bolhas imobiliárias com as nefastas consequências que se conhecem, os analistas apreçam-se a estabelecer a diferença: na China não existe o perigo de bolha imobiliária em preços, mas pode haver em quantidade.
A história tem mostrado, que quando estas bolhas crescem juntas, os efeitos podem ser devastadores. O exemplo do Sudoeste Asiático na década de 1990 e de Taiwan nos finais de 1980, ainda estão bem presentes. Bem como os efeitos da bolha de preços americana que desencadeou a actual crise económica global, que ainda parece longe de estar superada.
Uma crise chinesa neste domínio, nos tempos mais próximos, poderia ter consequências avassaladoras a nível global.
A habitação na China é, de facto, um caso diferente
Tem-se construído imenso na China nos últimos anos. Calcula-se (sempre a mesma carência de informações fidedignas), que se tenham construído perto de 60 milhões de apartamentos privados nos últimos 10 anos. Actualmente, crê-se que estejam em construção mais cerca de 20 milhões de habitações particulares, e que as administrações locais e governamentais estejam a construir outros 20 a 30 milhões.
Nos últimos anos, cerca de 1000 milhões de metros quadrados habitáveis foram reconstruídos, faltando ainda proceder de igual forma sobre os 9000 milhões que continuam em condições insustentáveis para vida digna.
Não são só as autoridades políticas que estão envolvidas neste gigantesco processo, mas também as empresas que constroem para os seus trabalhadores habitarem, como no passado. Apesar disso, calcula-se que cerca de 200 milhões de trabalhadores migrantes, deslocados do interior para as periferias dos grandes aglomerados industrias e urbanos, continuem a viver em dormitórios subterrâneos, geralmente uma só divisão sem janelas. Um expediente a que muitos jovens recorrem em início de carreira.
As novas habitações chinesas
Calcula-se que, em 2009, a venda de casas novas na China, tenha representado mais de 14% do PIB – uma cifra impressionante. Surpreendente, também, é a dimensão média per capita dos novos apartamentos na maioria das cidades - entre 28 a 30 metros quadrados. Este valor situa-se entre as posições 148 e 153 da lista de 355 cidades mundiais, superando por exemplo, Las Palmas, Nápoles, Varsóvia, São Peterburgo, Zagreb, Belgrado, Gdansk, ou Budapeste.
Mesmo que o valor estimativo de 64.5 milhões de apartamentos desocupados, esteja errado, e que só metade deles se encontre nessa situação, isso equivale a cerca de 20% de todos os domicílios urbanos. Num mercado em tão rápida mutação, e com tantos cidadãos a deslocarem-se para outras localizações, esta taxa não se pode considerar anormal.
A questão muda de figura, se esta oferta estiver, de facto, distante da procura efectiva, e desadequada para o cidadão comum.
Os governos locais, altamente endividados por força dos investimentos que fizeram para atrair capitais, precisam das receitas provenientes das trocas imobiliárias. Especula-se, pois não se conhecem dados oficiais, que os governos locais e regionais tenham, em média, receitas correspondentes a 20% das dívidas acumuladas. Se as receitas do imobiliário não entrarem, só há uma alternativa – reduzir despesas. E sabe-se como os políticos são avessos a este caminho.
A renovação política
Dentro de menos de dois anos, a China irá para eleições. Os actuais dirigentes políticos darão lugar a uma nova classe de quadros, cada vez mais distantes dos valores que conduziram Mao e o Partido Comunista ao poder em 1 de Outubro de 1949. Possuem cada vez mais mentalidade capitalista.
Pelo que ficou exposto, conclui-se que se exigem medidas estruturantes. Os dirigentes chineses, que já deram imensas provas de serem exímios planeadores, sabem que adiar soluções pode custar muito caro, incluindo contestação social ao regime, se a economia interromper o ritmo de crescimento das duas últimas décadas.
Mas todos sabemos, também, como os políticos são avessos a tomar medidas impopulares antes de eleições.
Alguns perigos se vislumbram no horizonte, portanto. E não só para a China.
O que lá vier a acontecer interessará ao mundo inteiro.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
CHINA – O “boom” do consumo interno visto pelos estrangeiros
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
08 Novembro de 2010
Em artigo anterior, “China “forçada” a dinamizar o consumo interno” [1], abordámos a importante alteração estratégica da China no sentido do crescimento sustentável, nele se tendo salientado que os gastos dos consumidores baixaram 15 pontos percentuais em relação ao PIB de 1990, passando de 45% para 30%. Referiu-se também que a China é um país com grandes assimetrias em termos de custo de vida.
Mercado gigantesco com grandes assimetrias
Estima-se que existam na China cerca de 250 milhões de famílias com rendimentos superiores a 1,000 US$ anuais, e cerca de 50 milhões com mais de 3,500 US$ [2] [3]. Estes números não são, naturalmente, exactos, como a própria Mckinsey noutro estudo refere quando revela que na China, o PIB per capita foi, em 2003 de 1,300 US$, ou seja, o equivalente a 5,000 US$, quando ajustado pela paridade do poder de compra [4]. De acordo com este estudo mais recente, em 2010, 40 milhões de famílias auferirão mais de 48,000 yuans anuais (ao câmbio, 6,000 US$), mas que equivalerá a cerca de 24,000 US$ em termos de paridade de poder de compra no estilo de vida americano. Estamos, portanto, perante valores que qualificam uma família de classe média nos USA.
Contudo, estamos a falar dum país imenso e duma população três vezes superior à Europa e seis vezes os USA. Se em Xangai o PIB per capita é cerca de 5,600 US$, em Chongqing, no interior, este valor baixa para um quinto – 1,100 US$ [5]. Percebe-se porque alguns empresários que afirmam que a China é uma nação, mas não é um mercado. Sendo muitos, então a apetência dos estrangeiros vira-se para os segmentos Premium, deixando os segmentos inferiores e médios entregues às empresas locais, o que não é difícil dados os preços praticados justificados pelos baixos custos. E, neste domínio, está o grande problema – os custos de produção na China estão a aumentar [6].
As empresas chinesas têm sabido tirar partido desta vantagem competitiva e, ao aprenderem com as técnicas comerciais estrangeiras, apresentam crescimento nos seus próprios mercados e mesmo em segmentos onde os estrangeiros eram maioritários (higiene e alimentação empacotada, por exemplo). É claro que as marcas internacionais não estando interessadas em canibalizar as suas marcas premium, preferem não arriscar guerras de preços. Fica a dúvida se realmente têm, nestas condições, alguma hipótese de competir.
Uma complexa cadeia de valor
Em Fevereiro de 2007, a IBM Corporation, apoiada num inquérito conduzido pela The Intelligence Unit da The Economist [7], num artigo intitulado Winning in China’s mass markets, elencou os principais problemas da cadeia de valor chinesa que constituem obstáculos às operações das multinacionais naquele país:
• Centralização – O passado centralista da sociedade chinesa, a que se juntam deficientes infra-estruturas, é considerado importante obstáculo à eficiência das operações;
• Distribuição – Demasiados níveis de distribuição, com muitos distribuidores nacionais, regionais, e locais, com pouco valor acrescentado entropiam o sistema;
• Gestão – limitada previsão, altos níveis de stocks, custos logísticos que chegam ao dobro do normal (por vezes 10% das vendas [8]), sendo habitual (77% das empresas) apresentarem benchmarks inferiores à concorrência [9], e, pior que tudo, devido ao elevado número de intermediários, incapacidade de estudar os clientes.
Daqui decorrem os riscos inerentes ao tempo necessário para ir da fábrica ao ponto de venda e a propensão para encontrar alguém, familiares ou amigos, que possam facilitar o processo.
Que alternativas se colocam, então?
• Alternativa #1 – Online e Televendas
Em 2007, as vendas por este canal atingiram 700 milhões de US$, valor igual ao melhor dia de vendas semelhantes nos USA, embora se tenha registado crescimento anual de 34% [10].
Este canal debate-se com a desconfiança dos chineses, mas pode crescer muito devido aos avultados investimentos em curso no domínio das comunicações.
A UPS e a PGL já têm operações significativas na China.
• Alternativa #2 – Lojas próprias
Sós ou em parceria, esta modalidade parece estar a ganhar adeptos. A Motorola, por exemplo, optou lojas próprias na cadeia Gome.
• Alternativa #3 – Vendas directas
Esta é a opção predilecta para produtos Premium e acesso a clientes-chave nas cidades níveis 1 e 2 [11]. A Amway, por exemplo, criou uma rede de mais de 200,000 agentes em 180 cidades.
• Alternativa #4 – Retalhistas Directos
É um canal em franca expansão quer por parte dos nacionais (Suning e Gome), como dos estrangeiros (Wal-Mart, Carrefour), com a enorme vantagem de reduzir os intermediários. Preferem instalar-se na periferia das cidades níveis 1 e 2 [11].
Os próximos passos
Como referido o caminho mais normal passará pelo encurtamento dos canais de distribuição. Mas o enfoque principal deverá passar pelo interesse sobre as cidades níveis 3 a 5 [12]. É previsível que os investidores optem por encurtar o mais possível a linha de abastecimentos dos pontos de venda, com forte atenção às práticas de venda, na logística, na terciarização, no outsourcing especializado, e na melhoria dos canais de informação.
O desejado aumento das vendas, das receitas, e dos lucros, deverá passar pela eficácia do acto de venda, longe do tradicional relacionamento excessivo dos chineses (“guanxi”), algo que não faz parte do rol de preferências dos investidores estrangeiros.
Noutros domínios se verificarão importantes apostas:
• Investigação & Desenvolvimento
Desenvolvimento de novos produtos de qualidade orientados para as características das populações chinesas, adaptados aos canais de distribuição, e compatíveis com a evolução dos níveis de vida. Os investimentos estrangeiros nesta área, insignificantes em 2001, atingiram em 2006 4 biliões de US$, com cerca de 750 a operarem regularmente [13].
A pressão para a disponibilização de produtos de qualidade a baixo custo pode ser ilustrada com os recentes anúncios de PCs da Lenovo (PCs a menos de 100 US$), que adquiriu a divisão de PCs da IBM em 2005. Releve-se que esta tendência não é exclusivo da China, como, por exemplo, a Tata fez na Índia ao decidir produzir um carro para 4 pessoas por menos de 3,000 US$ [14].
• Fornecedores locais
Os departamentos de compras estão a assumir lugar fundamental na nova estratégias de criação de valor, procurando encontrar junto de fornecedores locais, e de acordo com especificações locais, as componentes de que necessitam para a assemblagem e transformação dos produtos finais. Números oficiais revelam que esta fonte, já em 2006, representava 600 biliões de US$ (cerca de 9% da produção chinesa, prevendo-se que esta valor possa aumentar para 14% em 2009) [15].
• Recursos Humanos
Em 2005, a American Chamber of Commerce in China identificou os recursos humanos como a questão crucial a resolver para o desenvolvimento das vendas na China [16]. O requisito era claro - as empresas exigiam não só as pessoas certas, mas também bastante
pessoas em locais diferentes para colocarem no terreno mercados em massa, de altos volumes e baixos custos.
O paradoxo afigurava-se evidente – como seria possível estarem perante semelhante problema numa população de 1.3 mil milhões de pessoas? Para mais, em 2006, a China havia produzido 4.13 milhões de licenciados com formação em matemática e engenharia [17]. A verdadeira questão só poderia ser a identificação, acompanhamento, e orientação de talentos, porque falta não haveria, por certo. A má notícia foi a constatação de insuficiente preparação destes licenciados para os negócios, nomeadamente para servirem em multinacionais. A McKinsey chegou mesmo a concluir que só 10% destes recursos seriam aproveitáveis a curto prazo neste domínio [18].
Assim sendo, e perante outro dado entretanto verificado – os elevados níveis de rotação destes profissionais qualificados – forma accionadas as seguintes medidas:
1. Recrutamentos em massa
2. Adequado controlo salarial
3. Aposta nas cidades de nível 3 a 5 [12]
4. Especial atenção à formação de supervisores de vendas, marketing, compras, I&D, e gestão de canal
5. Implementação de programas de coaching, mentoring, e sistemas de recompensa
É desta forma que a China está paulatina e sistematicamente a percorrer, com a gestão do tempo que nós ocidentais temos alguma dificuldade a entender, o que identificou como “o caminho das pedras”.
“A longa viagem começa por um passo”, como diz o provérbio chinês.
__________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/china-forcada-dinamizar-o-consumo.html
[2] https://www.mckinseyquarterly.com/Encouraging_consumer_spending_in_China_1555
[3] Para um ideia do que significam realmente estes valores expressos em yuans, pode-se multiplicar por 4, isto é, 1,000 US$ (ao câmbio oficial) na China representam poder de compra de 4,000 US$ nos USA.
[4] https://www.mckinseyquarterly.com/Retail_Consumer_Goods/Sectors_Regions/Marketing_to_Chinas_consumers_1472
[5] China Regional Statistical Reports, reproduzidos pela Mckinsey
[6] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/estrategia-economica-chinesa-ensaia.html
[7] Pdf em http://www-900.ibm.com/cn/services/bcs/iibv/
[8] Butner, Karen. “Follow the leaders: Scoring high on the supply chain maturity model.” IBM Institute for Business Value. September 2005. http://www-935.ibm.com/services/us/index.wss/ibvstudy/imc/a1020839?cntxt=a1005268#1
[9] idem
[10] “China B2C Market Size Will Reach RMB 18.83 Billion in 2010.” Analysys
International. Jan 2007. http://english.analysys.com.cn/3class/detail.php?advertisement=002&id=261&name=report&FocusAreaTitleGB=&daohang=Report&title=
[11] Cidades de nível 1 e 2 são 25 (1-4 e 2-21), onde habita 9% da população (119 milhões de pessoas), que geram 34% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 16 e 30 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 24%, e 78% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[12] Cidades de nível 3 a 5 são 306 (3-19, 4-77, 5-209). Nelas habita 18% da população (239 milhões de pessoas), que geram 43% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 11 e 21 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 12%, e 56% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[13] Ministry of Commerce statistics. June 2006.
http://www.mofcom.gov.cn/aarticle/i/jyjl/l/200610/20061003365128.html
[14] “Car making in India, a different route.” Economist. December 13, 2006. http://economist.com/displayStory.cfm?story_id=8413155.
[15] “Novartis to Establish Drug R&D Center in China.” Wall Street Journal. November 6, 2006.
http://online.wsj.com/article/SB116277366653714013.html?mod=health_hs_pharmaceuticals_biotech
[16] “The AmCham-China White Paper: American Business in China.” The American Chamber of Commerce of the People’s Republic of China. May 16, 2006.
http://www.amchamchina.org.cn/amcham/show/content.php?Id=1570&menuid=&submid=
[17] 2005 National Statistics Bureau of China. October 19, 2006.
http://english.peopledaily.com.cn/200610/29/eng20061029_316147.html
[18] Farrell, Diana. “China’s looming talent shortage.” McKinsey Quarterly. November 2005.
http://www.mckinsey.com/mgi/publications/Chinatalent.asp
vitor.trigo@gmail.com
08 Novembro de 2010
Em artigo anterior, “China “forçada” a dinamizar o consumo interno” [1], abordámos a importante alteração estratégica da China no sentido do crescimento sustentável, nele se tendo salientado que os gastos dos consumidores baixaram 15 pontos percentuais em relação ao PIB de 1990, passando de 45% para 30%. Referiu-se também que a China é um país com grandes assimetrias em termos de custo de vida.
Mercado gigantesco com grandes assimetrias
Estima-se que existam na China cerca de 250 milhões de famílias com rendimentos superiores a 1,000 US$ anuais, e cerca de 50 milhões com mais de 3,500 US$ [2] [3]. Estes números não são, naturalmente, exactos, como a própria Mckinsey noutro estudo refere quando revela que na China, o PIB per capita foi, em 2003 de 1,300 US$, ou seja, o equivalente a 5,000 US$, quando ajustado pela paridade do poder de compra [4]. De acordo com este estudo mais recente, em 2010, 40 milhões de famílias auferirão mais de 48,000 yuans anuais (ao câmbio, 6,000 US$), mas que equivalerá a cerca de 24,000 US$ em termos de paridade de poder de compra no estilo de vida americano. Estamos, portanto, perante valores que qualificam uma família de classe média nos USA.
Contudo, estamos a falar dum país imenso e duma população três vezes superior à Europa e seis vezes os USA. Se em Xangai o PIB per capita é cerca de 5,600 US$, em Chongqing, no interior, este valor baixa para um quinto – 1,100 US$ [5]. Percebe-se porque alguns empresários que afirmam que a China é uma nação, mas não é um mercado. Sendo muitos, então a apetência dos estrangeiros vira-se para os segmentos Premium, deixando os segmentos inferiores e médios entregues às empresas locais, o que não é difícil dados os preços praticados justificados pelos baixos custos. E, neste domínio, está o grande problema – os custos de produção na China estão a aumentar [6].
As empresas chinesas têm sabido tirar partido desta vantagem competitiva e, ao aprenderem com as técnicas comerciais estrangeiras, apresentam crescimento nos seus próprios mercados e mesmo em segmentos onde os estrangeiros eram maioritários (higiene e alimentação empacotada, por exemplo). É claro que as marcas internacionais não estando interessadas em canibalizar as suas marcas premium, preferem não arriscar guerras de preços. Fica a dúvida se realmente têm, nestas condições, alguma hipótese de competir.
Uma complexa cadeia de valor
Em Fevereiro de 2007, a IBM Corporation, apoiada num inquérito conduzido pela The Intelligence Unit da The Economist [7], num artigo intitulado Winning in China’s mass markets, elencou os principais problemas da cadeia de valor chinesa que constituem obstáculos às operações das multinacionais naquele país:
• Centralização – O passado centralista da sociedade chinesa, a que se juntam deficientes infra-estruturas, é considerado importante obstáculo à eficiência das operações;
• Distribuição – Demasiados níveis de distribuição, com muitos distribuidores nacionais, regionais, e locais, com pouco valor acrescentado entropiam o sistema;
• Gestão – limitada previsão, altos níveis de stocks, custos logísticos que chegam ao dobro do normal (por vezes 10% das vendas [8]), sendo habitual (77% das empresas) apresentarem benchmarks inferiores à concorrência [9], e, pior que tudo, devido ao elevado número de intermediários, incapacidade de estudar os clientes.
Daqui decorrem os riscos inerentes ao tempo necessário para ir da fábrica ao ponto de venda e a propensão para encontrar alguém, familiares ou amigos, que possam facilitar o processo.
Que alternativas se colocam, então?
• Alternativa #1 – Online e Televendas
Em 2007, as vendas por este canal atingiram 700 milhões de US$, valor igual ao melhor dia de vendas semelhantes nos USA, embora se tenha registado crescimento anual de 34% [10].
Este canal debate-se com a desconfiança dos chineses, mas pode crescer muito devido aos avultados investimentos em curso no domínio das comunicações.
A UPS e a PGL já têm operações significativas na China.
• Alternativa #2 – Lojas próprias
Sós ou em parceria, esta modalidade parece estar a ganhar adeptos. A Motorola, por exemplo, optou lojas próprias na cadeia Gome.
• Alternativa #3 – Vendas directas
Esta é a opção predilecta para produtos Premium e acesso a clientes-chave nas cidades níveis 1 e 2 [11]. A Amway, por exemplo, criou uma rede de mais de 200,000 agentes em 180 cidades.
• Alternativa #4 – Retalhistas Directos
É um canal em franca expansão quer por parte dos nacionais (Suning e Gome), como dos estrangeiros (Wal-Mart, Carrefour), com a enorme vantagem de reduzir os intermediários. Preferem instalar-se na periferia das cidades níveis 1 e 2 [11].
Os próximos passos
Como referido o caminho mais normal passará pelo encurtamento dos canais de distribuição. Mas o enfoque principal deverá passar pelo interesse sobre as cidades níveis 3 a 5 [12]. É previsível que os investidores optem por encurtar o mais possível a linha de abastecimentos dos pontos de venda, com forte atenção às práticas de venda, na logística, na terciarização, no outsourcing especializado, e na melhoria dos canais de informação.
O desejado aumento das vendas, das receitas, e dos lucros, deverá passar pela eficácia do acto de venda, longe do tradicional relacionamento excessivo dos chineses (“guanxi”), algo que não faz parte do rol de preferências dos investidores estrangeiros.
Noutros domínios se verificarão importantes apostas:
• Investigação & Desenvolvimento
Desenvolvimento de novos produtos de qualidade orientados para as características das populações chinesas, adaptados aos canais de distribuição, e compatíveis com a evolução dos níveis de vida. Os investimentos estrangeiros nesta área, insignificantes em 2001, atingiram em 2006 4 biliões de US$, com cerca de 750 a operarem regularmente [13].
A pressão para a disponibilização de produtos de qualidade a baixo custo pode ser ilustrada com os recentes anúncios de PCs da Lenovo (PCs a menos de 100 US$), que adquiriu a divisão de PCs da IBM em 2005. Releve-se que esta tendência não é exclusivo da China, como, por exemplo, a Tata fez na Índia ao decidir produzir um carro para 4 pessoas por menos de 3,000 US$ [14].
• Fornecedores locais
Os departamentos de compras estão a assumir lugar fundamental na nova estratégias de criação de valor, procurando encontrar junto de fornecedores locais, e de acordo com especificações locais, as componentes de que necessitam para a assemblagem e transformação dos produtos finais. Números oficiais revelam que esta fonte, já em 2006, representava 600 biliões de US$ (cerca de 9% da produção chinesa, prevendo-se que esta valor possa aumentar para 14% em 2009) [15].
• Recursos Humanos
Em 2005, a American Chamber of Commerce in China identificou os recursos humanos como a questão crucial a resolver para o desenvolvimento das vendas na China [16]. O requisito era claro - as empresas exigiam não só as pessoas certas, mas também bastante
pessoas em locais diferentes para colocarem no terreno mercados em massa, de altos volumes e baixos custos.
O paradoxo afigurava-se evidente – como seria possível estarem perante semelhante problema numa população de 1.3 mil milhões de pessoas? Para mais, em 2006, a China havia produzido 4.13 milhões de licenciados com formação em matemática e engenharia [17]. A verdadeira questão só poderia ser a identificação, acompanhamento, e orientação de talentos, porque falta não haveria, por certo. A má notícia foi a constatação de insuficiente preparação destes licenciados para os negócios, nomeadamente para servirem em multinacionais. A McKinsey chegou mesmo a concluir que só 10% destes recursos seriam aproveitáveis a curto prazo neste domínio [18].
Assim sendo, e perante outro dado entretanto verificado – os elevados níveis de rotação destes profissionais qualificados – forma accionadas as seguintes medidas:
1. Recrutamentos em massa
2. Adequado controlo salarial
3. Aposta nas cidades de nível 3 a 5 [12]
4. Especial atenção à formação de supervisores de vendas, marketing, compras, I&D, e gestão de canal
5. Implementação de programas de coaching, mentoring, e sistemas de recompensa
É desta forma que a China está paulatina e sistematicamente a percorrer, com a gestão do tempo que nós ocidentais temos alguma dificuldade a entender, o que identificou como “o caminho das pedras”.
“A longa viagem começa por um passo”, como diz o provérbio chinês.
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NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/china-forcada-dinamizar-o-consumo.html
[2] https://www.mckinseyquarterly.com/Encouraging_consumer_spending_in_China_1555
[3] Para um ideia do que significam realmente estes valores expressos em yuans, pode-se multiplicar por 4, isto é, 1,000 US$ (ao câmbio oficial) na China representam poder de compra de 4,000 US$ nos USA.
[4] https://www.mckinseyquarterly.com/Retail_Consumer_Goods/Sectors_Regions/Marketing_to_Chinas_consumers_1472
[5] China Regional Statistical Reports, reproduzidos pela Mckinsey
[6] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/estrategia-economica-chinesa-ensaia.html
[7] Pdf em http://www-900.ibm.com/cn/services/bcs/iibv/
[8] Butner, Karen. “Follow the leaders: Scoring high on the supply chain maturity model.” IBM Institute for Business Value. September 2005. http://www-935.ibm.com/services/us/index.wss/ibvstudy/imc/a1020839?cntxt=a1005268#1
[9] idem
[10] “China B2C Market Size Will Reach RMB 18.83 Billion in 2010.” Analysys
International. Jan 2007. http://english.analysys.com.cn/3class/detail.php?advertisement=002&id=261&name=report&FocusAreaTitleGB=&daohang=Report&title=
[11] Cidades de nível 1 e 2 são 25 (1-4 e 2-21), onde habita 9% da população (119 milhões de pessoas), que geram 34% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 16 e 30 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 24%, e 78% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[12] Cidades de nível 3 a 5 são 306 (3-19, 4-77, 5-209). Nelas habita 18% da população (239 milhões de pessoas), que geram 43% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 11 e 21 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 12%, e 56% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[13] Ministry of Commerce statistics. June 2006.
http://www.mofcom.gov.cn/aarticle/i/jyjl/l/200610/20061003365128.html
[14] “Car making in India, a different route.” Economist. December 13, 2006. http://economist.com/displayStory.cfm?story_id=8413155.
[15] “Novartis to Establish Drug R&D Center in China.” Wall Street Journal. November 6, 2006.
http://online.wsj.com/article/SB116277366653714013.html?mod=health_hs_pharmaceuticals_biotech
[16] “The AmCham-China White Paper: American Business in China.” The American Chamber of Commerce of the People’s Republic of China. May 16, 2006.
http://www.amchamchina.org.cn/amcham/show/content.php?Id=1570&menuid=&submid=
[17] 2005 National Statistics Bureau of China. October 19, 2006.
http://english.peopledaily.com.cn/200610/29/eng20061029_316147.html
[18] Farrell, Diana. “China’s looming talent shortage.” McKinsey Quarterly. November 2005.
http://www.mckinsey.com/mgi/publications/Chinatalent.asp
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Alterações Ambientais (parte 2 de 3)
Petróleo, População, Novas Fontes de Energia
A Teoria “Beyond”
Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
07 Outubro de 2010
No artigo anterior Alterações Ambientais (parte 1 de 3) apresentei a colecção dos três textos previstos e abordei a Teoria Olduvai, ou do Declínio Terminal Eminente, cujo autor Richard C. Duncan, engenheiro e MS em energia eléctrica e PhD em engenharia de sistemas, defende. Como referi, de acordo com este autor o futuro próximo será catastrófico, se a humanidade não inverter os hábitos e a dependência energética concentrada no petróleo, carvão, e electricidade tradicional.
A perspectiva Beyond, da autoria dos PhD Mario Raich PhD e Simon Dolan também não é animadora. Debruça-se, no essencial, no crescimento incontrolado da população e nos efeitos sobre a humanidade e o planeta.
“Beyond”, ou Para Além da Zona de Conforto
Tive o prazer de assistir a uma conferência dos PhD Mario Raich e Simon Dolan em Lisboa [1]. Não conhecia estes autores que me surpreenderam pela coerência e pela objectividade. De facto, as suas intervenções não são muito optimistas no que respeita ao futuro que nos espera se persistirmos nos mesmos erros. As suas preocupações focalizam-se no crescimento incontrolado da sociedade humana e na incapacidade da Terra suportar esta pressão dentro dos actuais padrões de vida.
Em resumo, quais são as principais preocupações destes autores?
• Temos um estilo de vida insustentável
• Crescemos a 80 milhões pessoas / ano (uma nova Alemanha todos os anos)
• 90 % dos 1.5 mil milhões de jovens vivem em países em vias de desenvolvimento
• Iremos ter 50 milhões de desalojados nas próximas décadas, só por causa de inundações
• Enfrentaremos novas guerras e terrorismo
• Já ultrapassámos o “Pico do Petróleo” (Duncan afirma o mesmo, como relatado no artigo anterior)
• Precisamos de 15 mil milhões de euros para infra-estruturas (verba irrisória se comparada com o valor calculado por estes autores para reforçar a rede eléctrica mundial usando a tecnologia actual – 60 triliões de US$ até 2030 [2] )
• Vivemos um urbanismo insuportável (mil milhões de pessoas vivem em bairros degradados)
• A nossa vida é uma “Realidade virtual”
O quadro não é animador, e o discurso de Mario Raich segue a mesma linha - não é confortável ouvi-lo, o que não é de espantar pois o próprio considera a sua mensagem como “para além da zona de conforto”. Eis o que M Raich identifica com as grandes origens dos problemas actuais:
Demografia ► Deterioração Ambiental ► Migração ► Conflitos ► Pobreza
Note-se que alguns destes passos podem ser ultrapassados, alcançando-se o fim da linha de forma mais rápida e contundente. O resultado final é sempre o mesmo – insustentabilidade.
Detalhando um pouco, os autores observam que de acordo com os relatórios da UN [3]:
• Em 2005 existiam 200 milhões de migrantes;
• 1/3 destes eram migrantes sul-sul, o que é surpreendente;
• As UN calculam que dentro de 45 anos possam existir 2.2 milhões de migrantes dos países subdesenvolvidos para os países desenvolvidos;
• Destes cerca de 1.1 milhões poderão tentar migrar para os USA.
É claro que poderá argumentar-se que se não for assim, os países desenvolvidos terão de abandonar o actual conceito de estado social e outros institutos que se baseiam na colecta de impostos directos sobre o trabalho. E também não se podem negligenciar as remessas que esses migrantes canalizarão para os seus países de origem. No seu conjunto, em 2004, os países subdesenvolvidos captaram 130b US$ em investimentos externos e receberam 160b US$ em receitas dos seus emigrantes [4].
Como consequências mais gravosas destes fenómenos, salientam-se [5]:
• Procura crescente de proteínas, o que implica excesso de gado em pastagens escassas e consequente destruição de áreas florestais, para além de acréscimo significativo nas emissões de CO2;
• Produtividade e mobilidade acrescidas, com inerentes aumentos da temperatura ambiente;
• Degradação do cultivo das terras, pela procura acrescida de trabalhos urbanos, e consequentes migrações internas e externas;
• Aumento e concentração das populações, que contribuirão para a escassez de recursos:
• Maior esperança de vida, o que implicará populações cada vez mais envelhecidas e novos problemas no financiamento dos Estados.
Face a tão dura realidade e rejeitando qualquer hipótese das sociedades prosseguirem insistindo exclusivamente em valores materiais, Beyond propõe-nos um mundo novo centrado nas pessoas numa perspectiva holística.
A primeira camada de valores a colocar em torno das pessoas, funcionaria como filtros com a envolvente, a saber: Valores Emocionais, Valores Espirituais, Valores Éticos, e Valores Económicos. Seria este conjunto estruturante, que, através das suas ligações todos-a-todos, asseguraria o equilíbrio dos vectores dominantes no mundo novo: a Família e os Amigos, a Educação e o Desenvolvimento, a Filantropia e a Caridade, a Cultura e a Arte, o Trabalho e o Negócio, a Sociedade e a Política. [6]
Pode parecer um modelo demasiadamente vago, utópico até. Mas uma proposta de clivagem com as sociedades actuais, tem de ser suficientemente genérico para ser abrangente e reunir valores que não sejam rejeitados de imediato.
Gosto da mensagem, e penso que vale a pena encará-la com seriedade. Por isso a trago aqui com este detalhe. Julgo que ela poderá ajudar a:
• Purificar o ar, melhorar a qualidade das águas, e assegurar alimentação para todos sem aumentar a degradação do ambiente;
• Proteger os ecossistemas;
• Reduzir as emissões de CO2;
• Limitar a corrida às armas de destruição massiva;
• Explorar correctamente as nano e biotecnologias, e outras tecnologias emergentes;
• Limitar as guerras por recursos básicos, como a água potável;
• Conviver com o mundo virtual;
• Controlar as migrações em massa;
• Construir um mundo verde.
Releve-se que, partindo de enfoques distintos, as Teorias Olduvai e Beyond apresentam de comum: (1) leituras preocupantes da realidade actual; (2) perspectivas sombrias do futuro próximo; (3) urgência na tomada de decisões fracturantes sobre o nosso modo de vida colectiva; (4) recusa no aproveitamento simplista de fenómenos da natureza imputáveis a factores antropogénicos.
Considero particularmente interessante o estudo conjunto destas duas Teorias – Olduvai e Beyond.
______________________________
NOTAS:
[1] Mario Raich é um distinto pensador do futuro. Da sua actividade profissional destacam-se Visiting Professor (HEC, Paris), Visiting Professor (ESADE Graduate School of Business, Barcelona), GSM da Educatis University (Altdorf), Associate Professor e Founding Director do Institute for Strategic Innovation.
Simon Dolan, por muitos considerado utópico, insiste em que a sua preocupação se chama sustentabilidade. S Dolan é Doctor of Philosophy (Organizational ychology/Behaviour & Administration (University of Minnesota), Master of Arts (IR/Human Resource Management (University of Minnesota), M.A. Human Resource Management (Tel Aviv University), M. Sc. in Organizational Behavior (Tel Aviv University), e B.A. Labour Studies (Tel Aviv University).
Em conjunto editaram Beyond – Negócios e Sociedades em Transformação, 2008, Lisboa, Bnomics – Almedina, uma obra que dá gosto estudar e apreciar.
[2] Como referência, o PMB (Produto Mundial Bruto) em 2006 foi 67 triliões de US$ - Raich, M e Dolan S (2008): Beyond, pp. 99-114, pp. 120-125, Bnomics, Almedina
[3] op. cit. , p62
[4] op. cit. , p62
[5] op. cit. , p62
[6] op. cit. , p128
A Teoria “Beyond”
Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
07 Outubro de 2010
No artigo anterior Alterações Ambientais (parte 1 de 3) apresentei a colecção dos três textos previstos e abordei a Teoria Olduvai, ou do Declínio Terminal Eminente, cujo autor Richard C. Duncan, engenheiro e MS em energia eléctrica e PhD em engenharia de sistemas, defende. Como referi, de acordo com este autor o futuro próximo será catastrófico, se a humanidade não inverter os hábitos e a dependência energética concentrada no petróleo, carvão, e electricidade tradicional.
A perspectiva Beyond, da autoria dos PhD Mario Raich PhD e Simon Dolan também não é animadora. Debruça-se, no essencial, no crescimento incontrolado da população e nos efeitos sobre a humanidade e o planeta.
“Beyond”, ou Para Além da Zona de Conforto
Tive o prazer de assistir a uma conferência dos PhD Mario Raich e Simon Dolan em Lisboa [1]. Não conhecia estes autores que me surpreenderam pela coerência e pela objectividade. De facto, as suas intervenções não são muito optimistas no que respeita ao futuro que nos espera se persistirmos nos mesmos erros. As suas preocupações focalizam-se no crescimento incontrolado da sociedade humana e na incapacidade da Terra suportar esta pressão dentro dos actuais padrões de vida.
Em resumo, quais são as principais preocupações destes autores?
• Temos um estilo de vida insustentável
• Crescemos a 80 milhões pessoas / ano (uma nova Alemanha todos os anos)
• 90 % dos 1.5 mil milhões de jovens vivem em países em vias de desenvolvimento
• Iremos ter 50 milhões de desalojados nas próximas décadas, só por causa de inundações
• Enfrentaremos novas guerras e terrorismo
• Já ultrapassámos o “Pico do Petróleo” (Duncan afirma o mesmo, como relatado no artigo anterior)
• Precisamos de 15 mil milhões de euros para infra-estruturas (verba irrisória se comparada com o valor calculado por estes autores para reforçar a rede eléctrica mundial usando a tecnologia actual – 60 triliões de US$ até 2030 [2] )
• Vivemos um urbanismo insuportável (mil milhões de pessoas vivem em bairros degradados)
• A nossa vida é uma “Realidade virtual”
O quadro não é animador, e o discurso de Mario Raich segue a mesma linha - não é confortável ouvi-lo, o que não é de espantar pois o próprio considera a sua mensagem como “para além da zona de conforto”. Eis o que M Raich identifica com as grandes origens dos problemas actuais:
Demografia ► Deterioração Ambiental ► Migração ► Conflitos ► Pobreza
Note-se que alguns destes passos podem ser ultrapassados, alcançando-se o fim da linha de forma mais rápida e contundente. O resultado final é sempre o mesmo – insustentabilidade.
Detalhando um pouco, os autores observam que de acordo com os relatórios da UN [3]:
• Em 2005 existiam 200 milhões de migrantes;
• 1/3 destes eram migrantes sul-sul, o que é surpreendente;
• As UN calculam que dentro de 45 anos possam existir 2.2 milhões de migrantes dos países subdesenvolvidos para os países desenvolvidos;
• Destes cerca de 1.1 milhões poderão tentar migrar para os USA.
É claro que poderá argumentar-se que se não for assim, os países desenvolvidos terão de abandonar o actual conceito de estado social e outros institutos que se baseiam na colecta de impostos directos sobre o trabalho. E também não se podem negligenciar as remessas que esses migrantes canalizarão para os seus países de origem. No seu conjunto, em 2004, os países subdesenvolvidos captaram 130b US$ em investimentos externos e receberam 160b US$ em receitas dos seus emigrantes [4].
Como consequências mais gravosas destes fenómenos, salientam-se [5]:
• Procura crescente de proteínas, o que implica excesso de gado em pastagens escassas e consequente destruição de áreas florestais, para além de acréscimo significativo nas emissões de CO2;
• Produtividade e mobilidade acrescidas, com inerentes aumentos da temperatura ambiente;
• Degradação do cultivo das terras, pela procura acrescida de trabalhos urbanos, e consequentes migrações internas e externas;
• Aumento e concentração das populações, que contribuirão para a escassez de recursos:
• Maior esperança de vida, o que implicará populações cada vez mais envelhecidas e novos problemas no financiamento dos Estados.
Face a tão dura realidade e rejeitando qualquer hipótese das sociedades prosseguirem insistindo exclusivamente em valores materiais, Beyond propõe-nos um mundo novo centrado nas pessoas numa perspectiva holística.
A primeira camada de valores a colocar em torno das pessoas, funcionaria como filtros com a envolvente, a saber: Valores Emocionais, Valores Espirituais, Valores Éticos, e Valores Económicos. Seria este conjunto estruturante, que, através das suas ligações todos-a-todos, asseguraria o equilíbrio dos vectores dominantes no mundo novo: a Família e os Amigos, a Educação e o Desenvolvimento, a Filantropia e a Caridade, a Cultura e a Arte, o Trabalho e o Negócio, a Sociedade e a Política. [6]
Pode parecer um modelo demasiadamente vago, utópico até. Mas uma proposta de clivagem com as sociedades actuais, tem de ser suficientemente genérico para ser abrangente e reunir valores que não sejam rejeitados de imediato.
Gosto da mensagem, e penso que vale a pena encará-la com seriedade. Por isso a trago aqui com este detalhe. Julgo que ela poderá ajudar a:
• Purificar o ar, melhorar a qualidade das águas, e assegurar alimentação para todos sem aumentar a degradação do ambiente;
• Proteger os ecossistemas;
• Reduzir as emissões de CO2;
• Limitar a corrida às armas de destruição massiva;
• Explorar correctamente as nano e biotecnologias, e outras tecnologias emergentes;
• Limitar as guerras por recursos básicos, como a água potável;
• Conviver com o mundo virtual;
• Controlar as migrações em massa;
• Construir um mundo verde.
Releve-se que, partindo de enfoques distintos, as Teorias Olduvai e Beyond apresentam de comum: (1) leituras preocupantes da realidade actual; (2) perspectivas sombrias do futuro próximo; (3) urgência na tomada de decisões fracturantes sobre o nosso modo de vida colectiva; (4) recusa no aproveitamento simplista de fenómenos da natureza imputáveis a factores antropogénicos.
Considero particularmente interessante o estudo conjunto destas duas Teorias – Olduvai e Beyond.
______________________________
NOTAS:
[1] Mario Raich é um distinto pensador do futuro. Da sua actividade profissional destacam-se Visiting Professor (HEC, Paris), Visiting Professor (ESADE Graduate School of Business, Barcelona), GSM da Educatis University (Altdorf), Associate Professor e Founding Director do Institute for Strategic Innovation.
Simon Dolan, por muitos considerado utópico, insiste em que a sua preocupação se chama sustentabilidade. S Dolan é Doctor of Philosophy (Organizational ychology/Behaviour & Administration (University of Minnesota), Master of Arts (IR/Human Resource Management (University of Minnesota), M.A. Human Resource Management (Tel Aviv University), M. Sc. in Organizational Behavior (Tel Aviv University), e B.A. Labour Studies (Tel Aviv University).
Em conjunto editaram Beyond – Negócios e Sociedades em Transformação, 2008, Lisboa, Bnomics – Almedina, uma obra que dá gosto estudar e apreciar.
[2] Como referência, o PMB (Produto Mundial Bruto) em 2006 foi 67 triliões de US$ - Raich, M e Dolan S (2008): Beyond, pp. 99-114, pp. 120-125, Bnomics, Almedina
[3] op. cit. , p62
[4] op. cit. , p62
[5] op. cit. , p62
[6] op. cit. , p128
Alterações Ambientais (parte 1 de 3)
Petróleo, População, Novas Fontes de Energia
A Teoria Olduvai
Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
05 Outubro de 2010
Enquadrando o tema
A ninguém passam despercebidas as alterações ambientais que estão a afectar o planeta. Deixamo-nos levar pelas notícias que inundam os média sem nos debruçarmos com um pouco mais de profundidade sobre o tema. Os jornalistas estão a fazer o que a sua profissão exige – que vendam – e todos sabemos que são as caixas rápidas, sintéticas, e dramáticas as que recolhem mais dividendos. Por isso, esses profissionais especulam com tanta persistência, ultrapassando questões éticas e deontológicas que dizem pautar as suas actuações. Mas não são só eles. O negócio é rentável e atrai famosos do chamado jet-set que, a mais das vezes, nada têm a ver com o assunto. É o caso de Al Gore, o mediático perdedor da política (alusão que utiliza para quebrar o gelo das suas palestras), que delicia multidões de desinformados que adoram assistir às suas palestras e ler os seus romances de ficção.
Negócio é negócio, e as oportunidades são para aproveitar. Decência e pudor não rendem fortunas.
Esta colecção de três artigos, intitulada genericamente Alterações Climatéricas, tentará mostrar que muito do que se diz e escreve sobre o tema não beneficia de suporte histórico nem científico – por vezes não passam de mera especulação, supostamente suportada em factos citados como reais, mas que não passam de descrições parcelares da verdade.
Nas duas primeiras partes abordam-se duas teses empiricamente justificadas - a Teoria Olduvai e a Teoria Beyond. Na terceira parte tentar-se-á divulgar um interessante estudo que visa desmontar a pretensa validade das teses catastrofistas e oportunistas duma série de ficcionistas, cuja face mais mediática é Al Gore, o ex-candidato à Presidência dos USA, “título” com que se apresenta ao seu dedicado, e normalmente desinformado, público.
No fundo, estes três artigos procuram, ainda que de forma simplificada, recolher as propostas que os autores seleccionados adiantam para as seguintes questões relacionadas com as alterações climatéricas, e em particular o designado aquecimento global: (1) Estaremos perante uma catástrofe natural incontrolável? A enfrentar um período de aquecimento global cíclico suportável? Ou face a uma estratégia de desenvolvimento errada, mas que ainda é reversível?
Avancemos, então.
A Teoria Olduvai
Também conhecida por Teoria do Declínio Terminal Eminente foi desenvolvida por Richard C. Duncan, MS em Energia Eléctrica e PhD em Engenharia de Sistemas [1]. Este autor debruça-se essencialmente sobre a questão do crescimento descontrolado da humanidade, reflectindo sobre cenários alternativos para o crescimento da população e sua sustentabilidade.
Baseado em dados dum estudo efectuado em 2004 pelas UN [2]:
• Numa previsão em baixa, a população mundial, que actualmente ronda os 6.7 biliões de pessoas, crescerá até cerca de 8b por volta de 2025, iniciando uma inversão de crescimento a partir de 2050, podendo vir a ser em 2100 cerca de 5.5b, baixando em 2150 para cerca de 4.5b, para atingir em 2300 entre 2.5b a 3b;
• Duas outras perspectivas, designadas como média e crescimento nulo, apontam para aumento progressivo até 10b por volta de 2100, mantendo-se então constante até 2300;
• Finalmente, na visão em alta, considerada como pessimista, prevê-se um aumento sistemático para 10b em 2050, 14b em 2100, 17b em 2150, 21b em 2200, 27b em 2250, e 36b em 2300.
Recorrendo a estudos de curto prazo, este autor analisa [3] o que poderá acontecer até 2050, estudando dados registados desde 1950 (em 1950 a população mundial rondava 1.8b, em 1975 cerca de 4b, e em 2000 era 6b):
• O estudo Meadows [4] aponta para crescimento até 6.9b por volta de 2020, atingindo um pico de 7.5b em 2025, iniciando uma queda para 6.5b em 2050;
• O estudo do USA Census Bureau [5] prevê idêntica evolução ao anterior até 2020. Este pico de 6.9b será o ponto de inflexão, a partir do qual se conhecerá um retrocesso para pouco mais de 5b em 2025, e uma queda tremenda para menos de 2b em 2050.
Face a estas informações, Richard C. Duncan prevê que por volta de 2012 se comecem a verificar blackouts energéticos permanentes um pouco por todo o mundo, que farão cair, por volta de 2030, os consumos efectivos de energia para valores semelhantes aos de 1930. Uma catástrofe de incalculáveis consequências, se nada for feito para evitar esta tendência [6]. Recorde-se que em 1930 o consumo de energia (medido em boe = barril of oil equivalent) per capita per year era 3.32, tendo atingido o pico em 1979 com 11.15 boe/c/year. [7] Tal significaria, por outras palavras e em consumos de energia como a conhecemos um retrocesso de cem anos!
A partir de 1992, Duncan alargou os estudos a outras fontes energéticas, nomeadamente ao petróleo, prevendo que a partir de 2007 este entraria em declínio acelerado até à extinção (a nota [8] é fundamental para se perceber o raciocínio de Duncan), precipitando a humanidade numa catástrofe malthusiana que conduziria ao desaparecimento da maioria da população ainda dentro do século XXI. Esta é a explicação para a previsão em baixa das UN atrás referida.
Como homem de ciência que é [9], Richard C. Duncan não se limita a dramatizar sobre o que receia poder vir a ser o futuro. Olha para a realidade e questiona porque não se envereda pelas soluções mais óbvias, aproveitando o petróleo enquanto existe, mas começando imediatamente a construir alternativas.
O quadro seguinte, mostra o potencial de uma das fontes de energia mais limpa que se conhece, e que não parece vir a esgotar-se em poucos anos.
Decomposição da energia emitida pelo Sol, em TeraWatts [10]:
• Emitida para a Terra – 178,000
• Imediatamente reflectida para o espaço – 53,000
• Absorvida e reflectida na forma de calor – 82,000
• Usada na evaporação de água (clima) – 40,000
• Capturada para fotossíntese (plantas) – 100
• Total usado pela Humanidade – 10
• Total usado pela sociedade USA – 2.5
A conclusão é tão óbvia que Duncan nem se preocupa em perder tempo a argumentar sobre ela. Apresenta-a. Tamanha evidência ainda não é suficiente para desalojar interesses instalados? O que é que falta, afinal?
Longe, muito longe mesmo, de descrever toda a riqueza da Teoria Olduvai, cujo aprofundamento se recomenda, este artigo visou revelar a visão de futuro nada risonho que o seu autor tem sobre o tipo de sociedade que desenvolvemos, aparentemente baseada na ideia de que os recursos do planeta são ilimitados.
Todos sabemos que isto não é verdade. Receamos, de facto, que o planeta um dia nos mostre os erros que estamos a cometer. Mas, no fundo, parece que mantemos uma velada esperança de que não tenhamos razão.
________________________________________
NOTAS:
[1] Richard C. Duncan (2005) fundou o Institute on Energy and Man, 5307 Ravenna Place, NE, #1, Seattle, WA 98105. Pode encontrar muito completa informação sobre população, energia, petróleo, e a própria Teoria Olduvai em: http://www.dieoff.org./ e http://www.thesocialcontract.com/pdf/sixteen-two/xvi-2-93.pdf
[2] http://www.un.org/esa/population/publications/longrange2/2004worldpop2300 reportfinalc.pdf
[3] Duncan (2005): The Social Contract 2005 -2050. Em http://www.thesocialcontract.com/pdf/fifteen-three/xv-3-173.pdf, Duncan apresenta um estudo muito interessante sobre o pico na produção mundial de petróleo e suas implicações.
[4] Meadows et al (2004): Limits to Growth, The 30-year update. Interessante artigo sobre desenvolvimento e produção de petróleo aqui: http://www.independent.org/pdf/tir/tir_12_04_3_marxsen.pdf
[5] USCB (2004) 1950 – 2004
[6] Desenvolvimento em http://www.greatchange.org/ov-duncan,road_to_olduvai_gorge.html, elucidativa ilustração na Fig. 4 deste URL
[7] Para mais detalhada informação sobre
Energia: Romer (1985): Energy Facts and Figures, Amherst,MA: Spring Street Press BP (2006): BP statistics review of world energy, June 2006, www.bp.com
População: USCB (2006): Total Midyear Population, www.census.gov UN 2006): World Population to 2030, www.un.org
[8] Em 2006 o consumo global de energia repartiu-se da seguinte forma: Petróleo 35.43%, Carvão 28.15%, Gás Natural 23.46%, Electricidade Hídrica 6.27%, Electricidade Nuclear 5.79%, Eólica + Geotérmica + Biomassa + Solar 0.86%, Geotérmica + Biomassa + Solar não usada para electricidade 0.05%. http://edro.files.wordpress.com/2007/11/world-consumption-2006-abc.png http://edro.wordpress.com/energy/286w/
[9] Richard C. Duncan é engenheiro especializado em questões de energia. Alguns autores acham que ele não é um verdadeiro cientista, mas tão só um técnico qualificado. De facto, não consta que alguma vez ele se tenha dedicado à investigação em exclusividade. Duncan é Mestre em Energia Eléctrica e Doutor em Engenharia de Sistemas.
[10] www.hubertPeak.com/debate/oilcalcs.htm
A Teoria Olduvai
Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
05 Outubro de 2010
Enquadrando o tema
A ninguém passam despercebidas as alterações ambientais que estão a afectar o planeta. Deixamo-nos levar pelas notícias que inundam os média sem nos debruçarmos com um pouco mais de profundidade sobre o tema. Os jornalistas estão a fazer o que a sua profissão exige – que vendam – e todos sabemos que são as caixas rápidas, sintéticas, e dramáticas as que recolhem mais dividendos. Por isso, esses profissionais especulam com tanta persistência, ultrapassando questões éticas e deontológicas que dizem pautar as suas actuações. Mas não são só eles. O negócio é rentável e atrai famosos do chamado jet-set que, a mais das vezes, nada têm a ver com o assunto. É o caso de Al Gore, o mediático perdedor da política (alusão que utiliza para quebrar o gelo das suas palestras), que delicia multidões de desinformados que adoram assistir às suas palestras e ler os seus romances de ficção.
Negócio é negócio, e as oportunidades são para aproveitar. Decência e pudor não rendem fortunas.
Esta colecção de três artigos, intitulada genericamente Alterações Climatéricas, tentará mostrar que muito do que se diz e escreve sobre o tema não beneficia de suporte histórico nem científico – por vezes não passam de mera especulação, supostamente suportada em factos citados como reais, mas que não passam de descrições parcelares da verdade.
Nas duas primeiras partes abordam-se duas teses empiricamente justificadas - a Teoria Olduvai e a Teoria Beyond. Na terceira parte tentar-se-á divulgar um interessante estudo que visa desmontar a pretensa validade das teses catastrofistas e oportunistas duma série de ficcionistas, cuja face mais mediática é Al Gore, o ex-candidato à Presidência dos USA, “título” com que se apresenta ao seu dedicado, e normalmente desinformado, público.
No fundo, estes três artigos procuram, ainda que de forma simplificada, recolher as propostas que os autores seleccionados adiantam para as seguintes questões relacionadas com as alterações climatéricas, e em particular o designado aquecimento global: (1) Estaremos perante uma catástrofe natural incontrolável? A enfrentar um período de aquecimento global cíclico suportável? Ou face a uma estratégia de desenvolvimento errada, mas que ainda é reversível?
Avancemos, então.
A Teoria Olduvai
Também conhecida por Teoria do Declínio Terminal Eminente foi desenvolvida por Richard C. Duncan, MS em Energia Eléctrica e PhD em Engenharia de Sistemas [1]. Este autor debruça-se essencialmente sobre a questão do crescimento descontrolado da humanidade, reflectindo sobre cenários alternativos para o crescimento da população e sua sustentabilidade.
Baseado em dados dum estudo efectuado em 2004 pelas UN [2]:
• Numa previsão em baixa, a população mundial, que actualmente ronda os 6.7 biliões de pessoas, crescerá até cerca de 8b por volta de 2025, iniciando uma inversão de crescimento a partir de 2050, podendo vir a ser em 2100 cerca de 5.5b, baixando em 2150 para cerca de 4.5b, para atingir em 2300 entre 2.5b a 3b;
• Duas outras perspectivas, designadas como média e crescimento nulo, apontam para aumento progressivo até 10b por volta de 2100, mantendo-se então constante até 2300;
• Finalmente, na visão em alta, considerada como pessimista, prevê-se um aumento sistemático para 10b em 2050, 14b em 2100, 17b em 2150, 21b em 2200, 27b em 2250, e 36b em 2300.
Recorrendo a estudos de curto prazo, este autor analisa [3] o que poderá acontecer até 2050, estudando dados registados desde 1950 (em 1950 a população mundial rondava 1.8b, em 1975 cerca de 4b, e em 2000 era 6b):
• O estudo Meadows [4] aponta para crescimento até 6.9b por volta de 2020, atingindo um pico de 7.5b em 2025, iniciando uma queda para 6.5b em 2050;
• O estudo do USA Census Bureau [5] prevê idêntica evolução ao anterior até 2020. Este pico de 6.9b será o ponto de inflexão, a partir do qual se conhecerá um retrocesso para pouco mais de 5b em 2025, e uma queda tremenda para menos de 2b em 2050.
Face a estas informações, Richard C. Duncan prevê que por volta de 2012 se comecem a verificar blackouts energéticos permanentes um pouco por todo o mundo, que farão cair, por volta de 2030, os consumos efectivos de energia para valores semelhantes aos de 1930. Uma catástrofe de incalculáveis consequências, se nada for feito para evitar esta tendência [6]. Recorde-se que em 1930 o consumo de energia (medido em boe = barril of oil equivalent) per capita per year era 3.32, tendo atingido o pico em 1979 com 11.15 boe/c/year. [7] Tal significaria, por outras palavras e em consumos de energia como a conhecemos um retrocesso de cem anos!
A partir de 1992, Duncan alargou os estudos a outras fontes energéticas, nomeadamente ao petróleo, prevendo que a partir de 2007 este entraria em declínio acelerado até à extinção (a nota [8] é fundamental para se perceber o raciocínio de Duncan), precipitando a humanidade numa catástrofe malthusiana que conduziria ao desaparecimento da maioria da população ainda dentro do século XXI. Esta é a explicação para a previsão em baixa das UN atrás referida.
Como homem de ciência que é [9], Richard C. Duncan não se limita a dramatizar sobre o que receia poder vir a ser o futuro. Olha para a realidade e questiona porque não se envereda pelas soluções mais óbvias, aproveitando o petróleo enquanto existe, mas começando imediatamente a construir alternativas.
O quadro seguinte, mostra o potencial de uma das fontes de energia mais limpa que se conhece, e que não parece vir a esgotar-se em poucos anos.
Decomposição da energia emitida pelo Sol, em TeraWatts [10]:
• Emitida para a Terra – 178,000
• Imediatamente reflectida para o espaço – 53,000
• Absorvida e reflectida na forma de calor – 82,000
• Usada na evaporação de água (clima) – 40,000
• Capturada para fotossíntese (plantas) – 100
• Total usado pela Humanidade – 10
• Total usado pela sociedade USA – 2.5
A conclusão é tão óbvia que Duncan nem se preocupa em perder tempo a argumentar sobre ela. Apresenta-a. Tamanha evidência ainda não é suficiente para desalojar interesses instalados? O que é que falta, afinal?
Longe, muito longe mesmo, de descrever toda a riqueza da Teoria Olduvai, cujo aprofundamento se recomenda, este artigo visou revelar a visão de futuro nada risonho que o seu autor tem sobre o tipo de sociedade que desenvolvemos, aparentemente baseada na ideia de que os recursos do planeta são ilimitados.
Todos sabemos que isto não é verdade. Receamos, de facto, que o planeta um dia nos mostre os erros que estamos a cometer. Mas, no fundo, parece que mantemos uma velada esperança de que não tenhamos razão.
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NOTAS:
[1] Richard C. Duncan (2005) fundou o Institute on Energy and Man, 5307 Ravenna Place, NE, #1, Seattle, WA 98105. Pode encontrar muito completa informação sobre população, energia, petróleo, e a própria Teoria Olduvai em: http://www.dieoff.org./ e http://www.thesocialcontract.com/pdf/sixteen-two/xvi-2-93.pdf
[2] http://www.un.org/esa/population/publications/longrange2/2004worldpop2300 reportfinalc.pdf
[3] Duncan (2005): The Social Contract 2005 -2050. Em http://www.thesocialcontract.com/pdf/fifteen-three/xv-3-173.pdf, Duncan apresenta um estudo muito interessante sobre o pico na produção mundial de petróleo e suas implicações.
[4] Meadows et al (2004): Limits to Growth, The 30-year update. Interessante artigo sobre desenvolvimento e produção de petróleo aqui: http://www.independent.org/pdf/tir/tir_12_04_3_marxsen.pdf
[5] USCB (2004) 1950 – 2004
[6] Desenvolvimento em http://www.greatchange.org/ov-duncan,road_to_olduvai_gorge.html, elucidativa ilustração na Fig. 4 deste URL
[7] Para mais detalhada informação sobre
Energia: Romer (1985): Energy Facts and Figures, Amherst,MA: Spring Street Press BP (2006): BP statistics review of world energy, June 2006, www.bp.com
População: USCB (2006): Total Midyear Population, www.census.gov UN 2006): World Population to 2030, www.un.org
[8] Em 2006 o consumo global de energia repartiu-se da seguinte forma: Petróleo 35.43%, Carvão 28.15%, Gás Natural 23.46%, Electricidade Hídrica 6.27%, Electricidade Nuclear 5.79%, Eólica + Geotérmica + Biomassa + Solar 0.86%, Geotérmica + Biomassa + Solar não usada para electricidade 0.05%. http://edro.files.wordpress.com/2007/11/world-consumption-2006-abc.png http://edro.wordpress.com/energy/286w/
[9] Richard C. Duncan é engenheiro especializado em questões de energia. Alguns autores acham que ele não é um verdadeiro cientista, mas tão só um técnico qualificado. De facto, não consta que alguma vez ele se tenha dedicado à investigação em exclusividade. Duncan é Mestre em Energia Eléctrica e Doutor em Engenharia de Sistemas.
[10] www.hubertPeak.com/debate/oilcalcs.htm
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