Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
05 Dezembro de 2010
(continuação do mesmo título, em 1 de 2)
Em Maio deste ano, quando a EU anunciou a criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), já havia decorrido mais de ano e meio sobre o início da crise. Os políticos europeus, que se haviam escandalosamente atrasado na tomada das medidas que lhes competiam, apressaram-se então a informar que a reserva que estavam a anunciar era de carácter psicológico, pois não previam que houvesse necessidade desta vir a ser de facto utilizada.
Mas não foi isso que aconteceu. Em 21 de Novembro passado, a Irlanda cedeu às pressões dos companheiros europeus, nomeadamente da Alemanha, e acabou por pedir ajuda de emergência no valor de 85 mil milhões €, iniciativa que, de forma insistente, vinha negando como possível.
A EU, com esta nova medida, do mesmo estilo da que utilizara no caso grego, parecia dar mostras de desconhecer outra reacção às debilidades dos países em dificuldade, senão a injecção de dinheiro que pudesse protelar a questão, e acalmar os “mercados”.
A eventualidade de um periférico vir a abandonar o Euro
A EU parece não dispor de nenhuma solução sustentável para o caso de algum país periférico decidir abandonar o Euro, ou a isso for forçado. Um acontecimento deste tipo originaria, por certo, uma corrida imediata dos investidores aos sistema bancário desse país, provocando o seu inevitável colapso financeiro, que, por sua vez, lançaria inevitáveis e imprevisíveis ondas de choque por toda a zona euro. O mundo que ainda não esqueceu o que aconteceu com o Lehman Brothers em 2008, teme a repetição.
Preocupada, a EU anunciou uma alternativa, esperando evitar o contágio dos fenómenos Grécia e Irlanda a outros países em dificuldade, procurando serenar os “mercados”, e, dessa forma, provocar a descida nas taxas de juro dos países em crise mais evidente. Assim nasceu o Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM), cuja data efectiva de disponibilidade está prevista para 2013.
O que é o ESM
O ESM é um pacote de opções, anunciadas como flexíveis, a que os países em crise pelo excesso de dívida podem recorrer. A grande novidade do ESM é que, em situação de emergência, os países excessivamente endividados, podem ver parte dos seus débitos anulados, sendo esse custo compartilhado pelos credores – privados, bancos e fundos de investimento. Esta foi uma importante batalha ganha, há uma semana atrás, embora com dificuldade, pela chanceler Angela Merkel, em Conselho de Ministros das Finanças.
Destacando, de forma resumida, o que de novo aporta a filosofia ESM:
Se a crise for de carência de liquidez no curto prazo, a solução preferencial deverá continuar a ser o resgate via BCE/FMI. Neste caso, os credores deverão, após negociação, aceitar protelamentos nos pagamentos. O país em crise de liquidez seria assim aliviado da pressão imediata, ganhando tempo para recuperar.
No caso da crise ser estrutural, ou seja quando o país mostrar incapacidade para cumprir as suas obrigações, então deverá ser convocada uma assembleia de credores que terá competência para, através de maioria qualificada, aprovar o reescalonamento da dívida, admitindo-se a possibilidade de dispensa de pagamento de juros, à semelhança do que em Wall Street se designa por “corte de cabelo” (”Haircut”).
Apesar deste anúncio ter sido muito elogiado pela Alemanha, os “mercados” continuaram intranquilos, pois o acordo só se aplicará a títulos emitidos a partir de Junho de 2013. Mesmo que as taxas de juro venham a recuar, será praticamente impossível que regressem a valores anteriores à crise. Solução para o futuro não resolve a crise actual, parece ser a ideia dos “mercados”.
Portanto, e até 2013…
Se algum país deixar de ser capaz de pagar as suas dívidas, a solução que resta à EU é continuar a apoiar esse país. Se assim não acontecer, só haverá um caminho - solicitar uma renegociação.
Ora, sabe-se como os bancos evitam reescalonar dívidas. Mostraram-no em 1989 no Japão, em 2008 na sequência do Setembro Negro, nos USA (ver ”From Economic Crisis to Debt Crisis?”), e tudo indica que não venham a alterar esta posição.
De facto, se os bancos renunciassem a parte das dívidas, isso equivaleria à desvalorização dos títulos do país em causa, o que afectaria os capitais próprios desses bancos credores, situação que eles alegam não estar em condições de suportar.
Apesar disto, alguns analistas conseguem ver mérito nestas novas disposições, reconhecendo-lhe vantagens evidentes no longo prazo, ao nível da disciplina orçamental. Mas, as soluções no curto prazo, à custa de ”Haircut” nos bancos TBTF não parecem, como vimos, estar à vista.
Vários cenários se colocam:
1. Portugal, pressionado por diferentes influenciadores, é obrigado a solicitar ajuda de emergência do FEED.
Um desses influenciadores, a agência de rating S&P alertou, esta semana, que tinha colocado o país sob vigilância negativa, e que podia vir a baixar as cotações da República e da banca até Março de 2011. Outro indício destas pressões ocorrerá na sessão de amanhã dos Ministros das Finanças em Bruxelas, cuja agenda contempla a análise das saídas possíveis para Portugal evitar o contágio da Grécia e da Irlanda (”Eurogrupo discute amanhã situação de Portugal”).
Na realidade, Portugal, pela sua dimensão, não preocupa tanto a EU como a Espanha, o maior dos PIGS. Por vezes até parece que a EU preferia que Portugal caísse rapidamente nas mãos do FEEF, pois tal permitiria passar a mensagem de que a crise ficaria estancada com este episódio, preservando a Espanha (12% da economia europeia), e o grupo duro. Recorde-se que, dos 750 mil milhões do FEEF, apenas 85 mil milhões (que poderão alcançar 100 mil milhões) foram resgatados, dado que os 110 mil milhões da Grécia constituem pacote à parte.
A EU conseguiria, desta forma, com apoio reforçado do BCE, continuando a comprar dívidas soberanas, segurar a crise até 2013, data da entrada em vigor do ESM.
2. A Espanha não resistindo às pressões externas solicita ajuda ao FEEF.
Portugal cairia por arrasto, a EU não consegue responder, pois o que resta dos 750 mil milhões será manifestamente insuficiente, e os PIGS não teriam alternativa senão abandonarem o Euro. Neste caso, estes países tornar-se-iam vítimas de enormes fugas de capitais como reacção às duríssimas políticas fiscais que teriam de adoptar, que resultariam em significativa perda de produtividade de toda esta zona. Em 2013, provavelmente, nenhum dos PIGS iria cumprir o limite deficitário de 3% do PIB, o que resultaria em acrescidas dificuldades de acesso a financiamentos externos, e, claro, novo ciclo de políticas fiscais ainda mais violentas. Origens e efeitos confundir-se-iam numa espiral difícil de estancar.
Que aconteceria, de imediato? Reavaliação dos acordos de adesão ao euro e à livre circulação de capitais, o que aprofundaria ainda mais a crise. Note-se que voltar às moedas nacionais, obrigaria à reavaliação das dívidas em euros, convertendo-as em moedas nacionais entretanto desvalorizadas. Os próprios bancos nacionais correriam sérios riscos de insolvência. E se os governos decidissem apoiar os bancos, provavelmente iriam incorrer em incapacidade de pagamentos das suas próprias dívidas. Um cenário muito preocupante.
Há, contudo, analistas que recordam como a ”Argentina na década de 1990” e a ”Inglaterra ao abandonar o ERM em 1992” conseguiram superar situações muito difíceis, considerando que a solução de abandono dos PIGS (quantos e quais?) do euro poderá não ser tão catastrófica quanto possa parecer. Mas não nos devemos esquecer, acima de tudo, que a maioria dos economistas comenta melhor do que prevê ou recomenda.
A saída dos PIGS do Euro, apesar das consequências atrás enunciadas, pode ter um lado positivo, embora que débil – a desvalorização da moeda e o abaixamento dos salários, contribuiria para o aumento da competitividade exportadora da zona, incluindo para os outros países da EU. E a crise social? Quem a iria resolver?
Se tal se viesse a revelar como forma de ultrapassar a crise, como iria reagir a Itália? Ficava no Euro, ou abandonava-o? E se a Itália partisse, como iria a França sentir-se entre os países fracos e o núcleo duro? Então, se a França viesse a sair do Euro, a Zona Euro não teria hipóteses de sobrevivência, e definharia. Com ela, porventura, morreria o próprio projecto EU.
3. E se fosse a Alemanha a decidir unilateralmente voltar ao Marco?
Não é de todo impossível. O grande projecto alemão de reunificação da Alemanha, na opinião dos políticos alemães da época, dependia do sucesso do lançamento do Euro. Ora, a Alemanha já está reunificada, tendo pago, financeira e politicamente, um elevado preço por isso, não sendo dado adquirido que os actuais dirigentes políticos pensem sobre o Euro o que os seus antecessores pensavam. Aliás, os jornais, já deram conta duma acesa discussão entre Angela Merkel e George Papandreou sobre a possibilidade da Alemanha vir a abandonar o Euro (27 de Outubro de 2010).
Os políticos alemães actuais, governo e oposições, parecem acreditar que a Alemanha seria mais forte se estivesse fora do Euro. Esta crença pode ser determinante na opção que o país vier a tomar. Certo é que os contribuintes alemães não querem continuar a pagar pelo que consideram ser desvarios dos europeus não-alemães. A decisão recente, desta semana, do BCE continuar a comprar doses maciças de dívidas soberanas pode, também, vir a tornar-se factor desequilibrador na dúvida alemã. Alguns políticos alemães argumentam que o apoio comunitário aos países em crise na zona euro não resistiria ao parecer do Tribunal Constitucional, por não ter sido ratificado por nenhum Estado Membro. A ser assim, estaríamos perante grave violação dos tratados europeus em vigor.
O reverso, para a Alemanha, seria que a revalorização do Marco iria prejudicar as exportações, e os produtos importados ao tornarem-se mais baratos, poderiam conduzir a uma indesejável e perigosa situação de deflação. Nos outros países, provavelmente, assistir-se-ia a aumentos significativos da inflação.
4. Misterioso continua o impacte da intervenção da China no contexto europeu, quer comprando dívidas soberanas, inclusive da França, quer participando em parcerias estratégicas em empresas de ponta e na banca, quer intervindo directamente com as suas próprias empresas. Em artigo separado, comentarei o que penso sobre isto.
5. Há ainda a considerar as alterações geopolíticas que se estão a desenhar no espaço europeu alargado, incluindo as parcerias com a Rússia e ex-países da URSS. A NATO deverá vir a desempenhar papel relevante nestas redefinições, que deverão modificar a importância relativa dos diversos países europeus. Para a Polónia e para a Turquia poderão estar reservados papéis de primeiro plano, obviamente substituindo os tradicionais senhores da situação. Assunto a endereçar em próxima reflexão.
______
Perante cenários tão complexos e diversificados que pode pensar o “simples cidadão”?
Que, por certo, todos corremos grandes riscos, e que a desejada solução para a crise ainda está distante.
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domingo, 5 de dezembro de 2010
A Crise é dos periféricos? Do Euro? Ou do Projecto EU? (2 de 2)
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A Crise é dos periféricos? Do Euro? Ou do Projecto EU? (1 de 2)
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
03 Dezembro de 2010
Salvaguardadas as óbvias implicações temporais, reservo para a política imagem e respeito muito próximas de Aristóteles, o que me leva bastas vezes a ficar furioso com o comportamento da classe política. Foi essa a razão que me colocou frente a este gélido ecrã LED a debater a crise económica que se abateu sobre nós “simples cidadãos” (figura pouco simpática com que os nossos políticos gostam sobranceiramente de nos brindar).
Não sou economista, pelo que as reflexões e preocupações que me assolam não são mais do que o que me ocorre, enquanto cidadão, não "simples" mas de pleno direito, quando sou bombardeado com informações incompletas, grosseiras, quem sabe intencionalmente produzidas, com a ideia de nos ocultar o péssimo trabalho que os líderes mundiais vêm produzindo.
Da Física para a Economia
A Física ensinou-nos que a Quantidade de Movimento é uma grandeza vectorial que corresponde ao produto da massa total pela velocidade que anima o sistema. Dito de forma diferente, Momento Linear, outra designação para Quantidade de Movimento, quantifica o esforço necessário para travar completamente um corpo em movimento.
Foi uma força deste tipo que se abateu sobre a Grécia em Maio, a Irlanda em Novembro, e sabe-se lá quem a seguir nesta Europa em visível declínio.
Primeiro, a Grécia
Quando em Maio a Grécia foi obrigada a aceitar a “solidariedade europeia” no valor de 110 mil milhões € para evitar a insolvência, os responsáveis políticos europeus anunciaram a criação dum fundo de 750 mil milhões €, que mais não era do que uma garantia aos investidores internacionais de que a EU estava pronta a responder a crises semelhantes, caso viessem a ocorrer.
Na altura, foi referido que esta reserva, designada Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), funcionaria mais como instrumento psicológico para apaziguamento dos mercados do que uma necessidade real de utilização.
O que é verdade é que os investidores internacionais, também designados por “mercados”, mostraram ter acolhido a mensagem, parecendo acreditar que o FEED seria suficiente para estancar os problemas das pequenas economias periféricas, preservando o núcleo duro da EU.
Depois, a Irlanda
Repito que não sou economista. Contudo, em Agosto, eu próprio, com as públicas informações de que dispunha, já olhava para o caso irlandês com muitas reticências, como referi em ”Irlanda – Ilusões e Desencantos”.
Infelizmente, o meu crítico juízo, só tardou três meses a revelar-se justificado – em 21 de Novembro, após inúmeros desmentidos, a Irlanda caiu nas malhas da “solidariedade europeia”, tendo sido obrigada a resgatar 85 mil milhões € à EU/FMI. Era isso que os “mercados” exigiam.
No entanto, algo de muito significativo e preocupante ocorreu desta vez. De acordo com The Economist de 25 de Novembro, apesar das bond yields irlandesas terem regredido (7.93%), em Espanha (4.75%) e na Grécia (11.75%) aumentaram. Pior ainda, em 28 de Novembro, a AdvisorOne publicava um artigo em que referia os valores para diverso países, donde se destacavam: Irlanda 9.37%, Portugal 7.17%, Espanha 5.21%, Grécia 11.79% (USA 2.87%, Alemanha 2.74%). Esta lista permite avaliar sobre a volatilidade dos mercados e da incerteza sobre os países devedores.
Racional ou Emocional?
Do que conheço sobre Adam Smith, que recorde-se era professor de Filosofia Moral em Glasgow, arrisco pensar que ele classificaria como especuladores, o que hoje se designa por “mercados”.
No que respeita às suas típicas investidas, enquadro-as no capítulo de Guerra de Guerrilha”, segundo os conselhos de Vo Nguyen Giap no clássico Manual de Estratégia Subversiva - têm de se focalizar nos pontos fracos do inimigo, ser chocantes, demolidoras, e inspirar insegurança e medo. A guerra tradicional, eminentemente racional, não se aplica aqui. Os países mais fracos tremem de pavor, mas o objectivo final é o Euro, ou melhor, a EU. Acho eu.
Contudo, os “mercados” também não estão tranquilos – os níveis de incerteza e as declarações políticas dos países mais poderosos, em particular da Alemanha, ao pretender imputar-lhes responsabilidades partilhadas nas falências das economias mais débeis que ajudaram a afundar não lhes agrada.
A alegada especificidade irlandesa
A Irlanda falhou pelo desmoronar da banca, diz-se, sendo portanto distinta da Grécia que deixou descontrolar todo o aparelho económico. Verdade ou não, o negócio com a EU+FMI não elimina as dívidas do país, refinancia-as. E como hoje os capitais se deslocalizam mais do que nunca, ninguém pode assegurar que eles não procurem outras geografias mais atraentes. O perigo é real e as agências de rating, cuja actuação isenta suscita fundadas dúvidas, antecipam-no – a S&P já tratou de baixar a dívida irlandesa de AA- para A, colocando-a sob observação, e advertindo que novas actualizações poderiam ocorrer em breve sobre as actuais classificações: Espanha AA, Portugal A-, Grécia BB+ (Alemanha e USA continuam AAA).
O facto do défice irlandês se centrar essencialmente na banca, recorda o episódio do resgate do Bear Steams nos USA, que originou tal celeuma na opinião pública, que levou as autoridades a deixar cair o ícone Lehman Brothers. Não são boas recordações, na realidade. E os eleitores alemães começam a ficar preocupados e a pressionar os políticos.
Aprovar orçamentos não chega
Por vezes os políticos parecem não entender as regras do jogo, ser demasiadamente inocentes, ou menos inteligentes do que julgam ser. Aprestam-se a fazer aprovar orçamentos, aparentemente elaborados a correr e de concretização duvidosa, esperando que os “mercados” reajam positivamente, isto é, facilitando empréstimos e cobrando menos juros.
Na Irlanda, Brian Cowen, precisa de aprovar o orçamento no início de Dezembro. Entretanto, perdeu o apoio dos Verdes o que coloca o seu governo à mercê da coligação Fine Gael/Trabalhistas. Estes, se ganharem as eleições como se espera, terão de cumprir um orçamento que não é deles. E é preciso baixar o défice de cerca de 32% para 3% até 2014. Natural, portanto, o cepticismo dos “mercados”.
Em Portugal, a situação também não é tranquilizadora. Se bem que a banca portuguesa pareça estar bastante mais robusta que a irlandesa, a dívida acumulada é enorme, o défice está em 9% e precisa de baixar para 3% até 2013, o desemprego a rondar os 11%, e o país a não revelar evidentes capacidades para crescer. A OCDE prevê mesmo um recuo de cerca de 1% do PIB em 2011, embora não seja essa a previsão do governo português (+0.2%). A S&P, em notícia de 01 de Dezembro, acaba de colocar o rating de Portugal sob vigilância negativa e ameaça baixa-lo por antevisão de intervenção do FMI, ao mesmo tempo que prevê que a economia nacional desça 2% em 2011. Acrescem as eleições presidenciais, cujo resultado pode provocar eleições legislativas antecipadas para o primeiro semestre de 2011.
Em Espanha, apesar das notícias de aparente cumprimento das duras medidas de austeridade anunciadas por Zapatero, o desemprego é uma enorme preocupação, ao situar-se acima dos 20%. A economia espanhola é maior do que as da Grécia, Irlanda, e Portugal juntas. Um problema muito sério para os 750 mil milhões do FEEF, ao qual já há que descontar o que já está comprometido com a Irlanda, se a Espanha vier a precisar de auxílio. Os grandes bancos espanhóis parecem ter estrutura suficiente para evitarem problemas, apesar da sua exposição a Portugal. Mas mesmo assim, já consumiram mais de 14 mil milhões € este ano em reestruturações, falando-se que ainda serão necessários mais 32 mil milhões, afectos ao sector imobiliário.
O senhor que se segue…
Recuperando a ideia da Quantidade de Movimento, que iniciou este artigo, a coisa poderá não ficar por aqui. Os spreads sobre os títulos ibéricos em relação aos títulos da dívida alemã nunca foram tão elevados. As promessas e as medidas dos governos português e espanhol não parecem ser suficientes para travarem esta pressão. O dia em que ninguém emprestará mais dinheiro, ou só estará disposto a fazê-lo a juros incomportáveis, pode estar próximo. Quem será compelido a pedir apoio à EU/FMI primeiro?
Todas as razões apontam para Portugal. É o país mais fácil de ajudar, pois exige menos fundos, permitirá passar a imagem de que a questão se confina a pequenos países periféricos, evitará expor a Espanha que, saliente-se, representa 12% da economia europeia. Se a Espanha fraquejar, é toda a zona euro que ficará exposta, pois, pelo menos, a Itália não escapará ao flagelo. E que dizer da Bélgica, com todos os problemas que a assolam?
Nesta perspectiva, o FEEF será manifestamente insuficiente.
Terá a EU capacidade real de alargar substancialmente este fundo? De onde sairá o dinheiro? Da Alemanha? Ou da China, de que tão pouco se fala neste contexto? E, se assim for, qual o preço real a pagar?
Os Tratados Europeus
As dívidas soberanas, que são dividas assumidas ou garantidas por entidades soberanas ou pelos seus bancos centrais, diferenciam-se das outras operações de crédito, por:
• Não existem entidades supranacionais com autoridade para obrigar ao cumprimento dos acordos internacionais;
• Em caso de inadimplência, os credores, têm acesso muito limitado aos activos dos devedores;
• As negociações entre credor e devedor, em caso de litígio, e porque não arbitradas por nenhum tribunal, podem tornar-se intermináveis.
Foi, porventura atendendo a estas características, que a Alemanha tentou co-responsabilizar os investidores na compra de dívida de países que venham a recorrer ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. No passado Domingo, os ministros das finanças dos 16 membros do Euro Grupo, acordaram na criação dum mecanismo de estabilidade a longo prazo (ESM) cuja operacionalidade está prevista para 2013, quando o FEEF terminar a sua intervenção.
Outra alternativa possível seria a alteração profunda do Tratado Europeu. Tarefa complexa e morosa, que dificilmente estará disponível em tempo útil.
(continua, com o mesmo título, em 2 de 2)
vitor.trigo@gmail.com
03 Dezembro de 2010
Salvaguardadas as óbvias implicações temporais, reservo para a política imagem e respeito muito próximas de Aristóteles, o que me leva bastas vezes a ficar furioso com o comportamento da classe política. Foi essa a razão que me colocou frente a este gélido ecrã LED a debater a crise económica que se abateu sobre nós “simples cidadãos” (figura pouco simpática com que os nossos políticos gostam sobranceiramente de nos brindar).
Não sou economista, pelo que as reflexões e preocupações que me assolam não são mais do que o que me ocorre, enquanto cidadão, não "simples" mas de pleno direito, quando sou bombardeado com informações incompletas, grosseiras, quem sabe intencionalmente produzidas, com a ideia de nos ocultar o péssimo trabalho que os líderes mundiais vêm produzindo.
Da Física para a Economia
A Física ensinou-nos que a Quantidade de Movimento é uma grandeza vectorial que corresponde ao produto da massa total pela velocidade que anima o sistema. Dito de forma diferente, Momento Linear, outra designação para Quantidade de Movimento, quantifica o esforço necessário para travar completamente um corpo em movimento.
Foi uma força deste tipo que se abateu sobre a Grécia em Maio, a Irlanda em Novembro, e sabe-se lá quem a seguir nesta Europa em visível declínio.
Primeiro, a Grécia
Quando em Maio a Grécia foi obrigada a aceitar a “solidariedade europeia” no valor de 110 mil milhões € para evitar a insolvência, os responsáveis políticos europeus anunciaram a criação dum fundo de 750 mil milhões €, que mais não era do que uma garantia aos investidores internacionais de que a EU estava pronta a responder a crises semelhantes, caso viessem a ocorrer.
Na altura, foi referido que esta reserva, designada Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), funcionaria mais como instrumento psicológico para apaziguamento dos mercados do que uma necessidade real de utilização.
O que é verdade é que os investidores internacionais, também designados por “mercados”, mostraram ter acolhido a mensagem, parecendo acreditar que o FEED seria suficiente para estancar os problemas das pequenas economias periféricas, preservando o núcleo duro da EU.
Depois, a Irlanda
Repito que não sou economista. Contudo, em Agosto, eu próprio, com as públicas informações de que dispunha, já olhava para o caso irlandês com muitas reticências, como referi em ”Irlanda – Ilusões e Desencantos”.
Infelizmente, o meu crítico juízo, só tardou três meses a revelar-se justificado – em 21 de Novembro, após inúmeros desmentidos, a Irlanda caiu nas malhas da “solidariedade europeia”, tendo sido obrigada a resgatar 85 mil milhões € à EU/FMI. Era isso que os “mercados” exigiam.
No entanto, algo de muito significativo e preocupante ocorreu desta vez. De acordo com The Economist de 25 de Novembro, apesar das bond yields irlandesas terem regredido (7.93%), em Espanha (4.75%) e na Grécia (11.75%) aumentaram. Pior ainda, em 28 de Novembro, a AdvisorOne publicava um artigo em que referia os valores para diverso países, donde se destacavam: Irlanda 9.37%, Portugal 7.17%, Espanha 5.21%, Grécia 11.79% (USA 2.87%, Alemanha 2.74%). Esta lista permite avaliar sobre a volatilidade dos mercados e da incerteza sobre os países devedores.
Racional ou Emocional?
Do que conheço sobre Adam Smith, que recorde-se era professor de Filosofia Moral em Glasgow, arrisco pensar que ele classificaria como especuladores, o que hoje se designa por “mercados”.
No que respeita às suas típicas investidas, enquadro-as no capítulo de Guerra de Guerrilha”, segundo os conselhos de Vo Nguyen Giap no clássico Manual de Estratégia Subversiva - têm de se focalizar nos pontos fracos do inimigo, ser chocantes, demolidoras, e inspirar insegurança e medo. A guerra tradicional, eminentemente racional, não se aplica aqui. Os países mais fracos tremem de pavor, mas o objectivo final é o Euro, ou melhor, a EU. Acho eu.
Contudo, os “mercados” também não estão tranquilos – os níveis de incerteza e as declarações políticas dos países mais poderosos, em particular da Alemanha, ao pretender imputar-lhes responsabilidades partilhadas nas falências das economias mais débeis que ajudaram a afundar não lhes agrada.
A alegada especificidade irlandesa
A Irlanda falhou pelo desmoronar da banca, diz-se, sendo portanto distinta da Grécia que deixou descontrolar todo o aparelho económico. Verdade ou não, o negócio com a EU+FMI não elimina as dívidas do país, refinancia-as. E como hoje os capitais se deslocalizam mais do que nunca, ninguém pode assegurar que eles não procurem outras geografias mais atraentes. O perigo é real e as agências de rating, cuja actuação isenta suscita fundadas dúvidas, antecipam-no – a S&P já tratou de baixar a dívida irlandesa de AA- para A, colocando-a sob observação, e advertindo que novas actualizações poderiam ocorrer em breve sobre as actuais classificações: Espanha AA, Portugal A-, Grécia BB+ (Alemanha e USA continuam AAA).
O facto do défice irlandês se centrar essencialmente na banca, recorda o episódio do resgate do Bear Steams nos USA, que originou tal celeuma na opinião pública, que levou as autoridades a deixar cair o ícone Lehman Brothers. Não são boas recordações, na realidade. E os eleitores alemães começam a ficar preocupados e a pressionar os políticos.
Aprovar orçamentos não chega
Por vezes os políticos parecem não entender as regras do jogo, ser demasiadamente inocentes, ou menos inteligentes do que julgam ser. Aprestam-se a fazer aprovar orçamentos, aparentemente elaborados a correr e de concretização duvidosa, esperando que os “mercados” reajam positivamente, isto é, facilitando empréstimos e cobrando menos juros.
Na Irlanda, Brian Cowen, precisa de aprovar o orçamento no início de Dezembro. Entretanto, perdeu o apoio dos Verdes o que coloca o seu governo à mercê da coligação Fine Gael/Trabalhistas. Estes, se ganharem as eleições como se espera, terão de cumprir um orçamento que não é deles. E é preciso baixar o défice de cerca de 32% para 3% até 2014. Natural, portanto, o cepticismo dos “mercados”.
Em Portugal, a situação também não é tranquilizadora. Se bem que a banca portuguesa pareça estar bastante mais robusta que a irlandesa, a dívida acumulada é enorme, o défice está em 9% e precisa de baixar para 3% até 2013, o desemprego a rondar os 11%, e o país a não revelar evidentes capacidades para crescer. A OCDE prevê mesmo um recuo de cerca de 1% do PIB em 2011, embora não seja essa a previsão do governo português (+0.2%). A S&P, em notícia de 01 de Dezembro, acaba de colocar o rating de Portugal sob vigilância negativa e ameaça baixa-lo por antevisão de intervenção do FMI, ao mesmo tempo que prevê que a economia nacional desça 2% em 2011. Acrescem as eleições presidenciais, cujo resultado pode provocar eleições legislativas antecipadas para o primeiro semestre de 2011.
Em Espanha, apesar das notícias de aparente cumprimento das duras medidas de austeridade anunciadas por Zapatero, o desemprego é uma enorme preocupação, ao situar-se acima dos 20%. A economia espanhola é maior do que as da Grécia, Irlanda, e Portugal juntas. Um problema muito sério para os 750 mil milhões do FEEF, ao qual já há que descontar o que já está comprometido com a Irlanda, se a Espanha vier a precisar de auxílio. Os grandes bancos espanhóis parecem ter estrutura suficiente para evitarem problemas, apesar da sua exposição a Portugal. Mas mesmo assim, já consumiram mais de 14 mil milhões € este ano em reestruturações, falando-se que ainda serão necessários mais 32 mil milhões, afectos ao sector imobiliário.
O senhor que se segue…
Recuperando a ideia da Quantidade de Movimento, que iniciou este artigo, a coisa poderá não ficar por aqui. Os spreads sobre os títulos ibéricos em relação aos títulos da dívida alemã nunca foram tão elevados. As promessas e as medidas dos governos português e espanhol não parecem ser suficientes para travarem esta pressão. O dia em que ninguém emprestará mais dinheiro, ou só estará disposto a fazê-lo a juros incomportáveis, pode estar próximo. Quem será compelido a pedir apoio à EU/FMI primeiro?
Todas as razões apontam para Portugal. É o país mais fácil de ajudar, pois exige menos fundos, permitirá passar a imagem de que a questão se confina a pequenos países periféricos, evitará expor a Espanha que, saliente-se, representa 12% da economia europeia. Se a Espanha fraquejar, é toda a zona euro que ficará exposta, pois, pelo menos, a Itália não escapará ao flagelo. E que dizer da Bélgica, com todos os problemas que a assolam?
Nesta perspectiva, o FEEF será manifestamente insuficiente.
Terá a EU capacidade real de alargar substancialmente este fundo? De onde sairá o dinheiro? Da Alemanha? Ou da China, de que tão pouco se fala neste contexto? E, se assim for, qual o preço real a pagar?
Os Tratados Europeus
As dívidas soberanas, que são dividas assumidas ou garantidas por entidades soberanas ou pelos seus bancos centrais, diferenciam-se das outras operações de crédito, por:
• Não existem entidades supranacionais com autoridade para obrigar ao cumprimento dos acordos internacionais;
• Em caso de inadimplência, os credores, têm acesso muito limitado aos activos dos devedores;
• As negociações entre credor e devedor, em caso de litígio, e porque não arbitradas por nenhum tribunal, podem tornar-se intermináveis.
Foi, porventura atendendo a estas características, que a Alemanha tentou co-responsabilizar os investidores na compra de dívida de países que venham a recorrer ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. No passado Domingo, os ministros das finanças dos 16 membros do Euro Grupo, acordaram na criação dum mecanismo de estabilidade a longo prazo (ESM) cuja operacionalidade está prevista para 2013, quando o FEEF terminar a sua intervenção.
Outra alternativa possível seria a alteração profunda do Tratado Europeu. Tarefa complexa e morosa, que dificilmente estará disponível em tempo útil.
(continua, com o mesmo título, em 2 de 2)
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domingo, 31 de outubro de 2010
CHINA – o Monopólio de “Terras Raras”
Por: Vitor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
31 Outubro de 2010
Antecedentes distantes e próximos
Os diferendos entre a China e o Japão são memoriais, mas ultrapassados estão os tempos em que o poderio militar japonês desbaratava as indefesas populações chinesas.
No rescaldo da Primeira Grande Guerra (IWW), o Japão sentiu-se prejudicado pelo Tratado de Versailles de 1919, que não lhe reconheceu as pretensões de “igualdade racial” (negado por britânicos e americanos) nem as “reivindicações territoriais” (contestadas pelos chineses), que almejavam por se considerarem como potência vencedora aliada. [1] Estas foram, aliás, apontadas como causas para o deflagrar da IIWW em 1939.
O diferendo entre China e Japão, embora só episodicamente armado, manteve-se latente durante o século XX, ganhando recentemente novos contornos com a ascensão da China ao segundo lugar das economias mundiais [2].
Os campos de batalha são múltiplos e a guerra politico-comercial está longe do fim. Um caso recente ocorreu com a colisão dum pesqueiro chinês, não com um mas com dois navios da armada japonesa (sintomático, não?), que foi explorado pelas duas potências para o que parecia ser o limite do razoável, mais parecendo retornar às disputas do início do século XX. Mas não, tudo tinha a sua lógica, e em causa estavam a disputa dos dois estados pelas matérias-primas, em zona marítima muito rica e por explorar, controladas pelo Japão e reclamadas pela China. [3]
Entre as medidas de retaliação que os chineses tomaram releva a interrupção de exportação de “Terras Raras”, abundantes na China, que são cruciais para a indústria de alta tecnologia japonesa.
O que são “Terras Raras”
Denomina-se por “Terras Raras” (Rare Earth Minerals) um conjunto de 17 minerais, da família dos lantanídeos, que são cruciais para a produção de praticamente todos os produtos de alta tecnologia, como computadores, painéis solares, turbinas eólicas, automóveis híbridos, e mísseis teleguiados.
Nos finais dos anos 1940, a maior parte da extracção de “Terras Raras” ocorria na índia e no Brasil. A partir da década de 1950, com a descoberta de importantes reservas na África do Sul, a produção descentralizou-se. Porém, tudo se alterou com a produção chinesa em larga escala, tornando todas as outras explorações inviáveis sob o ponto de vista económico. Hoje a China representa cerca de 95% dos depósitos de “Terras Raras” mundiais. [4]
A designação “Terras Raras” é comercial e não tem suporte científico sustentável, dado que existem na Terra em quantidades superiores à prata por exemplo. Quatro destes elementos mais comuns (Ítrio, Lantânio, Cério e Neodímio) estão disponíveis em maior volume do que, por exemplo, o chumbo. Contudo, o facto de não se encontrarem separados na natureza ajuda a justificar o nome porque são conhecidos.
Restrições à exportação de “Terras Raras”
A China é membro de pleno direito da OMC – Organização Mundial de Comércio – desde Dezembro de 2001. Ao aderir a esta organização, a China passou a ter de respeitar as suas regras tendentes ao comércio livre. Restrições à exportação não podem ser aceites e não o estão a ser. De facto, segundo as regras, a iniciativa chinesa de restringir exportações consubstancia uma violação grave do instituído. As nações comercialmente mais importantes começam a ficar impacientes. [5]
Que alternativas?
Os USA já decidiram reabrir as suas reservas, entretanto abandonadas por serem demasiadamente onerosas face aos preços praticados pelos chineses. Exemplo desta orientação é o projecto de reactivação dos depósitos californianos de Mountain Pass, praticamente parados desde 2005, conforme referido em Relatórios da Popular Science, Março de 2010 [6].
Os japoneses, limitados pela geografia e pressionados pelo peso da sua economia high-tech, procuram desesperadamente outras fontes. Exemplo disso é o interesse que, segundo a Reuters, a Toyota está a mostrar por um território junto ao Lago Thor, no Canadá, onde este fabricante de híbridos, em especial o modelo Prius, do qual espera vender em 2010 180,000 veículos só nos USA. [7]
Naturalmente, também a UE se manifesta preocupada com estas restrições e exclusiva dependência, e em particular a Alemanha. Segundo o New York Times de 22 Outubro de 2010, a Alemanha prepara-se mesmo para colocar a questão na próxima reunião do G20. Este país acusa a China de pressionar para maiores investimentos na China a quem quiser ter acesso a “Terras Raras”. No mesmo artigo, o jornal dá entretanto conta de recentes transferências de “Terras Raras” para os USA e UE. O embargo ao Japão parece, contudo, continuar. [8]
Outros cenários, outras estórias mal contadas
Vale a pena consultar um interessante artigo publicado pela IBM, patrocinadora da iniciativa SmartPlanet, intitulado “Afghanistan: the ‘Saudi Arabia’ of lithium?” [9]. Dele cito, sem comentar:
• Geólogos norte-americanos descobriram enormes depósitos minerais (possivelmente 1 trilião de US$) em todo o Afeganistão, segundo o New York Times
• Quanto ao lítio, um metal importante usado em baterias de carro e computador híbrido (…) tem uma estimativa de 5,4 milhões de toneladas
No mesmo sítio, SmartPlanet da IBM, pode ler-se sob o título “The US is sitting on a rare earth stockpile” [10]:
• De acordo com um novo relatório dos USA Geological Survey, os USA estão sentados sobre grandes reservas inexploradas (de “Terras Raras”) que poderiam servir como protecção contra uma escassez iminente
• A China indicou que pode parar a exportação de “Terras Raras” nos próximos 5 a 10 anos, por causa da procura interna
• Segundo estimativas do USGS, os USA detêm reservas de minério de terras raras que podem chegar a 13 milhões de toneladas (em 2009, em todo o mundo produziram-se 124 mil toneladas)
A política, e a sua componente militar, têm realmente muito para explicar acerca das questões económicas, mas raramente estão dispostas a fazê-lo.
Ao jeito duma típica conclusão norte-americana
Alexis Madrigal é editor sénior da TheAtlantic.com. e escreveu em 23 Setembro de 2010 sobre a questão China e “Terras Raras”, entre várias coisas interessantes, o seguinte [11]:
• Preocupados com o monopólio da China em elementos raros? Reiniciem a produção americana (título do artigo)
• Até a indústria de defesa americana depende de elementos “Terras Raras” chineses, de acordo com um relatório do Government Accountability Office de 2010
• “Eu acho que os políticos e as mentes financeiras americanas parecem ignorar completamente o que é fabricação ou exploração mineira. Eles só pensam que o dinheiro resolve todos os problemas”, citando Jack Lifton um reconhecido consultor de indústria extractivas
• “Nós realmente nos USA somos tolos. Desactivámos uma indústria que é estratégica e crítica, em nome do baixo custo. Agora estamos surpreendidos (…) Eu não estou surpreendido, nem ninguém o está na China”, novamente citando Jack Lifton
Ils sont fous, ces Romans… diria Asterix.
____________________________________________
NOTAS:
[1] http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Paris_Peace_Conference,_1919
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-segunda-economia-mundial.html
[3] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-japao-o-equilibrio-instavel_27.html
[4] http://www.worldlingo.com/ma/enwiki/pt/Rare_earth_element
[5] http://www.voanews.com/english/news/asia/Lack-of-Rare-Earth-Could-Cause-Major-Problems-103898893.html
[6] http://www.popsci.com/technology/article/2010-03/shortage-rare-earth-minerals-may-cripple-us-high-tech-scientists-warn-congress
[7] http://www.allcarselectric.com/blog/1034759_al-gore-versus-the-rare-earth-metals
[8] http://www.nytimes.com/2010/10/22/business/energy-environment/22iht-rare.html
[9] http://www.smartplanet.com/business/blog/intelligent-energy/afghanistan-the-saudi-arabia-of-lithium/1549/
[10] http://www.smartplanet.com/business/blog/smart-takes/us-sitting-on-rare-earth-stockpile-says-usgs-report-hedge-against-looming-tech-shortage/4873/?tag=content;col1
[11] http://www.theatlantic.com/technology/archive/2010/09/worried-about-chinas-monopoly-on-rare-elements-restart-american-production/63444/
vítor.trigo@gmail.com
31 Outubro de 2010
Antecedentes distantes e próximos
Os diferendos entre a China e o Japão são memoriais, mas ultrapassados estão os tempos em que o poderio militar japonês desbaratava as indefesas populações chinesas.
No rescaldo da Primeira Grande Guerra (IWW), o Japão sentiu-se prejudicado pelo Tratado de Versailles de 1919, que não lhe reconheceu as pretensões de “igualdade racial” (negado por britânicos e americanos) nem as “reivindicações territoriais” (contestadas pelos chineses), que almejavam por se considerarem como potência vencedora aliada. [1] Estas foram, aliás, apontadas como causas para o deflagrar da IIWW em 1939.
O diferendo entre China e Japão, embora só episodicamente armado, manteve-se latente durante o século XX, ganhando recentemente novos contornos com a ascensão da China ao segundo lugar das economias mundiais [2].
Os campos de batalha são múltiplos e a guerra politico-comercial está longe do fim. Um caso recente ocorreu com a colisão dum pesqueiro chinês, não com um mas com dois navios da armada japonesa (sintomático, não?), que foi explorado pelas duas potências para o que parecia ser o limite do razoável, mais parecendo retornar às disputas do início do século XX. Mas não, tudo tinha a sua lógica, e em causa estavam a disputa dos dois estados pelas matérias-primas, em zona marítima muito rica e por explorar, controladas pelo Japão e reclamadas pela China. [3]
Entre as medidas de retaliação que os chineses tomaram releva a interrupção de exportação de “Terras Raras”, abundantes na China, que são cruciais para a indústria de alta tecnologia japonesa.
O que são “Terras Raras”
Denomina-se por “Terras Raras” (Rare Earth Minerals) um conjunto de 17 minerais, da família dos lantanídeos, que são cruciais para a produção de praticamente todos os produtos de alta tecnologia, como computadores, painéis solares, turbinas eólicas, automóveis híbridos, e mísseis teleguiados.
Nos finais dos anos 1940, a maior parte da extracção de “Terras Raras” ocorria na índia e no Brasil. A partir da década de 1950, com a descoberta de importantes reservas na África do Sul, a produção descentralizou-se. Porém, tudo se alterou com a produção chinesa em larga escala, tornando todas as outras explorações inviáveis sob o ponto de vista económico. Hoje a China representa cerca de 95% dos depósitos de “Terras Raras” mundiais. [4]
A designação “Terras Raras” é comercial e não tem suporte científico sustentável, dado que existem na Terra em quantidades superiores à prata por exemplo. Quatro destes elementos mais comuns (Ítrio, Lantânio, Cério e Neodímio) estão disponíveis em maior volume do que, por exemplo, o chumbo. Contudo, o facto de não se encontrarem separados na natureza ajuda a justificar o nome porque são conhecidos.
Restrições à exportação de “Terras Raras”
A China é membro de pleno direito da OMC – Organização Mundial de Comércio – desde Dezembro de 2001. Ao aderir a esta organização, a China passou a ter de respeitar as suas regras tendentes ao comércio livre. Restrições à exportação não podem ser aceites e não o estão a ser. De facto, segundo as regras, a iniciativa chinesa de restringir exportações consubstancia uma violação grave do instituído. As nações comercialmente mais importantes começam a ficar impacientes. [5]
Que alternativas?
Os USA já decidiram reabrir as suas reservas, entretanto abandonadas por serem demasiadamente onerosas face aos preços praticados pelos chineses. Exemplo desta orientação é o projecto de reactivação dos depósitos californianos de Mountain Pass, praticamente parados desde 2005, conforme referido em Relatórios da Popular Science, Março de 2010 [6].
Os japoneses, limitados pela geografia e pressionados pelo peso da sua economia high-tech, procuram desesperadamente outras fontes. Exemplo disso é o interesse que, segundo a Reuters, a Toyota está a mostrar por um território junto ao Lago Thor, no Canadá, onde este fabricante de híbridos, em especial o modelo Prius, do qual espera vender em 2010 180,000 veículos só nos USA. [7]
Naturalmente, também a UE se manifesta preocupada com estas restrições e exclusiva dependência, e em particular a Alemanha. Segundo o New York Times de 22 Outubro de 2010, a Alemanha prepara-se mesmo para colocar a questão na próxima reunião do G20. Este país acusa a China de pressionar para maiores investimentos na China a quem quiser ter acesso a “Terras Raras”. No mesmo artigo, o jornal dá entretanto conta de recentes transferências de “Terras Raras” para os USA e UE. O embargo ao Japão parece, contudo, continuar. [8]
Outros cenários, outras estórias mal contadas
Vale a pena consultar um interessante artigo publicado pela IBM, patrocinadora da iniciativa SmartPlanet, intitulado “Afghanistan: the ‘Saudi Arabia’ of lithium?” [9]. Dele cito, sem comentar:
• Geólogos norte-americanos descobriram enormes depósitos minerais (possivelmente 1 trilião de US$) em todo o Afeganistão, segundo o New York Times
• Quanto ao lítio, um metal importante usado em baterias de carro e computador híbrido (…) tem uma estimativa de 5,4 milhões de toneladas
No mesmo sítio, SmartPlanet da IBM, pode ler-se sob o título “The US is sitting on a rare earth stockpile” [10]:
• De acordo com um novo relatório dos USA Geological Survey, os USA estão sentados sobre grandes reservas inexploradas (de “Terras Raras”) que poderiam servir como protecção contra uma escassez iminente
• A China indicou que pode parar a exportação de “Terras Raras” nos próximos 5 a 10 anos, por causa da procura interna
• Segundo estimativas do USGS, os USA detêm reservas de minério de terras raras que podem chegar a 13 milhões de toneladas (em 2009, em todo o mundo produziram-se 124 mil toneladas)
A política, e a sua componente militar, têm realmente muito para explicar acerca das questões económicas, mas raramente estão dispostas a fazê-lo.
Ao jeito duma típica conclusão norte-americana
Alexis Madrigal é editor sénior da TheAtlantic.com. e escreveu em 23 Setembro de 2010 sobre a questão China e “Terras Raras”, entre várias coisas interessantes, o seguinte [11]:
• Preocupados com o monopólio da China em elementos raros? Reiniciem a produção americana (título do artigo)
• Até a indústria de defesa americana depende de elementos “Terras Raras” chineses, de acordo com um relatório do Government Accountability Office de 2010
• “Eu acho que os políticos e as mentes financeiras americanas parecem ignorar completamente o que é fabricação ou exploração mineira. Eles só pensam que o dinheiro resolve todos os problemas”, citando Jack Lifton um reconhecido consultor de indústria extractivas
• “Nós realmente nos USA somos tolos. Desactivámos uma indústria que é estratégica e crítica, em nome do baixo custo. Agora estamos surpreendidos (…) Eu não estou surpreendido, nem ninguém o está na China”, novamente citando Jack Lifton
Ils sont fous, ces Romans… diria Asterix.
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NOTAS:
[1] http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Paris_Peace_Conference,_1919
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-segunda-economia-mundial.html
[3] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-japao-o-equilibrio-instavel_27.html
[4] http://www.worldlingo.com/ma/enwiki/pt/Rare_earth_element
[5] http://www.voanews.com/english/news/asia/Lack-of-Rare-Earth-Could-Cause-Major-Problems-103898893.html
[6] http://www.popsci.com/technology/article/2010-03/shortage-rare-earth-minerals-may-cripple-us-high-tech-scientists-warn-congress
[7] http://www.allcarselectric.com/blog/1034759_al-gore-versus-the-rare-earth-metals
[8] http://www.nytimes.com/2010/10/22/business/energy-environment/22iht-rare.html
[9] http://www.smartplanet.com/business/blog/intelligent-energy/afghanistan-the-saudi-arabia-of-lithium/1549/
[10] http://www.smartplanet.com/business/blog/smart-takes/us-sitting-on-rare-earth-stockpile-says-usgs-report-hedge-against-looming-tech-shortage/4873/?tag=content;col1
[11] http://www.theatlantic.com/technology/archive/2010/09/worried-about-chinas-monopoly-on-rare-elements-restart-american-production/63444/
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
A China e o Mundo - Alemanha 02
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
15 Setembro de 2010
Da competição feroz à dependência
Já aqui foram referidos, pelo menos por duas vezes, o confronto da Alemanha com a China pelo controlo das matérias-primas mundiais [1], e o impacte positivo do programa Kurzarbeit na contenção dos níveis de desemprego alemão [2].
Hoje quero abordar a importância das exportações alemãs para a China, porque não se trata de mais um canal para a recuperação económica da Alemanha e, como muitos pensam, da Europa no seu conjunto, mas duma componente que se afigura, cada vez mais, como fundamental.
Os surpreendentes indicadores alemães
Apresentar um crescimento trimestral do PIB de 2.2 % no actual contexto europeu é surpreendente. É o melhor resultado desde a reunificação alemã. Em termos pessoais, Angela Merkel, que nasceu na ex-Alemanha Oriental, permitirá uma capitalização que lhe dará enorme força para continuar com as reformas que a chanceler preconiza.
Em termos de exportações a Alemanha não pode competir com a China em preço, mas pode fazê-lo nos domínios da alta tecnologia e da qualidade. Há muito, também, que a Alemanha se apercebeu, e nisso apostou fortemente, que o crescimento chinês iria continuar, arrastando com ele o consumo interno. Se tal se viesse a confirmar a Alemanha queria estar entre os maiores exportadores para a China.
De momento, e pensa-se que por longos anos, a China está carente de produtos que a Alemanha está em condições de fornecer, indispensáveis para o seu crescimento. Entre eles, destacam-se os automóveis, os equipamentos para infra-estruturas industriais e para a produção de energia verde. Este conjunto de produtos representa cerca de um quarto do PIB alemão. Em 2009, a Alemanha vendeu mercadorias ao exterior no valor de 10,728 € per capita, muito à frente da França e duas vezes o valor alcançado pela Itália. É facto que a Alemanha está a tirar partido da baixa do euro, mas esta situação afecta igualmente todos os países europeus. A diferença é que a Alemanha se preparou melhor que os seus vizinhos para a oportunidade que se aproximava, apesar, ou melhor tirando partido, da própria crise.
Este crescimento será sustentável?
Muitos economistas pensam que não, e que a economia alemã irá arrefecer à medida que caminharmos para o fim do ano de 2010, enquanto outros avançam com previsões de crescimento anual de 3 %. No entanto, continuam a vislumbrar-se riscos que podem fazer perigar este optimismo, pois as medidas de austeridade que o governo Merkel pretende impor poderão afectar os níveis de emprego. Os empresários, por seu lado, mostram alguma preocupação com o denominado “milagre económico alemão” ao confrontar-se com o “milagre económico chinês”, invocando mesmo metáfora do abraço do urso ou de pacto com o diabo, ou seja, que a Alemanha venha a ser vítima da potência que está a ajudar a construir.
Entretanto, empresas como a Siemens, a Basf, Mercedes-Benz, BMW, e AUDI aproveitam para escoar produtos topo de gama. Também a VW descobriu um novo filão – os carros da polícia chinesa e os táxis. Poderá facilmente imaginar-se o que significará dominar mercados com tal dimensão.
E o papel dos USA?
A América não vê com bons olhos a relação crescente nos negócios EU-China. Até agora parece haver lugar para todos, mas a China começa a mostrar apreensão com algumas posições político-militares dos USA. No início do Verão deste ano as autoridades norte-americanas chegaram mesmo ao ponto de divulgarem notícias e fotografias que apontavam para as “intenções expansionistas chinesas” [3].
Como seria normal, a China não gostou destas afirmações e desmentiu-as de imediato. Esta notoriedade não é benéfica para os seus negócios, como também não o é a notícia de que o país acabara de ultrapassar o Japão como segunda economia mundial. Neste particular, registe-se que a China continua a beneficiar do estatuto de economia em desenvolvimento, o que não deixa de ser verdade, mas, de facto, já não se justificam apoios para que saia da zona dos países em vias de desenvolvimento, os BRIC como costumam ser designados.
A questão do know-how
O ocidente habitou-se a ver a China como uma enorme fábrica a preços baixos. Mas a China não quer ficar por aqui – exige acesso ao know-how ocidental. Os alemães conhecem bem essa exigência, e começam a sentir as primeiras dificuldades – a China começa a exigir contrapartidas neste domínio para assinar novos acordos comerciais em determinadas áreas. Ceder aqui significa por em risco vantagens competitivas alemãs, e segredos que podem afectar inclusive a segurança nacional. Qual a táctica chinesa? Só assinar parcerias se as empresas alemãs permitirem executivos chineses na direcção de topo das joint-ventures. Esta cedência não é pacífica, nem isenta de acusações graves de espionagem [4].
“A China foi a nossa salvação” [5]
Muitos são os empresários, em particular alemães, que o afirma. O senhor Herrenknecht, dono da empresa alemã do mesmo nome, é o autor da frase em título. A sua empresa é líder mundial na construção de túneis e dispõe de contratos na China por vários anos. Mas a situação pode reverter.
Na China o crescimento pode abrandar, na Alemanha a austeridade vai aumentar, o programa Kurzarbeit tem fim anunciado, os sindicatos não irão por muito mais tempo condescender em aumentos salariais tão limitados.
As empresas alemãs beneficiaram de serem as primeiras europeias a apostarem na nova China. Retiraram enormes vantagens da antecipação e recolheram a maior parte dos 400.000.000.000 € que os chineses investiram em infra-estruturas de apoio à economia.
A grande questão é se o modelo alemão de fazer negócios com a China é sustentável. E, se não for, será que a Alemanha conseguirá a tempo implementar as alternativas que forem viáveis?
Como já referido, a prazo a Alemanha terá de se confrontar com a concorrência da própria China nos seus feudos tradicionais. Sem dúvida que o espectacular crescimento chinês não se limitará a gerar mais mercados para os estrangeiros, o próprio mercado chinês irá passar por evoluções qualitativas.
Se existe economia que terá de se precaver com a China, a Alemanha estará por certo no pelotão da frente.
________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-e-o-mundo-alemanha-01.html
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/sera-que-existem-solucoes-simples-para.html
[3] http://www.economywatch.com/node/4749/ e
http://defensetech.org/2010/05/12/its-springtime-for-chinas-blue-water-navy/
[4] http://www.dw-world.de/dw/article/0,,2878181,00.html
[5] http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,713478-2,00.html
vitor.trigo@gmail.com
15 Setembro de 2010
Da competição feroz à dependência
Já aqui foram referidos, pelo menos por duas vezes, o confronto da Alemanha com a China pelo controlo das matérias-primas mundiais [1], e o impacte positivo do programa Kurzarbeit na contenção dos níveis de desemprego alemão [2].
Hoje quero abordar a importância das exportações alemãs para a China, porque não se trata de mais um canal para a recuperação económica da Alemanha e, como muitos pensam, da Europa no seu conjunto, mas duma componente que se afigura, cada vez mais, como fundamental.
Os surpreendentes indicadores alemães
Apresentar um crescimento trimestral do PIB de 2.2 % no actual contexto europeu é surpreendente. É o melhor resultado desde a reunificação alemã. Em termos pessoais, Angela Merkel, que nasceu na ex-Alemanha Oriental, permitirá uma capitalização que lhe dará enorme força para continuar com as reformas que a chanceler preconiza.
Em termos de exportações a Alemanha não pode competir com a China em preço, mas pode fazê-lo nos domínios da alta tecnologia e da qualidade. Há muito, também, que a Alemanha se apercebeu, e nisso apostou fortemente, que o crescimento chinês iria continuar, arrastando com ele o consumo interno. Se tal se viesse a confirmar a Alemanha queria estar entre os maiores exportadores para a China.
De momento, e pensa-se que por longos anos, a China está carente de produtos que a Alemanha está em condições de fornecer, indispensáveis para o seu crescimento. Entre eles, destacam-se os automóveis, os equipamentos para infra-estruturas industriais e para a produção de energia verde. Este conjunto de produtos representa cerca de um quarto do PIB alemão. Em 2009, a Alemanha vendeu mercadorias ao exterior no valor de 10,728 € per capita, muito à frente da França e duas vezes o valor alcançado pela Itália. É facto que a Alemanha está a tirar partido da baixa do euro, mas esta situação afecta igualmente todos os países europeus. A diferença é que a Alemanha se preparou melhor que os seus vizinhos para a oportunidade que se aproximava, apesar, ou melhor tirando partido, da própria crise.
Este crescimento será sustentável?
Muitos economistas pensam que não, e que a economia alemã irá arrefecer à medida que caminharmos para o fim do ano de 2010, enquanto outros avançam com previsões de crescimento anual de 3 %. No entanto, continuam a vislumbrar-se riscos que podem fazer perigar este optimismo, pois as medidas de austeridade que o governo Merkel pretende impor poderão afectar os níveis de emprego. Os empresários, por seu lado, mostram alguma preocupação com o denominado “milagre económico alemão” ao confrontar-se com o “milagre económico chinês”, invocando mesmo metáfora do abraço do urso ou de pacto com o diabo, ou seja, que a Alemanha venha a ser vítima da potência que está a ajudar a construir.
Entretanto, empresas como a Siemens, a Basf, Mercedes-Benz, BMW, e AUDI aproveitam para escoar produtos topo de gama. Também a VW descobriu um novo filão – os carros da polícia chinesa e os táxis. Poderá facilmente imaginar-se o que significará dominar mercados com tal dimensão.
E o papel dos USA?
A América não vê com bons olhos a relação crescente nos negócios EU-China. Até agora parece haver lugar para todos, mas a China começa a mostrar apreensão com algumas posições político-militares dos USA. No início do Verão deste ano as autoridades norte-americanas chegaram mesmo ao ponto de divulgarem notícias e fotografias que apontavam para as “intenções expansionistas chinesas” [3].
Como seria normal, a China não gostou destas afirmações e desmentiu-as de imediato. Esta notoriedade não é benéfica para os seus negócios, como também não o é a notícia de que o país acabara de ultrapassar o Japão como segunda economia mundial. Neste particular, registe-se que a China continua a beneficiar do estatuto de economia em desenvolvimento, o que não deixa de ser verdade, mas, de facto, já não se justificam apoios para que saia da zona dos países em vias de desenvolvimento, os BRIC como costumam ser designados.
A questão do know-how
O ocidente habitou-se a ver a China como uma enorme fábrica a preços baixos. Mas a China não quer ficar por aqui – exige acesso ao know-how ocidental. Os alemães conhecem bem essa exigência, e começam a sentir as primeiras dificuldades – a China começa a exigir contrapartidas neste domínio para assinar novos acordos comerciais em determinadas áreas. Ceder aqui significa por em risco vantagens competitivas alemãs, e segredos que podem afectar inclusive a segurança nacional. Qual a táctica chinesa? Só assinar parcerias se as empresas alemãs permitirem executivos chineses na direcção de topo das joint-ventures. Esta cedência não é pacífica, nem isenta de acusações graves de espionagem [4].
“A China foi a nossa salvação” [5]
Muitos são os empresários, em particular alemães, que o afirma. O senhor Herrenknecht, dono da empresa alemã do mesmo nome, é o autor da frase em título. A sua empresa é líder mundial na construção de túneis e dispõe de contratos na China por vários anos. Mas a situação pode reverter.
Na China o crescimento pode abrandar, na Alemanha a austeridade vai aumentar, o programa Kurzarbeit tem fim anunciado, os sindicatos não irão por muito mais tempo condescender em aumentos salariais tão limitados.
As empresas alemãs beneficiaram de serem as primeiras europeias a apostarem na nova China. Retiraram enormes vantagens da antecipação e recolheram a maior parte dos 400.000.000.000 € que os chineses investiram em infra-estruturas de apoio à economia.
A grande questão é se o modelo alemão de fazer negócios com a China é sustentável. E, se não for, será que a Alemanha conseguirá a tempo implementar as alternativas que forem viáveis?
Como já referido, a prazo a Alemanha terá de se confrontar com a concorrência da própria China nos seus feudos tradicionais. Sem dúvida que o espectacular crescimento chinês não se limitará a gerar mais mercados para os estrangeiros, o próprio mercado chinês irá passar por evoluções qualitativas.
Se existe economia que terá de se precaver com a China, a Alemanha estará por certo no pelotão da frente.
________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-e-o-mundo-alemanha-01.html
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/sera-que-existem-solucoes-simples-para.html
[3] http://www.economywatch.com/node/4749/ e
http://defensetech.org/2010/05/12/its-springtime-for-chinas-blue-water-navy/
[4] http://www.dw-world.de/dw/article/0,,2878181,00.html
[5] http://www.spiegel.de/international/world/0,1518,713478-2,00.html
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Será Que Existem Soluções Simples para Problemas Complexos? Kurzarbeit
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
07 Setembro de 2010
Sou de opinião que quem imagina que o capitalismo é um sistema auto-regulável está distante da realidade. Acho que o capitalismo, na sua génese, é um sistema autofágico. Não é sequer necessário recorrer a teses marxistas para lhe advogar esta característica. Basta olhar para a sua história, as cíclicas crises que o assolaram, ou consultar as mais elementares regras dos ciclos económicos.
Ao mesmo tempo, o capitalismo tem revelado uma extraordinária capacidade para superar as crises que o têm insistentemente afectado e alimentar-se delas. É a teoria “risco/recompensa” na sua mais conseguida materialização.
Fora desta reflexão está o interessante sobre se o capitalismo pode ou não reformular-se ou reinventar-se como outros princípios e valores. É este capitalismo, como o conhecemos, que aqui se discute, através de possíveis soluções que se apontam como capazes de lidar com a actual crise.
A Crise de 2008 e a resposta alemã
O que começou por parecer uma crise financeira localizada, cedo se revelou uma profunda crise económica a nível global. Cada país procurou encontrar soluções. A Alemanha, locomotiva do desenvolvimento europeu, avançou com o programa Kurzarbeit, já referido noutro artigo deste repositório [1]. Em alemão Kurzar significa curto prazo e beit quer dizer cooperação. Trata-se de um programa de redução do tempo de trabalho e dos salários, em vez do clássico lay-off ou mesmo encerramento definitivo da actividade.
“Mais vale um pássaro na mão que dois a voar”, poderá ter sido, eventualmente, a mensagem que passou para os trabalhadores e sindicatos. E pegou.
O conceito, numa sociedade evoluída e rica, é aliciante – os trabalhadores passam a receber até 80% do vencimento se aceitarem reduções de actividade até 50%. Condições adaptáveis ao ramo, portanto. [2]
As empresas na Alemanha já podiam aceder a subsídios governamentais para criação de empregos temporários de seis meses. Em 2009, a novidade foi a extensão deste programa primeiro a 24 meses, depois até Junho de 2011, e, posteriormente até Junho de 2013 nalguns casos.
O programa prevê ajuste e compensações a nível de impostos a pagar tanto pelas empresas como pelos trabalhadores.
Donde vêm as receitas para financiar o programa Kurzarbeit?
Com um programa desta natureza o governo deixa de ter de pagar os subsídios de desemprego que de outra forma teria de suportar caso os trabalhadores viessem a ser despedidos. Estamos a falar de 1.5 milhões de trabalhadores que aderiram ao programa, um número bastante significativo.
Os economistas tipificam as crises como: tipo V, se a queda é rápida e a saída se prevê igualmente rápida e em força; tipo U, quando a queda é rápida e a saída se perspectiva como rápida mas precisando de algum tempo para que ocorra; e tipo L, quando a queda é súbita, e a persistência em baixa não permite vislumbrar se e quando a recuperação virá a ocorrer.
A Alemanha é um país desenvolvido, plena de indústrias evoluídas, com trabalhadores qualificados. Perder conhecimentos por inactividade das forças de trabalho é um perigo evidente – e quando a crise passar recorreremos a quem? Questionaram os industriais. Pressupondo que a actual crise pudesse ser do tipo V ou mesmo U, valia a pena correr o risco de manter postos de trabalho activos capazes de responderem imediatamente quando a procura do mercado recuperasse.
O mesmo raciocínio já não se pode aplicar a economias mais débeis e baseadas em mão-de-obra barata e pouco qualificada como a Espanha e Portugal. Com fortes componentes nas indústrias de construção civil e outras notoriamente a caminho da obsolescência quem poderia apostar em manter postos de trabalho destinados, na prática, ao encerramento. Essa foi a principal razão porque o êxito alemão, ainda por provar se a crise não se resolver rapidamente, não pode ser generalizado.
A questão também é política?
É claro que é.
Trabalhadores ocupados, ainda que com tempos de laboração encurtados e limitados no tempo, evitam problemas sociais e mantêm a dignidade humana a níveis aceitáveis. De facto, não podemos esquecer que vivemos numa sociedade onde o trabalho, para além de fonte de fonte de rendimentos, é um estatuto social. Por outras palavras, uma sociedade onde o “ter” por vezes ultrapassado o “ser”.
Mas, se a solução resultou na Alemanha, país industrializado, de mão-de-obra qualificada, porque não pode ser aplicada nos USA arquétipo da industrialização, onde o desemprego já ameaça os 10%?
A resposta é dada por Paul Krugman num elucidativo artigo inserido na sua coluna “A consciência de um liberal” [3]:
- Alemanha e USA não enfrentam problemas comparáveis: A Alemanha apresenta resultados piores em termos crescimento do PIB, e os USA portam-se pior em termos de controlo do desemprego, e estes dois índices não podem ser analisados um sem o outro, para mais conhecendo-se as tradições laborais americanas;
- “Nem as leis laborais alemãs nem os seus poderosos sindicatos encaram os trabalhadores como custos variáveis, como é prática nos USA”
Sintomática esta frase na boca dum liberal, não é?
_________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-e-o-mundo-alemanha-01.html
[2] A Holanda implementou um programa idêntico designado ATV, ou arbeidstijdverkorting
[3] http://krugman.blogs.nytimes.com/2010/09/02/kurzarbeit/
vitor.trigo@gmail.com
07 Setembro de 2010
Sou de opinião que quem imagina que o capitalismo é um sistema auto-regulável está distante da realidade. Acho que o capitalismo, na sua génese, é um sistema autofágico. Não é sequer necessário recorrer a teses marxistas para lhe advogar esta característica. Basta olhar para a sua história, as cíclicas crises que o assolaram, ou consultar as mais elementares regras dos ciclos económicos.
Ao mesmo tempo, o capitalismo tem revelado uma extraordinária capacidade para superar as crises que o têm insistentemente afectado e alimentar-se delas. É a teoria “risco/recompensa” na sua mais conseguida materialização.
Fora desta reflexão está o interessante sobre se o capitalismo pode ou não reformular-se ou reinventar-se como outros princípios e valores. É este capitalismo, como o conhecemos, que aqui se discute, através de possíveis soluções que se apontam como capazes de lidar com a actual crise.
A Crise de 2008 e a resposta alemã
O que começou por parecer uma crise financeira localizada, cedo se revelou uma profunda crise económica a nível global. Cada país procurou encontrar soluções. A Alemanha, locomotiva do desenvolvimento europeu, avançou com o programa Kurzarbeit, já referido noutro artigo deste repositório [1]. Em alemão Kurzar significa curto prazo e beit quer dizer cooperação. Trata-se de um programa de redução do tempo de trabalho e dos salários, em vez do clássico lay-off ou mesmo encerramento definitivo da actividade.
“Mais vale um pássaro na mão que dois a voar”, poderá ter sido, eventualmente, a mensagem que passou para os trabalhadores e sindicatos. E pegou.
O conceito, numa sociedade evoluída e rica, é aliciante – os trabalhadores passam a receber até 80% do vencimento se aceitarem reduções de actividade até 50%. Condições adaptáveis ao ramo, portanto. [2]
As empresas na Alemanha já podiam aceder a subsídios governamentais para criação de empregos temporários de seis meses. Em 2009, a novidade foi a extensão deste programa primeiro a 24 meses, depois até Junho de 2011, e, posteriormente até Junho de 2013 nalguns casos.
O programa prevê ajuste e compensações a nível de impostos a pagar tanto pelas empresas como pelos trabalhadores.
Donde vêm as receitas para financiar o programa Kurzarbeit?
Com um programa desta natureza o governo deixa de ter de pagar os subsídios de desemprego que de outra forma teria de suportar caso os trabalhadores viessem a ser despedidos. Estamos a falar de 1.5 milhões de trabalhadores que aderiram ao programa, um número bastante significativo.
Os economistas tipificam as crises como: tipo V, se a queda é rápida e a saída se prevê igualmente rápida e em força; tipo U, quando a queda é rápida e a saída se perspectiva como rápida mas precisando de algum tempo para que ocorra; e tipo L, quando a queda é súbita, e a persistência em baixa não permite vislumbrar se e quando a recuperação virá a ocorrer.
A Alemanha é um país desenvolvido, plena de indústrias evoluídas, com trabalhadores qualificados. Perder conhecimentos por inactividade das forças de trabalho é um perigo evidente – e quando a crise passar recorreremos a quem? Questionaram os industriais. Pressupondo que a actual crise pudesse ser do tipo V ou mesmo U, valia a pena correr o risco de manter postos de trabalho activos capazes de responderem imediatamente quando a procura do mercado recuperasse.
O mesmo raciocínio já não se pode aplicar a economias mais débeis e baseadas em mão-de-obra barata e pouco qualificada como a Espanha e Portugal. Com fortes componentes nas indústrias de construção civil e outras notoriamente a caminho da obsolescência quem poderia apostar em manter postos de trabalho destinados, na prática, ao encerramento. Essa foi a principal razão porque o êxito alemão, ainda por provar se a crise não se resolver rapidamente, não pode ser generalizado.
A questão também é política?
É claro que é.
Trabalhadores ocupados, ainda que com tempos de laboração encurtados e limitados no tempo, evitam problemas sociais e mantêm a dignidade humana a níveis aceitáveis. De facto, não podemos esquecer que vivemos numa sociedade onde o trabalho, para além de fonte de fonte de rendimentos, é um estatuto social. Por outras palavras, uma sociedade onde o “ter” por vezes ultrapassado o “ser”.
Mas, se a solução resultou na Alemanha, país industrializado, de mão-de-obra qualificada, porque não pode ser aplicada nos USA arquétipo da industrialização, onde o desemprego já ameaça os 10%?
A resposta é dada por Paul Krugman num elucidativo artigo inserido na sua coluna “A consciência de um liberal” [3]:
- Alemanha e USA não enfrentam problemas comparáveis: A Alemanha apresenta resultados piores em termos crescimento do PIB, e os USA portam-se pior em termos de controlo do desemprego, e estes dois índices não podem ser analisados um sem o outro, para mais conhecendo-se as tradições laborais americanas;
- “Nem as leis laborais alemãs nem os seus poderosos sindicatos encaram os trabalhadores como custos variáveis, como é prática nos USA”
Sintomática esta frase na boca dum liberal, não é?
_________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-e-o-mundo-alemanha-01.html
[2] A Holanda implementou um programa idêntico designado ATV, ou arbeidstijdverkorting
[3] http://krugman.blogs.nytimes.com/2010/09/02/kurzarbeit/
terça-feira, 31 de agosto de 2010
A China e o Mundo - Alemanha 01
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
31 Agosto de 2010
Os europeus sabem, melhor do que ninguém, que a crise económica que nos afectou está longe de se poder declarar vencida. Alguns esperam que a Alemanha ou a França, ou os dois em coordenação de esforços, coloquem de novo o Velho Continente na senda dos êxitos de antigamente. A História não é, e tem-no mostrado bastas vezes, nem simples, nem linear.
Para o cidadão comum, o primeiro alerta surgiu com a bancarrota islandesa. Mas o susto foi a Grécia. A revelação de escândalos financeiros só serviu para tentar explicar aos europeus que a culpa não era do sistema, mas sim de alguns energúmenos, banqueiros, políticos, ou fossem lá quem fossem. O que importa é que a Grécia entrou em incumprimento dos seus deveres com os empréstimos estrangeiros. O pânico de que esta situação alastrasse a outros membros da EU era, e continua a ser, real. O sistema estava a ser perigosamente questionado.
A Grécia precisava de enorme ajuda imediata dos seus parceiros e estes, em especial pela mão de Angela Merkl, mostraram não estar receptivos à ideia de colocar os contribuintes a pagar o que alegavam ser os continuados erros dos gregos. Quando se fala de fundos, de significativas quantias (big money) a razão fica sempre do lado dos poderosos, e nesta arena não há dúvidas – quem actualmente “manda” na EU é a Alemanha.
Por muito que os franceses se queiram colocar em bicos dos pés, os indicadores trimestrais (2T de 2010) ditam a importância dos intervenientes – a França cresceu 0.6%, bastante mais do que a Espanha por exemplo com 0.2%, ao passo que a Alemanha apresentou uns expressivos 2.2.%, o maior valor registado desde a reunificação em 1990 [1] [2].
Releve-se que, para os alemães a questão da reunificação continua a ter um cunho mais “nacional” do que a integração na EU, e, por inerência o dever de resolver problemas alheios, ainda que estes sejam cruciais para a EU – de facto não o são para a invocada questão da reunificação nacional. Se tivessem que optar, a decisão penderia sempre para questões internas. Os alemães ocidentais, antiga República Federal da Alemanha, após a euforia da reunificação, sentiram quanto tiveram de pagar pela integração dos “irmãos de leste” na grande família alemã, e não esquecerão tão cedo esse custo.
Ajudar os “irmãos orientais” foi encarado como um dever. Ajudar os “irmão gregos”, e outros “irmãos” ainda não identificados é impensável. Merkel sabia o que o eleitorado alemão, em especial o ocidental, pensava e não podia hesitar: escolheu o caminho óbvio, rejeitando qualquer hipótese de financiamento a fundo perdido duma Grécia descontrolada e sem evidente capacidade e vontade de se submeter a pesados sacrifícios internos.
Acresce que ao, até ver, conjuntural renascimento da economia alemã, é obrigatório correlacionar o acréscimo das exportações alemãs para a China, em especial no domínio tecnológico. Porquê conjuntural? Porque a economia chinesa parece começar a registar alguns problemas até agora inexistentes [3].
A opinião pública não ficou indiferente a tudo isto, pois nem os políticos nem a comunicação social alemães o permitiram – as campanhas públicas de acusação aos desvarios grego, espanhol, português, e até irlandês e italiano, não se fizeram esperar e foram bem cáusticas.
A EU percebeu a mensagem – os alemães não iriam suportar a situação. Algo teria de mudar, e substancialmente, em especial nos países da zona euro.
Era como se se estivesse a lutar pela sobrevivência da moeda única e da própria EU como entidade soberana e sustentável. Isto despertava, como é óbvio, toda a ordem económica mundial.
A própria Alemanha passou ao exemplo: fortíssimos cortes nas despesas públicas e reformulação de importantes acordos laborais, que incluíam recurso alargado à figura de “contrato a prazo”. Os resultados destas duras medidas – forte contenção salarial, trabalho limitado no tempo, acesso mais difícil a subsídios - não se fizeram esperar. Aí estão os indicadores trimestrais para o provar.
Mas estas medidas não são completa novidade para os alemães. Já o anterior chanceler Schröder, as havia introduzido prometendo resultados sustentáveis que não se vieram a verificar. Daí que a desconfiança de trabalhadores e suas organizações não se fizesse esperar. Os políticos não podiam dar passos em falso, estavam sob vigilância apertada, e Merkel sabia-o.
A forte ligação ao mercado chinês são uma esperança, mas pode esconder perigos. O principal, como é evidente, é a continuação do crescimento chinês ao nível da última década.
A política alemã, no que se refere ao emprego, parece clara – é melhor para o país criar empregos, ainda que precários e subsidiados, do que suportar a catástrofe económica e social do desemprego. Os sindicatos parecem entender que á preferível diminuir horas de laboração do que lançar trabalhadores no desemprego.
A este programa, designado por Kurzarbeit, aderiu 1.5 milhões de assalariados [4], o que é realmente um número que parece atestar da eficácia das medidas adoptadas. Segundo a OCDE este programa têm-se mostrado de grande impacte em especial nas cidades mais pequenas, estimando que ele seja o responsáveis pela manutenção de, pelo menos, 200,000 postos de trabalho, que, doutra forma teriam engrossado o exército de desempregados. Este valor refere-se somente ao terceiro trimestre de 2009.
Numa entrevista ao New York Times [5], o presidente da empresa alemã Shultz, comentou face ao recuo verificado no desemprego na cidade de Memmingen para cerca de 3.4% quando a média nacional de 7.6% [6], o seguinte: “O governo adoptou as medidas correctas (Kurzarbeit) que permitiram ultrapassar uma difícil situação”.
O Sr. Schultz refere-se ao aumento de 28.5% das exportações alemãs registado em Julho deste ano, quando comparadas com o ano anterior. Este é o maior valor verificado desde Outubro de 2008. Um indicador muito animador, que todos aplaudem.
Contudo, a preocupação mantém-se: O que acontecerá se e quando as exportações para a China sofrerem algum revês? O Milagre alemão ficará incólume?
Sobre uma coisa o governo alemão parece ter uma ideia inabalável: para manter a coesão social é preciso continuar a apoiar o programa Kurzarbeit, independentemente das políticas que os parceiros europeus, nomeadamente os do sul, vierem a adoptar. A Irlanda parece ter aprendido a lição e já enveredou por medidas sociais e laborais bem duras [7].
Uma vez mais a Europa parece não querer seguir as medidas do presidente Obama para os USA, considerando-as, como muitos economistas, puras perdas de tempo e dinheiro.
_____________________________________
NOTAS:
[1] Sob o ponto de vista político este acontecimento ganha significado acrescido pelo facto de Angela Merkl ter nascido na ex-Alemanha Oriental. Alguns traumas deixados pelo III Reich não estão ainda completamente superados, nem pelos alemães nem pelos outros europeus.
[2] Neste trimestre a Grécia registou um decréscimo de 1.5%.
[3] Ver outros artigos sobre a China, nomeadamente
[4] Números oficiais de Maio de 2009
[5] http://www.nytimes.com/2010/08/14/world/europe/14germany.html?_r=1&emc=eta1
[6] No momento em que escrevo este texto, a TSF acaba de divulgar os dados do Eurostat sobre o desemprego em Portugal: 11%.
[7] Ver “Irlanda – Ilusões e Desencantos” escrito em 18 Agosto de 2010 e afixado em 31 Agosto de 2010
vitor.trigo@gmail.com
31 Agosto de 2010
Os europeus sabem, melhor do que ninguém, que a crise económica que nos afectou está longe de se poder declarar vencida. Alguns esperam que a Alemanha ou a França, ou os dois em coordenação de esforços, coloquem de novo o Velho Continente na senda dos êxitos de antigamente. A História não é, e tem-no mostrado bastas vezes, nem simples, nem linear.
Para o cidadão comum, o primeiro alerta surgiu com a bancarrota islandesa. Mas o susto foi a Grécia. A revelação de escândalos financeiros só serviu para tentar explicar aos europeus que a culpa não era do sistema, mas sim de alguns energúmenos, banqueiros, políticos, ou fossem lá quem fossem. O que importa é que a Grécia entrou em incumprimento dos seus deveres com os empréstimos estrangeiros. O pânico de que esta situação alastrasse a outros membros da EU era, e continua a ser, real. O sistema estava a ser perigosamente questionado.
A Grécia precisava de enorme ajuda imediata dos seus parceiros e estes, em especial pela mão de Angela Merkl, mostraram não estar receptivos à ideia de colocar os contribuintes a pagar o que alegavam ser os continuados erros dos gregos. Quando se fala de fundos, de significativas quantias (big money) a razão fica sempre do lado dos poderosos, e nesta arena não há dúvidas – quem actualmente “manda” na EU é a Alemanha.
Por muito que os franceses se queiram colocar em bicos dos pés, os indicadores trimestrais (2T de 2010) ditam a importância dos intervenientes – a França cresceu 0.6%, bastante mais do que a Espanha por exemplo com 0.2%, ao passo que a Alemanha apresentou uns expressivos 2.2.%, o maior valor registado desde a reunificação em 1990 [1] [2].
Releve-se que, para os alemães a questão da reunificação continua a ter um cunho mais “nacional” do que a integração na EU, e, por inerência o dever de resolver problemas alheios, ainda que estes sejam cruciais para a EU – de facto não o são para a invocada questão da reunificação nacional. Se tivessem que optar, a decisão penderia sempre para questões internas. Os alemães ocidentais, antiga República Federal da Alemanha, após a euforia da reunificação, sentiram quanto tiveram de pagar pela integração dos “irmãos de leste” na grande família alemã, e não esquecerão tão cedo esse custo.
Ajudar os “irmãos orientais” foi encarado como um dever. Ajudar os “irmão gregos”, e outros “irmãos” ainda não identificados é impensável. Merkel sabia o que o eleitorado alemão, em especial o ocidental, pensava e não podia hesitar: escolheu o caminho óbvio, rejeitando qualquer hipótese de financiamento a fundo perdido duma Grécia descontrolada e sem evidente capacidade e vontade de se submeter a pesados sacrifícios internos.
Acresce que ao, até ver, conjuntural renascimento da economia alemã, é obrigatório correlacionar o acréscimo das exportações alemãs para a China, em especial no domínio tecnológico. Porquê conjuntural? Porque a economia chinesa parece começar a registar alguns problemas até agora inexistentes [3].
A opinião pública não ficou indiferente a tudo isto, pois nem os políticos nem a comunicação social alemães o permitiram – as campanhas públicas de acusação aos desvarios grego, espanhol, português, e até irlandês e italiano, não se fizeram esperar e foram bem cáusticas.
A EU percebeu a mensagem – os alemães não iriam suportar a situação. Algo teria de mudar, e substancialmente, em especial nos países da zona euro.
Era como se se estivesse a lutar pela sobrevivência da moeda única e da própria EU como entidade soberana e sustentável. Isto despertava, como é óbvio, toda a ordem económica mundial.
A própria Alemanha passou ao exemplo: fortíssimos cortes nas despesas públicas e reformulação de importantes acordos laborais, que incluíam recurso alargado à figura de “contrato a prazo”. Os resultados destas duras medidas – forte contenção salarial, trabalho limitado no tempo, acesso mais difícil a subsídios - não se fizeram esperar. Aí estão os indicadores trimestrais para o provar.
Mas estas medidas não são completa novidade para os alemães. Já o anterior chanceler Schröder, as havia introduzido prometendo resultados sustentáveis que não se vieram a verificar. Daí que a desconfiança de trabalhadores e suas organizações não se fizesse esperar. Os políticos não podiam dar passos em falso, estavam sob vigilância apertada, e Merkel sabia-o.
A forte ligação ao mercado chinês são uma esperança, mas pode esconder perigos. O principal, como é evidente, é a continuação do crescimento chinês ao nível da última década.
A política alemã, no que se refere ao emprego, parece clara – é melhor para o país criar empregos, ainda que precários e subsidiados, do que suportar a catástrofe económica e social do desemprego. Os sindicatos parecem entender que á preferível diminuir horas de laboração do que lançar trabalhadores no desemprego.
A este programa, designado por Kurzarbeit, aderiu 1.5 milhões de assalariados [4], o que é realmente um número que parece atestar da eficácia das medidas adoptadas. Segundo a OCDE este programa têm-se mostrado de grande impacte em especial nas cidades mais pequenas, estimando que ele seja o responsáveis pela manutenção de, pelo menos, 200,000 postos de trabalho, que, doutra forma teriam engrossado o exército de desempregados. Este valor refere-se somente ao terceiro trimestre de 2009.
Numa entrevista ao New York Times [5], o presidente da empresa alemã Shultz, comentou face ao recuo verificado no desemprego na cidade de Memmingen para cerca de 3.4% quando a média nacional de 7.6% [6], o seguinte: “O governo adoptou as medidas correctas (Kurzarbeit) que permitiram ultrapassar uma difícil situação”.
O Sr. Schultz refere-se ao aumento de 28.5% das exportações alemãs registado em Julho deste ano, quando comparadas com o ano anterior. Este é o maior valor verificado desde Outubro de 2008. Um indicador muito animador, que todos aplaudem.
Contudo, a preocupação mantém-se: O que acontecerá se e quando as exportações para a China sofrerem algum revês? O Milagre alemão ficará incólume?
Sobre uma coisa o governo alemão parece ter uma ideia inabalável: para manter a coesão social é preciso continuar a apoiar o programa Kurzarbeit, independentemente das políticas que os parceiros europeus, nomeadamente os do sul, vierem a adoptar. A Irlanda parece ter aprendido a lição e já enveredou por medidas sociais e laborais bem duras [7].
Uma vez mais a Europa parece não querer seguir as medidas do presidente Obama para os USA, considerando-as, como muitos economistas, puras perdas de tempo e dinheiro.
_____________________________________
NOTAS:
[1] Sob o ponto de vista político este acontecimento ganha significado acrescido pelo facto de Angela Merkl ter nascido na ex-Alemanha Oriental. Alguns traumas deixados pelo III Reich não estão ainda completamente superados, nem pelos alemães nem pelos outros europeus.
[2] Neste trimestre a Grécia registou um decréscimo de 1.5%.
[3] Ver outros artigos sobre a China, nomeadamente
[4] Números oficiais de Maio de 2009
[5] http://www.nytimes.com/2010/08/14/world/europe/14germany.html?_r=1&emc=eta1
[6] No momento em que escrevo este texto, a TSF acaba de divulgar os dados do Eurostat sobre o desemprego em Portugal: 11%.
[7] Ver “Irlanda – Ilusões e Desencantos” escrito em 18 Agosto de 2010 e afixado em 31 Agosto de 2010
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