Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
14 Fevereiro de 2011
Agora, que pousou suficiente poeira sobre a visita de Hu Jintao aos USA, acho que chegou a altura de analisar o que foi dito, e o que tal poderá significar. Não quis fazê-lo em cima do acontecimento, mas agora já chega de reflexão e é hora de comentário.
Que mensagem transmitiu Hu Jintao aos americanos?
“Senhoras e senhores, há trinta e dois anos, Deng Xiaoping, o grande arquitecto da reforma e da abertura da China, fez uma visita histórica aos Estados Unidos. Aqui ele disse que o Oceano Pacífico deixou de ser um obstáculo que nos separa. Pelo contrário, é um vínculo que nos une. A história provou a justeza dessa afirmação”.
Foi assim, com todo este calor metafórico, que o presidente Hu Jintao se referiu às relações entre os dois gigantes da economia mundial, durante um almoço de cortesia oferecido por organizações americanas a 20 de Janeiro em Washington. O discurso total foi publicado pela agência Xinhua.
Após relembrar como os dois países partilham interesses estratégicos – destacando a questão nuclear coreana e o Afeganistão – o presidente chinês tratou de recordar aos seus ilustres anfitriões como os tem ajudado. Por certo que os USA não concordarão com a afirmação, mas Hu Jintao referiu que na última década a qualidade dos produtos chineses de baixo custo permitiu aos americanos pouparem cerca de 600 mil milhões de USD, e que 70% das empresas norte-americanas na China continuaram a ser rentáveis no difícil período de 2008-2009, isto sem esquecer que actualmente o fluxo turístico entre os dois países ultrapassa 3 milhões de viagens por ano.
Aproveitando os progressos já conseguidos, o presidente chinês lançou o que considera serem os cinco alicerces do crescimento conjunto (Hu Jintao afirmou mesmo que se estava a referir a cooperação estratégica e não um qualquer jogo de soma nula):
(1) Os dois lados devem ver e tratar as relações bilaterais sob perspectiva global;
(2) Tanto a China com os USA devem avançar na reestruturação económica, protecção do ambiente, energia e inovação tecnológica, saúde, educação e outros programas sociais, aviação e exploração espacial;
(3) Os nossos países devem melhorar a coordenação global, enfrentar as mudanças climáticas, promover a segurança energética e dos recursos, a qualidade alimentar e a saúde pública, mantendo diálogo e intercâmbio nas questões de segurança regional;
(4) Precisamos reforçar iniciativas que garantam que as gerações mais novas se empenhem em levar por diante a amizade China-USA;
(5) Devemos tratar-nos com mútuo respeito e em igualdade, endereçando de forma adequada as questões sensíveis.
Releve-se como o orador prepara o caminho para o ponto quinto. Os quatro pilares anteriores são tratados de forma suave, natural, em paz, em continuidade, e sem ameaças. Contudo, a surpresa estava reservada para o último ponto – o tratamento respeitoso e igualitário. Hu Jintao, foi claro – em relação ao Tibete e Taiwan, e a todas as questões de integridade nacional chinesa, ou os USA optam por respeitar a sensibilidade de 1,300 milhões de chineses, ou as nossas relações irão sofrer problemas constantes ou mesmo tensão.
Retomando o discurso amistoso e cooperativo, Hu regressou aos números, e aos argumentos que mais atraem este tipo de assistência. Em jeito de balanço da primeira do século XXI, o presidente chinês relembrou que a China:
- Cresceu à média anual de 11%;
- Importou 687 mil milhões de USD;
- Justificou a criação / manutenção de 14 milhões de empregos no estrangeiro;
- Desempenhou papel relevante na resolução de importantes crises internacionais, em particular na recuperação económica global e na reformulação do sistema financeiro internacional.
Após a aplicação da técnica da sanduíche, ou mais propriamente do hamburger já que estava em terras do Tio Sam, colocando a delicada questão da soberania nacional meio disfarçada no discurso que todos queriam ouvir, Hu Jintao terminou com uma vasta lista de promessas e directivas, que deve ter deixado os ilustres homens de negócios de “olhos em bico”.
Destaco:
- A China é o maior país em desenvolvimento;
- O desenvolvimento, em particular o científico, é a base para a resolução dos nossos problemas;
- Estamos decididos em colocar as pessoas em primeiro lugar, promovendo políticas holísticas de bem-estar, equidade e justiça social;
- Já definimos as linhas mestras para o desenvolvimento sustentável nos próximos cinco anos;
- Continuaremos a aprofundar a abertura ao exterior, as reformas, a reestruturação económica, política, cultural, e social;
- Vamos desenvolver a democracia socialista e construir um país socialista sob o primado da lei;
- Defendemos soluções pacíficas para os diferendos internacionais;
- Não nos envolveremos na corrida armamentista, nem seremos ameaça para nenhum país;
- A China nunca prosseguirá políticas expansionistas.
Quaisquer que sejam as suas opções ideológicas, o leitor poderá imaginar o impacte tremendo que tais afirmações produzem junto de magnates dos negócios. De facto, que poderiam eles esperar mais?
Mas, que consistência terá, afinal, este discurso?
Hu Jintao é um político arguto. Provou-o repetidas vezes ao longo do seu mandato. O que disse aos homens de negócios americanos não foi, de todo, surpresa, principalmente no que diz respeito aos grandes números que apresentou. Tais mensagens haviam sido publicadas no People’s Daily em 2009.
O mesmo se pode dizer das referências ideológicas e das linhas mestras da política chinesa. Recorde-se, por exemplo, que numa visita a Londres, também em 2009, o presidente Jintao não hesitou em citar Adam Smith e a sua Teoria dos Sentimentos Morais – “Se os frutos do desenvolvimento não forem compartilhados por todos, então o desenvolvimento será moralmente condenável e tornar-se-á numa ameaça à instabilidade”, como relata The Economist de 19 de Março de 2009. Sempre oportuno, Hu Jintao.
Mas, vejamos por partes se os números apresentados não são mera argumentação política.
1. Sobre a alegada poupança de 600 mil milhões de USD de que os norte-americanos terão beneficiado graças aos produtos de baixo custo importados da China
No artigo “The Effect of Trade with Low-Income Countries on U.S. Industry”, publicado em Junho de 2008, Raphael Auer do Swiss National Bank e Andreas M. Fischer do Swiss National Bank e CEPR, explicam porque consideram que os valores em causa não estão longe da realidade. Resumidamente, o artigo diz o seguinte:
- O estudo incidiu em 325 empresas transformadoras norte-americanas de comida para animais domésticos;
- Os autores estimam que, sempre que as importações chinesas aumentarem a sua quota de mercado em 1 ponto percentual, os preços ao produtor americano quebrarão cerca de 2,5%;
- De 2001 a 2006, a China alegou ter passado duma quota de mercado de 3.7% para 8.6%. Nesse período as importações norte-americanas provenientes da China cresceram cerca de 28%, enquanto as importações totais dos USA subiram apenas 4%. Face a estes dados, os autores, concluem que a China terá ampliado a sua quota de mercado de fabricação para 10.6%;
- Tal significaria que a penetração da China nos mercados norte-americanos teria aumentado 6.9 pontos percentuais entre 2001 e 2010, ou seja, 0.69 pontos anuais.
- Se cada ponto a mais tivesse reduzido os preços em 2.5%, a expansão chinesa teria sido responsável pelo corte de 1.7% ao ano;
- Ora, como as vendas totais de produtos manufacturados atingiu 4,512 mil milhões de USD por ano na última década, os cálculos anteriores sugerem que essas transferências poderiam ter custado 4,590 mil milhões, se a China não tivesse interferido;
- Donde se pode extrair a implicação de 78 mil milhões por ano, ou seja, 780 mil milhões de USD ao longo da década.
Cálculos complicados que o público não fará, por certo, mas que não estão muito distantes da análise global feita por Hu Jintao.
2. A China, desde a adesão à OMC, terá sido responsável pela criação de mais de 14 milhões de empregos em todo o mundo
Provavelmente, a assistência terá reagido com misto de incapacidade de verificação e sentimento de propaganda. No entanto, os números coligidos por fontes como o FMI (Fundo Monetário Internacional) ou o CEIC (Centro de Estudos e Investigação Científica) variam, conforme os anos, entre 14 e 17 milhões. Alguns até poderiam ter presente os relatórios do FMI que estimam que o comércio USA-China terá criado 600 mil postos de trabalho nos USA.
Contudo, é bem provável que sigam mais atentamente os artigos de Paul Krugman do que os relatórios do FMI.
E qual é a opinião de Krugman sobre o tema? Arrasadora! O prémio Nobel economista, que se define no seu blog – “The Conscience of a Liberal” – no New York Times, afirmou em 31 de Dezembro de 2009, que um dos efeitos do mercantilismo chinês foi a destruição de 1.4 milhões de postos de trabalho nos USA.
Posições completamente divergentes, como se constata.
No entanto, nalguns países asiáticos observou-se realmente um acréscimo de postos de trabalho ao mesmo tempo que se verificava aumento de exportações para a China. Coincidência? Correlação? Pode argumentar-se que é bem provável que tal se tenha ficado a dever ao aumento de outsourcing chinês em busca de mão-de-obra cada vez mais barata. Especulações que só o tempo permitirá, ou não, confirmar.
Uma dúvida parece estar a emergir
Uma mensagem / proposta parece evidente: A China prepara-se para partilhar a recuperação mundial e a divisão de mercados com o seu rival mais directo.
Se com a ex-URSS os USA mantiveram uma longa Guerra Fria, será que tudo se conjuga para manterem agora uma Paz Quente com a China?
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
domingo, 21 de novembro de 2010
CHINA – Medidas contra a ameaça de inflação (1) - A Banca e o Dinheiro
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
21 Novembro de 2010
Após uma breve análise prospectiva dos possíveis impactes do aumento da inflação na China, e sobre algumas medidas que as autoridades chinesas já estavam a tomar, e poderiam vir a tomar para minorar os efeitos no crescimento do país, terminei o artigo de ontem prevendo voltar ao assunto, no máximo, dentro de três meses.
Argumentava então, e uma vez mais, que, na China, tudo se projecta por forma a que as medidas importantes não cheguem a ser urgentes. Os gabinetes de estudo mantêm-se permanentemente atentos, fornecendo informações a tempo dos decisores poderem tomar medidas o quanto antes. Mal podia imaginar que, nem vinte e quatro horas depois, os media internacionais já anunciavam novo pacote anti-inflacionista chinês.
Novas regras para o sistema bancário
Em 18 de Setembro, a revista Veja referia os riscos que o aumento de crédito concedido representava para o sistema bancário chinês, baseada num parecer da agência de risco Fitch. Mas, certamente que estaria distante da maior parte dos analistas económicos, que os líderes chineses avançassem com novas medidas tão cedo, como fizeram na noite de 19 de Novembro.
Sem que algo de substantivo o fizesse supor, o Banco Popular da China (BPC) decidiu que os bancos comerciais teriam compulsivamente de transferir, até 29 de Novembro, um adicional de 0.5% dos seus activos para o banco central.
Esta nova disposição significa que os bancos comerciais (ver nota * sobre sistema bancário chinês no final deste artigo), ficaram obrigados a ver retidos em contas de baixo rendimento no BPC, 18% dos seus activos, contra os 17.5% anteriores.
É muito dinheiro que está em causa, e é principalmente com estas reservas que o BPC compra diariamente cerca de 1 bilião US$ de divisas estrangeiras.
Refira-se por comparação, que a Reserva Federal nos USA fixou estes rácios em 10% para os bancos pequenos, não impondo qualquer limite para algumas categorias de grandes depósitos.
A “Guerra das Moedas” está longe do fim
O conflito entre os USA e a China acerca da paridade das respectivas moedas continua em aberto. A China, que tem resistido com firmeza a revalorizar o yuan como os USA pretendem, acusa agora a Reserva Federal, baseada no discurso de Ben Bernanke da passada Sexta-Feira, de estar, ela própria, a procurar desvalorizar o dólar.
Acontece, contudo, que as medidas agora encetadas pelos chineses, de aumento das reservas bancárias, ocorreram antes do citado discurso de Bernanke em Frankfurt. Trata-se, portanto, de mera argumentação carente de precisão. De facto, a justificação fornecida pelos dirigentes chineses, não fez qualquer alusão às posições de Reserva Federal, remetendo-a exclusivamente para satisfação de necessidades internas.
Numa altura em que a Reserva Federal se esforça por reduzir a dívida norte-americana, os chineses utilizam os excedentes monetários para manterem as reservas estrangeiras no nível de 2.65 triliões US$.
O verso e o reverso
A maioria dos economistas, ocidentais e chineses, pensam que as autoridades chinesas preferem aumentar juros no lugar de elevar as reservas mínimas, podendo assim melhor recompensar os depositantes. Mas, sabem que não há bela sem senão – ao aumento das taxas de juros poderia vir a corresponde um acréscimo de apetite pela compra de yuans por partes de estrangeiros, que poderiam optar por depositá-los na China, o que conduziria a um yuan mais forte, efeito que não interessa definitivamente aos dirigentes chineses.
As autoridades chinesas sabem que foi o yuan fraco que favoreceu as exportações chinesas e a criação de milhões de postos de trabalho na China. O recente movimento da China no sentido de se posicionar no mercado de produtos de qualidade, irá conduzi-la a novas batalhas competitivas com os mercados desenvolvidos e não com os emergentes. Há que continuar a acautelar, portanto, a paridade com o dólar, enquanto as novas batalhas não estiverem ganhas. Quando a China já tiver uma voz forte nos mercados mais sofisticados, então a cotação do yuan diminuirá o seu valor competitivo, e a guerra das moedas deixará de ser decisiva.
Esfriar os movimentos especulativos
O aumento da inflação para 4.4%, Outubro sobre Outubro, foi acompanhado pelo incremento da oferta de dinheiro nos últimos dois anos em 54%. As autoridades pensam que ao dificultarem o acesso ao crédito, deixando menos yuans disponíveis na banca comercial para empréstimos, a corrida especulativa na habitação e commodities resfriará.
Helen Qiao e Song Yu , da Goldman Sachs, prevêem mesmo que estas medidas compulsivas, possam vir a ser reforçadas ainda este ano. Esta revelação sugere que a actual iniciativa possa não ser suficientemente eficaz, obrigando o governo a nova intervenção.
________________________________
Nota (*) sobre o sistema bancário chinês:
A China dispõe dum grande e robusto sistema bancário.
Os bancos comerciais são essenciais na disponibilização de fundos para o crescimento do país. Em Outubro de 2008, o banco central BPC depositou 30 biliões de yuans (4.4 biliões US$) em bancos comerciais da China destinados a empréstimos.
Estes bancos comerciais são indispensáveis para: a construção dum mercado de capitais mais forte; a introdução de novos e sofisticados métodos de financiamento; optimizar a gestão de divisas; através de fundos fiscais, ajudar os bancos a reduzir os activos podres; melhorar a reforma financeira.
vitor.trigo@gmail.com
21 Novembro de 2010
Após uma breve análise prospectiva dos possíveis impactes do aumento da inflação na China, e sobre algumas medidas que as autoridades chinesas já estavam a tomar, e poderiam vir a tomar para minorar os efeitos no crescimento do país, terminei o artigo de ontem prevendo voltar ao assunto, no máximo, dentro de três meses.
Argumentava então, e uma vez mais, que, na China, tudo se projecta por forma a que as medidas importantes não cheguem a ser urgentes. Os gabinetes de estudo mantêm-se permanentemente atentos, fornecendo informações a tempo dos decisores poderem tomar medidas o quanto antes. Mal podia imaginar que, nem vinte e quatro horas depois, os media internacionais já anunciavam novo pacote anti-inflacionista chinês.
Novas regras para o sistema bancário
Em 18 de Setembro, a revista Veja referia os riscos que o aumento de crédito concedido representava para o sistema bancário chinês, baseada num parecer da agência de risco Fitch. Mas, certamente que estaria distante da maior parte dos analistas económicos, que os líderes chineses avançassem com novas medidas tão cedo, como fizeram na noite de 19 de Novembro.
Sem que algo de substantivo o fizesse supor, o Banco Popular da China (BPC) decidiu que os bancos comerciais teriam compulsivamente de transferir, até 29 de Novembro, um adicional de 0.5% dos seus activos para o banco central.
Esta nova disposição significa que os bancos comerciais (ver nota * sobre sistema bancário chinês no final deste artigo), ficaram obrigados a ver retidos em contas de baixo rendimento no BPC, 18% dos seus activos, contra os 17.5% anteriores.
É muito dinheiro que está em causa, e é principalmente com estas reservas que o BPC compra diariamente cerca de 1 bilião US$ de divisas estrangeiras.
Refira-se por comparação, que a Reserva Federal nos USA fixou estes rácios em 10% para os bancos pequenos, não impondo qualquer limite para algumas categorias de grandes depósitos.
A “Guerra das Moedas” está longe do fim
O conflito entre os USA e a China acerca da paridade das respectivas moedas continua em aberto. A China, que tem resistido com firmeza a revalorizar o yuan como os USA pretendem, acusa agora a Reserva Federal, baseada no discurso de Ben Bernanke da passada Sexta-Feira, de estar, ela própria, a procurar desvalorizar o dólar.
Acontece, contudo, que as medidas agora encetadas pelos chineses, de aumento das reservas bancárias, ocorreram antes do citado discurso de Bernanke em Frankfurt. Trata-se, portanto, de mera argumentação carente de precisão. De facto, a justificação fornecida pelos dirigentes chineses, não fez qualquer alusão às posições de Reserva Federal, remetendo-a exclusivamente para satisfação de necessidades internas.
Numa altura em que a Reserva Federal se esforça por reduzir a dívida norte-americana, os chineses utilizam os excedentes monetários para manterem as reservas estrangeiras no nível de 2.65 triliões US$.
O verso e o reverso
A maioria dos economistas, ocidentais e chineses, pensam que as autoridades chinesas preferem aumentar juros no lugar de elevar as reservas mínimas, podendo assim melhor recompensar os depositantes. Mas, sabem que não há bela sem senão – ao aumento das taxas de juros poderia vir a corresponde um acréscimo de apetite pela compra de yuans por partes de estrangeiros, que poderiam optar por depositá-los na China, o que conduziria a um yuan mais forte, efeito que não interessa definitivamente aos dirigentes chineses.
As autoridades chinesas sabem que foi o yuan fraco que favoreceu as exportações chinesas e a criação de milhões de postos de trabalho na China. O recente movimento da China no sentido de se posicionar no mercado de produtos de qualidade, irá conduzi-la a novas batalhas competitivas com os mercados desenvolvidos e não com os emergentes. Há que continuar a acautelar, portanto, a paridade com o dólar, enquanto as novas batalhas não estiverem ganhas. Quando a China já tiver uma voz forte nos mercados mais sofisticados, então a cotação do yuan diminuirá o seu valor competitivo, e a guerra das moedas deixará de ser decisiva.
Esfriar os movimentos especulativos
O aumento da inflação para 4.4%, Outubro sobre Outubro, foi acompanhado pelo incremento da oferta de dinheiro nos últimos dois anos em 54%. As autoridades pensam que ao dificultarem o acesso ao crédito, deixando menos yuans disponíveis na banca comercial para empréstimos, a corrida especulativa na habitação e commodities resfriará.
Helen Qiao e Song Yu , da Goldman Sachs, prevêem mesmo que estas medidas compulsivas, possam vir a ser reforçadas ainda este ano. Esta revelação sugere que a actual iniciativa possa não ser suficientemente eficaz, obrigando o governo a nova intervenção.
________________________________
Nota (*) sobre o sistema bancário chinês:
A China dispõe dum grande e robusto sistema bancário.
Os bancos comerciais são essenciais na disponibilização de fundos para o crescimento do país. Em Outubro de 2008, o banco central BPC depositou 30 biliões de yuans (4.4 biliões US$) em bancos comerciais da China destinados a empréstimos.
Estes bancos comerciais são indispensáveis para: a construção dum mercado de capitais mais forte; a introdução de novos e sofisticados métodos de financiamento; optimizar a gestão de divisas; através de fundos fiscais, ajudar os bancos a reduzir os activos podres; melhorar a reforma financeira.
domingo, 31 de outubro de 2010
CHINA – o Monopólio de “Terras Raras”
Por: Vitor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
31 Outubro de 2010
Antecedentes distantes e próximos
Os diferendos entre a China e o Japão são memoriais, mas ultrapassados estão os tempos em que o poderio militar japonês desbaratava as indefesas populações chinesas.
No rescaldo da Primeira Grande Guerra (IWW), o Japão sentiu-se prejudicado pelo Tratado de Versailles de 1919, que não lhe reconheceu as pretensões de “igualdade racial” (negado por britânicos e americanos) nem as “reivindicações territoriais” (contestadas pelos chineses), que almejavam por se considerarem como potência vencedora aliada. [1] Estas foram, aliás, apontadas como causas para o deflagrar da IIWW em 1939.
O diferendo entre China e Japão, embora só episodicamente armado, manteve-se latente durante o século XX, ganhando recentemente novos contornos com a ascensão da China ao segundo lugar das economias mundiais [2].
Os campos de batalha são múltiplos e a guerra politico-comercial está longe do fim. Um caso recente ocorreu com a colisão dum pesqueiro chinês, não com um mas com dois navios da armada japonesa (sintomático, não?), que foi explorado pelas duas potências para o que parecia ser o limite do razoável, mais parecendo retornar às disputas do início do século XX. Mas não, tudo tinha a sua lógica, e em causa estavam a disputa dos dois estados pelas matérias-primas, em zona marítima muito rica e por explorar, controladas pelo Japão e reclamadas pela China. [3]
Entre as medidas de retaliação que os chineses tomaram releva a interrupção de exportação de “Terras Raras”, abundantes na China, que são cruciais para a indústria de alta tecnologia japonesa.
O que são “Terras Raras”
Denomina-se por “Terras Raras” (Rare Earth Minerals) um conjunto de 17 minerais, da família dos lantanídeos, que são cruciais para a produção de praticamente todos os produtos de alta tecnologia, como computadores, painéis solares, turbinas eólicas, automóveis híbridos, e mísseis teleguiados.
Nos finais dos anos 1940, a maior parte da extracção de “Terras Raras” ocorria na índia e no Brasil. A partir da década de 1950, com a descoberta de importantes reservas na África do Sul, a produção descentralizou-se. Porém, tudo se alterou com a produção chinesa em larga escala, tornando todas as outras explorações inviáveis sob o ponto de vista económico. Hoje a China representa cerca de 95% dos depósitos de “Terras Raras” mundiais. [4]
A designação “Terras Raras” é comercial e não tem suporte científico sustentável, dado que existem na Terra em quantidades superiores à prata por exemplo. Quatro destes elementos mais comuns (Ítrio, Lantânio, Cério e Neodímio) estão disponíveis em maior volume do que, por exemplo, o chumbo. Contudo, o facto de não se encontrarem separados na natureza ajuda a justificar o nome porque são conhecidos.
Restrições à exportação de “Terras Raras”
A China é membro de pleno direito da OMC – Organização Mundial de Comércio – desde Dezembro de 2001. Ao aderir a esta organização, a China passou a ter de respeitar as suas regras tendentes ao comércio livre. Restrições à exportação não podem ser aceites e não o estão a ser. De facto, segundo as regras, a iniciativa chinesa de restringir exportações consubstancia uma violação grave do instituído. As nações comercialmente mais importantes começam a ficar impacientes. [5]
Que alternativas?
Os USA já decidiram reabrir as suas reservas, entretanto abandonadas por serem demasiadamente onerosas face aos preços praticados pelos chineses. Exemplo desta orientação é o projecto de reactivação dos depósitos californianos de Mountain Pass, praticamente parados desde 2005, conforme referido em Relatórios da Popular Science, Março de 2010 [6].
Os japoneses, limitados pela geografia e pressionados pelo peso da sua economia high-tech, procuram desesperadamente outras fontes. Exemplo disso é o interesse que, segundo a Reuters, a Toyota está a mostrar por um território junto ao Lago Thor, no Canadá, onde este fabricante de híbridos, em especial o modelo Prius, do qual espera vender em 2010 180,000 veículos só nos USA. [7]
Naturalmente, também a UE se manifesta preocupada com estas restrições e exclusiva dependência, e em particular a Alemanha. Segundo o New York Times de 22 Outubro de 2010, a Alemanha prepara-se mesmo para colocar a questão na próxima reunião do G20. Este país acusa a China de pressionar para maiores investimentos na China a quem quiser ter acesso a “Terras Raras”. No mesmo artigo, o jornal dá entretanto conta de recentes transferências de “Terras Raras” para os USA e UE. O embargo ao Japão parece, contudo, continuar. [8]
Outros cenários, outras estórias mal contadas
Vale a pena consultar um interessante artigo publicado pela IBM, patrocinadora da iniciativa SmartPlanet, intitulado “Afghanistan: the ‘Saudi Arabia’ of lithium?” [9]. Dele cito, sem comentar:
• Geólogos norte-americanos descobriram enormes depósitos minerais (possivelmente 1 trilião de US$) em todo o Afeganistão, segundo o New York Times
• Quanto ao lítio, um metal importante usado em baterias de carro e computador híbrido (…) tem uma estimativa de 5,4 milhões de toneladas
No mesmo sítio, SmartPlanet da IBM, pode ler-se sob o título “The US is sitting on a rare earth stockpile” [10]:
• De acordo com um novo relatório dos USA Geological Survey, os USA estão sentados sobre grandes reservas inexploradas (de “Terras Raras”) que poderiam servir como protecção contra uma escassez iminente
• A China indicou que pode parar a exportação de “Terras Raras” nos próximos 5 a 10 anos, por causa da procura interna
• Segundo estimativas do USGS, os USA detêm reservas de minério de terras raras que podem chegar a 13 milhões de toneladas (em 2009, em todo o mundo produziram-se 124 mil toneladas)
A política, e a sua componente militar, têm realmente muito para explicar acerca das questões económicas, mas raramente estão dispostas a fazê-lo.
Ao jeito duma típica conclusão norte-americana
Alexis Madrigal é editor sénior da TheAtlantic.com. e escreveu em 23 Setembro de 2010 sobre a questão China e “Terras Raras”, entre várias coisas interessantes, o seguinte [11]:
• Preocupados com o monopólio da China em elementos raros? Reiniciem a produção americana (título do artigo)
• Até a indústria de defesa americana depende de elementos “Terras Raras” chineses, de acordo com um relatório do Government Accountability Office de 2010
• “Eu acho que os políticos e as mentes financeiras americanas parecem ignorar completamente o que é fabricação ou exploração mineira. Eles só pensam que o dinheiro resolve todos os problemas”, citando Jack Lifton um reconhecido consultor de indústria extractivas
• “Nós realmente nos USA somos tolos. Desactivámos uma indústria que é estratégica e crítica, em nome do baixo custo. Agora estamos surpreendidos (…) Eu não estou surpreendido, nem ninguém o está na China”, novamente citando Jack Lifton
Ils sont fous, ces Romans… diria Asterix.
____________________________________________
NOTAS:
[1] http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Paris_Peace_Conference,_1919
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-segunda-economia-mundial.html
[3] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-japao-o-equilibrio-instavel_27.html
[4] http://www.worldlingo.com/ma/enwiki/pt/Rare_earth_element
[5] http://www.voanews.com/english/news/asia/Lack-of-Rare-Earth-Could-Cause-Major-Problems-103898893.html
[6] http://www.popsci.com/technology/article/2010-03/shortage-rare-earth-minerals-may-cripple-us-high-tech-scientists-warn-congress
[7] http://www.allcarselectric.com/blog/1034759_al-gore-versus-the-rare-earth-metals
[8] http://www.nytimes.com/2010/10/22/business/energy-environment/22iht-rare.html
[9] http://www.smartplanet.com/business/blog/intelligent-energy/afghanistan-the-saudi-arabia-of-lithium/1549/
[10] http://www.smartplanet.com/business/blog/smart-takes/us-sitting-on-rare-earth-stockpile-says-usgs-report-hedge-against-looming-tech-shortage/4873/?tag=content;col1
[11] http://www.theatlantic.com/technology/archive/2010/09/worried-about-chinas-monopoly-on-rare-elements-restart-american-production/63444/
vítor.trigo@gmail.com
31 Outubro de 2010
Antecedentes distantes e próximos
Os diferendos entre a China e o Japão são memoriais, mas ultrapassados estão os tempos em que o poderio militar japonês desbaratava as indefesas populações chinesas.
No rescaldo da Primeira Grande Guerra (IWW), o Japão sentiu-se prejudicado pelo Tratado de Versailles de 1919, que não lhe reconheceu as pretensões de “igualdade racial” (negado por britânicos e americanos) nem as “reivindicações territoriais” (contestadas pelos chineses), que almejavam por se considerarem como potência vencedora aliada. [1] Estas foram, aliás, apontadas como causas para o deflagrar da IIWW em 1939.
O diferendo entre China e Japão, embora só episodicamente armado, manteve-se latente durante o século XX, ganhando recentemente novos contornos com a ascensão da China ao segundo lugar das economias mundiais [2].
Os campos de batalha são múltiplos e a guerra politico-comercial está longe do fim. Um caso recente ocorreu com a colisão dum pesqueiro chinês, não com um mas com dois navios da armada japonesa (sintomático, não?), que foi explorado pelas duas potências para o que parecia ser o limite do razoável, mais parecendo retornar às disputas do início do século XX. Mas não, tudo tinha a sua lógica, e em causa estavam a disputa dos dois estados pelas matérias-primas, em zona marítima muito rica e por explorar, controladas pelo Japão e reclamadas pela China. [3]
Entre as medidas de retaliação que os chineses tomaram releva a interrupção de exportação de “Terras Raras”, abundantes na China, que são cruciais para a indústria de alta tecnologia japonesa.
O que são “Terras Raras”
Denomina-se por “Terras Raras” (Rare Earth Minerals) um conjunto de 17 minerais, da família dos lantanídeos, que são cruciais para a produção de praticamente todos os produtos de alta tecnologia, como computadores, painéis solares, turbinas eólicas, automóveis híbridos, e mísseis teleguiados.
Nos finais dos anos 1940, a maior parte da extracção de “Terras Raras” ocorria na índia e no Brasil. A partir da década de 1950, com a descoberta de importantes reservas na África do Sul, a produção descentralizou-se. Porém, tudo se alterou com a produção chinesa em larga escala, tornando todas as outras explorações inviáveis sob o ponto de vista económico. Hoje a China representa cerca de 95% dos depósitos de “Terras Raras” mundiais. [4]
A designação “Terras Raras” é comercial e não tem suporte científico sustentável, dado que existem na Terra em quantidades superiores à prata por exemplo. Quatro destes elementos mais comuns (Ítrio, Lantânio, Cério e Neodímio) estão disponíveis em maior volume do que, por exemplo, o chumbo. Contudo, o facto de não se encontrarem separados na natureza ajuda a justificar o nome porque são conhecidos.
Restrições à exportação de “Terras Raras”
A China é membro de pleno direito da OMC – Organização Mundial de Comércio – desde Dezembro de 2001. Ao aderir a esta organização, a China passou a ter de respeitar as suas regras tendentes ao comércio livre. Restrições à exportação não podem ser aceites e não o estão a ser. De facto, segundo as regras, a iniciativa chinesa de restringir exportações consubstancia uma violação grave do instituído. As nações comercialmente mais importantes começam a ficar impacientes. [5]
Que alternativas?
Os USA já decidiram reabrir as suas reservas, entretanto abandonadas por serem demasiadamente onerosas face aos preços praticados pelos chineses. Exemplo desta orientação é o projecto de reactivação dos depósitos californianos de Mountain Pass, praticamente parados desde 2005, conforme referido em Relatórios da Popular Science, Março de 2010 [6].
Os japoneses, limitados pela geografia e pressionados pelo peso da sua economia high-tech, procuram desesperadamente outras fontes. Exemplo disso é o interesse que, segundo a Reuters, a Toyota está a mostrar por um território junto ao Lago Thor, no Canadá, onde este fabricante de híbridos, em especial o modelo Prius, do qual espera vender em 2010 180,000 veículos só nos USA. [7]
Naturalmente, também a UE se manifesta preocupada com estas restrições e exclusiva dependência, e em particular a Alemanha. Segundo o New York Times de 22 Outubro de 2010, a Alemanha prepara-se mesmo para colocar a questão na próxima reunião do G20. Este país acusa a China de pressionar para maiores investimentos na China a quem quiser ter acesso a “Terras Raras”. No mesmo artigo, o jornal dá entretanto conta de recentes transferências de “Terras Raras” para os USA e UE. O embargo ao Japão parece, contudo, continuar. [8]
Outros cenários, outras estórias mal contadas
Vale a pena consultar um interessante artigo publicado pela IBM, patrocinadora da iniciativa SmartPlanet, intitulado “Afghanistan: the ‘Saudi Arabia’ of lithium?” [9]. Dele cito, sem comentar:
• Geólogos norte-americanos descobriram enormes depósitos minerais (possivelmente 1 trilião de US$) em todo o Afeganistão, segundo o New York Times
• Quanto ao lítio, um metal importante usado em baterias de carro e computador híbrido (…) tem uma estimativa de 5,4 milhões de toneladas
No mesmo sítio, SmartPlanet da IBM, pode ler-se sob o título “The US is sitting on a rare earth stockpile” [10]:
• De acordo com um novo relatório dos USA Geological Survey, os USA estão sentados sobre grandes reservas inexploradas (de “Terras Raras”) que poderiam servir como protecção contra uma escassez iminente
• A China indicou que pode parar a exportação de “Terras Raras” nos próximos 5 a 10 anos, por causa da procura interna
• Segundo estimativas do USGS, os USA detêm reservas de minério de terras raras que podem chegar a 13 milhões de toneladas (em 2009, em todo o mundo produziram-se 124 mil toneladas)
A política, e a sua componente militar, têm realmente muito para explicar acerca das questões económicas, mas raramente estão dispostas a fazê-lo.
Ao jeito duma típica conclusão norte-americana
Alexis Madrigal é editor sénior da TheAtlantic.com. e escreveu em 23 Setembro de 2010 sobre a questão China e “Terras Raras”, entre várias coisas interessantes, o seguinte [11]:
• Preocupados com o monopólio da China em elementos raros? Reiniciem a produção americana (título do artigo)
• Até a indústria de defesa americana depende de elementos “Terras Raras” chineses, de acordo com um relatório do Government Accountability Office de 2010
• “Eu acho que os políticos e as mentes financeiras americanas parecem ignorar completamente o que é fabricação ou exploração mineira. Eles só pensam que o dinheiro resolve todos os problemas”, citando Jack Lifton um reconhecido consultor de indústria extractivas
• “Nós realmente nos USA somos tolos. Desactivámos uma indústria que é estratégica e crítica, em nome do baixo custo. Agora estamos surpreendidos (…) Eu não estou surpreendido, nem ninguém o está na China”, novamente citando Jack Lifton
Ils sont fous, ces Romans… diria Asterix.
____________________________________________
NOTAS:
[1] http://www.newworldencyclopedia.org/entry/Paris_Peace_Conference,_1919
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-segunda-economia-mundial.html
[3] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-japao-o-equilibrio-instavel_27.html
[4] http://www.worldlingo.com/ma/enwiki/pt/Rare_earth_element
[5] http://www.voanews.com/english/news/asia/Lack-of-Rare-Earth-Could-Cause-Major-Problems-103898893.html
[6] http://www.popsci.com/technology/article/2010-03/shortage-rare-earth-minerals-may-cripple-us-high-tech-scientists-warn-congress
[7] http://www.allcarselectric.com/blog/1034759_al-gore-versus-the-rare-earth-metals
[8] http://www.nytimes.com/2010/10/22/business/energy-environment/22iht-rare.html
[9] http://www.smartplanet.com/business/blog/intelligent-energy/afghanistan-the-saudi-arabia-of-lithium/1549/
[10] http://www.smartplanet.com/business/blog/smart-takes/us-sitting-on-rare-earth-stockpile-says-usgs-report-hedge-against-looming-tech-shortage/4873/?tag=content;col1
[11] http://www.theatlantic.com/technology/archive/2010/09/worried-about-chinas-monopoly-on-rare-elements-restart-american-production/63444/
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
China / Japão, O Equilibrio Instável
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
27 Setembro de 2010
Tentar acompanhar o espectacular desenvolvimento económico da China, e equacionar prospectivamente o poderá acontecer nas próximas décadas, exige que se abordem várias perspectivas que estão em jogo – militar, política, económica, e social.
Este artigo pretende ser uma contribuição para o entendimento das estruturas que alicerçam as dinâmicas conjunturas que se vão desenhando.
O poder económico e a capacidade militar
As questões económicas não podem ser dissociadas do poder militar.
Várias vezes tenho insistido nesta opinião. Em geral, os economistas contestam esta relação causa-efeito, pelo que sinto necessidade de esclarecer que me refiro a uma correlação positiva, e não a qualquer nexo causal. Até pode ser que possa existir força económica sem correspondente poder militar. Mas, em regra, não é tão forte e duradoura como quando as duas vertentes cooperam.
No campo político esta conjugação de esforços é inquestionável, pois ninguém parece duvidar que os países pautam as relações internacionais na óptica do equilíbrio, quer por procura de protecção, quer por receio do poder militar alheio.
Vem este raciocínio a propósito da presença militar constante dos USA na costa oeste do Pacífico, nomeadamente através de forças aeronavais estacionadas ou em patrulha dos mares.
Aparte a aventura militar no Vietname, a zona tem vivido em paz, se não considerarmos pequenos conflitos bem localizados, e o latente confronto entre as duas Coreias. E esta paz, ou se se preferir não-guerra, ajudou muito o milagre chinês, pelo astronómico afluxo de capitais que permitiu, e pela não corrida insustentável aos armamentos, que, recorde-se, foi fundamental no colapso da ex-URSS.
Ganhar uma guerra não é fundamental
A propósito da guerra do Vietname, e de outras em que os USA se têm envolvido desde o início da segunda metade do século XX, é bom que se observe que a estratégia americana tem sido invariável – o mais importante não é ganhar a guerra, mas sim evitar que outro país o consiga, pois nesse caso, por força das armas, poderia vir a tornar-se numa potência regional. Guerras do Golfo ou do Afeganistão, são bons exemplos desta estratégia. Os USA não ganharam estas guerras nem vão ganhar as que ainda decorrem, mas vão manter a presença militar em nome do o controlo da paz.
De facto, é hoje difícil argumentar contra a relação entre a presença militar americana e a limitação, a níveis aceitáveis, dos conflitos militares na zona. Trata-se da mesma lógica que serviu para colocar a NATO em territórios da ex-URSS. Muito, muito longe mesmo das costas do Atlântico, como facilmente se reconhecerá.
Contudo, esta medalha tem reverso. Por diversas razões a actual proliferação de pequenos conflitos regionais, também se pode explicar pelo jogo permanente das mesmas forças, ou seus clones, numa diversidade de tabuleiros, em lugar dum único palco. Os diferendos China-Japão enquadram-se neste raciocínio.
A luta, real e armada, entre os dois países faz parte das suas Histórias. O Japão organizado e uno, carente de matérias-primas, mas competente industrialmente, levava a melhor sobre uma China desorganizada e dividida, prenhe de matérias-primas, mas incapaz de as transformar e vender ao exterior.
A China e o Japão parecem ter esquecido, por agora, o recurso às armas na resolução dos problemas que os afectam e em que intervêm como actores de primeiro plano. Revisitemos o passado recente das duas nações.
De 1950 a 2010
Após a Segunda Grande Guerra (WW2) começou a desenhar-se um novo e muito dinâmico cenário:
A China, arrancada a ferros do regime feudal, passou pelas convulsões da Revolução Cultural, iniciada em 1966 e terminada oficialmente em 1969 pela mão de Mao Tse-tung, mas que, de facto, subsistiu até 1976, quando o que ficou conhecido por Bando dos Quatro foi afastado do poder.
Na realidade, a Revolução Cultural pouco tinha de revolucionário, pois tratava-se duma luta interna pelo poder, e de cultural, ainda menos, visto ter-se tratado duma tentativa de extirpação dos endémicos problemas económicos com que a Velha China se debatia, e que a asfixiavam.
A partir daí, a China encetou um novo caminho, procurando abrir as suas fronteiras ao mundo, processo que culminou em 2001 com a adesão de pleno direito à Organização Mundial de Comércio, OMC. Como se costuma dizer, ninguém mais segurou a China que passou a ser a fábrica do mundo, o centro de afluxo de capitais, até que, no segundo semestre de 2010, ultrapassou o Japão como segunda maior economia do Mundo [1].
Creio que, hoje em dia, poucos verão na China um potência de cariz imperial com desígnios expansionistas. O seu território é rico, extenso, e, em grande parte inexplorado. Mas, no mundo actual a expansão dos países não se manifesta somente pela ocupação territorial. A grande necessidade de matérias-primas capaz de suportar os espantosos níveis de crescimento que o país tem vindo a registar, e não quer perder, obrigam-na a estratégias internacionais consistentes. E a China sabe implementá-las [2].
Por seu lado, o Japão, que conseguiu sair derrotado da WW2 sem o estigma de culpado de que, por exemplo, a Alemanha jamais conseguiu libertar-se (de facto, o Terceiro Reich não aconteceu no Japão), iniciou, logo nos anos 1950, o caminho da industrialização e da produção de elevada qualidade. Muito limitada, como penalização pelo envolvimento na WW2, no desenvolvimento das suas forças armadas, cedo canalizou a capacidade financeira para os negócios. Se bem que os fluxos financiamentos do Plano Marshall para a Alemanha tivessem sido o dobro do que foram para o Japão, quando a Alemanha entrou num ritmo de crescimento do PIB de 5%, contra os 17% do Japão (década de 1960), era um questão de tempo, pouco tempo, que o Japão ultrapassasse a Alemanha, e chegasse ao segundo lugar como economia mundial.
Se a Alemanha começa a preocupar-se com a avidez que a China tem mostrado na corrida às matérias-primas em todo o mundo, que dizer do Japão que praticamente não dispõe de todo de matérias-primas?
Sem fronteiras terrestres, o Japão tem de apostar nas vias marítimas [3], pois os seus aeroportos ainda registam capacidade limitada [4], se bem que o país esteja entre o que se considera ser o “estado da arte” na construção de aeroportos [5].
O futuro não se esquece
Disputando as mesmas águas que o seu grande rival (segunda e terceira economias mundiais), em luta pelas mesmas matérias-primas, e sem acessos terrestres, é natural que a disputa pelos corredores marítimos se agudize entre o Japão e a China. Os USA sabem que a perspectiva de confrontos reais entre estes dois colossos é catastrófica. Nem vai ao encontro dos interesses estratégicos dos USA qualquer subjugação dum contendor ao outro. Só o equilíbrio lhes interessa e tudo farão por o defender. Mas que este equilíbrio não é estável, disso ninguém duvida.
O recente incidente, ainda não resolvido, do pesqueiro chinês arrestado pela marinha de guerra japonesa, é mais um lembrete desta instabilidade. À primeira vista tratava-se dum pequeno episódio que deveria te sido encerrado com a libertação dos 14 tripulantes. Mas não, o Japão insistiu em manter a detenção do capitão do pesqueiro. Acima de tudo, uma demonstração ao seu poderoso rival que foi ultrapassado na arena económica, mas que não está defunto.
Ora, estas demonstrações de força são potencialmente assustadoras. É difícil imaginar um confronto armado entre o Japão e a China, sem pesadas implicações para todo o mundo, mesmo que nenhum outro país se viesse a envolver.
O incidente com o pesqueiro chinês não ocorreu num local qualquer. Trata-se duma zona marítima no Mar da China Oriental, a escassos 300 km da costa, que foi alvo dum acordo para exploração de jazidas de gás natural. A este espaço juntam-se outras localizações mais distantes, que ainda se encontram sob disputa. O gás natural é uma fonte de energia fundamental para qualquer dos intervenientes. Quanto melhor negociarem, melhor, mas de preferência que se obtenham visíveis benefícios, pensará cada um dos concorrentes, aparentemente destinados a serem parceiros neste negócio. Todas as vantagens negociais terão de ser maximizadas. O caso do pesqueiro é um movimento de peões nesta partida de xadrez. Outras peças se seguirão.
Para já, a China anunciou a interrupção de contactos ministeriais com o Japão, e adiou as próximas sessões de negociação sobre as jazidas de gás. Adiar não é suspender, tão pouco terminar as negociações. É um movimento táctico para definir limites de respeito.
Outras medidas, como o cancelamento de visitas de estudantes japoneses à exposição de Shanghai, ou a proibição dum concerto rock japonês que deveria ocorrer no mesmo cenário, parecem caricatas. Mas, nós ocidentais temos alguma dificuldade em lidar com as culturas asiáticas.
Mas, a exibição na China de filmes sobre a invasão japonesa de 1931, e as medidas restritivas de visita de familiares aos mortos japoneses em território chinês, já parecem intencionalmente provocatórias.
Entretanto, os média relatam que a China está a deslocar material para as jazidas ainda em negociação, adiadas neste momento, a fim de se colocar em posição mais favorável, o que não é inédito na actuação tradicional chinesa. Obviamente, os japoneses mostram-se irritados pelo facto.
Os USA estão no campo, procurando que as relações diplomáticas retomem a actividade. Tarefa difícil, mas indispensável, dada a intransigência das partes.
E a leste nada de novo?
Entretanto no Japão ocorreu significativa alteração política – o partido conservador que tem liderado o país na maior parte do tempo desde a WW2, perdeu as eleições para o Partido Democrático, considerado menos radical. Ora, a China está atenta e pode estar a testar a firmeza dos novos governantes japoneses, aproveitando este incidente. Parece convidar o Japão a repudiar ou assumir o passado militarista. Jogada perigosa, que não deve agradar aos americanos, por poder provocar clivagens entre a população japonesa.
Como o aparentemente insuspeito Liang Yunxiang da Peking University School of International Studies, declarou em entrevista ao New York Times: ''Antes de tomarem quaisquer medidas adicionais, ambos os governos deviam questionar se têm todas as medidas para lidar com as possíveis consequências dos seus actos” [6].
É isto que os americanos pretendem – bom senso e muita cautela. Nada de confrontos armados. E, em boa verdade, é isto que o mundo deseja, incluindo os dois potenciais beligerantes.
Entretanto, e uma vez mais
Sintomático que seja a primeira potência económica mundial, a arbitrar um diferendo entre os segundos e terceiros actores. É, de facto, preciso ter muito poder para ser reconhecido como árbitro credível numa disputa desta natureza.
Os USA não são, toda a gente o reconhecerá, um árbitro imparcial e desinteressado, antes, e uma vez mais, um participante que olha para estes acontecimentos como fundamentais para o prosseguimento da sua política de dominação global, que conta com o arrasador poderio militar de que dispõe como argumento dissuasor sobre quem ousar não acatar os seus conselhos.
Esta estratégia é crucial para se prosseguir com a análise das relações políticas e económicas nesta zona, hoje crucial para o desenvolvimento do mundo, e até para o futuro próximo do capitalismo.
Se algum país está para já a marcar pontos são os USA.
Atenção às cenas dos próximos capítulos.
____________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-segunda-economia-mundial.html
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-em-guerra-pelas.html
[3] http://www.contents-station.net/imagens/business/comoexportarjapao.pdf
[4] http://www.ipcdigital.com/br/Noticias/Japao/Aeroportos-do-Japao-tem-capacidade-limitada
[5] http://obviousmag.org/archives/2008/06/aeroportos_japao.html
[6] http://www.nytimes.com/aponline/2010/09/21/world/AP-AS-China-Japan-Ships-Collide.html?_r=1&hp
vitor.trigo@gmail.com
27 Setembro de 2010
Tentar acompanhar o espectacular desenvolvimento económico da China, e equacionar prospectivamente o poderá acontecer nas próximas décadas, exige que se abordem várias perspectivas que estão em jogo – militar, política, económica, e social.
Este artigo pretende ser uma contribuição para o entendimento das estruturas que alicerçam as dinâmicas conjunturas que se vão desenhando.
O poder económico e a capacidade militar
As questões económicas não podem ser dissociadas do poder militar.
Várias vezes tenho insistido nesta opinião. Em geral, os economistas contestam esta relação causa-efeito, pelo que sinto necessidade de esclarecer que me refiro a uma correlação positiva, e não a qualquer nexo causal. Até pode ser que possa existir força económica sem correspondente poder militar. Mas, em regra, não é tão forte e duradoura como quando as duas vertentes cooperam.
No campo político esta conjugação de esforços é inquestionável, pois ninguém parece duvidar que os países pautam as relações internacionais na óptica do equilíbrio, quer por procura de protecção, quer por receio do poder militar alheio.
Vem este raciocínio a propósito da presença militar constante dos USA na costa oeste do Pacífico, nomeadamente através de forças aeronavais estacionadas ou em patrulha dos mares.
Aparte a aventura militar no Vietname, a zona tem vivido em paz, se não considerarmos pequenos conflitos bem localizados, e o latente confronto entre as duas Coreias. E esta paz, ou se se preferir não-guerra, ajudou muito o milagre chinês, pelo astronómico afluxo de capitais que permitiu, e pela não corrida insustentável aos armamentos, que, recorde-se, foi fundamental no colapso da ex-URSS.
Ganhar uma guerra não é fundamental
A propósito da guerra do Vietname, e de outras em que os USA se têm envolvido desde o início da segunda metade do século XX, é bom que se observe que a estratégia americana tem sido invariável – o mais importante não é ganhar a guerra, mas sim evitar que outro país o consiga, pois nesse caso, por força das armas, poderia vir a tornar-se numa potência regional. Guerras do Golfo ou do Afeganistão, são bons exemplos desta estratégia. Os USA não ganharam estas guerras nem vão ganhar as que ainda decorrem, mas vão manter a presença militar em nome do o controlo da paz.
De facto, é hoje difícil argumentar contra a relação entre a presença militar americana e a limitação, a níveis aceitáveis, dos conflitos militares na zona. Trata-se da mesma lógica que serviu para colocar a NATO em territórios da ex-URSS. Muito, muito longe mesmo das costas do Atlântico, como facilmente se reconhecerá.
Contudo, esta medalha tem reverso. Por diversas razões a actual proliferação de pequenos conflitos regionais, também se pode explicar pelo jogo permanente das mesmas forças, ou seus clones, numa diversidade de tabuleiros, em lugar dum único palco. Os diferendos China-Japão enquadram-se neste raciocínio.
A luta, real e armada, entre os dois países faz parte das suas Histórias. O Japão organizado e uno, carente de matérias-primas, mas competente industrialmente, levava a melhor sobre uma China desorganizada e dividida, prenhe de matérias-primas, mas incapaz de as transformar e vender ao exterior.
A China e o Japão parecem ter esquecido, por agora, o recurso às armas na resolução dos problemas que os afectam e em que intervêm como actores de primeiro plano. Revisitemos o passado recente das duas nações.
De 1950 a 2010
Após a Segunda Grande Guerra (WW2) começou a desenhar-se um novo e muito dinâmico cenário:
A China, arrancada a ferros do regime feudal, passou pelas convulsões da Revolução Cultural, iniciada em 1966 e terminada oficialmente em 1969 pela mão de Mao Tse-tung, mas que, de facto, subsistiu até 1976, quando o que ficou conhecido por Bando dos Quatro foi afastado do poder.
Na realidade, a Revolução Cultural pouco tinha de revolucionário, pois tratava-se duma luta interna pelo poder, e de cultural, ainda menos, visto ter-se tratado duma tentativa de extirpação dos endémicos problemas económicos com que a Velha China se debatia, e que a asfixiavam.
A partir daí, a China encetou um novo caminho, procurando abrir as suas fronteiras ao mundo, processo que culminou em 2001 com a adesão de pleno direito à Organização Mundial de Comércio, OMC. Como se costuma dizer, ninguém mais segurou a China que passou a ser a fábrica do mundo, o centro de afluxo de capitais, até que, no segundo semestre de 2010, ultrapassou o Japão como segunda maior economia do Mundo [1].
Creio que, hoje em dia, poucos verão na China um potência de cariz imperial com desígnios expansionistas. O seu território é rico, extenso, e, em grande parte inexplorado. Mas, no mundo actual a expansão dos países não se manifesta somente pela ocupação territorial. A grande necessidade de matérias-primas capaz de suportar os espantosos níveis de crescimento que o país tem vindo a registar, e não quer perder, obrigam-na a estratégias internacionais consistentes. E a China sabe implementá-las [2].
Por seu lado, o Japão, que conseguiu sair derrotado da WW2 sem o estigma de culpado de que, por exemplo, a Alemanha jamais conseguiu libertar-se (de facto, o Terceiro Reich não aconteceu no Japão), iniciou, logo nos anos 1950, o caminho da industrialização e da produção de elevada qualidade. Muito limitada, como penalização pelo envolvimento na WW2, no desenvolvimento das suas forças armadas, cedo canalizou a capacidade financeira para os negócios. Se bem que os fluxos financiamentos do Plano Marshall para a Alemanha tivessem sido o dobro do que foram para o Japão, quando a Alemanha entrou num ritmo de crescimento do PIB de 5%, contra os 17% do Japão (década de 1960), era um questão de tempo, pouco tempo, que o Japão ultrapassasse a Alemanha, e chegasse ao segundo lugar como economia mundial.
Se a Alemanha começa a preocupar-se com a avidez que a China tem mostrado na corrida às matérias-primas em todo o mundo, que dizer do Japão que praticamente não dispõe de todo de matérias-primas?
Sem fronteiras terrestres, o Japão tem de apostar nas vias marítimas [3], pois os seus aeroportos ainda registam capacidade limitada [4], se bem que o país esteja entre o que se considera ser o “estado da arte” na construção de aeroportos [5].
O futuro não se esquece
Disputando as mesmas águas que o seu grande rival (segunda e terceira economias mundiais), em luta pelas mesmas matérias-primas, e sem acessos terrestres, é natural que a disputa pelos corredores marítimos se agudize entre o Japão e a China. Os USA sabem que a perspectiva de confrontos reais entre estes dois colossos é catastrófica. Nem vai ao encontro dos interesses estratégicos dos USA qualquer subjugação dum contendor ao outro. Só o equilíbrio lhes interessa e tudo farão por o defender. Mas que este equilíbrio não é estável, disso ninguém duvida.
O recente incidente, ainda não resolvido, do pesqueiro chinês arrestado pela marinha de guerra japonesa, é mais um lembrete desta instabilidade. À primeira vista tratava-se dum pequeno episódio que deveria te sido encerrado com a libertação dos 14 tripulantes. Mas não, o Japão insistiu em manter a detenção do capitão do pesqueiro. Acima de tudo, uma demonstração ao seu poderoso rival que foi ultrapassado na arena económica, mas que não está defunto.
Ora, estas demonstrações de força são potencialmente assustadoras. É difícil imaginar um confronto armado entre o Japão e a China, sem pesadas implicações para todo o mundo, mesmo que nenhum outro país se viesse a envolver.
O incidente com o pesqueiro chinês não ocorreu num local qualquer. Trata-se duma zona marítima no Mar da China Oriental, a escassos 300 km da costa, que foi alvo dum acordo para exploração de jazidas de gás natural. A este espaço juntam-se outras localizações mais distantes, que ainda se encontram sob disputa. O gás natural é uma fonte de energia fundamental para qualquer dos intervenientes. Quanto melhor negociarem, melhor, mas de preferência que se obtenham visíveis benefícios, pensará cada um dos concorrentes, aparentemente destinados a serem parceiros neste negócio. Todas as vantagens negociais terão de ser maximizadas. O caso do pesqueiro é um movimento de peões nesta partida de xadrez. Outras peças se seguirão.
Para já, a China anunciou a interrupção de contactos ministeriais com o Japão, e adiou as próximas sessões de negociação sobre as jazidas de gás. Adiar não é suspender, tão pouco terminar as negociações. É um movimento táctico para definir limites de respeito.
Outras medidas, como o cancelamento de visitas de estudantes japoneses à exposição de Shanghai, ou a proibição dum concerto rock japonês que deveria ocorrer no mesmo cenário, parecem caricatas. Mas, nós ocidentais temos alguma dificuldade em lidar com as culturas asiáticas.
Mas, a exibição na China de filmes sobre a invasão japonesa de 1931, e as medidas restritivas de visita de familiares aos mortos japoneses em território chinês, já parecem intencionalmente provocatórias.
Entretanto, os média relatam que a China está a deslocar material para as jazidas ainda em negociação, adiadas neste momento, a fim de se colocar em posição mais favorável, o que não é inédito na actuação tradicional chinesa. Obviamente, os japoneses mostram-se irritados pelo facto.
Os USA estão no campo, procurando que as relações diplomáticas retomem a actividade. Tarefa difícil, mas indispensável, dada a intransigência das partes.
E a leste nada de novo?
Entretanto no Japão ocorreu significativa alteração política – o partido conservador que tem liderado o país na maior parte do tempo desde a WW2, perdeu as eleições para o Partido Democrático, considerado menos radical. Ora, a China está atenta e pode estar a testar a firmeza dos novos governantes japoneses, aproveitando este incidente. Parece convidar o Japão a repudiar ou assumir o passado militarista. Jogada perigosa, que não deve agradar aos americanos, por poder provocar clivagens entre a população japonesa.
Como o aparentemente insuspeito Liang Yunxiang da Peking University School of International Studies, declarou em entrevista ao New York Times: ''Antes de tomarem quaisquer medidas adicionais, ambos os governos deviam questionar se têm todas as medidas para lidar com as possíveis consequências dos seus actos” [6].
É isto que os americanos pretendem – bom senso e muita cautela. Nada de confrontos armados. E, em boa verdade, é isto que o mundo deseja, incluindo os dois potenciais beligerantes.
Entretanto, e uma vez mais
Sintomático que seja a primeira potência económica mundial, a arbitrar um diferendo entre os segundos e terceiros actores. É, de facto, preciso ter muito poder para ser reconhecido como árbitro credível numa disputa desta natureza.
Os USA não são, toda a gente o reconhecerá, um árbitro imparcial e desinteressado, antes, e uma vez mais, um participante que olha para estes acontecimentos como fundamentais para o prosseguimento da sua política de dominação global, que conta com o arrasador poderio militar de que dispõe como argumento dissuasor sobre quem ousar não acatar os seus conselhos.
Esta estratégia é crucial para se prosseguir com a análise das relações políticas e económicas nesta zona, hoje crucial para o desenvolvimento do mundo, e até para o futuro próximo do capitalismo.
Se algum país está para já a marcar pontos são os USA.
Atenção às cenas dos próximos capítulos.
____________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-segunda-economia-mundial.html
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-em-guerra-pelas.html
[3] http://www.contents-station.net/imagens/business/comoexportarjapao.pdf
[4] http://www.ipcdigital.com/br/Noticias/Japao/Aeroportos-do-Japao-tem-capacidade-limitada
[5] http://obviousmag.org/archives/2008/06/aeroportos_japao.html
[6] http://www.nytimes.com/aponline/2010/09/21/world/AP-AS-China-Japan-Ships-Collide.html?_r=1&hp
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Os USA e a Crise Económica Mundial
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
01 Setembro de 2010
Os USA Estão em Declínio?
Apesar do despertar dos designados emergentes, o sistema capitalista em que vivemos continua a depender da locomotiva USA. Daí que, face à crise financeira e económica sem precedentes que estamos a viver desde Setembro de 2008, se coloque a questão crucial: Como irão os EUA ultrapassar este desafio?
A questão seguinte, e inevitável, é que implicações as opções dos USA acarretarão para o resto do mundo, pois do que se trata não é de resolver o problema americano, mas sim, de através da retoma do desenvolvimento, procurar colocar o mundo na senda dos benefícios daí resultantes – a dita sociedade do bem-estar de que tantos falam e muitos mais não conseguem encontrar uma definição capaz.
Entenda-se, neste contexto, portanto sem iniciar a busca de outro qualquer tipo de alternativas, que o desenvolvimento capitalista, tal como nos habituámos a vê-lo, é sinónimo de justiça, progresso, e bem-estar. E é preciso não esquecer que, nas últimas décadas, os EUA foram responsáveis por cerca de um terço do crescimento económico mundial.
Poderá perguntar-se se o mundo está condenado a viver no sistema capitalista tal como o conhecemos, mas deixaremos essa legítima e pertinente discussão para outra ocasião. Por agora centremo-nos nas hipóteses de saída da crise no actual contexto. Não questionando o sistema, portanto.
A crise é tão profunda que limita o raciocínio dos decisores. Não parece haver tempo para desenhar qualquer estratégia – é urgente actuar.
Esta atitude pode, por si só, esconder novas ameaças. Não há lugar para a estratégia? Até quando, e com que consequências, conseguiremos navegar à vista? E, na verdade, os EUA não evidenciam possuir qualquer estratégia económica. E estão em plena viragem política, parecendo correr atrás dos acontecimentos.
A prática da gestão ensinou-nos que as crises não se enfrentam com medidas pontuais, antes com planos estratégicos, portanto concertados e com visão de longo prazo. Trata-se de identificar o que se deve e pode fazer, e também o que não se deve nem pode fazer.
De que estávamos à espera?
De repente, o mundo pareceu esquecer os ex-inimigos orientais, mesmo que por vezes os intitulasse de “tigres de papel” [1], elegendo-os como parceiros estratégicos, e fazendo deslocar para a China e para a Índia, meios de produção excepcionais e conhecimentos até aí considerados críticos, por vezes confidenciais e no âmbito exclusivo da “segurança nacional”.
Os políticos auto-elogiaram as suas decisões, enquanto os trabalhadores e população em geral temiam pela estabilidade dos empregos, segurança das reformas, e decrescente acesso aos mais elementares cuidados de saúde. Ou seja, as populações viam finalmente a outra (ou será que é a única?) face da tão elogiada globalização.
Os USA continuaram, contudo, a ser a terra das oportunidades e do empreendedorismo. Em nenhum outro lugar do mundo se encara a mudança de emprego como nos USA, fruto das vantagens competitivas que os domínios tecnológico e científico, a par duma enraizada capacidade de inovação, permitem.
Mas o mundo está a mudar perante a complacência dos ditos países desenvolvidos. Enquanto os países emergentes apostavam na formação, na pesquisa e no desenvolvimento, nas práticas comerciais globais, na adesão às mais influentes instituições mundiais, o mundo ocidental continuava a acreditar num dinamismo sem paralelo, nos dotes de resiliência e… nas virtudes do sistema, que não se cansava de evidenciar fissuras que ninguém, no ocidente, parecia querer ver.
Na realidade, não se pode dizer que as outras nações ultrapassaram os USA, mas antes que estes descuraram as suas fraquezas, tornando-se cada vez mais virados para os resultados de curto prazo e para o individualismo. Sinais alarmantes não faltam – PanAm, ainda na década de 1980, ATT, Enrom, Accenture, a par das crises que quase destruíram a IBM, a GM, e outros colossos mundiais.
As corporações ocidentais descuraram o reinvestimento em ciência e tecnologia, privilegiaram o valor bolsista em relação à sustentabilidade, e o sistema, mesmo alertado para as ameaças evidentes, optou por não agir.
Quem trabalha ou trabalhou em multinacionais por certo que se apercebeu que os financeiros assumiram o controlo das empresas relegando as demais funções para papéis de execução controlada. As consequências estão à vista.
A retórica do mercado livre
Aparentes falhas na legislação anti-trust parecem estar a dificultar a concorrência, através de fusões e aquisições sem precedentes, hipocritamente em nome da liberdade de actuação do mercado. A insuficiente taxa de reinvestimento em ciência e tecnologia, resultante destas concentrações está a matar uma das maiores forças da América – o empreendedorismo. Que fazem os políticos federais? Praticamente nada. Observam, debatem, e pouco mais. A Europa parece seguir o exemplo.
A maioria das pessoas, em particular os americanos, julgam que os USA dominam em quase todos os indicadores de mercado, mas esta suposição não corresponde à realidade e parece tender para piorar [2].
Ironicamente, os USA estão a encaminhar-se para o que tanto têm criticado, nomeadamente na incapacidade para captação de fluxos de capital, no recurso a barreiras comerciais acrescidas, elevando os níveis de taxação, ou exagerando na protecção através de subsídios estatais.
Outros indicadores se apresentam como preocupantes. Por exemplo, os USA ocupavam em 30 Dezembro de 2008, o 12º lugar na classificação do ensino superior entre os 25 e os 34 anos [3]. Sintomático, não é?
Muitas esperanças foram depositadas em Obama, mas a complexidade das tarefas que ele terá de enfrentar não permite pensar em resultados de curto-prazo. Não se trata de soluções reformadoras e incrementais. É de fractura, de revolução, que estamos a falar. E sabe-se como a América detesta esta expressão.
Os americanos vão ser desafiados a demonstrar paciência e sapiência. Há que contar, contudo, com a constante pressão dos Republicanos.
Mas continuarão a dispor de preciosas vantagens – o seu poderio económico, o domínio tecnológico que ainda detêm, e, sobretudo, a sua incrível supremacia militar, continuarão a conferir-lhes enorme ascendente sobre os potenciais concorrentes.
_________________________________________
NOTAS:
[1] http://www.janelanaweb.com/vento/chinabrink.html
[2] http://www.weforum.org/pdf/GCR09/GCR20092010fullreport.pdf, pág. 321
[3] http://www.businessweek.com/magazine/content/08_45/b4107038217112.htm
vitor.trigo@gmail.com
01 Setembro de 2010
Os USA Estão em Declínio?
Apesar do despertar dos designados emergentes, o sistema capitalista em que vivemos continua a depender da locomotiva USA. Daí que, face à crise financeira e económica sem precedentes que estamos a viver desde Setembro de 2008, se coloque a questão crucial: Como irão os EUA ultrapassar este desafio?
A questão seguinte, e inevitável, é que implicações as opções dos USA acarretarão para o resto do mundo, pois do que se trata não é de resolver o problema americano, mas sim, de através da retoma do desenvolvimento, procurar colocar o mundo na senda dos benefícios daí resultantes – a dita sociedade do bem-estar de que tantos falam e muitos mais não conseguem encontrar uma definição capaz.
Entenda-se, neste contexto, portanto sem iniciar a busca de outro qualquer tipo de alternativas, que o desenvolvimento capitalista, tal como nos habituámos a vê-lo, é sinónimo de justiça, progresso, e bem-estar. E é preciso não esquecer que, nas últimas décadas, os EUA foram responsáveis por cerca de um terço do crescimento económico mundial.
Poderá perguntar-se se o mundo está condenado a viver no sistema capitalista tal como o conhecemos, mas deixaremos essa legítima e pertinente discussão para outra ocasião. Por agora centremo-nos nas hipóteses de saída da crise no actual contexto. Não questionando o sistema, portanto.
A crise é tão profunda que limita o raciocínio dos decisores. Não parece haver tempo para desenhar qualquer estratégia – é urgente actuar.
Esta atitude pode, por si só, esconder novas ameaças. Não há lugar para a estratégia? Até quando, e com que consequências, conseguiremos navegar à vista? E, na verdade, os EUA não evidenciam possuir qualquer estratégia económica. E estão em plena viragem política, parecendo correr atrás dos acontecimentos.
A prática da gestão ensinou-nos que as crises não se enfrentam com medidas pontuais, antes com planos estratégicos, portanto concertados e com visão de longo prazo. Trata-se de identificar o que se deve e pode fazer, e também o que não se deve nem pode fazer.
De que estávamos à espera?
De repente, o mundo pareceu esquecer os ex-inimigos orientais, mesmo que por vezes os intitulasse de “tigres de papel” [1], elegendo-os como parceiros estratégicos, e fazendo deslocar para a China e para a Índia, meios de produção excepcionais e conhecimentos até aí considerados críticos, por vezes confidenciais e no âmbito exclusivo da “segurança nacional”.
Os políticos auto-elogiaram as suas decisões, enquanto os trabalhadores e população em geral temiam pela estabilidade dos empregos, segurança das reformas, e decrescente acesso aos mais elementares cuidados de saúde. Ou seja, as populações viam finalmente a outra (ou será que é a única?) face da tão elogiada globalização.
Os USA continuaram, contudo, a ser a terra das oportunidades e do empreendedorismo. Em nenhum outro lugar do mundo se encara a mudança de emprego como nos USA, fruto das vantagens competitivas que os domínios tecnológico e científico, a par duma enraizada capacidade de inovação, permitem.
Mas o mundo está a mudar perante a complacência dos ditos países desenvolvidos. Enquanto os países emergentes apostavam na formação, na pesquisa e no desenvolvimento, nas práticas comerciais globais, na adesão às mais influentes instituições mundiais, o mundo ocidental continuava a acreditar num dinamismo sem paralelo, nos dotes de resiliência e… nas virtudes do sistema, que não se cansava de evidenciar fissuras que ninguém, no ocidente, parecia querer ver.
Na realidade, não se pode dizer que as outras nações ultrapassaram os USA, mas antes que estes descuraram as suas fraquezas, tornando-se cada vez mais virados para os resultados de curto prazo e para o individualismo. Sinais alarmantes não faltam – PanAm, ainda na década de 1980, ATT, Enrom, Accenture, a par das crises que quase destruíram a IBM, a GM, e outros colossos mundiais.
As corporações ocidentais descuraram o reinvestimento em ciência e tecnologia, privilegiaram o valor bolsista em relação à sustentabilidade, e o sistema, mesmo alertado para as ameaças evidentes, optou por não agir.
Quem trabalha ou trabalhou em multinacionais por certo que se apercebeu que os financeiros assumiram o controlo das empresas relegando as demais funções para papéis de execução controlada. As consequências estão à vista.
A retórica do mercado livre
Aparentes falhas na legislação anti-trust parecem estar a dificultar a concorrência, através de fusões e aquisições sem precedentes, hipocritamente em nome da liberdade de actuação do mercado. A insuficiente taxa de reinvestimento em ciência e tecnologia, resultante destas concentrações está a matar uma das maiores forças da América – o empreendedorismo. Que fazem os políticos federais? Praticamente nada. Observam, debatem, e pouco mais. A Europa parece seguir o exemplo.
A maioria das pessoas, em particular os americanos, julgam que os USA dominam em quase todos os indicadores de mercado, mas esta suposição não corresponde à realidade e parece tender para piorar [2].
Ironicamente, os USA estão a encaminhar-se para o que tanto têm criticado, nomeadamente na incapacidade para captação de fluxos de capital, no recurso a barreiras comerciais acrescidas, elevando os níveis de taxação, ou exagerando na protecção através de subsídios estatais.
Outros indicadores se apresentam como preocupantes. Por exemplo, os USA ocupavam em 30 Dezembro de 2008, o 12º lugar na classificação do ensino superior entre os 25 e os 34 anos [3]. Sintomático, não é?
Muitas esperanças foram depositadas em Obama, mas a complexidade das tarefas que ele terá de enfrentar não permite pensar em resultados de curto-prazo. Não se trata de soluções reformadoras e incrementais. É de fractura, de revolução, que estamos a falar. E sabe-se como a América detesta esta expressão.
Os americanos vão ser desafiados a demonstrar paciência e sapiência. Há que contar, contudo, com a constante pressão dos Republicanos.
Mas continuarão a dispor de preciosas vantagens – o seu poderio económico, o domínio tecnológico que ainda detêm, e, sobretudo, a sua incrível supremacia militar, continuarão a conferir-lhes enorme ascendente sobre os potenciais concorrentes.
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NOTAS:
[1] http://www.janelanaweb.com/vento/chinabrink.html
[2] http://www.weforum.org/pdf/GCR09/GCR20092010fullreport.pdf, pág. 321
[3] http://www.businessweek.com/magazine/content/08_45/b4107038217112.htm
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