Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
22 Dezembro de 2010
Na China tudo tem enormes dimensões e acontece muito depressa. A 20 de Novembro, e com base nos indicadores que foram dados a conhecer pelas autoridades chinesas no mês anterior, questionei-me sobre os reais impactes que a inflação desregrada poderia trazer a este gigante durante tanto tempo adormecido. Terminei o artigo dizendo que o início de 2011 nos iria trazer importantes novidades neste domínio. Mal poderia imaginar que um dia após, teria de voltar ao tema face às medidas que o poder acabara de anunciar para tentar controlar a subida generalizada dos preços que ameaçavam desestabilizar a nação.
E aqui estou de novo, ainda antes do fecho de 2010, reflectindo sobre tão importante questão. Os dados mais recentes sobre o aumento das despesas domésticas confirmam as preocupações com o agravamento da situação.
As despesas fixas de Liu Qi
A versão em Inglês do diário Sina publicou há quase um ano – 21 de Janeiro de 2010 – um interessante artigo sobre o aumento de preços na China, recorrendo ao exemplo de Liu Qi, uma jovem de 29 anos empregada há oito numa empresa de publicidade em Pequim.
Naquela quinta-feira, Liu Qi gastara 80 yuans (11.7 US$, 9 €) no supermercado – metade em comida, metade em necessidades diárias. Esta jovem que dispunha de 6500 yuans mensais, supostamente já deduzidos de impostos, afirmou gastar mensalmente 1200 yuans em comida, 1300 em alojamento e despesas associadas, 1000 a jantar fora e diversões com amigos, 500 em roupa, e 200 em comunicações de telemóvel, sobrando-lhe assim 2300 yuans, o equivalente a 260 €. A sua principal preocupação consistia em como juntar dinheiro para comprar uma casa.
O preço das casas na China
Na Segunda Circular de Pequim, em 2009, o preço de venda das casas em segunda mão aumentara 43% e os alugueres 5% em média, segundo o artigo citado. Esta não será a regra no imenso e muito diversificado território chinês, mas é um exemplo real.
Desde Fevereiro de 2009 que os protestos populares por causa desta cavalgada de preços vinham preocupando as autoridades, que implementaram novas regras para o sistema bancário, quer pela via fiscal quer pelos empréstimos concedidos a este tipo de negócio. Os resultados não se fizeram esperar, e o efeito directo sobre a inflação já foi praticamente insignificante em Novembro. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) deverá fixar-se entre 3 e 4% em 2010, ano sobre ano.
Contudo, as despesas de habitação incluem outras rubricas para além do aluguer ou da amortização, como a água, a electricidade, e os custos de manutenção. O National Bureau of Statistics (NBS) calcula assim a evolução do peso das despesas com a habitação no cabaz IPC – 9.7% em 2000, 13.2% em 2006, estimando 13.6% para 2010 (a rubrica custos de aquisição de habitação não faz parte do cabaz IPC).
Apesar da tradicional falta de informações oficiais na China, os analistas não oficiais calculam que as pessoas como Liu Qi gastem com a habitação cerca de 20% dos seus rendimentos, longe dos 13.6% referidos pelo NBS.
A evolução dos preços no mercado
Segundo o Xiong Peng, analista sénior do Bank of Communications (BOC), os preços dos alimentos subiram 5.3% em Dezembro de 2009, o que justificou um agravamento de 1.74% no IPC. Os alugueres da casa ao subirem 1.5% foram responsáveis pelo crescimento de 0.21% do IPC.
O governo tem, portanto, pela frente duas frentes de batalha prioritárias para travar a inflação – Imobiliário e Alimentação.
Ao impor o reforço das reservas bancárias para 18%, o governo pensa que as concessões de crédito passarão a ser mais rigorosas. Dito doutra forma, dificultarão as acções especulativas nos domínios imobiliário e commodities, apesar de se saber que este tipo de medidas não é do agrado dos investidores, podendo mesmo vir a originar alguma desaceleração no crescimento económico .
Consideram os economistas que foi o excesso de liquidez, associado a deficientes políticas monetárias nos últimos oito anos, que fomentaram a especulação e trouxeram a inflação para níveis indesejáveis. O aumento dos custos de produção e a política de juros negativos, encarregaram-se do resto.
Os receios dos investidores
Os investidores não gostam de medidas disciplinadoras. Temem-nas, e é isso que está a acontecer.
Quem investe antecipa-se, não espera para reagir. E, de facto, a maioria dos analistas prevê que as taxas de crescimento da ordem dos 12% não voltarão a verificar-se, embora se pense que poderão rondar 7 a 8% durante a próxima década, um valor ainda muito elevado, atendendo a que, quanto mais uma economia cresce, mais difícil será manter as taxas de crescimento.
Mas todos estão cientes que forçar o aumento das reservas financeiras dos bancos, subir os juros, e controlar alguns preços cruciais não é suficiente, nem estruturante.
A bolha imobiliária está escondida?
Há uns meses, correu a notícia, entretanto desmentida pelas empresas de energia, que poderiam existir 64.5 milhões de habitações não ocupadas . O fundamento de tal estimativa baseava-se no não consumo de electricidade nessas casas por seis meses consecutivos. A ser verdade, isto significaria duas coisas – oferta de habitação não correspondida para cerca de 200 milhões de pessoas (um número, de facto, impressionante), e, ou os preços estariam propositadamente inflacionados, ou desadequados face às reais capacidades dos potenciais compradores.
Será que os actuais proprietários estão a apostar no aumento da inflação, esperando por melhor altura para venderem os apartamentos? Mas, esta opção tende a provocar, ela mesma, uma espiral inflacionista. Se não venderem pelo preço que pretendem, poderão vir a alugá-los por rendas mais elevadas, influenciando assim negativamente o IPC.
Contudo, e comparando com situação semelhante noutros países – USA, Islândia, Irlanda, UK, Espanha, etc. - onde ocorreram bolhas imobiliárias com as nefastas consequências que se conhecem, os analistas apreçam-se a estabelecer a diferença: na China não existe o perigo de bolha imobiliária em preços, mas pode haver em quantidade.
A história tem mostrado, que quando estas bolhas crescem juntas, os efeitos podem ser devastadores. O exemplo do Sudoeste Asiático na década de 1990 e de Taiwan nos finais de 1980, ainda estão bem presentes. Bem como os efeitos da bolha de preços americana que desencadeou a actual crise económica global, que ainda parece longe de estar superada.
Uma crise chinesa neste domínio, nos tempos mais próximos, poderia ter consequências avassaladoras a nível global.
A habitação na China é, de facto, um caso diferente
Tem-se construído imenso na China nos últimos anos. Calcula-se (sempre a mesma carência de informações fidedignas), que se tenham construído perto de 60 milhões de apartamentos privados nos últimos 10 anos. Actualmente, crê-se que estejam em construção mais cerca de 20 milhões de habitações particulares, e que as administrações locais e governamentais estejam a construir outros 20 a 30 milhões.
Nos últimos anos, cerca de 1000 milhões de metros quadrados habitáveis foram reconstruídos, faltando ainda proceder de igual forma sobre os 9000 milhões que continuam em condições insustentáveis para vida digna.
Não são só as autoridades políticas que estão envolvidas neste gigantesco processo, mas também as empresas que constroem para os seus trabalhadores habitarem, como no passado. Apesar disso, calcula-se que cerca de 200 milhões de trabalhadores migrantes, deslocados do interior para as periferias dos grandes aglomerados industrias e urbanos, continuem a viver em dormitórios subterrâneos, geralmente uma só divisão sem janelas. Um expediente a que muitos jovens recorrem em início de carreira.
As novas habitações chinesas
Calcula-se que, em 2009, a venda de casas novas na China, tenha representado mais de 14% do PIB – uma cifra impressionante. Surpreendente, também, é a dimensão média per capita dos novos apartamentos na maioria das cidades - entre 28 a 30 metros quadrados. Este valor situa-se entre as posições 148 e 153 da lista de 355 cidades mundiais, superando por exemplo, Las Palmas, Nápoles, Varsóvia, São Peterburgo, Zagreb, Belgrado, Gdansk, ou Budapeste.
Mesmo que o valor estimativo de 64.5 milhões de apartamentos desocupados, esteja errado, e que só metade deles se encontre nessa situação, isso equivale a cerca de 20% de todos os domicílios urbanos. Num mercado em tão rápida mutação, e com tantos cidadãos a deslocarem-se para outras localizações, esta taxa não se pode considerar anormal.
A questão muda de figura, se esta oferta estiver, de facto, distante da procura efectiva, e desadequada para o cidadão comum.
Os governos locais, altamente endividados por força dos investimentos que fizeram para atrair capitais, precisam das receitas provenientes das trocas imobiliárias. Especula-se, pois não se conhecem dados oficiais, que os governos locais e regionais tenham, em média, receitas correspondentes a 20% das dívidas acumuladas. Se as receitas do imobiliário não entrarem, só há uma alternativa – reduzir despesas. E sabe-se como os políticos são avessos a este caminho.
A renovação política
Dentro de menos de dois anos, a China irá para eleições. Os actuais dirigentes políticos darão lugar a uma nova classe de quadros, cada vez mais distantes dos valores que conduziram Mao e o Partido Comunista ao poder em 1 de Outubro de 1949. Possuem cada vez mais mentalidade capitalista.
Pelo que ficou exposto, conclui-se que se exigem medidas estruturantes. Os dirigentes chineses, que já deram imensas provas de serem exímios planeadores, sabem que adiar soluções pode custar muito caro, incluindo contestação social ao regime, se a economia interromper o ritmo de crescimento das duas últimas décadas.
Mas todos sabemos, também, como os políticos são avessos a tomar medidas impopulares antes de eleições.
Alguns perigos se vislumbram no horizonte, portanto. E não só para a China.
O que lá vier a acontecer interessará ao mundo inteiro.
Mostrar mensagens com a etiqueta consumo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta consumo. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
domingo, 21 de novembro de 2010
CHINA – Medidas contra a ameaça de inflação (1) - A Banca e o Dinheiro
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
21 Novembro de 2010
Após uma breve análise prospectiva dos possíveis impactes do aumento da inflação na China, e sobre algumas medidas que as autoridades chinesas já estavam a tomar, e poderiam vir a tomar para minorar os efeitos no crescimento do país, terminei o artigo de ontem prevendo voltar ao assunto, no máximo, dentro de três meses.
Argumentava então, e uma vez mais, que, na China, tudo se projecta por forma a que as medidas importantes não cheguem a ser urgentes. Os gabinetes de estudo mantêm-se permanentemente atentos, fornecendo informações a tempo dos decisores poderem tomar medidas o quanto antes. Mal podia imaginar que, nem vinte e quatro horas depois, os media internacionais já anunciavam novo pacote anti-inflacionista chinês.
Novas regras para o sistema bancário
Em 18 de Setembro, a revista Veja referia os riscos que o aumento de crédito concedido representava para o sistema bancário chinês, baseada num parecer da agência de risco Fitch. Mas, certamente que estaria distante da maior parte dos analistas económicos, que os líderes chineses avançassem com novas medidas tão cedo, como fizeram na noite de 19 de Novembro.
Sem que algo de substantivo o fizesse supor, o Banco Popular da China (BPC) decidiu que os bancos comerciais teriam compulsivamente de transferir, até 29 de Novembro, um adicional de 0.5% dos seus activos para o banco central.
Esta nova disposição significa que os bancos comerciais (ver nota * sobre sistema bancário chinês no final deste artigo), ficaram obrigados a ver retidos em contas de baixo rendimento no BPC, 18% dos seus activos, contra os 17.5% anteriores.
É muito dinheiro que está em causa, e é principalmente com estas reservas que o BPC compra diariamente cerca de 1 bilião US$ de divisas estrangeiras.
Refira-se por comparação, que a Reserva Federal nos USA fixou estes rácios em 10% para os bancos pequenos, não impondo qualquer limite para algumas categorias de grandes depósitos.
A “Guerra das Moedas” está longe do fim
O conflito entre os USA e a China acerca da paridade das respectivas moedas continua em aberto. A China, que tem resistido com firmeza a revalorizar o yuan como os USA pretendem, acusa agora a Reserva Federal, baseada no discurso de Ben Bernanke da passada Sexta-Feira, de estar, ela própria, a procurar desvalorizar o dólar.
Acontece, contudo, que as medidas agora encetadas pelos chineses, de aumento das reservas bancárias, ocorreram antes do citado discurso de Bernanke em Frankfurt. Trata-se, portanto, de mera argumentação carente de precisão. De facto, a justificação fornecida pelos dirigentes chineses, não fez qualquer alusão às posições de Reserva Federal, remetendo-a exclusivamente para satisfação de necessidades internas.
Numa altura em que a Reserva Federal se esforça por reduzir a dívida norte-americana, os chineses utilizam os excedentes monetários para manterem as reservas estrangeiras no nível de 2.65 triliões US$.
O verso e o reverso
A maioria dos economistas, ocidentais e chineses, pensam que as autoridades chinesas preferem aumentar juros no lugar de elevar as reservas mínimas, podendo assim melhor recompensar os depositantes. Mas, sabem que não há bela sem senão – ao aumento das taxas de juros poderia vir a corresponde um acréscimo de apetite pela compra de yuans por partes de estrangeiros, que poderiam optar por depositá-los na China, o que conduziria a um yuan mais forte, efeito que não interessa definitivamente aos dirigentes chineses.
As autoridades chinesas sabem que foi o yuan fraco que favoreceu as exportações chinesas e a criação de milhões de postos de trabalho na China. O recente movimento da China no sentido de se posicionar no mercado de produtos de qualidade, irá conduzi-la a novas batalhas competitivas com os mercados desenvolvidos e não com os emergentes. Há que continuar a acautelar, portanto, a paridade com o dólar, enquanto as novas batalhas não estiverem ganhas. Quando a China já tiver uma voz forte nos mercados mais sofisticados, então a cotação do yuan diminuirá o seu valor competitivo, e a guerra das moedas deixará de ser decisiva.
Esfriar os movimentos especulativos
O aumento da inflação para 4.4%, Outubro sobre Outubro, foi acompanhado pelo incremento da oferta de dinheiro nos últimos dois anos em 54%. As autoridades pensam que ao dificultarem o acesso ao crédito, deixando menos yuans disponíveis na banca comercial para empréstimos, a corrida especulativa na habitação e commodities resfriará.
Helen Qiao e Song Yu , da Goldman Sachs, prevêem mesmo que estas medidas compulsivas, possam vir a ser reforçadas ainda este ano. Esta revelação sugere que a actual iniciativa possa não ser suficientemente eficaz, obrigando o governo a nova intervenção.
________________________________
Nota (*) sobre o sistema bancário chinês:
A China dispõe dum grande e robusto sistema bancário.
Os bancos comerciais são essenciais na disponibilização de fundos para o crescimento do país. Em Outubro de 2008, o banco central BPC depositou 30 biliões de yuans (4.4 biliões US$) em bancos comerciais da China destinados a empréstimos.
Estes bancos comerciais são indispensáveis para: a construção dum mercado de capitais mais forte; a introdução de novos e sofisticados métodos de financiamento; optimizar a gestão de divisas; através de fundos fiscais, ajudar os bancos a reduzir os activos podres; melhorar a reforma financeira.
vitor.trigo@gmail.com
21 Novembro de 2010
Após uma breve análise prospectiva dos possíveis impactes do aumento da inflação na China, e sobre algumas medidas que as autoridades chinesas já estavam a tomar, e poderiam vir a tomar para minorar os efeitos no crescimento do país, terminei o artigo de ontem prevendo voltar ao assunto, no máximo, dentro de três meses.
Argumentava então, e uma vez mais, que, na China, tudo se projecta por forma a que as medidas importantes não cheguem a ser urgentes. Os gabinetes de estudo mantêm-se permanentemente atentos, fornecendo informações a tempo dos decisores poderem tomar medidas o quanto antes. Mal podia imaginar que, nem vinte e quatro horas depois, os media internacionais já anunciavam novo pacote anti-inflacionista chinês.
Novas regras para o sistema bancário
Em 18 de Setembro, a revista Veja referia os riscos que o aumento de crédito concedido representava para o sistema bancário chinês, baseada num parecer da agência de risco Fitch. Mas, certamente que estaria distante da maior parte dos analistas económicos, que os líderes chineses avançassem com novas medidas tão cedo, como fizeram na noite de 19 de Novembro.
Sem que algo de substantivo o fizesse supor, o Banco Popular da China (BPC) decidiu que os bancos comerciais teriam compulsivamente de transferir, até 29 de Novembro, um adicional de 0.5% dos seus activos para o banco central.
Esta nova disposição significa que os bancos comerciais (ver nota * sobre sistema bancário chinês no final deste artigo), ficaram obrigados a ver retidos em contas de baixo rendimento no BPC, 18% dos seus activos, contra os 17.5% anteriores.
É muito dinheiro que está em causa, e é principalmente com estas reservas que o BPC compra diariamente cerca de 1 bilião US$ de divisas estrangeiras.
Refira-se por comparação, que a Reserva Federal nos USA fixou estes rácios em 10% para os bancos pequenos, não impondo qualquer limite para algumas categorias de grandes depósitos.
A “Guerra das Moedas” está longe do fim
O conflito entre os USA e a China acerca da paridade das respectivas moedas continua em aberto. A China, que tem resistido com firmeza a revalorizar o yuan como os USA pretendem, acusa agora a Reserva Federal, baseada no discurso de Ben Bernanke da passada Sexta-Feira, de estar, ela própria, a procurar desvalorizar o dólar.
Acontece, contudo, que as medidas agora encetadas pelos chineses, de aumento das reservas bancárias, ocorreram antes do citado discurso de Bernanke em Frankfurt. Trata-se, portanto, de mera argumentação carente de precisão. De facto, a justificação fornecida pelos dirigentes chineses, não fez qualquer alusão às posições de Reserva Federal, remetendo-a exclusivamente para satisfação de necessidades internas.
Numa altura em que a Reserva Federal se esforça por reduzir a dívida norte-americana, os chineses utilizam os excedentes monetários para manterem as reservas estrangeiras no nível de 2.65 triliões US$.
O verso e o reverso
A maioria dos economistas, ocidentais e chineses, pensam que as autoridades chinesas preferem aumentar juros no lugar de elevar as reservas mínimas, podendo assim melhor recompensar os depositantes. Mas, sabem que não há bela sem senão – ao aumento das taxas de juros poderia vir a corresponde um acréscimo de apetite pela compra de yuans por partes de estrangeiros, que poderiam optar por depositá-los na China, o que conduziria a um yuan mais forte, efeito que não interessa definitivamente aos dirigentes chineses.
As autoridades chinesas sabem que foi o yuan fraco que favoreceu as exportações chinesas e a criação de milhões de postos de trabalho na China. O recente movimento da China no sentido de se posicionar no mercado de produtos de qualidade, irá conduzi-la a novas batalhas competitivas com os mercados desenvolvidos e não com os emergentes. Há que continuar a acautelar, portanto, a paridade com o dólar, enquanto as novas batalhas não estiverem ganhas. Quando a China já tiver uma voz forte nos mercados mais sofisticados, então a cotação do yuan diminuirá o seu valor competitivo, e a guerra das moedas deixará de ser decisiva.
Esfriar os movimentos especulativos
O aumento da inflação para 4.4%, Outubro sobre Outubro, foi acompanhado pelo incremento da oferta de dinheiro nos últimos dois anos em 54%. As autoridades pensam que ao dificultarem o acesso ao crédito, deixando menos yuans disponíveis na banca comercial para empréstimos, a corrida especulativa na habitação e commodities resfriará.
Helen Qiao e Song Yu , da Goldman Sachs, prevêem mesmo que estas medidas compulsivas, possam vir a ser reforçadas ainda este ano. Esta revelação sugere que a actual iniciativa possa não ser suficientemente eficaz, obrigando o governo a nova intervenção.
________________________________
Nota (*) sobre o sistema bancário chinês:
A China dispõe dum grande e robusto sistema bancário.
Os bancos comerciais são essenciais na disponibilização de fundos para o crescimento do país. Em Outubro de 2008, o banco central BPC depositou 30 biliões de yuans (4.4 biliões US$) em bancos comerciais da China destinados a empréstimos.
Estes bancos comerciais são indispensáveis para: a construção dum mercado de capitais mais forte; a introdução de novos e sofisticados métodos de financiamento; optimizar a gestão de divisas; através de fundos fiscais, ajudar os bancos a reduzir os activos podres; melhorar a reforma financeira.
sábado, 20 de novembro de 2010
CHINA – Irá a inflação condicionar o crescimento económico?
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
20 Novembro de 2010
Qualquer que seja o assunto que se relacione com a China continua a surpreender-nos pela magnitude, e pela volatilidade das informações, que evoluem a ritmos incríveis.
Quando alguns de nós começámos a debruçar-nos, no início dos anos 1990, sobre uma nova realidade do mundo dos negócios que apelidámos genericamente de “mudança” (quem não se recorda dos intermináveis seminários sobre “gestão da mudança”), estávamos longe de imaginar o que significa “mudança” na China nos dias de hoje.
Temos vindo aqui a abordar alguns dos desafios actuais do crescimento económico chinês, desde uma inicial atenção aos custos de produção, passando pela evidente mudança de estratégia e pela nova orientação para a qualidade, até termos chegado ao que designámos por absoluta necessidade de dinamização “forçada” do consumo, e à forma como os estrangeiros encaram este “boom”.
Eis-nos perante uma nova realidade, aliás previsível - o espectro da inflação.
De facto, a inflação ainda não é uma ameaça concreta, mas os preços estão a aumentar, o que basta para começar a preocupar os líderes chineses. Até Outubro os preços ao consumidor subiram 4.4%, o valor mais elevado nos últimos dois anos, verificando-se o impacte maior no sector alimentar. Os vegetais, por exemplo, encontram-se hoje mais caros cerca de 30% do que se encontravam há um ano.
Procurando explicações
As devastadoras enchentes do mês passado podem explicar os aumentos de preços pela escassez de fornecimentos. Igualmente a quebra das colheitas, a nível internacional, podem ter contribuído negativamente para a situação actual. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO, o custo das importações de alimentos no mundo pode ultrapassar este ano 1 trilião US$ , apenas 5 biliões menos do que o recorde de 2008.
Contudo, também a nível macroeconómico, existem algumas preocupações. Por exemplo, a banca chinesa parece poder vir a violar a quota de 7.5 triliões de yuans (cerca de 1.1. trilião US$), embora se venha a verificar pressão das autoridades em sentido contrário. Não espanta ninguém que mais dinheiro em circulação tenderá a favorecer aumento dos preços.
Que estão as autoridades a fazer para conter esta tendência?
O governo procura recorrer a medidas pouco habituais, mas que considera de eficácia imediata, como por exemplo: indexando a actualização dos subsídios de desemprego, pensões, e salários mínimos (na China os salários mínimos são estabelecidos por região), aos valores da inflação; redução das tarifas eléctricas, do gás, e dos transportes ferroviários para os fabricantes de fertilizantes; abastecimento suplementar de açúcar aos mercados.
Uma outra questão nesta área diz respeito ao aproveitamento que os comerciantes possam vir a fazer - se puderem vender mais caro, não facilitarão, por certo. E ainda há que prestar atenção a possíveis açambarcamentos, embora esta discussão ainda não se faça na praça pública.
Caso estas medidas não atinjam os resultados pretendidos, o governo poderá vir a intervir na distribuição de bens alimentares essenciais, como o arroz, a carne de porco, massas, e óleos, à semelhança do que fez em 2008.
Pelo menos numa coisa Lenine e Keynes concordam – nos efeitos da inflação. Lenine considerava-a como uma eficaz arma capaz de corroer o capitalismo. Keynes achava-a perniciosa para o capitalismo, porque desacreditava os empresários, e, consequentemente, o sistema. As autoridades chinesas não serão nem leninistas nem keynesianas, mas querem tirar partido do capitalismo, à sua maneira.
Como irão reagir os investidores estrangeiros?
Os números da inflação de 2010, e em particular os de Outubro, não vão ao encontro do que os investidores gostam de ouvir. O anúncio de que as autoridades estão a tomar medidas pouco habituais também não é um indicador animador. Várias fontes referem já que alguns investidores estarão a vender acções e commodities na expectativa dum significativo abrandamento do crescimento na China.
Conhecendo-se como os investidores internacionais são sensíveis a todos os indícios, é provável que estejam a exorbitar. Na realidade, a China está longe duma corrida galopante e generalizada dos preços, e mesmo que o crescimento venha a sentir alguma quebra, o mais certo é fixar-se à roda dos 7-8% anuais, na próxima década. Um valor ainda muito atractivo.
Onde se poderá vir a sentir maior alteração, poderá ser no sector da construção e venda de habitações. O acesso ao crédito nos últimos anos provocou uma corrida às hipotecas, e, por arraste, à construção de novas casas. Se se vierem a verificar restrições de monta nos créditos concedidos, poderá vir a revelar-se uma bolha no sector. As autoridades estarão atentas, por certo, ao que aconteceu nos USA, e estabelecerão medidas para que não aconteça o mesmo.
As mudanças na China processam-se a um ritmo tal que, no início do ano, o mais tardar, tudo o que aqui ficou dito, terá de ser revisitado.
vitor.trigo@gmail.com
20 Novembro de 2010
Qualquer que seja o assunto que se relacione com a China continua a surpreender-nos pela magnitude, e pela volatilidade das informações, que evoluem a ritmos incríveis.
Quando alguns de nós começámos a debruçar-nos, no início dos anos 1990, sobre uma nova realidade do mundo dos negócios que apelidámos genericamente de “mudança” (quem não se recorda dos intermináveis seminários sobre “gestão da mudança”), estávamos longe de imaginar o que significa “mudança” na China nos dias de hoje.
Temos vindo aqui a abordar alguns dos desafios actuais do crescimento económico chinês, desde uma inicial atenção aos custos de produção, passando pela evidente mudança de estratégia e pela nova orientação para a qualidade, até termos chegado ao que designámos por absoluta necessidade de dinamização “forçada” do consumo, e à forma como os estrangeiros encaram este “boom”.
Eis-nos perante uma nova realidade, aliás previsível - o espectro da inflação.
De facto, a inflação ainda não é uma ameaça concreta, mas os preços estão a aumentar, o que basta para começar a preocupar os líderes chineses. Até Outubro os preços ao consumidor subiram 4.4%, o valor mais elevado nos últimos dois anos, verificando-se o impacte maior no sector alimentar. Os vegetais, por exemplo, encontram-se hoje mais caros cerca de 30% do que se encontravam há um ano.
Procurando explicações
As devastadoras enchentes do mês passado podem explicar os aumentos de preços pela escassez de fornecimentos. Igualmente a quebra das colheitas, a nível internacional, podem ter contribuído negativamente para a situação actual. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO, o custo das importações de alimentos no mundo pode ultrapassar este ano 1 trilião US$ , apenas 5 biliões menos do que o recorde de 2008.
Contudo, também a nível macroeconómico, existem algumas preocupações. Por exemplo, a banca chinesa parece poder vir a violar a quota de 7.5 triliões de yuans (cerca de 1.1. trilião US$), embora se venha a verificar pressão das autoridades em sentido contrário. Não espanta ninguém que mais dinheiro em circulação tenderá a favorecer aumento dos preços.
Que estão as autoridades a fazer para conter esta tendência?
O governo procura recorrer a medidas pouco habituais, mas que considera de eficácia imediata, como por exemplo: indexando a actualização dos subsídios de desemprego, pensões, e salários mínimos (na China os salários mínimos são estabelecidos por região), aos valores da inflação; redução das tarifas eléctricas, do gás, e dos transportes ferroviários para os fabricantes de fertilizantes; abastecimento suplementar de açúcar aos mercados.
Uma outra questão nesta área diz respeito ao aproveitamento que os comerciantes possam vir a fazer - se puderem vender mais caro, não facilitarão, por certo. E ainda há que prestar atenção a possíveis açambarcamentos, embora esta discussão ainda não se faça na praça pública.
Caso estas medidas não atinjam os resultados pretendidos, o governo poderá vir a intervir na distribuição de bens alimentares essenciais, como o arroz, a carne de porco, massas, e óleos, à semelhança do que fez em 2008.
Pelo menos numa coisa Lenine e Keynes concordam – nos efeitos da inflação. Lenine considerava-a como uma eficaz arma capaz de corroer o capitalismo. Keynes achava-a perniciosa para o capitalismo, porque desacreditava os empresários, e, consequentemente, o sistema. As autoridades chinesas não serão nem leninistas nem keynesianas, mas querem tirar partido do capitalismo, à sua maneira.
Como irão reagir os investidores estrangeiros?
Os números da inflação de 2010, e em particular os de Outubro, não vão ao encontro do que os investidores gostam de ouvir. O anúncio de que as autoridades estão a tomar medidas pouco habituais também não é um indicador animador. Várias fontes referem já que alguns investidores estarão a vender acções e commodities na expectativa dum significativo abrandamento do crescimento na China.
Conhecendo-se como os investidores internacionais são sensíveis a todos os indícios, é provável que estejam a exorbitar. Na realidade, a China está longe duma corrida galopante e generalizada dos preços, e mesmo que o crescimento venha a sentir alguma quebra, o mais certo é fixar-se à roda dos 7-8% anuais, na próxima década. Um valor ainda muito atractivo.
Onde se poderá vir a sentir maior alteração, poderá ser no sector da construção e venda de habitações. O acesso ao crédito nos últimos anos provocou uma corrida às hipotecas, e, por arraste, à construção de novas casas. Se se vierem a verificar restrições de monta nos créditos concedidos, poderá vir a revelar-se uma bolha no sector. As autoridades estarão atentas, por certo, ao que aconteceu nos USA, e estabelecerão medidas para que não aconteça o mesmo.
As mudanças na China processam-se a um ritmo tal que, no início do ano, o mais tardar, tudo o que aqui ficou dito, terá de ser revisitado.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
CHINA – O “boom” do consumo interno visto pelos estrangeiros
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
08 Novembro de 2010
Em artigo anterior, “China “forçada” a dinamizar o consumo interno” [1], abordámos a importante alteração estratégica da China no sentido do crescimento sustentável, nele se tendo salientado que os gastos dos consumidores baixaram 15 pontos percentuais em relação ao PIB de 1990, passando de 45% para 30%. Referiu-se também que a China é um país com grandes assimetrias em termos de custo de vida.
Mercado gigantesco com grandes assimetrias
Estima-se que existam na China cerca de 250 milhões de famílias com rendimentos superiores a 1,000 US$ anuais, e cerca de 50 milhões com mais de 3,500 US$ [2] [3]. Estes números não são, naturalmente, exactos, como a própria Mckinsey noutro estudo refere quando revela que na China, o PIB per capita foi, em 2003 de 1,300 US$, ou seja, o equivalente a 5,000 US$, quando ajustado pela paridade do poder de compra [4]. De acordo com este estudo mais recente, em 2010, 40 milhões de famílias auferirão mais de 48,000 yuans anuais (ao câmbio, 6,000 US$), mas que equivalerá a cerca de 24,000 US$ em termos de paridade de poder de compra no estilo de vida americano. Estamos, portanto, perante valores que qualificam uma família de classe média nos USA.
Contudo, estamos a falar dum país imenso e duma população três vezes superior à Europa e seis vezes os USA. Se em Xangai o PIB per capita é cerca de 5,600 US$, em Chongqing, no interior, este valor baixa para um quinto – 1,100 US$ [5]. Percebe-se porque alguns empresários que afirmam que a China é uma nação, mas não é um mercado. Sendo muitos, então a apetência dos estrangeiros vira-se para os segmentos Premium, deixando os segmentos inferiores e médios entregues às empresas locais, o que não é difícil dados os preços praticados justificados pelos baixos custos. E, neste domínio, está o grande problema – os custos de produção na China estão a aumentar [6].
As empresas chinesas têm sabido tirar partido desta vantagem competitiva e, ao aprenderem com as técnicas comerciais estrangeiras, apresentam crescimento nos seus próprios mercados e mesmo em segmentos onde os estrangeiros eram maioritários (higiene e alimentação empacotada, por exemplo). É claro que as marcas internacionais não estando interessadas em canibalizar as suas marcas premium, preferem não arriscar guerras de preços. Fica a dúvida se realmente têm, nestas condições, alguma hipótese de competir.
Uma complexa cadeia de valor
Em Fevereiro de 2007, a IBM Corporation, apoiada num inquérito conduzido pela The Intelligence Unit da The Economist [7], num artigo intitulado Winning in China’s mass markets, elencou os principais problemas da cadeia de valor chinesa que constituem obstáculos às operações das multinacionais naquele país:
• Centralização – O passado centralista da sociedade chinesa, a que se juntam deficientes infra-estruturas, é considerado importante obstáculo à eficiência das operações;
• Distribuição – Demasiados níveis de distribuição, com muitos distribuidores nacionais, regionais, e locais, com pouco valor acrescentado entropiam o sistema;
• Gestão – limitada previsão, altos níveis de stocks, custos logísticos que chegam ao dobro do normal (por vezes 10% das vendas [8]), sendo habitual (77% das empresas) apresentarem benchmarks inferiores à concorrência [9], e, pior que tudo, devido ao elevado número de intermediários, incapacidade de estudar os clientes.
Daqui decorrem os riscos inerentes ao tempo necessário para ir da fábrica ao ponto de venda e a propensão para encontrar alguém, familiares ou amigos, que possam facilitar o processo.
Que alternativas se colocam, então?
• Alternativa #1 – Online e Televendas
Em 2007, as vendas por este canal atingiram 700 milhões de US$, valor igual ao melhor dia de vendas semelhantes nos USA, embora se tenha registado crescimento anual de 34% [10].
Este canal debate-se com a desconfiança dos chineses, mas pode crescer muito devido aos avultados investimentos em curso no domínio das comunicações.
A UPS e a PGL já têm operações significativas na China.
• Alternativa #2 – Lojas próprias
Sós ou em parceria, esta modalidade parece estar a ganhar adeptos. A Motorola, por exemplo, optou lojas próprias na cadeia Gome.
• Alternativa #3 – Vendas directas
Esta é a opção predilecta para produtos Premium e acesso a clientes-chave nas cidades níveis 1 e 2 [11]. A Amway, por exemplo, criou uma rede de mais de 200,000 agentes em 180 cidades.
• Alternativa #4 – Retalhistas Directos
É um canal em franca expansão quer por parte dos nacionais (Suning e Gome), como dos estrangeiros (Wal-Mart, Carrefour), com a enorme vantagem de reduzir os intermediários. Preferem instalar-se na periferia das cidades níveis 1 e 2 [11].
Os próximos passos
Como referido o caminho mais normal passará pelo encurtamento dos canais de distribuição. Mas o enfoque principal deverá passar pelo interesse sobre as cidades níveis 3 a 5 [12]. É previsível que os investidores optem por encurtar o mais possível a linha de abastecimentos dos pontos de venda, com forte atenção às práticas de venda, na logística, na terciarização, no outsourcing especializado, e na melhoria dos canais de informação.
O desejado aumento das vendas, das receitas, e dos lucros, deverá passar pela eficácia do acto de venda, longe do tradicional relacionamento excessivo dos chineses (“guanxi”), algo que não faz parte do rol de preferências dos investidores estrangeiros.
Noutros domínios se verificarão importantes apostas:
• Investigação & Desenvolvimento
Desenvolvimento de novos produtos de qualidade orientados para as características das populações chinesas, adaptados aos canais de distribuição, e compatíveis com a evolução dos níveis de vida. Os investimentos estrangeiros nesta área, insignificantes em 2001, atingiram em 2006 4 biliões de US$, com cerca de 750 a operarem regularmente [13].
A pressão para a disponibilização de produtos de qualidade a baixo custo pode ser ilustrada com os recentes anúncios de PCs da Lenovo (PCs a menos de 100 US$), que adquiriu a divisão de PCs da IBM em 2005. Releve-se que esta tendência não é exclusivo da China, como, por exemplo, a Tata fez na Índia ao decidir produzir um carro para 4 pessoas por menos de 3,000 US$ [14].
• Fornecedores locais
Os departamentos de compras estão a assumir lugar fundamental na nova estratégias de criação de valor, procurando encontrar junto de fornecedores locais, e de acordo com especificações locais, as componentes de que necessitam para a assemblagem e transformação dos produtos finais. Números oficiais revelam que esta fonte, já em 2006, representava 600 biliões de US$ (cerca de 9% da produção chinesa, prevendo-se que esta valor possa aumentar para 14% em 2009) [15].
• Recursos Humanos
Em 2005, a American Chamber of Commerce in China identificou os recursos humanos como a questão crucial a resolver para o desenvolvimento das vendas na China [16]. O requisito era claro - as empresas exigiam não só as pessoas certas, mas também bastante
pessoas em locais diferentes para colocarem no terreno mercados em massa, de altos volumes e baixos custos.
O paradoxo afigurava-se evidente – como seria possível estarem perante semelhante problema numa população de 1.3 mil milhões de pessoas? Para mais, em 2006, a China havia produzido 4.13 milhões de licenciados com formação em matemática e engenharia [17]. A verdadeira questão só poderia ser a identificação, acompanhamento, e orientação de talentos, porque falta não haveria, por certo. A má notícia foi a constatação de insuficiente preparação destes licenciados para os negócios, nomeadamente para servirem em multinacionais. A McKinsey chegou mesmo a concluir que só 10% destes recursos seriam aproveitáveis a curto prazo neste domínio [18].
Assim sendo, e perante outro dado entretanto verificado – os elevados níveis de rotação destes profissionais qualificados – forma accionadas as seguintes medidas:
1. Recrutamentos em massa
2. Adequado controlo salarial
3. Aposta nas cidades de nível 3 a 5 [12]
4. Especial atenção à formação de supervisores de vendas, marketing, compras, I&D, e gestão de canal
5. Implementação de programas de coaching, mentoring, e sistemas de recompensa
É desta forma que a China está paulatina e sistematicamente a percorrer, com a gestão do tempo que nós ocidentais temos alguma dificuldade a entender, o que identificou como “o caminho das pedras”.
“A longa viagem começa por um passo”, como diz o provérbio chinês.
__________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/china-forcada-dinamizar-o-consumo.html
[2] https://www.mckinseyquarterly.com/Encouraging_consumer_spending_in_China_1555
[3] Para um ideia do que significam realmente estes valores expressos em yuans, pode-se multiplicar por 4, isto é, 1,000 US$ (ao câmbio oficial) na China representam poder de compra de 4,000 US$ nos USA.
[4] https://www.mckinseyquarterly.com/Retail_Consumer_Goods/Sectors_Regions/Marketing_to_Chinas_consumers_1472
[5] China Regional Statistical Reports, reproduzidos pela Mckinsey
[6] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/estrategia-economica-chinesa-ensaia.html
[7] Pdf em http://www-900.ibm.com/cn/services/bcs/iibv/
[8] Butner, Karen. “Follow the leaders: Scoring high on the supply chain maturity model.” IBM Institute for Business Value. September 2005. http://www-935.ibm.com/services/us/index.wss/ibvstudy/imc/a1020839?cntxt=a1005268#1
[9] idem
[10] “China B2C Market Size Will Reach RMB 18.83 Billion in 2010.” Analysys
International. Jan 2007. http://english.analysys.com.cn/3class/detail.php?advertisement=002&id=261&name=report&FocusAreaTitleGB=&daohang=Report&title=
[11] Cidades de nível 1 e 2 são 25 (1-4 e 2-21), onde habita 9% da população (119 milhões de pessoas), que geram 34% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 16 e 30 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 24%, e 78% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[12] Cidades de nível 3 a 5 são 306 (3-19, 4-77, 5-209). Nelas habita 18% da população (239 milhões de pessoas), que geram 43% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 11 e 21 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 12%, e 56% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[13] Ministry of Commerce statistics. June 2006.
http://www.mofcom.gov.cn/aarticle/i/jyjl/l/200610/20061003365128.html
[14] “Car making in India, a different route.” Economist. December 13, 2006. http://economist.com/displayStory.cfm?story_id=8413155.
[15] “Novartis to Establish Drug R&D Center in China.” Wall Street Journal. November 6, 2006.
http://online.wsj.com/article/SB116277366653714013.html?mod=health_hs_pharmaceuticals_biotech
[16] “The AmCham-China White Paper: American Business in China.” The American Chamber of Commerce of the People’s Republic of China. May 16, 2006.
http://www.amchamchina.org.cn/amcham/show/content.php?Id=1570&menuid=&submid=
[17] 2005 National Statistics Bureau of China. October 19, 2006.
http://english.peopledaily.com.cn/200610/29/eng20061029_316147.html
[18] Farrell, Diana. “China’s looming talent shortage.” McKinsey Quarterly. November 2005.
http://www.mckinsey.com/mgi/publications/Chinatalent.asp
vitor.trigo@gmail.com
08 Novembro de 2010
Em artigo anterior, “China “forçada” a dinamizar o consumo interno” [1], abordámos a importante alteração estratégica da China no sentido do crescimento sustentável, nele se tendo salientado que os gastos dos consumidores baixaram 15 pontos percentuais em relação ao PIB de 1990, passando de 45% para 30%. Referiu-se também que a China é um país com grandes assimetrias em termos de custo de vida.
Mercado gigantesco com grandes assimetrias
Estima-se que existam na China cerca de 250 milhões de famílias com rendimentos superiores a 1,000 US$ anuais, e cerca de 50 milhões com mais de 3,500 US$ [2] [3]. Estes números não são, naturalmente, exactos, como a própria Mckinsey noutro estudo refere quando revela que na China, o PIB per capita foi, em 2003 de 1,300 US$, ou seja, o equivalente a 5,000 US$, quando ajustado pela paridade do poder de compra [4]. De acordo com este estudo mais recente, em 2010, 40 milhões de famílias auferirão mais de 48,000 yuans anuais (ao câmbio, 6,000 US$), mas que equivalerá a cerca de 24,000 US$ em termos de paridade de poder de compra no estilo de vida americano. Estamos, portanto, perante valores que qualificam uma família de classe média nos USA.
Contudo, estamos a falar dum país imenso e duma população três vezes superior à Europa e seis vezes os USA. Se em Xangai o PIB per capita é cerca de 5,600 US$, em Chongqing, no interior, este valor baixa para um quinto – 1,100 US$ [5]. Percebe-se porque alguns empresários que afirmam que a China é uma nação, mas não é um mercado. Sendo muitos, então a apetência dos estrangeiros vira-se para os segmentos Premium, deixando os segmentos inferiores e médios entregues às empresas locais, o que não é difícil dados os preços praticados justificados pelos baixos custos. E, neste domínio, está o grande problema – os custos de produção na China estão a aumentar [6].
As empresas chinesas têm sabido tirar partido desta vantagem competitiva e, ao aprenderem com as técnicas comerciais estrangeiras, apresentam crescimento nos seus próprios mercados e mesmo em segmentos onde os estrangeiros eram maioritários (higiene e alimentação empacotada, por exemplo). É claro que as marcas internacionais não estando interessadas em canibalizar as suas marcas premium, preferem não arriscar guerras de preços. Fica a dúvida se realmente têm, nestas condições, alguma hipótese de competir.
Uma complexa cadeia de valor
Em Fevereiro de 2007, a IBM Corporation, apoiada num inquérito conduzido pela The Intelligence Unit da The Economist [7], num artigo intitulado Winning in China’s mass markets, elencou os principais problemas da cadeia de valor chinesa que constituem obstáculos às operações das multinacionais naquele país:
• Centralização – O passado centralista da sociedade chinesa, a que se juntam deficientes infra-estruturas, é considerado importante obstáculo à eficiência das operações;
• Distribuição – Demasiados níveis de distribuição, com muitos distribuidores nacionais, regionais, e locais, com pouco valor acrescentado entropiam o sistema;
• Gestão – limitada previsão, altos níveis de stocks, custos logísticos que chegam ao dobro do normal (por vezes 10% das vendas [8]), sendo habitual (77% das empresas) apresentarem benchmarks inferiores à concorrência [9], e, pior que tudo, devido ao elevado número de intermediários, incapacidade de estudar os clientes.
Daqui decorrem os riscos inerentes ao tempo necessário para ir da fábrica ao ponto de venda e a propensão para encontrar alguém, familiares ou amigos, que possam facilitar o processo.
Que alternativas se colocam, então?
• Alternativa #1 – Online e Televendas
Em 2007, as vendas por este canal atingiram 700 milhões de US$, valor igual ao melhor dia de vendas semelhantes nos USA, embora se tenha registado crescimento anual de 34% [10].
Este canal debate-se com a desconfiança dos chineses, mas pode crescer muito devido aos avultados investimentos em curso no domínio das comunicações.
A UPS e a PGL já têm operações significativas na China.
• Alternativa #2 – Lojas próprias
Sós ou em parceria, esta modalidade parece estar a ganhar adeptos. A Motorola, por exemplo, optou lojas próprias na cadeia Gome.
• Alternativa #3 – Vendas directas
Esta é a opção predilecta para produtos Premium e acesso a clientes-chave nas cidades níveis 1 e 2 [11]. A Amway, por exemplo, criou uma rede de mais de 200,000 agentes em 180 cidades.
• Alternativa #4 – Retalhistas Directos
É um canal em franca expansão quer por parte dos nacionais (Suning e Gome), como dos estrangeiros (Wal-Mart, Carrefour), com a enorme vantagem de reduzir os intermediários. Preferem instalar-se na periferia das cidades níveis 1 e 2 [11].
Os próximos passos
Como referido o caminho mais normal passará pelo encurtamento dos canais de distribuição. Mas o enfoque principal deverá passar pelo interesse sobre as cidades níveis 3 a 5 [12]. É previsível que os investidores optem por encurtar o mais possível a linha de abastecimentos dos pontos de venda, com forte atenção às práticas de venda, na logística, na terciarização, no outsourcing especializado, e na melhoria dos canais de informação.
O desejado aumento das vendas, das receitas, e dos lucros, deverá passar pela eficácia do acto de venda, longe do tradicional relacionamento excessivo dos chineses (“guanxi”), algo que não faz parte do rol de preferências dos investidores estrangeiros.
Noutros domínios se verificarão importantes apostas:
• Investigação & Desenvolvimento
Desenvolvimento de novos produtos de qualidade orientados para as características das populações chinesas, adaptados aos canais de distribuição, e compatíveis com a evolução dos níveis de vida. Os investimentos estrangeiros nesta área, insignificantes em 2001, atingiram em 2006 4 biliões de US$, com cerca de 750 a operarem regularmente [13].
A pressão para a disponibilização de produtos de qualidade a baixo custo pode ser ilustrada com os recentes anúncios de PCs da Lenovo (PCs a menos de 100 US$), que adquiriu a divisão de PCs da IBM em 2005. Releve-se que esta tendência não é exclusivo da China, como, por exemplo, a Tata fez na Índia ao decidir produzir um carro para 4 pessoas por menos de 3,000 US$ [14].
• Fornecedores locais
Os departamentos de compras estão a assumir lugar fundamental na nova estratégias de criação de valor, procurando encontrar junto de fornecedores locais, e de acordo com especificações locais, as componentes de que necessitam para a assemblagem e transformação dos produtos finais. Números oficiais revelam que esta fonte, já em 2006, representava 600 biliões de US$ (cerca de 9% da produção chinesa, prevendo-se que esta valor possa aumentar para 14% em 2009) [15].
• Recursos Humanos
Em 2005, a American Chamber of Commerce in China identificou os recursos humanos como a questão crucial a resolver para o desenvolvimento das vendas na China [16]. O requisito era claro - as empresas exigiam não só as pessoas certas, mas também bastante
pessoas em locais diferentes para colocarem no terreno mercados em massa, de altos volumes e baixos custos.
O paradoxo afigurava-se evidente – como seria possível estarem perante semelhante problema numa população de 1.3 mil milhões de pessoas? Para mais, em 2006, a China havia produzido 4.13 milhões de licenciados com formação em matemática e engenharia [17]. A verdadeira questão só poderia ser a identificação, acompanhamento, e orientação de talentos, porque falta não haveria, por certo. A má notícia foi a constatação de insuficiente preparação destes licenciados para os negócios, nomeadamente para servirem em multinacionais. A McKinsey chegou mesmo a concluir que só 10% destes recursos seriam aproveitáveis a curto prazo neste domínio [18].
Assim sendo, e perante outro dado entretanto verificado – os elevados níveis de rotação destes profissionais qualificados – forma accionadas as seguintes medidas:
1. Recrutamentos em massa
2. Adequado controlo salarial
3. Aposta nas cidades de nível 3 a 5 [12]
4. Especial atenção à formação de supervisores de vendas, marketing, compras, I&D, e gestão de canal
5. Implementação de programas de coaching, mentoring, e sistemas de recompensa
É desta forma que a China está paulatina e sistematicamente a percorrer, com a gestão do tempo que nós ocidentais temos alguma dificuldade a entender, o que identificou como “o caminho das pedras”.
“A longa viagem começa por um passo”, como diz o provérbio chinês.
__________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/china-forcada-dinamizar-o-consumo.html
[2] https://www.mckinseyquarterly.com/Encouraging_consumer_spending_in_China_1555
[3] Para um ideia do que significam realmente estes valores expressos em yuans, pode-se multiplicar por 4, isto é, 1,000 US$ (ao câmbio oficial) na China representam poder de compra de 4,000 US$ nos USA.
[4] https://www.mckinseyquarterly.com/Retail_Consumer_Goods/Sectors_Regions/Marketing_to_Chinas_consumers_1472
[5] China Regional Statistical Reports, reproduzidos pela Mckinsey
[6] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/estrategia-economica-chinesa-ensaia.html
[7] Pdf em http://www-900.ibm.com/cn/services/bcs/iibv/
[8] Butner, Karen. “Follow the leaders: Scoring high on the supply chain maturity model.” IBM Institute for Business Value. September 2005. http://www-935.ibm.com/services/us/index.wss/ibvstudy/imc/a1020839?cntxt=a1005268#1
[9] idem
[10] “China B2C Market Size Will Reach RMB 18.83 Billion in 2010.” Analysys
International. Jan 2007. http://english.analysys.com.cn/3class/detail.php?advertisement=002&id=261&name=report&FocusAreaTitleGB=&daohang=Report&title=
[11] Cidades de nível 1 e 2 são 25 (1-4 e 2-21), onde habita 9% da população (119 milhões de pessoas), que geram 34% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 16 e 30 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 24%, e 78% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[12] Cidades de nível 3 a 5 são 306 (3-19, 4-77, 5-209). Nelas habita 18% da população (239 milhões de pessoas), que geram 43% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 11 e 21 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 12%, e 56% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[13] Ministry of Commerce statistics. June 2006.
http://www.mofcom.gov.cn/aarticle/i/jyjl/l/200610/20061003365128.html
[14] “Car making in India, a different route.” Economist. December 13, 2006. http://economist.com/displayStory.cfm?story_id=8413155.
[15] “Novartis to Establish Drug R&D Center in China.” Wall Street Journal. November 6, 2006.
http://online.wsj.com/article/SB116277366653714013.html?mod=health_hs_pharmaceuticals_biotech
[16] “The AmCham-China White Paper: American Business in China.” The American Chamber of Commerce of the People’s Republic of China. May 16, 2006.
http://www.amchamchina.org.cn/amcham/show/content.php?Id=1570&menuid=&submid=
[17] 2005 National Statistics Bureau of China. October 19, 2006.
http://english.peopledaily.com.cn/200610/29/eng20061029_316147.html
[18] Farrell, Diana. “China’s looming talent shortage.” McKinsey Quarterly. November 2005.
http://www.mckinsey.com/mgi/publications/Chinatalent.asp
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
China “forçada” a dinamizar o consumo interno
Por: Vitor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
27 Outubro de 2010
Quase todos os indicadores conhecidos mostram que a China parece ter passado incólume à crise global de 2008. De facto, o sistema que as autoridades pensaram e montaram (deve reconhecer-se que as coisas na China não acontecem por acaso, planeiam-se), resistiu muito bem ao choque de stress real a que foi sujeito. Mas convém também recordar que a China dispõe de recursos que sabe utilizar com mestria, nomeadamente a cotação do yuan, articulando-a com as restantes iniciativas estratégicas, como foi referido noutros artigos neste blog [1].
No entanto, o modelo que fez despertar o país e arrancar da pobreza milhões de pessoas caminha para o esgotamento, se as autoridades decidirem ser vítimas passíveis do futuro. Vários são os caminhos escolhidos para ultrapassar o que poderia vir a revelar-se um impasse que a China não pode tolerar [2]. Um deles, ainda pouco ventilado neste blog, passa pelo aumento do consumo interno que permita aliviar o país da enorme dependência das exportações, ou, se se preferir, mais blindado a crises exteriores. Mas esse crescimento tem de ser sustentável, o que não é tarefa fácil num país com tão grandes assimetrias, com fortíssimas culturas milenares, e um sistema político ainda monolítico.
Índices de Consumo na China
De acordo com a consultora McKinsey [3], o consumo privado na China totalizou 890 bUS$ em 2007, que colocou a China como o quinto maior mercado consumidor do mundo atrás dos USA, Japão, UK, e Alemanha. Este valor correspondeu a cerca de 36% do PIB. Comparando-o com as maiores economias mundiais, e ponderando as populações em causa, constata-se que corresponde a metade do equivalente nos USA e a cerca de 2/3 do Japão e da UE.
Contudo, ao mesmo tempo que o PIB chinês continua, há cerca de vinte anos, a mostrar crescimentos de dois dígitos, o consumo interno evidencia um decréscimo de 15 pontos percentuais desde 1990. Estes abrandamentos sendo normais em qualquer país em acelerado desenvolvimento, indicia na China justificada preocupação, pois confirma a extrema dependência do país às exportações. Refira-se, por exemplo, que no Japão e na Coreia do Sul, após a WWII, embora se tenham verificado quebras percentuais no consumo privado, este nunca desceu abaixo de 50% dos PIB respectivos.
Índices de Poupança na China
As famílias chinesas têm uma grande tradição de poupança – cerca de 25% do rendimento disponível, ou seja, cerca de seis vezes a taxa equivalente nos USA e três vezes a do Japão [5]. Um valor demasiadamente elevado para um mercado que pretende desenvolver a vertente interna. Algumas fontes apontam mesmo que a poupança familiar continua a crescer – 20% do PIB em 1981, 30% em 1988, e provavelmente cerca de 40% actualmente [6].
Um estudo do Global Institute da Mckinsey referiu, com base em dados do Gabinete de Estatísticas da China, como evoluíram as poupanças familiares entre 1996 e 1998, em percentagem do PIB [7]: Famílias Rurais: 18%, 23%, 26%; Famílias Urbanas: 19%, 19%, 21%. Efeitos da tradição onde ela é mais forte? Mas o país não pode crescer a velocidades tão distintas.
Bom, mas para além da tradição, existe uma razão que pode explicar os elevados índices de poupança – a insegurança das famílias. O sistema de assistência social e de reformas é ainda muito débil, e os seguros privados não fazem parte das opções disponíveis. Como tal as famílias vêem-se compelidas a assegurar a sua segurança. Melhorias nestas áreas, por parte do estado, poderão alterar o cenário – a diminuição da ansiedade pessoal quanto ao futuro poderá libertar os chineses para o consumo. Mas isso conduz a uma nova questão – quem suportará os novos custos de segurança social, da saúde, da previdência, das reformas por invalidez e velhice? O financiamento só pode vir das quotizações das empresas, das classes média e média alta, e da despesa pública.
Distribuição dos produtos e vendas a crédito
Para além das medidas estruturantes que o governo possa tomar para estimular o consumo privado, há que reformular toda a arcaica rede de distribuição de bens. A Mckinsey estima que o retalho, último elo da cadeia de fornecimento para mais de metade dos 1.3 biliões de chineses, só é responsável por cerca de 18% do consumo. Nas zonas urbanas este valor sobe para cerca de 50%, mas mesmo assim encontra-se muito abaixo das ditas sociedades desenvolvidas.
No que ao crédito diz respeito, a situação chinesa também é peculiar, mesmo quando comparada com outros BRIC. Na China calcula-se que se fique por 3% do PIB, enquanto a Rússia atinge 7%, e o Brasil 12%. Então em hipotecas de casa própria os valores da China comparados com os USA são inequívocos quanto à dinâmica dos mercados: 11% na China contra mais de 80% nos USA! [8]. Estamos, de facto, perante mercados em estados de desenvolvimento muito distantes.
Qual o futuro do consumo na China, afinal?
A actual economia chinesa é capital intensiva. Até ver, pode dizer-se que a aposta em empresas médias e pequenas têm merecido pouca atenção. Nas últimas duas décadas, e de novo segundo a McKinsey, o peso das empresas no PIB passou de 14% para 22%, ao passo que o valor referente às famílias desceu de 72% para 56%. Esta tendência não poderá manter-se.
É lógico pensar que a China não possa esperar desenvolver o mercado interno sem tomar medidas concretas que estimulem os salários, os serviços, as PME, e… os mercados de capitais. Este último ponto é muito sensível, dado o regime político vigente. Esperar que o consumo aumente para níveis sustentáveis, e de acordo com os rácios de equilíbrio desejados com as exportações, somente através do crescimento do PIB não é solução – mesmo com o PIB a crescer a dois dígitos, nos últimos anos o emprego só avançou 1%.
As mudanças de fundo
Dito isto, o país parece exigir uma profunda reforma política. Este é o grande óbice. As medidas económicas de curto prazo não indiciam, por enquanto, essa via. Quando se consultam os mapas de investimentos chineses, com facilidade se verifica que perto de 90% se destinam a infra-estruturas. É certo que o país precisa delas, pois mesmo após o gigantesco desenvolvimento das duas últimas décadas, as carências são ainda muitas. O preocupante, no que diz respeito ao incentivo ao consumo, é que dificilmente se descortinam nas grandes linhas do investimento previsto mais de 7 a 8% dedicados ao consumo privado.
Nos tempos mais recentes, a China tem surpreendido pela capacidade de promover reformas económicas radicais capazes de alcançarem os desafiantes objectivos nacionais a que o país se propôs.
Mas esta é uma mudança de paradigma, que exige abandono de algumas práticas inerentes ao regime político vigente. Conseguirá a China dar mais passos significativos no emblemático e até agora eficaz “um país, dois sistemas”? Irá a China surpreender os teóricos das ciências económica e política, obsoletando tudo o que tem populado os manuais clássicos?
Eu acredito que esta última hipótese pode vingar.
PS: Que implicações terá tudo isto no mundo inteiro? Esta análise será tema de artigo a dedicar exclusivamente ao tema.
______________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/estrategia-economica-chinesa-ensaia.html
http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-em-guerra-pelas.html
[2] Ver declarações do Professor Fan Gang, influente economista chinês: http://www.project-syndicate.org/commentary/gang11/English
[3] http://www.mckinsey.com/mgi/mginews/unleashing_chinese_consumer.asp
[4] What’s Your Consumption Factor? (artigo de Jared Diamond, publicado a 2 Janeiro 2008 no New York Times)
[5] Em www “Why is China saving rate high” encontra-se interessante reflexão sobre o tema
[6] http://finance.mapsofworld.com/savings/china/rates.html
[7] http://www.ucm.es/info/eid/pb/China2000.pdf
[8] Low Consumer Debt In China, 03 Agosto de 2010, http://www.parapundit.com/archives/007379.html
vítor.trigo@gmail.com
27 Outubro de 2010
Quase todos os indicadores conhecidos mostram que a China parece ter passado incólume à crise global de 2008. De facto, o sistema que as autoridades pensaram e montaram (deve reconhecer-se que as coisas na China não acontecem por acaso, planeiam-se), resistiu muito bem ao choque de stress real a que foi sujeito. Mas convém também recordar que a China dispõe de recursos que sabe utilizar com mestria, nomeadamente a cotação do yuan, articulando-a com as restantes iniciativas estratégicas, como foi referido noutros artigos neste blog [1].
No entanto, o modelo que fez despertar o país e arrancar da pobreza milhões de pessoas caminha para o esgotamento, se as autoridades decidirem ser vítimas passíveis do futuro. Vários são os caminhos escolhidos para ultrapassar o que poderia vir a revelar-se um impasse que a China não pode tolerar [2]. Um deles, ainda pouco ventilado neste blog, passa pelo aumento do consumo interno que permita aliviar o país da enorme dependência das exportações, ou, se se preferir, mais blindado a crises exteriores. Mas esse crescimento tem de ser sustentável, o que não é tarefa fácil num país com tão grandes assimetrias, com fortíssimas culturas milenares, e um sistema político ainda monolítico.
Índices de Consumo na China
De acordo com a consultora McKinsey [3], o consumo privado na China totalizou 890 bUS$ em 2007, que colocou a China como o quinto maior mercado consumidor do mundo atrás dos USA, Japão, UK, e Alemanha. Este valor correspondeu a cerca de 36% do PIB. Comparando-o com as maiores economias mundiais, e ponderando as populações em causa, constata-se que corresponde a metade do equivalente nos USA e a cerca de 2/3 do Japão e da UE.
Contudo, ao mesmo tempo que o PIB chinês continua, há cerca de vinte anos, a mostrar crescimentos de dois dígitos, o consumo interno evidencia um decréscimo de 15 pontos percentuais desde 1990. Estes abrandamentos sendo normais em qualquer país em acelerado desenvolvimento, indicia na China justificada preocupação, pois confirma a extrema dependência do país às exportações. Refira-se, por exemplo, que no Japão e na Coreia do Sul, após a WWII, embora se tenham verificado quebras percentuais no consumo privado, este nunca desceu abaixo de 50% dos PIB respectivos.
Índices de Poupança na China
As famílias chinesas têm uma grande tradição de poupança – cerca de 25% do rendimento disponível, ou seja, cerca de seis vezes a taxa equivalente nos USA e três vezes a do Japão [5]. Um valor demasiadamente elevado para um mercado que pretende desenvolver a vertente interna. Algumas fontes apontam mesmo que a poupança familiar continua a crescer – 20% do PIB em 1981, 30% em 1988, e provavelmente cerca de 40% actualmente [6].
Um estudo do Global Institute da Mckinsey referiu, com base em dados do Gabinete de Estatísticas da China, como evoluíram as poupanças familiares entre 1996 e 1998, em percentagem do PIB [7]: Famílias Rurais: 18%, 23%, 26%; Famílias Urbanas: 19%, 19%, 21%. Efeitos da tradição onde ela é mais forte? Mas o país não pode crescer a velocidades tão distintas.
Bom, mas para além da tradição, existe uma razão que pode explicar os elevados índices de poupança – a insegurança das famílias. O sistema de assistência social e de reformas é ainda muito débil, e os seguros privados não fazem parte das opções disponíveis. Como tal as famílias vêem-se compelidas a assegurar a sua segurança. Melhorias nestas áreas, por parte do estado, poderão alterar o cenário – a diminuição da ansiedade pessoal quanto ao futuro poderá libertar os chineses para o consumo. Mas isso conduz a uma nova questão – quem suportará os novos custos de segurança social, da saúde, da previdência, das reformas por invalidez e velhice? O financiamento só pode vir das quotizações das empresas, das classes média e média alta, e da despesa pública.
Distribuição dos produtos e vendas a crédito
Para além das medidas estruturantes que o governo possa tomar para estimular o consumo privado, há que reformular toda a arcaica rede de distribuição de bens. A Mckinsey estima que o retalho, último elo da cadeia de fornecimento para mais de metade dos 1.3 biliões de chineses, só é responsável por cerca de 18% do consumo. Nas zonas urbanas este valor sobe para cerca de 50%, mas mesmo assim encontra-se muito abaixo das ditas sociedades desenvolvidas.
No que ao crédito diz respeito, a situação chinesa também é peculiar, mesmo quando comparada com outros BRIC. Na China calcula-se que se fique por 3% do PIB, enquanto a Rússia atinge 7%, e o Brasil 12%. Então em hipotecas de casa própria os valores da China comparados com os USA são inequívocos quanto à dinâmica dos mercados: 11% na China contra mais de 80% nos USA! [8]. Estamos, de facto, perante mercados em estados de desenvolvimento muito distantes.
Qual o futuro do consumo na China, afinal?
A actual economia chinesa é capital intensiva. Até ver, pode dizer-se que a aposta em empresas médias e pequenas têm merecido pouca atenção. Nas últimas duas décadas, e de novo segundo a McKinsey, o peso das empresas no PIB passou de 14% para 22%, ao passo que o valor referente às famílias desceu de 72% para 56%. Esta tendência não poderá manter-se.
É lógico pensar que a China não possa esperar desenvolver o mercado interno sem tomar medidas concretas que estimulem os salários, os serviços, as PME, e… os mercados de capitais. Este último ponto é muito sensível, dado o regime político vigente. Esperar que o consumo aumente para níveis sustentáveis, e de acordo com os rácios de equilíbrio desejados com as exportações, somente através do crescimento do PIB não é solução – mesmo com o PIB a crescer a dois dígitos, nos últimos anos o emprego só avançou 1%.
As mudanças de fundo
Dito isto, o país parece exigir uma profunda reforma política. Este é o grande óbice. As medidas económicas de curto prazo não indiciam, por enquanto, essa via. Quando se consultam os mapas de investimentos chineses, com facilidade se verifica que perto de 90% se destinam a infra-estruturas. É certo que o país precisa delas, pois mesmo após o gigantesco desenvolvimento das duas últimas décadas, as carências são ainda muitas. O preocupante, no que diz respeito ao incentivo ao consumo, é que dificilmente se descortinam nas grandes linhas do investimento previsto mais de 7 a 8% dedicados ao consumo privado.
Nos tempos mais recentes, a China tem surpreendido pela capacidade de promover reformas económicas radicais capazes de alcançarem os desafiantes objectivos nacionais a que o país se propôs.
Mas esta é uma mudança de paradigma, que exige abandono de algumas práticas inerentes ao regime político vigente. Conseguirá a China dar mais passos significativos no emblemático e até agora eficaz “um país, dois sistemas”? Irá a China surpreender os teóricos das ciências económica e política, obsoletando tudo o que tem populado os manuais clássicos?
Eu acredito que esta última hipótese pode vingar.
PS: Que implicações terá tudo isto no mundo inteiro? Esta análise será tema de artigo a dedicar exclusivamente ao tema.
______________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/estrategia-economica-chinesa-ensaia.html
http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-em-guerra-pelas.html
[2] Ver declarações do Professor Fan Gang, influente economista chinês: http://www.project-syndicate.org/commentary/gang11/English
[3] http://www.mckinsey.com/mgi/mginews/unleashing_chinese_consumer.asp
[4] What’s Your Consumption Factor? (artigo de Jared Diamond, publicado a 2 Janeiro 2008 no New York Times)
[5] Em www “Why is China saving rate high” encontra-se interessante reflexão sobre o tema
[6] http://finance.mapsofworld.com/savings/china/rates.html
[7] http://www.ucm.es/info/eid/pb/China2000.pdf
[8] Low Consumer Debt In China, 03 Agosto de 2010, http://www.parapundit.com/archives/007379.html
Subscrever:
Mensagens (Atom)