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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

CHINA – Medidas contra a ameaça de inflação (2) - Na Casa e na Alimentação

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
22 Dezembro de 2010

Na China tudo tem enormes dimensões e acontece muito depressa. A 20 de Novembro, e com base nos indicadores que foram dados a conhecer pelas autoridades chinesas no mês anterior, questionei-me sobre os reais impactes que a inflação desregrada poderia trazer a este gigante durante tanto tempo adormecido. Terminei o artigo dizendo que o início de 2011 nos iria trazer importantes novidades neste domínio. Mal poderia imaginar que um dia após, teria de voltar ao tema face às medidas que o poder acabara de anunciar para tentar controlar a subida generalizada dos preços que ameaçavam desestabilizar a nação.

E aqui estou de novo, ainda antes do fecho de 2010, reflectindo sobre tão importante questão. Os dados mais recentes sobre o aumento das despesas domésticas confirmam as preocupações com o agravamento da situação.


As despesas fixas de Liu Qi

A versão em Inglês do diário Sina publicou há quase um ano – 21 de Janeiro de 2010 – um interessante artigo sobre o aumento de preços na China, recorrendo ao exemplo de Liu Qi, uma jovem de 29 anos empregada há oito numa empresa de publicidade em Pequim.

Naquela quinta-feira, Liu Qi gastara 80 yuans (11.7 US$, 9 €) no supermercado – metade em comida, metade em necessidades diárias. Esta jovem que dispunha de 6500 yuans mensais, supostamente já deduzidos de impostos, afirmou gastar mensalmente 1200 yuans em comida, 1300 em alojamento e despesas associadas, 1000 a jantar fora e diversões com amigos, 500 em roupa, e 200 em comunicações de telemóvel, sobrando-lhe assim 2300 yuans, o equivalente a 260 €. A sua principal preocupação consistia em como juntar dinheiro para comprar uma casa.


O preço das casas na China

Na Segunda Circular de Pequim, em 2009, o preço de venda das casas em segunda mão aumentara 43% e os alugueres 5% em média, segundo o artigo citado. Esta não será a regra no imenso e muito diversificado território chinês, mas é um exemplo real.

Desde Fevereiro de 2009 que os protestos populares por causa desta cavalgada de preços vinham preocupando as autoridades, que implementaram novas regras para o sistema bancário, quer pela via fiscal quer pelos empréstimos concedidos a este tipo de negócio. Os resultados não se fizeram esperar, e o efeito directo sobre a inflação já foi praticamente insignificante em Novembro. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) deverá fixar-se entre 3 e 4% em 2010, ano sobre ano.

Contudo, as despesas de habitação incluem outras rubricas para além do aluguer ou da amortização, como a água, a electricidade, e os custos de manutenção. O National Bureau of Statistics (NBS) calcula assim a evolução do peso das despesas com a habitação no cabaz IPC – 9.7% em 2000, 13.2% em 2006, estimando 13.6% para 2010 (a rubrica custos de aquisição de habitação não faz parte do cabaz IPC).

Apesar da tradicional falta de informações oficiais na China, os analistas não oficiais calculam que as pessoas como Liu Qi gastem com a habitação cerca de 20% dos seus rendimentos, longe dos 13.6% referidos pelo NBS.


A evolução dos preços no mercado

Segundo o Xiong Peng, analista sénior do Bank of Communications (BOC), os preços dos alimentos subiram 5.3% em Dezembro de 2009, o que justificou um agravamento de 1.74% no IPC. Os alugueres da casa ao subirem 1.5% foram responsáveis pelo crescimento de 0.21% do IPC.

O governo tem, portanto, pela frente duas frentes de batalha prioritárias para travar a inflação – Imobiliário e Alimentação.

Ao impor o reforço das reservas bancárias para 18%, o governo pensa que as concessões de crédito passarão a ser mais rigorosas. Dito doutra forma, dificultarão as acções especulativas nos domínios imobiliário e commodities, apesar de se saber que este tipo de medidas não é do agrado dos investidores, podendo mesmo vir a originar alguma desaceleração no crescimento económico .

Consideram os economistas que foi o excesso de liquidez, associado a deficientes políticas monetárias nos últimos oito anos, que fomentaram a especulação e trouxeram a inflação para níveis indesejáveis. O aumento dos custos de produção e a política de juros negativos, encarregaram-se do resto.


Os receios dos investidores

Os investidores não gostam de medidas disciplinadoras. Temem-nas, e é isso que está a acontecer.

Quem investe antecipa-se, não espera para reagir. E, de facto, a maioria dos analistas prevê que as taxas de crescimento da ordem dos 12% não voltarão a verificar-se, embora se pense que poderão rondar 7 a 8% durante a próxima década, um valor ainda muito elevado, atendendo a que, quanto mais uma economia cresce, mais difícil será manter as taxas de crescimento.

Mas todos estão cientes que forçar o aumento das reservas financeiras dos bancos, subir os juros, e controlar alguns preços cruciais não é suficiente, nem estruturante.


A bolha imobiliária está escondida?

Há uns meses, correu a notícia, entretanto desmentida pelas empresas de energia, que poderiam existir 64.5 milhões de habitações não ocupadas . O fundamento de tal estimativa baseava-se no não consumo de electricidade nessas casas por seis meses consecutivos. A ser verdade, isto significaria duas coisas – oferta de habitação não correspondida para cerca de 200 milhões de pessoas (um número, de facto, impressionante), e, ou os preços estariam propositadamente inflacionados, ou desadequados face às reais capacidades dos potenciais compradores.

Será que os actuais proprietários estão a apostar no aumento da inflação, esperando por melhor altura para venderem os apartamentos? Mas, esta opção tende a provocar, ela mesma, uma espiral inflacionista. Se não venderem pelo preço que pretendem, poderão vir a alugá-los por rendas mais elevadas, influenciando assim negativamente o IPC.

Contudo, e comparando com situação semelhante noutros países – USA, Islândia, Irlanda, UK, Espanha, etc. - onde ocorreram bolhas imobiliárias com as nefastas consequências que se conhecem, os analistas apreçam-se a estabelecer a diferença: na China não existe o perigo de bolha imobiliária em preços, mas pode haver em quantidade.

A história tem mostrado, que quando estas bolhas crescem juntas, os efeitos podem ser devastadores. O exemplo do Sudoeste Asiático na década de 1990 e de Taiwan nos finais de 1980, ainda estão bem presentes. Bem como os efeitos da bolha de preços americana que desencadeou a actual crise económica global, que ainda parece longe de estar superada.

Uma crise chinesa neste domínio, nos tempos mais próximos, poderia ter consequências avassaladoras a nível global.


A habitação na China é, de facto, um caso diferente

Tem-se construído imenso na China nos últimos anos. Calcula-se (sempre a mesma carência de informações fidedignas), que se tenham construído perto de 60 milhões de apartamentos privados nos últimos 10 anos. Actualmente, crê-se que estejam em construção mais cerca de 20 milhões de habitações particulares, e que as administrações locais e governamentais estejam a construir outros 20 a 30 milhões.

Nos últimos anos, cerca de 1000 milhões de metros quadrados habitáveis foram reconstruídos, faltando ainda proceder de igual forma sobre os 9000 milhões que continuam em condições insustentáveis para vida digna.

Não são só as autoridades políticas que estão envolvidas neste gigantesco processo, mas também as empresas que constroem para os seus trabalhadores habitarem, como no passado. Apesar disso, calcula-se que cerca de 200 milhões de trabalhadores migrantes, deslocados do interior para as periferias dos grandes aglomerados industrias e urbanos, continuem a viver em dormitórios subterrâneos, geralmente uma só divisão sem janelas. Um expediente a que muitos jovens recorrem em início de carreira.


As novas habitações chinesas

Calcula-se que, em 2009, a venda de casas novas na China, tenha representado mais de 14% do PIB – uma cifra impressionante. Surpreendente, também, é a dimensão média per capita dos novos apartamentos na maioria das cidades - entre 28 a 30 metros quadrados. Este valor situa-se entre as posições 148 e 153 da lista de 355 cidades mundiais, superando por exemplo, Las Palmas, Nápoles, Varsóvia, São Peterburgo, Zagreb, Belgrado, Gdansk, ou Budapeste.

Mesmo que o valor estimativo de 64.5 milhões de apartamentos desocupados, esteja errado, e que só metade deles se encontre nessa situação, isso equivale a cerca de 20% de todos os domicílios urbanos. Num mercado em tão rápida mutação, e com tantos cidadãos a deslocarem-se para outras localizações, esta taxa não se pode considerar anormal.

A questão muda de figura, se esta oferta estiver, de facto, distante da procura efectiva, e desadequada para o cidadão comum.

Os governos locais, altamente endividados por força dos investimentos que fizeram para atrair capitais, precisam das receitas provenientes das trocas imobiliárias. Especula-se, pois não se conhecem dados oficiais, que os governos locais e regionais tenham, em média, receitas correspondentes a 20% das dívidas acumuladas. Se as receitas do imobiliário não entrarem, só há uma alternativa – reduzir despesas. E sabe-se como os políticos são avessos a este caminho.


A renovação política

Dentro de menos de dois anos, a China irá para eleições. Os actuais dirigentes políticos darão lugar a uma nova classe de quadros, cada vez mais distantes dos valores que conduziram Mao e o Partido Comunista ao poder em 1 de Outubro de 1949. Possuem cada vez mais mentalidade capitalista.

Pelo que ficou exposto, conclui-se que se exigem medidas estruturantes. Os dirigentes chineses, que já deram imensas provas de serem exímios planeadores, sabem que adiar soluções pode custar muito caro, incluindo contestação social ao regime, se a economia interromper o ritmo de crescimento das duas últimas décadas.

Mas todos sabemos, também, como os políticos são avessos a tomar medidas impopulares antes de eleições.

Alguns perigos se vislumbram no horizonte, portanto. E não só para a China.

O que lá vier a acontecer interessará ao mundo inteiro.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CHINA – O “boom” do consumo interno visto pelos estrangeiros

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
08 Novembro de 2010

Em artigo anterior, “China “forçada” a dinamizar o consumo interno” [1], abordámos a importante alteração estratégica da China no sentido do crescimento sustentável, nele se tendo salientado que os gastos dos consumidores baixaram 15 pontos percentuais em relação ao PIB de 1990, passando de 45% para 30%. Referiu-se também que a China é um país com grandes assimetrias em termos de custo de vida.

Mercado gigantesco com grandes assimetrias

Estima-se que existam na China cerca de 250 milhões de famílias com rendimentos superiores a 1,000 US$ anuais, e cerca de 50 milhões com mais de 3,500 US$ [2] [3]. Estes números não são, naturalmente, exactos, como a própria Mckinsey noutro estudo refere quando revela que na China, o PIB per capita foi, em 2003 de 1,300 US$, ou seja, o equivalente a 5,000 US$, quando ajustado pela paridade do poder de compra [4]. De acordo com este estudo mais recente, em 2010, 40 milhões de famílias auferirão mais de 48,000 yuans anuais (ao câmbio, 6,000 US$), mas que equivalerá a cerca de 24,000 US$ em termos de paridade de poder de compra no estilo de vida americano. Estamos, portanto, perante valores que qualificam uma família de classe média nos USA.
Contudo, estamos a falar dum país imenso e duma população três vezes superior à Europa e seis vezes os USA. Se em Xangai o PIB per capita é cerca de 5,600 US$, em Chongqing, no interior, este valor baixa para um quinto – 1,100 US$ [5]. Percebe-se porque alguns empresários que afirmam que a China é uma nação, mas não é um mercado. Sendo muitos, então a apetência dos estrangeiros vira-se para os segmentos Premium, deixando os segmentos inferiores e médios entregues às empresas locais, o que não é difícil dados os preços praticados justificados pelos baixos custos. E, neste domínio, está o grande problema – os custos de produção na China estão a aumentar [6].
As empresas chinesas têm sabido tirar partido desta vantagem competitiva e, ao aprenderem com as técnicas comerciais estrangeiras, apresentam crescimento nos seus próprios mercados e mesmo em segmentos onde os estrangeiros eram maioritários (higiene e alimentação empacotada, por exemplo). É claro que as marcas internacionais não estando interessadas em canibalizar as suas marcas premium, preferem não arriscar guerras de preços. Fica a dúvida se realmente têm, nestas condições, alguma hipótese de competir.

Uma complexa cadeia de valor

Em Fevereiro de 2007, a IBM Corporation, apoiada num inquérito conduzido pela The Intelligence Unit da The Economist [7], num artigo intitulado Winning in China’s mass markets, elencou os principais problemas da cadeia de valor chinesa que constituem obstáculos às operações das multinacionais naquele país:
• Centralização – O passado centralista da sociedade chinesa, a que se juntam deficientes infra-estruturas, é considerado importante obstáculo à eficiência das operações;
• Distribuição – Demasiados níveis de distribuição, com muitos distribuidores nacionais, regionais, e locais, com pouco valor acrescentado entropiam o sistema;
• Gestão – limitada previsão, altos níveis de stocks, custos logísticos que chegam ao dobro do normal (por vezes 10% das vendas [8]), sendo habitual (77% das empresas) apresentarem benchmarks inferiores à concorrência [9], e, pior que tudo, devido ao elevado número de intermediários, incapacidade de estudar os clientes.
Daqui decorrem os riscos inerentes ao tempo necessário para ir da fábrica ao ponto de venda e a propensão para encontrar alguém, familiares ou amigos, que possam facilitar o processo.
Que alternativas se colocam, então?
• Alternativa #1 – Online e Televendas
Em 2007, as vendas por este canal atingiram 700 milhões de US$, valor igual ao melhor dia de vendas semelhantes nos USA, embora se tenha registado crescimento anual de 34% [10].
Este canal debate-se com a desconfiança dos chineses, mas pode crescer muito devido aos avultados investimentos em curso no domínio das comunicações.
A UPS e a PGL já têm operações significativas na China.
• Alternativa #2 – Lojas próprias
Sós ou em parceria, esta modalidade parece estar a ganhar adeptos. A Motorola, por exemplo, optou lojas próprias na cadeia Gome.
• Alternativa #3 – Vendas directas
Esta é a opção predilecta para produtos Premium e acesso a clientes-chave nas cidades níveis 1 e 2 [11]. A Amway, por exemplo, criou uma rede de mais de 200,000 agentes em 180 cidades.
• Alternativa #4 – Retalhistas Directos
É um canal em franca expansão quer por parte dos nacionais (Suning e Gome), como dos estrangeiros (Wal-Mart, Carrefour), com a enorme vantagem de reduzir os intermediários. Preferem instalar-se na periferia das cidades níveis 1 e 2 [11].

Os próximos passos

Como referido o caminho mais normal passará pelo encurtamento dos canais de distribuição. Mas o enfoque principal deverá passar pelo interesse sobre as cidades níveis 3 a 5 [12]. É previsível que os investidores optem por encurtar o mais possível a linha de abastecimentos dos pontos de venda, com forte atenção às práticas de venda, na logística, na terciarização, no outsourcing especializado, e na melhoria dos canais de informação.
O desejado aumento das vendas, das receitas, e dos lucros, deverá passar pela eficácia do acto de venda, longe do tradicional relacionamento excessivo dos chineses (“guanxi”), algo que não faz parte do rol de preferências dos investidores estrangeiros.
Noutros domínios se verificarão importantes apostas:
• Investigação & Desenvolvimento
Desenvolvimento de novos produtos de qualidade orientados para as características das populações chinesas, adaptados aos canais de distribuição, e compatíveis com a evolução dos níveis de vida. Os investimentos estrangeiros nesta área, insignificantes em 2001, atingiram em 2006 4 biliões de US$, com cerca de 750 a operarem regularmente [13].
A pressão para a disponibilização de produtos de qualidade a baixo custo pode ser ilustrada com os recentes anúncios de PCs da Lenovo (PCs a menos de 100 US$), que adquiriu a divisão de PCs da IBM em 2005. Releve-se que esta tendência não é exclusivo da China, como, por exemplo, a Tata fez na Índia ao decidir produzir um carro para 4 pessoas por menos de 3,000 US$ [14].
• Fornecedores locais
Os departamentos de compras estão a assumir lugar fundamental na nova estratégias de criação de valor, procurando encontrar junto de fornecedores locais, e de acordo com especificações locais, as componentes de que necessitam para a assemblagem e transformação dos produtos finais. Números oficiais revelam que esta fonte, já em 2006, representava 600 biliões de US$ (cerca de 9% da produção chinesa, prevendo-se que esta valor possa aumentar para 14% em 2009) [15].
• Recursos Humanos
Em 2005, a American Chamber of Commerce in China identificou os recursos humanos como a questão crucial a resolver para o desenvolvimento das vendas na China [16]. O requisito era claro - as empresas exigiam não só as pessoas certas, mas também bastante
pessoas em locais diferentes para colocarem no terreno mercados em massa, de altos volumes e baixos custos.
O paradoxo afigurava-se evidente – como seria possível estarem perante semelhante problema numa população de 1.3 mil milhões de pessoas? Para mais, em 2006, a China havia produzido 4.13 milhões de licenciados com formação em matemática e engenharia [17]. A verdadeira questão só poderia ser a identificação, acompanhamento, e orientação de talentos, porque falta não haveria, por certo. A má notícia foi a constatação de insuficiente preparação destes licenciados para os negócios, nomeadamente para servirem em multinacionais. A McKinsey chegou mesmo a concluir que só 10% destes recursos seriam aproveitáveis a curto prazo neste domínio [18].
Assim sendo, e perante outro dado entretanto verificado – os elevados níveis de rotação destes profissionais qualificados – forma accionadas as seguintes medidas:
1. Recrutamentos em massa
2. Adequado controlo salarial
3. Aposta nas cidades de nível 3 a 5 [12]
4. Especial atenção à formação de supervisores de vendas, marketing, compras, I&D, e gestão de canal
5. Implementação de programas de coaching, mentoring, e sistemas de recompensa
É desta forma que a China está paulatina e sistematicamente a percorrer, com a gestão do tempo que nós ocidentais temos alguma dificuldade a entender, o que identificou como “o caminho das pedras”.

“A longa viagem começa por um passo”, como diz o provérbio chinês.


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NOTAS:

[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/china-forcada-dinamizar-o-consumo.html
[2] https://www.mckinseyquarterly.com/Encouraging_consumer_spending_in_China_1555
[3] Para um ideia do que significam realmente estes valores expressos em yuans, pode-se multiplicar por 4, isto é, 1,000 US$ (ao câmbio oficial) na China representam poder de compra de 4,000 US$ nos USA.
[4] https://www.mckinseyquarterly.com/Retail_Consumer_Goods/Sectors_Regions/Marketing_to_Chinas_consumers_1472
[5] China Regional Statistical Reports, reproduzidos pela Mckinsey
[6] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/estrategia-economica-chinesa-ensaia.html
[7] Pdf em http://www-900.ibm.com/cn/services/bcs/iibv/
[8] Butner, Karen. “Follow the leaders: Scoring high on the supply chain maturity model.” IBM Institute for Business Value. September 2005. http://www-935.ibm.com/services/us/index.wss/ibvstudy/imc/a1020839?cntxt=a1005268#1
[9] idem
[10] “China B2C Market Size Will Reach RMB 18.83 Billion in 2010.” Analysys
International. Jan 2007. http://english.analysys.com.cn/3class/detail.php?advertisement=002&id=261&name=report&FocusAreaTitleGB=&daohang=Report&title=
[11] Cidades de nível 1 e 2 são 25 (1-4 e 2-21), onde habita 9% da população (119 milhões de pessoas), que geram 34% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 16 e 30 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 24%, e 78% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[12] Cidades de nível 3 a 5 são 306 (3-19, 4-77, 5-209). Nelas habita 18% da população (239 milhões de pessoas), que geram 43% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 11 e 21 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 12%, e 56% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[13] Ministry of Commerce statistics. June 2006.
http://www.mofcom.gov.cn/aarticle/i/jyjl/l/200610/20061003365128.html
[14] “Car making in India, a different route.” Economist. December 13, 2006. http://economist.com/displayStory.cfm?story_id=8413155.
[15] “Novartis to Establish Drug R&D Center in China.” Wall Street Journal. November 6, 2006.
http://online.wsj.com/article/SB116277366653714013.html?mod=health_hs_pharmaceuticals_biotech
[16] “The AmCham-China White Paper: American Business in China.” The American Chamber of Commerce of the People’s Republic of China. May 16, 2006.
http://www.amchamchina.org.cn/amcham/show/content.php?Id=1570&menuid=&submid=
[17] 2005 National Statistics Bureau of China. October 19, 2006.
http://english.peopledaily.com.cn/200610/29/eng20061029_316147.html
[18] Farrell, Diana. “China’s looming talent shortage.” McKinsey Quarterly. November 2005.
http://www.mckinsey.com/mgi/publications/Chinatalent.asp

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

CHINA - A Política de Filho Único

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
24 Setembro de 2010

Porquê revisitar este tema em 2010?

Este artigo é dedicado à política de Filho Único na China, país que acolhe cerca de 19.7% da população mundial (1.3 biliões de pessoas). Neste ano de 2010 encerra-se mais um ciclo de cinco anos do programa Filho Único, que teve se iniciou em 1979.
Na China, e no exterior, reacendeu-se o debate sobre o tema. Veja-se, por exemplo, como a imprensa portuguesa de hoje lhe dedica atenção [1].

A Política de Filho Único na China

Muita gente se recordará do programa que a China implementou em 1979 para que as famílias só tivessem um filho. Na altura o país atingira a perigosa fasquia dos mil milhões de cidadãos, e o Partido Comunista Chinês encarregou o seu líder e chefe do governo, Deng Xiaoping, de elaborar um programa capaz de travar este perigoso crescimento.
Note-se que, em 1950, a população da China era 563 milhões, e em 1979, 972 milhões (crescimento de 72.65%) [2]. Tal taxa de crescimento era impossível de suportar. Muitos erros foram cometidos, numerosos crimes contra os direitos humanos, das mulheres em especial foram denunciados, incluindo acusações de abortos e esterilizações forçadas após a primeira gravidez. Contudo, feitas as contas, os grandes objectivos do programa foram alcançados. No entanto, estas medidas só se mostraram eficazes entra as populações urbanas, pois, na prática, não foram aplicadas aos aglomerados do imenso interior, nem às minorias urbanas não pertencentes à etnia Han [3].
O que foi, no seu início, um programa transformou-se numa política. E em 2006, as autoridades anunciaram a extensão do programa por mais 5 anos (2006-2010). Ainda hoje, por exemplo em Pequim, um casal que opte por ter um segundo filho incorre numa multa até 10 vezes o rendimento anual médio individual, o que ultrapassa 250.000 yuan (29.000 euros) [4]. Uma dura pena.
Embora, as estatísticas actuais indiquem que o número de chineses ascende a cerca de 1.3 biliões, estima-se que o programa Filho Único tenha evitado, nos primeiros vinte anos, 300 milhões de nascimentos, quase a população total dos USA (304 milhões), o dobro da Rússia (141 milhões), e quase tanto quanto o número total de alemães, franceses, ingleses, italianos, e espanhóis juntos (83, 64, 61, 58, e 46 milhões, respectivamente) [5].
Naturalmente que estas medidas arrastam consequências colaterais. Ressaltam por exemplo, o estigma que recaiu sobre os bebés femininos, e o desequilíbrio de géneros na população – quando seriam de esperar, em condições naturais, que para cada 100 mulheres existissem 105 homens, na China a proporção é actualmente de para cada 100 mulheres existam 114 homens. O futuro revelará qual o impacte real deste desvio.

Acertos à política de Filho Único

De repente (de facto, nada acontece de repente nesta sociedade ávida de planeamento), a China apercebeu-se de que se aproximava a altura em que se iria debater com questões de envelhecimento médio da população, e tomou medidas. Hoje, por exemplo, já é permitido a um casal que não tenha irmãos, ter dois filhos.
Considera-se que a taxa de fertilidade que corresponde à reposição estável da população é 2.1 – as mulheres, em média, devem ter 2.1 filhos. 2.05 é o valor da taxa de fertilidade nos USA. Na Alemanha, sempre mencionada quando se referem números sobre a China (por ser considerada como o motor da UE, e por ter perdido no segundo trimestre deste ano o segundo lugar das economias mais fortes, exactamente para a China), este valor é 1.41. Na China ainda está nos 1.79, mas suficientemente baixo para ter feito soar a campaínha em Pequim. Note-se que na década de 1970 o número de filhos por mulher era 4 [6].
A situação não está ainda estabilizada. Por exemplo, nalgumas regiões consta que alguns funcionários tenham sido ameaçados, ou mesmo mortos, por tentativa de obrigarem mulheres a abortar (o aborto é legal na China), e perseguições às famílias que não respeitaram a lei Filho Único. Algumas fontes denunciam, por outro lado, a existência de redes organizadas, tanto na China como nos USA, que cobram significativas quantias para que mulheres chinesas tenham filhos nos USA [7]. Desta forma, nascidos nos USA as crianças terão acesso facilitado aos estudos neste país, e as mães chinesas podem voltar a casa livres do alcance da lei do Filho Único. Obviamente, que este expediente só está ao alcance de famílias com posses, algo que não pára de crescer na China actual.

O compromisso oficial de 2006

O governo chinês, em 2006, através de Zhang Weiqing, Ministro da Comissão Nacional para a População e Planeamento Familiar, reafirmou, contudo, o total compromisso da China com a lei Filho Único, ao anunciar que ela continuaria para sempre, embora estivesse somente a anunciar a sua extensão para os 5 anos que se seguiam. [8]
Veremos o que as autoridades chinesas anunciarão para 2011 e seguintes. O mundo está atento e a China começa a ver no fim desta política a possibilidade de evitar o envelhecimento da população.

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NOTAS:

[1] http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=470442
[2] http://www.census.gov/cgi-bin/broker
[3] Para uma breve história da política Filho Único, consultar o interessante artigo da TIME: A BRIEF HISTORY OF China's One-Child Policy em 27 Julho de 2009 http://www.time.com/time/world/article/0,8599,1912861,00.html
[4] Estas agências cobram entre 90.000 yuan (10.500 euros) e 120.000 yuan (14.000 euros), segundo indicou o Global Times, uma publicação do grupo Diário do Povo, órgão central do Partido Comunista Chinês: http://sic.sapo.pt/online/arquivo/2010/9/mundo/1/Milhares+de+chinesas+vao+dar+a+luz+nos+Estados+Unidos+todos+os+anos.htm
[5] http://www.census.gov/ipc/www/idb/
[6] http://www.pime.org.br/mundoemissao/demografiaunico.htm
[7] http://sic.sapo.pt/online/arquivo/2010/9/mundo/1/Milhares+de+chinesas+vao+dar+a+luz+nos+Estados+Unidos+todos+os+anos.htm. De facto, esta situação repete-se em cerca de 30 países, mas é nos USA que tem a sua expressão mais representativa.
[8] http://geography.about.com/od/populationgeography/a/onechild.htm