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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

CHINA – Medidas contra a ameaça de inflação (2) - Na Casa e na Alimentação

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
22 Dezembro de 2010

Na China tudo tem enormes dimensões e acontece muito depressa. A 20 de Novembro, e com base nos indicadores que foram dados a conhecer pelas autoridades chinesas no mês anterior, questionei-me sobre os reais impactes que a inflação desregrada poderia trazer a este gigante durante tanto tempo adormecido. Terminei o artigo dizendo que o início de 2011 nos iria trazer importantes novidades neste domínio. Mal poderia imaginar que um dia após, teria de voltar ao tema face às medidas que o poder acabara de anunciar para tentar controlar a subida generalizada dos preços que ameaçavam desestabilizar a nação.

E aqui estou de novo, ainda antes do fecho de 2010, reflectindo sobre tão importante questão. Os dados mais recentes sobre o aumento das despesas domésticas confirmam as preocupações com o agravamento da situação.


As despesas fixas de Liu Qi

A versão em Inglês do diário Sina publicou há quase um ano – 21 de Janeiro de 2010 – um interessante artigo sobre o aumento de preços na China, recorrendo ao exemplo de Liu Qi, uma jovem de 29 anos empregada há oito numa empresa de publicidade em Pequim.

Naquela quinta-feira, Liu Qi gastara 80 yuans (11.7 US$, 9 €) no supermercado – metade em comida, metade em necessidades diárias. Esta jovem que dispunha de 6500 yuans mensais, supostamente já deduzidos de impostos, afirmou gastar mensalmente 1200 yuans em comida, 1300 em alojamento e despesas associadas, 1000 a jantar fora e diversões com amigos, 500 em roupa, e 200 em comunicações de telemóvel, sobrando-lhe assim 2300 yuans, o equivalente a 260 €. A sua principal preocupação consistia em como juntar dinheiro para comprar uma casa.


O preço das casas na China

Na Segunda Circular de Pequim, em 2009, o preço de venda das casas em segunda mão aumentara 43% e os alugueres 5% em média, segundo o artigo citado. Esta não será a regra no imenso e muito diversificado território chinês, mas é um exemplo real.

Desde Fevereiro de 2009 que os protestos populares por causa desta cavalgada de preços vinham preocupando as autoridades, que implementaram novas regras para o sistema bancário, quer pela via fiscal quer pelos empréstimos concedidos a este tipo de negócio. Os resultados não se fizeram esperar, e o efeito directo sobre a inflação já foi praticamente insignificante em Novembro. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) deverá fixar-se entre 3 e 4% em 2010, ano sobre ano.

Contudo, as despesas de habitação incluem outras rubricas para além do aluguer ou da amortização, como a água, a electricidade, e os custos de manutenção. O National Bureau of Statistics (NBS) calcula assim a evolução do peso das despesas com a habitação no cabaz IPC – 9.7% em 2000, 13.2% em 2006, estimando 13.6% para 2010 (a rubrica custos de aquisição de habitação não faz parte do cabaz IPC).

Apesar da tradicional falta de informações oficiais na China, os analistas não oficiais calculam que as pessoas como Liu Qi gastem com a habitação cerca de 20% dos seus rendimentos, longe dos 13.6% referidos pelo NBS.


A evolução dos preços no mercado

Segundo o Xiong Peng, analista sénior do Bank of Communications (BOC), os preços dos alimentos subiram 5.3% em Dezembro de 2009, o que justificou um agravamento de 1.74% no IPC. Os alugueres da casa ao subirem 1.5% foram responsáveis pelo crescimento de 0.21% do IPC.

O governo tem, portanto, pela frente duas frentes de batalha prioritárias para travar a inflação – Imobiliário e Alimentação.

Ao impor o reforço das reservas bancárias para 18%, o governo pensa que as concessões de crédito passarão a ser mais rigorosas. Dito doutra forma, dificultarão as acções especulativas nos domínios imobiliário e commodities, apesar de se saber que este tipo de medidas não é do agrado dos investidores, podendo mesmo vir a originar alguma desaceleração no crescimento económico .

Consideram os economistas que foi o excesso de liquidez, associado a deficientes políticas monetárias nos últimos oito anos, que fomentaram a especulação e trouxeram a inflação para níveis indesejáveis. O aumento dos custos de produção e a política de juros negativos, encarregaram-se do resto.


Os receios dos investidores

Os investidores não gostam de medidas disciplinadoras. Temem-nas, e é isso que está a acontecer.

Quem investe antecipa-se, não espera para reagir. E, de facto, a maioria dos analistas prevê que as taxas de crescimento da ordem dos 12% não voltarão a verificar-se, embora se pense que poderão rondar 7 a 8% durante a próxima década, um valor ainda muito elevado, atendendo a que, quanto mais uma economia cresce, mais difícil será manter as taxas de crescimento.

Mas todos estão cientes que forçar o aumento das reservas financeiras dos bancos, subir os juros, e controlar alguns preços cruciais não é suficiente, nem estruturante.


A bolha imobiliária está escondida?

Há uns meses, correu a notícia, entretanto desmentida pelas empresas de energia, que poderiam existir 64.5 milhões de habitações não ocupadas . O fundamento de tal estimativa baseava-se no não consumo de electricidade nessas casas por seis meses consecutivos. A ser verdade, isto significaria duas coisas – oferta de habitação não correspondida para cerca de 200 milhões de pessoas (um número, de facto, impressionante), e, ou os preços estariam propositadamente inflacionados, ou desadequados face às reais capacidades dos potenciais compradores.

Será que os actuais proprietários estão a apostar no aumento da inflação, esperando por melhor altura para venderem os apartamentos? Mas, esta opção tende a provocar, ela mesma, uma espiral inflacionista. Se não venderem pelo preço que pretendem, poderão vir a alugá-los por rendas mais elevadas, influenciando assim negativamente o IPC.

Contudo, e comparando com situação semelhante noutros países – USA, Islândia, Irlanda, UK, Espanha, etc. - onde ocorreram bolhas imobiliárias com as nefastas consequências que se conhecem, os analistas apreçam-se a estabelecer a diferença: na China não existe o perigo de bolha imobiliária em preços, mas pode haver em quantidade.

A história tem mostrado, que quando estas bolhas crescem juntas, os efeitos podem ser devastadores. O exemplo do Sudoeste Asiático na década de 1990 e de Taiwan nos finais de 1980, ainda estão bem presentes. Bem como os efeitos da bolha de preços americana que desencadeou a actual crise económica global, que ainda parece longe de estar superada.

Uma crise chinesa neste domínio, nos tempos mais próximos, poderia ter consequências avassaladoras a nível global.


A habitação na China é, de facto, um caso diferente

Tem-se construído imenso na China nos últimos anos. Calcula-se (sempre a mesma carência de informações fidedignas), que se tenham construído perto de 60 milhões de apartamentos privados nos últimos 10 anos. Actualmente, crê-se que estejam em construção mais cerca de 20 milhões de habitações particulares, e que as administrações locais e governamentais estejam a construir outros 20 a 30 milhões.

Nos últimos anos, cerca de 1000 milhões de metros quadrados habitáveis foram reconstruídos, faltando ainda proceder de igual forma sobre os 9000 milhões que continuam em condições insustentáveis para vida digna.

Não são só as autoridades políticas que estão envolvidas neste gigantesco processo, mas também as empresas que constroem para os seus trabalhadores habitarem, como no passado. Apesar disso, calcula-se que cerca de 200 milhões de trabalhadores migrantes, deslocados do interior para as periferias dos grandes aglomerados industrias e urbanos, continuem a viver em dormitórios subterrâneos, geralmente uma só divisão sem janelas. Um expediente a que muitos jovens recorrem em início de carreira.


As novas habitações chinesas

Calcula-se que, em 2009, a venda de casas novas na China, tenha representado mais de 14% do PIB – uma cifra impressionante. Surpreendente, também, é a dimensão média per capita dos novos apartamentos na maioria das cidades - entre 28 a 30 metros quadrados. Este valor situa-se entre as posições 148 e 153 da lista de 355 cidades mundiais, superando por exemplo, Las Palmas, Nápoles, Varsóvia, São Peterburgo, Zagreb, Belgrado, Gdansk, ou Budapeste.

Mesmo que o valor estimativo de 64.5 milhões de apartamentos desocupados, esteja errado, e que só metade deles se encontre nessa situação, isso equivale a cerca de 20% de todos os domicílios urbanos. Num mercado em tão rápida mutação, e com tantos cidadãos a deslocarem-se para outras localizações, esta taxa não se pode considerar anormal.

A questão muda de figura, se esta oferta estiver, de facto, distante da procura efectiva, e desadequada para o cidadão comum.

Os governos locais, altamente endividados por força dos investimentos que fizeram para atrair capitais, precisam das receitas provenientes das trocas imobiliárias. Especula-se, pois não se conhecem dados oficiais, que os governos locais e regionais tenham, em média, receitas correspondentes a 20% das dívidas acumuladas. Se as receitas do imobiliário não entrarem, só há uma alternativa – reduzir despesas. E sabe-se como os políticos são avessos a este caminho.


A renovação política

Dentro de menos de dois anos, a China irá para eleições. Os actuais dirigentes políticos darão lugar a uma nova classe de quadros, cada vez mais distantes dos valores que conduziram Mao e o Partido Comunista ao poder em 1 de Outubro de 1949. Possuem cada vez mais mentalidade capitalista.

Pelo que ficou exposto, conclui-se que se exigem medidas estruturantes. Os dirigentes chineses, que já deram imensas provas de serem exímios planeadores, sabem que adiar soluções pode custar muito caro, incluindo contestação social ao regime, se a economia interromper o ritmo de crescimento das duas últimas décadas.

Mas todos sabemos, também, como os políticos são avessos a tomar medidas impopulares antes de eleições.

Alguns perigos se vislumbram no horizonte, portanto. E não só para a China.

O que lá vier a acontecer interessará ao mundo inteiro.

sábado, 20 de novembro de 2010

CHINA – Irá a inflação condicionar o crescimento económico?

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
20 Novembro de 2010


Qualquer que seja o assunto que se relacione com a China continua a surpreender-nos pela magnitude, e pela volatilidade das informações, que evoluem a ritmos incríveis.

Quando alguns de nós começámos a debruçar-nos, no início dos anos 1990, sobre uma nova realidade do mundo dos negócios que apelidámos genericamente de “mudança” (quem não se recorda dos intermináveis seminários sobre “gestão da mudança”), estávamos longe de imaginar o que significa “mudança” na China nos dias de hoje.

Temos vindo aqui a abordar alguns dos desafios actuais do crescimento económico chinês, desde uma inicial atenção aos custos de produção, passando pela evidente mudança de estratégia e pela nova orientação para a qualidade, até termos chegado ao que designámos por absoluta necessidade de dinamização “forçada” do consumo, e à forma como os estrangeiros encaram este “boom”.

Eis-nos perante uma nova realidade, aliás previsível - o espectro da inflação.

De facto, a inflação ainda não é uma ameaça concreta, mas os preços estão a aumentar, o que basta para começar a preocupar os líderes chineses. Até Outubro os preços ao consumidor subiram 4.4%, o valor mais elevado nos últimos dois anos, verificando-se o impacte maior no sector alimentar. Os vegetais, por exemplo, encontram-se hoje mais caros cerca de 30% do que se encontravam há um ano.



Procurando explicações

As devastadoras enchentes do mês passado podem explicar os aumentos de preços pela escassez de fornecimentos. Igualmente a quebra das colheitas, a nível internacional, podem ter contribuído negativamente para a situação actual. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO, o custo das importações de alimentos no mundo pode ultrapassar este ano 1 trilião US$ , apenas 5 biliões menos do que o recorde de 2008.

Contudo, também a nível macroeconómico, existem algumas preocupações. Por exemplo, a banca chinesa parece poder vir a violar a quota de 7.5 triliões de yuans (cerca de 1.1. trilião US$), embora se venha a verificar pressão das autoridades em sentido contrário. Não espanta ninguém que mais dinheiro em circulação tenderá a favorecer aumento dos preços.



Que estão as autoridades a fazer para conter esta tendência?

O governo procura recorrer a medidas pouco habituais, mas que considera de eficácia imediata, como por exemplo: indexando a actualização dos subsídios de desemprego, pensões, e salários mínimos (na China os salários mínimos são estabelecidos por região), aos valores da inflação; redução das tarifas eléctricas, do gás, e dos transportes ferroviários para os fabricantes de fertilizantes; abastecimento suplementar de açúcar aos mercados.

Uma outra questão nesta área diz respeito ao aproveitamento que os comerciantes possam vir a fazer - se puderem vender mais caro, não facilitarão, por certo. E ainda há que prestar atenção a possíveis açambarcamentos, embora esta discussão ainda não se faça na praça pública.

Caso estas medidas não atinjam os resultados pretendidos, o governo poderá vir a intervir na distribuição de bens alimentares essenciais, como o arroz, a carne de porco, massas, e óleos, à semelhança do que fez em 2008.

Pelo menos numa coisa Lenine e Keynes concordam – nos efeitos da inflação. Lenine considerava-a como uma eficaz arma capaz de corroer o capitalismo. Keynes achava-a perniciosa para o capitalismo, porque desacreditava os empresários, e, consequentemente, o sistema. As autoridades chinesas não serão nem leninistas nem keynesianas, mas querem tirar partido do capitalismo, à sua maneira.



Como irão reagir os investidores estrangeiros?

Os números da inflação de 2010, e em particular os de Outubro, não vão ao encontro do que os investidores gostam de ouvir. O anúncio de que as autoridades estão a tomar medidas pouco habituais também não é um indicador animador. Várias fontes referem já que alguns investidores estarão a vender acções e commodities na expectativa dum significativo abrandamento do crescimento na China.

Conhecendo-se como os investidores internacionais são sensíveis a todos os indícios, é provável que estejam a exorbitar. Na realidade, a China está longe duma corrida galopante e generalizada dos preços, e mesmo que o crescimento venha a sentir alguma quebra, o mais certo é fixar-se à roda dos 7-8% anuais, na próxima década. Um valor ainda muito atractivo.

Onde se poderá vir a sentir maior alteração, poderá ser no sector da construção e venda de habitações. O acesso ao crédito nos últimos anos provocou uma corrida às hipotecas, e, por arraste, à construção de novas casas. Se se vierem a verificar restrições de monta nos créditos concedidos, poderá vir a revelar-se uma bolha no sector. As autoridades estarão atentas, por certo, ao que aconteceu nos USA, e estabelecerão medidas para que não aconteça o mesmo.

As mudanças na China processam-se a um ritmo tal que, no início do ano, o mais tardar, tudo o que aqui ficou dito, terá de ser revisitado.

sábado, 16 de outubro de 2010

E quando se acabar o petróleo, comemos o quê?

Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
16 Outubro de 2010

Na sequência da primeira crise do petróleo produziram-se muitos estudos que parece não terem interessado o mundo, em particular os políticos. Recordo por exemplo “Eating Oil” [1], que tão profusamente foi utilizado pela Academia um pouco por todo o lado [2]. Lamentavelmente nada aprendemos com a lição.
Na trilogia “Alterações Ambientais”, que acabei de publicar neste blog, procurei reflectir sobre o “pico do petróleo” e a produção de energia em geral. Visitei duas conhecidas teorias, a Olduvai e a Beyond, e uma obra de ficção “Uma Verdade Inconveniente” que confrontei com “A Ficção Científica de Al Gore”. Em todas encontrei uma certeza – a produção de petróleo começou a declinar e extinguir-se-á dentro de 25 a 30 anos.
Hoje vou debruçar-me sobre a alimentação, ou melhor, sobre os bens alimentares.

A produção

O sistema alimentar nunca esteve tão dependente do petróleo. Chegámos a um ponto completamente irracional e insustentável. Vamos ter de mudar sob pena de resultados catastróficos. Vejamos, para que não subsistam dúvidas sobre a gravidade da situação actual:
• A gasolina e o diesel são indispensáveis para os tractores e outros veículos agrícolas, tanto na plantação como na pulverização, colheita, e transporte;
• As fábricas de alimentos dependem do fornecimento just-in-time de produtos frescos e congelados, e da produção e distribuição de aditivos (vitaminas, minerais, emulsionantes, conservantes, corantes), muitos deles derivados do petróleo, mas todos carentes do petróleo para a sua entrega;
• As embalagens que usamos para disponibilizar os produtos alimentares – caixas, latas, potes - são essencialmente produzidos à base de petróleo, bem como etiquetas, bandejas, tampas, etc.;
• Até nós, para adquirirmos os bens alimentares aos retalhistas, precisamos de petróleo para lá chegarmos.

A distribuição

Mesmo a mais elementar análise ao custo-benefício que envolve colocação de bens alimentares no consumidor e a energia consumida para o efeito, se revela completamente ineficaz.
Atente-se por exemplo num estudo feito no Reino Unido [3], que mostrou que as importações de alimentos e alimentação para animais ascenderam a 83 milhões de toneladas-quilómetro (t-km). Para tal foram necessários 1.6 biliões de litros de combustível, o que significa, numa estimativa conservadora de 50 gramas de CO2 por t-km, qualquer coisa como 4.1 milhões de toneladas de CO2 emitidas [4] [5]. Releve-se que se detecta, de 1978 a 1999, um aumento de 16% nas quantidades transportadas e de 50% nas distâncias percorridas, o que indicia que a globalização tornou o mundo mais plano.
Estes valores tornam-se ainda mais absurdos ao saber-se que em 1997 o Reino Unido exportou 270 milhões de litros de leite líquido e importou 126 milhões. Ou no que se refere a leite em pó exportou 153 mil toneladas e importou 23 mil [7]. Mais ainda, nos últimos 20 anos o Reino Unido duplicou as importações de leite e nos últimos 30 quadruplicou as exportações [8].
E para que não se pense que o negócio do leite é caso único, acrescente-se o que se passou com as aves (importações de 61,400 t dos Países Baixos e exportações de 33,100 t para a Holanda), com os suínos (importações de 240,000 t e exportações de 195,000 t), e com os cordeiros (importações de 125,000 t e exportações de 102,000 t) [9]. Qualquer leigo concluirá sem dificuldade que esta situação é insustentável, ilógica, e bizarra. Só uma fonte energética muito barata a poderia suportar, isto mesmo sem pensar nas emissões de CO2.

O (absurdo) desperdício de energia

Ainda com referência no Reino Unido, um estudo de 2001 [10] verificou que transportar 5 kgs de batatas sicilianas para o Reino Unido (2,448 milhas) significava emitir 771 gramas de CO2. Batatas sicilianas transportadas de avião para o Reino Unido?
Absurdo? Mas verdadeiro, e longe de ser caso único.
Por exemplo, cada caloria de alface importada dos USA para o Reino Unido representa um gasto de 127 calorias no combustível do avião usado no transporte. Como cada caloria de espargos importados do Chile consome 97 calorias de combustível, ou ainda, cada caloria de cenoura importada da África do Sul consome 66 calorias na viagem.
Para que não se pense que estas aberrações estão sempre ligadas ao Reino Unido, que aliás sempre nos habituámos a ver como “desalinhado”, cite-se o que se passa com o negócio de ketchup na Suécia. Uma verdadeira loucura. O que a seguir se relata, resulta dum estudo efectuado pelo Instituto Sueco para a Alimentação e Biotecnologia em 1996 [11]. No seu trabalho, os autores tomaram em consideração os insumos para a agricultura, o cultivo de tomate e a conversão em pasta em Itália, o processamento e empacotamento do colar e outros ingredientes do ketchup, e o armazenamento e retalho na Suécia – num total de mais de 52 etapas de processamento e transporte! Eis algumas revelações surpreendentes:
• Os sacos que os italianos utilizam para o acondicionamento asséptico da polpa de tomate foram produzidos nos Países baixos;
• As garrafas utilizadas no empacotamento, efectuado na Suécia, foram produzidas no Reino Unido, ou na Suécia, com materiais importados do Japão, Itália, Bélgica, USA e Dinamarca;
• As tampas das garrafas, em polietileno de baixa densidade, foram produzidas na Dinamarca;
• Não foram abordadas as questões relacionadas com rotulagem, colas, tintas, etc., obviamente importadas como os restantes componentes.
Este exemplo é demonstrativo da dependência alimentar em que nos encontramos, no que diz respeito a deslocações internacionais. Escusado será relembrar que, na maioria das situações, para os adquirirmos dependemos do combustível usado nos nossos carros para nos deslocarmos aos postos de venda.
Por mais optimistas ou despreocupados que sejamos, isto não é sustentável, nem sensato, e muito menos inteligente.

O (anunciado) fim do petróleo

Quase dois terços das reservas mundiais de petróleo encontram-se no Médio Oriente, em especial na Arábia Saudita, Irão e Iraque [12]. De 1980 a 1998 houve um aumento de 11,2% na produção de crude, de 59.6 para 66.9 milhões de barris diários, situando-se actualmente nos 25 biliões por ano [13]. A aritmética mais elementar leva-nos a concluir que, mantendo-se constantes os níveis de consumo, as reservas de petróleo conhecidas (cerca de 1 trilião de barris) esgotar-se-á por volta de 2040 [14]. Mas o mundo sabia o que se iria passar – as crises petrolíferas de 1970, 1980 e 1991 foram claras, não deixando margem para dúvidas [15].
Antes de se extinguir, o petróleo irá rarear, e aumentar de preço. O aviso solene, para os mais desatentos, foi feito ainda no século passado [16]. As arenas mais consumidoras de petróleo continuam, dir-se-á agora passados mais de 13 anos após a obra de Campbell, a alimentação, os transportes e o aquecimento. Dentro em breve, estas três áreas irão competir pela matéria-prima comum que utilizam.
Quem irá sofrer em primeira instância? Os países mais pobres. Quem haveria de ser, afinal?
Iremos passar por uma crise inevitável de alimentação? Sem rodeios apelidada de fome mundial generalizada?
É bem provável. Mas não é inevitável.

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NOTAS:

[1] Green, B. M. (1978): Eating Oil - Energy Use in Food Production, Westview Press, Boulder, CO.
Artigo também muito interessante e detalhado em: http://www.sustainweb.org/pdf/eatoil_sumary.PDF
[2] Por esta chave de busca (eating oil) encontram-se com facilidade, na rede, centenas de trabalhos académicos e jornalísticos bem esclarecedores.
[3] O Reino Unido é um caso bem peculiar, visto as importações e exportações de bens alimentares recorrerem a meios terrestres, marítimos e aéreos.
[4] Os dados para transportes aéreos e marítimos podem ser encontrados em Guidelines for company reporting on greenhouse gas emissions. Department of the Environment, Transport and the Regions: London, March 2001.
Os dados para camiões podem ser encontradas em
Whitelegg, J. (1993): Transport for a sustainable future, the case for Europe, Belhaven Press, London
e em
Gover, M. P. (1994): UK petrol and diesel demand, energy and emission effects of a switch to diesel. Report for the Department of Trade and Industry, HMSO, London
[5] Estima-se [6] que a emissão de CO2 imputável à produção, transformação e distribuição dos alimentos consumidos por uma família inglesa de 4 pessoas seja cerca de 8 toneladas por ano
[6] BRE (1998): Building a sustainable future, General information report 53, energy efficiency best practice programme, Building Research Establishment, Garston, UK
[7] Lobstein, T. and Hoskins, R. (1998): The Perfect Pinta, Food Facts No. 2, The SAFE Alliance
[8] FAO (2001): Food Balance Database. 2001, Food and Agriculture Organisation, Rome em www.fao.org
[9] Campbell, Colin J. (1997): The Coming Oil Crisis. Multi- Science Publishing Co. Ltd
[10] Com base em dados da UKROFS e de um inquérito efectuado em supermercadis de Junho a Agosto; nas tabelas de distâncias para milhas aéreas em www.indo.com/cgi-bin/dist; e ainda no impacto ambiental dos fretes aéreos em Guidelines for company reporting on greenhouse gas emissions. Department of the Environment, Transport and the Regions, London, March 2001
[11] Andersson, K. Ohlsson, P. and Olsson, P. (1996): Life Cycle Assessment of Tomato Ketchup, The Swedish Institute for Food and Biotechnology, Gothenburg.
[12] EIA (2001): World Oil Market and Oil Price Chronologies: 1970 – 2000. Department of Energy’s Office of the Strategic Petroleum Reserve, Analysis Division, Energy Information Administration, Department of the Environment, USA, também disponível em www.eia.doe.gov
[13] Green Party USA (2001): World crude oil reserves – Statistical information. Based on data from the Oil and Gas Journal and the Energy Information Agency. Também disponível em http://environment.about.com/library/weekly/aa092700.htm
[14] Medea, European Agency for International Information (2001): Oil Reserves. Também em http://www.medea.be/en/
Fleming, David (2001): The Great Oil Denial, Submission to the UK Energy Review, ou em
http://www.cabinetoffice.gov.uk/innovation/2001/energy/submissions/Fleming
Para um pouco mais de detalhe acerca da evolução na produção de petróleo: http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/alteracoes-ambientais-parte-1-de-3.html
http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/alteracoes-ambientais-parte-2-de-3.html
http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/alteracoes-ambientais-parte-3-de-3.html
[15] EIA (2001): op. cit.
[16] Campbell, Colin J. (1997): op. cit.