domingo, 21 de novembro de 2010

CHINA – Medidas contra a ameaça de inflação (1) - A Banca e o Dinheiro

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
21 Novembro de 2010


Após uma breve análise prospectiva dos possíveis impactes do aumento da inflação na China, e sobre algumas medidas que as autoridades chinesas já estavam a tomar, e poderiam vir a tomar para minorar os efeitos no crescimento do país, terminei o artigo de ontem prevendo voltar ao assunto, no máximo, dentro de três meses.

Argumentava então, e uma vez mais, que, na China, tudo se projecta por forma a que as medidas importantes não cheguem a ser urgentes. Os gabinetes de estudo mantêm-se permanentemente atentos, fornecendo informações a tempo dos decisores poderem tomar medidas o quanto antes. Mal podia imaginar que, nem vinte e quatro horas depois, os media internacionais já anunciavam novo pacote anti-inflacionista chinês.


Novas regras para o sistema bancário

Em 18 de Setembro, a revista Veja referia os riscos que o aumento de crédito concedido representava para o sistema bancário chinês, baseada num parecer da agência de risco Fitch. Mas, certamente que estaria distante da maior parte dos analistas económicos, que os líderes chineses avançassem com novas medidas tão cedo, como fizeram na noite de 19 de Novembro.

Sem que algo de substantivo o fizesse supor, o Banco Popular da China (BPC) decidiu que os bancos comerciais teriam compulsivamente de transferir, até 29 de Novembro, um adicional de 0.5% dos seus activos para o banco central.

Esta nova disposição significa que os bancos comerciais (ver nota * sobre sistema bancário chinês no final deste artigo), ficaram obrigados a ver retidos em contas de baixo rendimento no BPC, 18% dos seus activos, contra os 17.5% anteriores.

É muito dinheiro que está em causa, e é principalmente com estas reservas que o BPC compra diariamente cerca de 1 bilião US$ de divisas estrangeiras.

Refira-se por comparação, que a Reserva Federal nos USA fixou estes rácios em 10% para os bancos pequenos, não impondo qualquer limite para algumas categorias de grandes depósitos.


A “Guerra das Moedas” está longe do fim

O conflito entre os USA e a China acerca da paridade das respectivas moedas continua em aberto. A China, que tem resistido com firmeza a revalorizar o yuan como os USA pretendem, acusa agora a Reserva Federal, baseada no discurso de Ben Bernanke da passada Sexta-Feira, de estar, ela própria, a procurar desvalorizar o dólar.

Acontece, contudo, que as medidas agora encetadas pelos chineses, de aumento das reservas bancárias, ocorreram antes do citado discurso de Bernanke em Frankfurt. Trata-se, portanto, de mera argumentação carente de precisão. De facto, a justificação fornecida pelos dirigentes chineses, não fez qualquer alusão às posições de Reserva Federal, remetendo-a exclusivamente para satisfação de necessidades internas.

Numa altura em que a Reserva Federal se esforça por reduzir a dívida norte-americana, os chineses utilizam os excedentes monetários para manterem as reservas estrangeiras no nível de 2.65 triliões US$.


O verso e o reverso

A maioria dos economistas, ocidentais e chineses, pensam que as autoridades chinesas preferem aumentar juros no lugar de elevar as reservas mínimas, podendo assim melhor recompensar os depositantes. Mas, sabem que não há bela sem senão – ao aumento das taxas de juros poderia vir a corresponde um acréscimo de apetite pela compra de yuans por partes de estrangeiros, que poderiam optar por depositá-los na China, o que conduziria a um yuan mais forte, efeito que não interessa definitivamente aos dirigentes chineses.

As autoridades chinesas sabem que foi o yuan fraco que favoreceu as exportações chinesas e a criação de milhões de postos de trabalho na China. O recente movimento da China no sentido de se posicionar no mercado de produtos de qualidade, irá conduzi-la a novas batalhas competitivas com os mercados desenvolvidos e não com os emergentes. Há que continuar a acautelar, portanto, a paridade com o dólar, enquanto as novas batalhas não estiverem ganhas. Quando a China já tiver uma voz forte nos mercados mais sofisticados, então a cotação do yuan diminuirá o seu valor competitivo, e a guerra das moedas deixará de ser decisiva.


Esfriar os movimentos especulativos

O aumento da inflação para 4.4%, Outubro sobre Outubro, foi acompanhado pelo incremento da oferta de dinheiro nos últimos dois anos em 54%. As autoridades pensam que ao dificultarem o acesso ao crédito, deixando menos yuans disponíveis na banca comercial para empréstimos, a corrida especulativa na habitação e commodities resfriará.

Helen Qiao e Song Yu , da Goldman Sachs, prevêem mesmo que estas medidas compulsivas, possam vir a ser reforçadas ainda este ano. Esta revelação sugere que a actual iniciativa possa não ser suficientemente eficaz, obrigando o governo a nova intervenção.

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Nota (*) sobre o sistema bancário chinês:

A China dispõe dum grande e robusto sistema bancário.

Os bancos comerciais são essenciais na disponibilização de fundos para o crescimento do país. Em Outubro de 2008, o banco central BPC depositou 30 biliões de yuans (4.4 biliões US$) em bancos comerciais da China destinados a empréstimos.

Estes bancos comerciais são indispensáveis para: a construção dum mercado de capitais mais forte; a introdução de novos e sofisticados métodos de financiamento; optimizar a gestão de divisas; através de fundos fiscais, ajudar os bancos a reduzir os activos podres; melhorar a reforma financeira.

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