Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
10 Outubro de 2011
Desenvolvendo o interior do país
Como vem sendo habitual nas iniciativas estratégicas chinesas, nada é deixado ao acaso. Acompanhado o boom de exportações, que vimos analisando nos dois últimos artigos ”China – Novo Paradigma Exportador? ” e ”China – É “Pesada” a Nova Batalha nas Exportações” (aconselho a que sejam lidos por esta ordem), as autoridades chinesas apostaram na localização da produção de equipamentos pesados no interior do país, para assim dispersarem riqueza pelas zonas menos desenvolvidas.
Se olharmos para as províncias costeiras, e como consequência do fortíssimo investimento estrangeiro, verificaremos que se acentuaram as diferenças para o interior. (Nota: estima-se que o investimento estrangeiro na China entre 1978 e 2011, possa ter atingido cerca de 750 b$, dos quais 420 b$ ocorreram entre 2006 e 2010, segundo a Revista Veja de Outubro de 2010).
Mas, a partir de 2007 iniciou-se o processo de aproximação – o crescimento do PIB nas regiões do interior superou consistentemente o crescimento do PIB das zonas costeiras. (consulte aqui a Wikipedia).
As duas realidades, zonas costeiras e interior, podem ajudar-se. O interior detém a maioria da industria pesada e é carente de produção mais ligeira, que embora muito significativa até agora nas exportações se situa quase somente no litoral (têxteis, indústria farmacêutica e electrónica). Não se percebem movimentações da indústria pesada para a costa, embora nesta possam vir a ocorrer investimentos, nomeadamente nas áreas de produção de componentes. Em simultâneo, a aposta nas indústrias leves para o interior é inequívoca. Trata-se também, e essa vertente é muito importante, da contribuição para a solução de questões sociais antes que elas possam ocorrer.
Como vimos nos dois artigos anteriores, “China – Novo Paradigma Exportador?” e “China – É "Pesada” a Nova Batalha nas Exportações”, a indústria pesada chinesa está a passar por um período fantástico, a ponto de as empresas Sany e Zoomlion , sediadas em Changsha, e a empresa Xugong , de Xuzhou, estarem agora entre o top ten mundial. Saliente-se que, ainda em 2009, nenhuma empresa chinesa constava desta lista.
Aproveitando esta expansão, as províncias do interior desenvolveram estreitas relações comerciais com os países vizinhos, também eles em desenvolvimento, e ávidos de apoio. Beneficiam igualmente de todas as infraestruturas, em particular dos novos transportes rodoviários e ferroviários. A Associação das Nações do Sudoeste Asiático (ASEAN) está de mãos abertas, preparando-se para transformar a região de Guangxi num importante centro logístico, suportado pela recentemente criada “Zona Especial de Desenvolvimento” . Encontram-se igualmente em franca expansão as redes com destino ao Sul (Singapura), as ligações do Oeste para a Ásia Central e Europa, bem como a recuperação da antiga ligação com a Rússia. Em paralelo, a China lançou em 2010 o que intitularam como uma gigantesca rede ferroviária de alta-velocidade .
Um negócio entre pares
Foi por volta de 2005-2006 que os mercados emergentes passaram a puxar pelas exportações chinesas. De tal forma o tem vindo a fazer que o conjunto de países não-OCDE deverá ser em 2012 o principal destino das exportações chinesas.
Por outro lado, como vimos, a produção chinesa a partir de capital nacional deverá superar a que provém de capitais estrangeiros. Não se infira daqui que o investimento estrangeiro está a diminuir. Não. O que está a acontecer é que existe uma nova aposta destes investidores orientado para o consumo interno que os chineses querem desenvolver (ver aqui ).
Estas duas tendências significam que o envolvimento económico mundial da China na próxima década vai ser predominantemente realizado por empresas chinesas, de capital chinês, que abastecem os mercados dos outros países em desenvolvimento. Isto é uma inversão do que se passou na década passada, na qual o investimento a partir de multinacionais foi um factor-chave da integração da China na economia mundial.
Mais importante, os bens de maior valor que os países não-OCDE estão a importar (comboios, tractores, camiões, guindastes), são aqueles em que os fabricantes na China estão a apostar. É por isso que se designam estas trocas por negócio entre pares, ou negócio Sul-Sul, como a figura seguinte ilustra.
Que novas frentes se perspectivam?
A caminhada da China parece não apreciar limitações. Os chineses encaram os obstáculos com motivação. Os êxitos que estão a conquistar em países terceiros, começam a gerar imagem positiva no Ocidente, e as autoridades chinesas sabem que têm de se livrar do controlo estrangeiro sobre as suas próprias exportações. Querem ser eles a segurar as rédeas. E estão a consegui-lo.
O aparecimento de empresas chinesas na faixa tecnológica superior é um desenvolvimento que uns saúdam e outros temem. No passado recente, os produtos de gama baixa exportados pela China, permitiram controlar a inflação nos países de destino, forçando os fornecedores locais à adição de valor para se manterem competitivos. Mas, a partir de agora, o cenário será bem diferente.
O Ocidente ainda dispõe de algum tempo, mas tem de despertar. Os avanços tecnológicos chineses ainda não estão suficientemente maduros para uma luta de igual para igual em mercados exigentes, dir-se-á com alguma razão. E alguns revezes podem vir a acontecer às indústria chinesas, como o recente desaire do acidente ferroviário na alta velocidade, que obrigou as autoridades a repensarem todo o processo. Aqui se recorda o mediático desastre com o comboio de alta-velocidade que provocou 36 vítimas mortais e levou a que as autoridades chinesas mandassem retirar de circulação 54 composições da mais elevada tecnologia.
A China continua a licenciar mais engenheiros por ano do que qualquer outro país do mundo. É uma grande vantagem. Apesar disso, cerca de 80% da população ainda não possui formação secundária, o que é grande problema. Algumas áreas, onde a aposta chinesa foi considerada prioritária, como as indústrias verdes, apesar dos enormes subsídios estatais, muitos parques eólicos continuam inactivos, e mesmo desligados da rede, por escassez de engenheiros e outros profissionais qualificados capazes de operarem os equipamentos.
Alguns analistas acham que o país devia repensar as metas tecnológicas que traçou, sob pena de ter de os rever após eventuais comprometedores desaires. A inovação dificilmente se decreta. Há que dar tempo ao tempo. Mas os chineses têm pressa .
Seria preferível, dizem alguns, um maior enfoque noutras áreas, como a reforma da educação, que permitiria porventura maior progresso orgânico tecnológico com bases mais sustentáveis.
No fundo, a diferença de requisitos duma economia em tempos virada para o mercado soviético e agora decidida a satisfazer as necessidades dos mercados do Ocidente é abissal.
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011
domingo, 9 de outubro de 2011
CHINA – É "Pesada" a Nova Batalha nas Exportações
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
09 Outubro de 2011
O artigo anterior, "China – Novo Paradigma Exportador?", introduziu a nova mudança estratégica chinesa no que diz respeito a exportações - da gama baixa para níveis progressivamente mais elevados de incorporação de valor.
Este deslocamento era inevitável. O assunto já aqui havia sido tratado em Setembro de 2010, tendo justificado assinalável interesse, a avaliar pelas visitas registadas no blog. Toda a gente estava consciente de que isto iria acontecer, apenas se desconhecendo quando, e com que consequências globais. Parece falta de senso dos países industrializados não se terem precavido, pois a história recente tem mostrado que sempre que a China apostou no crescimento de qualquer sector, o fez com base em economias de escala suportadas em poderosos investimentos. Evidenciando pistas, portanto. Os países ricos parecem ter esquecido depressa com foi penosa para eles a aposta chinesa na indústria siderúrgica na década de 2000. Nenhuma novidade, portanto, sobre o que está a acontecer. Inexplicável amnésia? Incúria? Sobranceria? Um compósito, talvez.
Atente-se na figura anterior, onde sob a designação de “Zona Quente” (a expressão é recorrente nos textos da The Economist), se constrói um radar do impacte das novas apostas de exportação chinesas no contexto global. No gráfico torna-se bem visível quais os sectores em que os países da OCDE sentem actualmente a pressão exportadora chinesa. Resumidamente, onde o Ocidente menos a desejava.
O estudo, realizado sobre dados de 2007-2010, incidiu em 217 mercados de exportação de mercadorias (commodities), calculando-se que o valor mundial destas transacções possa ter ultrapassado 10 t$. O mapeamento resulta de cruzamento das percentagens de exportações globais dos países OCDE, no eixo horizontal, com a variação verificada na quota de mercado chinesa em três anos, no eixo vertical.
A “Zona Quente”, ou campo crucial da luta, situa-se no quadrante superior direito, onde os países OCDE detêm quota dominante do mercado, e onde as apostas chinesa têm sido mais significativas, de 2007 a 2010. Neste quadrante, situam-se 37 sectores responsáveis por 927 b$ em 2010. Repare-se no quadro – releva equipamentos pesados e de precisão, áreas onde se tornam imprescindíveis avanços significativos nas tecnologias de corte e modelação de metais. Há uma década, tal teria sido impossível.
A quota de mercado dos países OCDE nestes mercados passou de 79% em 2007 para 74.7% em 2010 – cerca de 4.3 pontos percentuais. No mesmo período a quota chinesa passou de 8.5% para 14% - cerca de 5.5 pontos percentuais.
A táctica utilizada pela China parece ter sido a habitual – importa os produtos que quer vir a produzir, das melhores fontes, procedendo a processos de reengenharia (reverse engineering) que os possa dotar dos conhecidos necessários para produção em massa, normalmente através de empresas start-up.
Para consultar números detalhados sobre as exportações mundiais, aconselho os seguintes sítios: ”indexmundi.com”, ou ”Economia da China”, entre os mais de quatro milhões de entradas que respondem à chave de pesquisa “china exportações”. Obviamente, que os números diferem conforme as fontes, mas com facilidade se encontram fontes fidedignas na Web.
O gráfico que se segue ilustra bem a evolução das exportações chinesas de 1999 a 2010 (os valores apresentados têm validade a 01. Jan.2011, a assinatura de CIA World Factbook, e expressão em b$).
As medidas proteccionistas
De formas mais ou menos encapotadas, os países OCDE, em particular USA e EU, têm vindo a implementar medidas proteccionistas nestes sectores. As regras anti-dumping e anti-subvenção (direitos de compensação) têm sido as mais utilizadas, salientando-se a incidência especial sobre peças e componentes em geral.
Sempre que podem os estados procuram igualmente actuar sobre produtos acabados, embora neste domínio a luta seja mais dura e difícil. Foi por isso que já este ano a vitória dos EUA sobre a China na célebre disputa, que ocorreu na arena da Organização Mundial do Comércio (OMC), acerca do negócio de turbinas eólicas, altamente subsidiada pelo estado chinês, ficou famosa (ver aqui um elucidativo relato do incidente).
O recurso ao sistema de cópia melhorada
Por agora, como veremos em artigo separado, a grande investida exportadora chinesa, em matéria de maquinaria pesada, aponta para os países não-OCDE, no que já se denomina negócio do Sul para o Sul. Todos crêem, contudo, que se trata de ganhar experiência e escala para os voos desejados sobre os países industrializados.
A China tem larga margem de progresso nesta luta de médio prazo. A sua participação no mercado global de exportações de veículos automóveis ainda é insípida (553 b$), assim como em produtos finais farmacêuticos (310 b$) e aviação (85 b$).
Por certo, será uma questão de tempo. As mudanças aproximam-se, e, sobretudo, estão planeadas. Nalgumas áreas são demasiadamente evidentes. No campo das exportações de micro-chips, as exportações chinesas cresceram cerca de 8% para um total de 361 b$, embora estes números sejam difíceis de confirmar dada a significativa participação de processamento e montagem. Nota-se, contudo, que aqui também a industria chinesa está progressivamente a produzir produtos e componentes próximos dos que tradicionalmente tem vindo a importar, à medida que vai percebendo os segredos da sua fabricação.
“Made in China” já não é o que era…
Parecem distantes os dias em que nos vimos confrontadas com a ameaça da inundação de têxteis, calçado, e brinquedos de baixo custo exportados pela China. Foi a investida de gama baixa que incluiu ferramentas de trabalho baratas e de má qualidade.
O Ocidente riu e aproveitou, olhando com algum desdém para as novas oportunidades. O pequeno comércio, contudo, ressentiu-se e protestou. Sem grande sucesso, diga-se. Veja-se a propósito: ”Leve que é garantido, é Made in China”, que publiquei faz agora um ano.
A oferta exportadora chinesas mudará a muito curto prazo, e será liderado pelos fabricantes de equipamentos pesados, de precisão, e de qualidade concorrencial.
Para já, em mercados terceiros. Amanhã, nos mercados mais nobres. O Ocidente parece somente observar, sem mostrar qualquer capacidade de resposta. A rede expande-se.
A seguir, em artigo separado, abordarei como a China pretende “Construir Equipamentos Para Construir o Mundo”.
vitor.trigo@gmail.com
09 Outubro de 2011
O artigo anterior, "China – Novo Paradigma Exportador?", introduziu a nova mudança estratégica chinesa no que diz respeito a exportações - da gama baixa para níveis progressivamente mais elevados de incorporação de valor.
Este deslocamento era inevitável. O assunto já aqui havia sido tratado em Setembro de 2010, tendo justificado assinalável interesse, a avaliar pelas visitas registadas no blog. Toda a gente estava consciente de que isto iria acontecer, apenas se desconhecendo quando, e com que consequências globais. Parece falta de senso dos países industrializados não se terem precavido, pois a história recente tem mostrado que sempre que a China apostou no crescimento de qualquer sector, o fez com base em economias de escala suportadas em poderosos investimentos. Evidenciando pistas, portanto. Os países ricos parecem ter esquecido depressa com foi penosa para eles a aposta chinesa na indústria siderúrgica na década de 2000. Nenhuma novidade, portanto, sobre o que está a acontecer. Inexplicável amnésia? Incúria? Sobranceria? Um compósito, talvez.
Atente-se na figura anterior, onde sob a designação de “Zona Quente” (a expressão é recorrente nos textos da The Economist), se constrói um radar do impacte das novas apostas de exportação chinesas no contexto global. No gráfico torna-se bem visível quais os sectores em que os países da OCDE sentem actualmente a pressão exportadora chinesa. Resumidamente, onde o Ocidente menos a desejava.
O estudo, realizado sobre dados de 2007-2010, incidiu em 217 mercados de exportação de mercadorias (commodities), calculando-se que o valor mundial destas transacções possa ter ultrapassado 10 t$. O mapeamento resulta de cruzamento das percentagens de exportações globais dos países OCDE, no eixo horizontal, com a variação verificada na quota de mercado chinesa em três anos, no eixo vertical.
A “Zona Quente”, ou campo crucial da luta, situa-se no quadrante superior direito, onde os países OCDE detêm quota dominante do mercado, e onde as apostas chinesa têm sido mais significativas, de 2007 a 2010. Neste quadrante, situam-se 37 sectores responsáveis por 927 b$ em 2010. Repare-se no quadro – releva equipamentos pesados e de precisão, áreas onde se tornam imprescindíveis avanços significativos nas tecnologias de corte e modelação de metais. Há uma década, tal teria sido impossível.
A quota de mercado dos países OCDE nestes mercados passou de 79% em 2007 para 74.7% em 2010 – cerca de 4.3 pontos percentuais. No mesmo período a quota chinesa passou de 8.5% para 14% - cerca de 5.5 pontos percentuais.
A táctica utilizada pela China parece ter sido a habitual – importa os produtos que quer vir a produzir, das melhores fontes, procedendo a processos de reengenharia (reverse engineering) que os possa dotar dos conhecidos necessários para produção em massa, normalmente através de empresas start-up.
Para consultar números detalhados sobre as exportações mundiais, aconselho os seguintes sítios: ”indexmundi.com”, ou ”Economia da China”, entre os mais de quatro milhões de entradas que respondem à chave de pesquisa “china exportações”. Obviamente, que os números diferem conforme as fontes, mas com facilidade se encontram fontes fidedignas na Web.
O gráfico que se segue ilustra bem a evolução das exportações chinesas de 1999 a 2010 (os valores apresentados têm validade a 01. Jan.2011, a assinatura de CIA World Factbook, e expressão em b$).
As medidas proteccionistas
De formas mais ou menos encapotadas, os países OCDE, em particular USA e EU, têm vindo a implementar medidas proteccionistas nestes sectores. As regras anti-dumping e anti-subvenção (direitos de compensação) têm sido as mais utilizadas, salientando-se a incidência especial sobre peças e componentes em geral.
Sempre que podem os estados procuram igualmente actuar sobre produtos acabados, embora neste domínio a luta seja mais dura e difícil. Foi por isso que já este ano a vitória dos EUA sobre a China na célebre disputa, que ocorreu na arena da Organização Mundial do Comércio (OMC), acerca do negócio de turbinas eólicas, altamente subsidiada pelo estado chinês, ficou famosa (ver aqui um elucidativo relato do incidente).
O recurso ao sistema de cópia melhorada
Por agora, como veremos em artigo separado, a grande investida exportadora chinesa, em matéria de maquinaria pesada, aponta para os países não-OCDE, no que já se denomina negócio do Sul para o Sul. Todos crêem, contudo, que se trata de ganhar experiência e escala para os voos desejados sobre os países industrializados.
A China tem larga margem de progresso nesta luta de médio prazo. A sua participação no mercado global de exportações de veículos automóveis ainda é insípida (553 b$), assim como em produtos finais farmacêuticos (310 b$) e aviação (85 b$).
Por certo, será uma questão de tempo. As mudanças aproximam-se, e, sobretudo, estão planeadas. Nalgumas áreas são demasiadamente evidentes. No campo das exportações de micro-chips, as exportações chinesas cresceram cerca de 8% para um total de 361 b$, embora estes números sejam difíceis de confirmar dada a significativa participação de processamento e montagem. Nota-se, contudo, que aqui também a industria chinesa está progressivamente a produzir produtos e componentes próximos dos que tradicionalmente tem vindo a importar, à medida que vai percebendo os segredos da sua fabricação.
“Made in China” já não é o que era…
Parecem distantes os dias em que nos vimos confrontadas com a ameaça da inundação de têxteis, calçado, e brinquedos de baixo custo exportados pela China. Foi a investida de gama baixa que incluiu ferramentas de trabalho baratas e de má qualidade.
O Ocidente riu e aproveitou, olhando com algum desdém para as novas oportunidades. O pequeno comércio, contudo, ressentiu-se e protestou. Sem grande sucesso, diga-se. Veja-se a propósito: ”Leve que é garantido, é Made in China”, que publiquei faz agora um ano.
A oferta exportadora chinesas mudará a muito curto prazo, e será liderado pelos fabricantes de equipamentos pesados, de precisão, e de qualidade concorrencial.
Para já, em mercados terceiros. Amanhã, nos mercados mais nobres. O Ocidente parece somente observar, sem mostrar qualquer capacidade de resposta. A rede expande-se.
A seguir, em artigo separado, abordarei como a China pretende “Construir Equipamentos Para Construir o Mundo”.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
CHINA – Novo Paradigma Exportador?
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
05 Outubro de 2011
Em 2012, o sector exportador chinês, que tem sido a alavanca do crescimento económico do país, deverá dobrar um novo e importante marco – espera-se que, finalmente, a contribuição dos produtos com origem nas empresas nacionais supere a participação dos produtos oriundos de empresas chinesas de capital estrangeiro operando no país.
O que se está a passar no subsector de maquinaria pesada para a construção é paradigmático. É bem provável que ainda em 2011 a China ultrapasse a Alemanha e o Japão neste domínio, assumindo-se como segundo fornecedor mundial, logo a seguir aos USA.
Qual o impacte que esta nova realidade aportará à economia chinesa e que implicações poderá acarretar aos mercados internacionais?
Vejamos primeiro porque esta nova realidade se tornará inevitável.
• Várias vezes aqui foi referido que o aumento de salários implicaria várias consequências. Por uma lado, e aproveitando o imparável desenvolvimento tecnológico, os exportadores tiveram de olhar com redobrada atenção para a necessidade de subirem na cadeia de valor. Tal movimentação permitiria competir em novos domínios, até agora reservas exclusivas dos países desenvolvidos, mas obrigaria a novas estratégias de produção e distribuição;
• No intuito de contornar as dificuldades esperadas na colocação destes produtos nos principais mercados, a China apostou nos países em desenvolvimento (grosso modo apelidados não-OCDE), onde nos últimos anos as grandes potências exportadoras conheceram retrocesso de vendas;
• Apesar do enorme desenvolvimento interno da última década, a China continua carente de infraestruturas. Para as construir precisa de equipamentos pesados. O mercado interno, funcionará assim para o escoamento em larga escala dos novos produtos, bem como evitará importações para o efeito;
• Esta aposta permitirá igualmente, construir novas unidades de produção no interior mais pobre, criando empregos e gerando consumo interno. As novas infraestruturas, ao facilitarem as comunicações com os vizinhos, permitirão novos canais de fornecimento, e fortalecimento da posição chinesa como locomotiva do desenvolvimento pan-asiático.
Mais uma vez, os chineses mostram como se planeia e se cumpre o planeado nas diversas vertentes, directas e indirectas, do comércio internacional.
Foram dez anos de sonho
Apesar dos impactes negativos das crises financeira e económica iniciadas em 2008 e ainda longe de solução mundial, a última década chinesa foi uma década de sonho. Mesmo contando que 2009 foi doloroso também para a China.
Relevando alguns registos:
• Desde 2001, o incremento anual das exportações chinesas de produtos manufacturadas tem sido cerca de 1 ponto percentual;
• Neste domínio a participação chinesas no total das exportações mundiais foi, 2010, de 13.7% (em 2009 havia sido 12.1%).
No entanto, todos concordam que se a China quiser continuar este ritmo de crescimento, terá de ultrapassar a questão dos aumentos constantes dos custos de mão-de-obra que afectarão negativamente as vendas de produtos de grande consumo e baixa qualidade. Pura e simplesmente, verão a sua competitividade fortemente afectada. Solução? Derivar a atenção nas gamas média e alta.
Por enquanto, as exportações de gama baixa continuam a aumentar, mas as autoridades chineses sabem que a vaca irá emagrecer. Há que estar preparado para a chegada do ponto de viragem. A The Economist Intelligence Unit procedeu ao cálculo de Índice de Similaridade de Exportações (ESI) e chegou ao seguinte gráfico:
Estas curvas devem ser interpretadas da seguinte forma: O ESI revela o grão de sobreposição das exportações chinesas face aos seus competidores mais ricos. O nível 0 significa ausência de concorrência, isto é, nenhum dos exportadores participa nos mesmos mercados, e o nível 100 revela idênticas estruturas de exportação.
Então, do gráfico, retira-se que, na última década a tendência é ascendente, embora com níveis baixos. A China continua um produtor/exportador predominantemente baseado em trabalho intensivo, com a capacidade exportadora focada na gama baixa (porventura centrada em mercadorias (commodities), tais como vestuário, calçado, têxteis e brinquedos).
Como será a próxima década?
Como foi referido, os mercados desenvolvidos têm sido dominados pelos exportadores que incorporam intensamente nas suas ofertas tecnologia e capital. A China tem apostado principalmente em gama baixa e intensa incorporação de mão-de-obra. É este paradigma que a China quer mudar de forma sustentável.
Para o conseguir, a China tenta conquistar os países em desenvolvimento, em áreas onde tem tido oferta muito limitada, e onde os poderosos revelam crescentes debilidades. A participação combinada dos USA, EU-27 e Japão nas exportações mundiais que representava 63.3% em 2001, caiu para 56.3% em 2010. A China quer aproveitar esta tendência, e ocupar o terreno perdido pelos seus competidores.
O próximo artigo irá abordar a questão específica da exportação chinesa de equipamentos pesados para a construção.
vitor.trigo@gmail.com
05 Outubro de 2011
Em 2012, o sector exportador chinês, que tem sido a alavanca do crescimento económico do país, deverá dobrar um novo e importante marco – espera-se que, finalmente, a contribuição dos produtos com origem nas empresas nacionais supere a participação dos produtos oriundos de empresas chinesas de capital estrangeiro operando no país.
O que se está a passar no subsector de maquinaria pesada para a construção é paradigmático. É bem provável que ainda em 2011 a China ultrapasse a Alemanha e o Japão neste domínio, assumindo-se como segundo fornecedor mundial, logo a seguir aos USA.
Qual o impacte que esta nova realidade aportará à economia chinesa e que implicações poderá acarretar aos mercados internacionais?
Vejamos primeiro porque esta nova realidade se tornará inevitável.
• Várias vezes aqui foi referido que o aumento de salários implicaria várias consequências. Por uma lado, e aproveitando o imparável desenvolvimento tecnológico, os exportadores tiveram de olhar com redobrada atenção para a necessidade de subirem na cadeia de valor. Tal movimentação permitiria competir em novos domínios, até agora reservas exclusivas dos países desenvolvidos, mas obrigaria a novas estratégias de produção e distribuição;
• No intuito de contornar as dificuldades esperadas na colocação destes produtos nos principais mercados, a China apostou nos países em desenvolvimento (grosso modo apelidados não-OCDE), onde nos últimos anos as grandes potências exportadoras conheceram retrocesso de vendas;
• Apesar do enorme desenvolvimento interno da última década, a China continua carente de infraestruturas. Para as construir precisa de equipamentos pesados. O mercado interno, funcionará assim para o escoamento em larga escala dos novos produtos, bem como evitará importações para o efeito;
• Esta aposta permitirá igualmente, construir novas unidades de produção no interior mais pobre, criando empregos e gerando consumo interno. As novas infraestruturas, ao facilitarem as comunicações com os vizinhos, permitirão novos canais de fornecimento, e fortalecimento da posição chinesa como locomotiva do desenvolvimento pan-asiático.
Mais uma vez, os chineses mostram como se planeia e se cumpre o planeado nas diversas vertentes, directas e indirectas, do comércio internacional.
Foram dez anos de sonho
Apesar dos impactes negativos das crises financeira e económica iniciadas em 2008 e ainda longe de solução mundial, a última década chinesa foi uma década de sonho. Mesmo contando que 2009 foi doloroso também para a China.
Relevando alguns registos:
• Desde 2001, o incremento anual das exportações chinesas de produtos manufacturadas tem sido cerca de 1 ponto percentual;
• Neste domínio a participação chinesas no total das exportações mundiais foi, 2010, de 13.7% (em 2009 havia sido 12.1%).
No entanto, todos concordam que se a China quiser continuar este ritmo de crescimento, terá de ultrapassar a questão dos aumentos constantes dos custos de mão-de-obra que afectarão negativamente as vendas de produtos de grande consumo e baixa qualidade. Pura e simplesmente, verão a sua competitividade fortemente afectada. Solução? Derivar a atenção nas gamas média e alta.
Por enquanto, as exportações de gama baixa continuam a aumentar, mas as autoridades chineses sabem que a vaca irá emagrecer. Há que estar preparado para a chegada do ponto de viragem. A The Economist Intelligence Unit procedeu ao cálculo de Índice de Similaridade de Exportações (ESI) e chegou ao seguinte gráfico:
Estas curvas devem ser interpretadas da seguinte forma: O ESI revela o grão de sobreposição das exportações chinesas face aos seus competidores mais ricos. O nível 0 significa ausência de concorrência, isto é, nenhum dos exportadores participa nos mesmos mercados, e o nível 100 revela idênticas estruturas de exportação.
Então, do gráfico, retira-se que, na última década a tendência é ascendente, embora com níveis baixos. A China continua um produtor/exportador predominantemente baseado em trabalho intensivo, com a capacidade exportadora focada na gama baixa (porventura centrada em mercadorias (commodities), tais como vestuário, calçado, têxteis e brinquedos).
Como será a próxima década?
Como foi referido, os mercados desenvolvidos têm sido dominados pelos exportadores que incorporam intensamente nas suas ofertas tecnologia e capital. A China tem apostado principalmente em gama baixa e intensa incorporação de mão-de-obra. É este paradigma que a China quer mudar de forma sustentável.
Para o conseguir, a China tenta conquistar os países em desenvolvimento, em áreas onde tem tido oferta muito limitada, e onde os poderosos revelam crescentes debilidades. A participação combinada dos USA, EU-27 e Japão nas exportações mundiais que representava 63.3% em 2001, caiu para 56.3% em 2010. A China quer aproveitar esta tendência, e ocupar o terreno perdido pelos seus competidores.
O próximo artigo irá abordar a questão específica da exportação chinesa de equipamentos pesados para a construção.
terça-feira, 26 de julho de 2011
CHINA – Aproximam-se sérios contratempos?
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
26 Julho de 2011
Nota importante:
Este artigo lida com valores monetários de magnitude anormal para o comum leitor português. A fim de facilitar comparações com artigos internacionais, todos os valores monetários serão expressos em dólares norte-americanos ($), a terminologia será a mais comum a nível internacional, ou seja: 1 milhão (m) = 1,000,000; 1 bilião (b) = 1,000,000,000; 1 trilião (t) = 1,000,000,000,000, e o valor de conversão Yuan (Renminbi) é, de forma muito simplificada, 1$ ≈ 6.5¥.
Muitos são os que esperam que a China, cujos indicadores económicos parecem não ter sido significativamente afectados pela crise financeira e económica que vem afectando o resto do mundo desde meados de 2008, assuma a salvação do capitalismo tal como o conhecemos. Derradeira e desesperada esperança dos demasiadamente conversadores, ou clarividência dos verdadeiros controladores do sistema, que venho intitulando neste espaço, como “mandantes”?
Jim Rogers, presidente da empresa de investimentos Rogers Holdings e Beeland Interests Inc, é um exemplo dos optimistas que prevêem que a China poderá vir a enfrentar algum declínio económico no curto prazo, mas que, tal como os americanos sempre fizeram com evidente êxito, irá superá-los no médio e longo prazos, não se deixando colapsar. Garry Shilling, presidente do A. Garry Shilling & Co., manifesta-se em sentido diverso: O modelo de crescimento “tipo-China” é insustentável; as excessivas dependências das exportações e do artificial controlo da moeda, não resistirão se, por exemplo, os consumidores norte-americanos se virem obrigados a poupanças forçadas (ver, mais adiante, como a China depende do consumo norte-americano).
Opiniões de analistas sobre o fenómeno chinês não faltam, e para os mais diversos gostos e clientelas. Olhemos por isso para os números mais recentes sobre a economia chinesa, tentando perceber o que eles parecem querer revelar. Todas as interpretações serão, naturalmente, subjectivas.
Comércio externo - exportações e importações
As exportações chinesas cresceram 17.9% em Junho, em relação a Maio de 2011, cifrando-se em 121.5 b$. No mesmo período as importações cresceram 19.3%, contra o crescimento de 28.4% em Maio. Mesmo assim, daqui resulta um acréscimo do excedente comercial esterno de 23.3 b$. Um valor que continua impressionante, quaisquer que sejam os filtros interpretativos que utilizemos.
Alguns analistas julgam ver no menor crescimento das importações um certo resfriamento da produção e/ou do consumo interno. Os dois domínios são especialmente sensíveis, dada a aposta continuada nas exportações concomitante com a nova aposta no consumo interno (ver “China forçada a dinamizar o consumo interno” e também ”O boom do consumo interno visto pelos estrangeiros). É, contudo, muito cedo para identificar tendências e antecipar implicações, mas o alerta já foi dado e a atenção vira-se agora para a confirmação ou não das previsões dos mais alarmistas.
De facto, se compararmos 2010 com 2008, verificamos que os valores decresceram (ver Economywatch de 12.Jul.2011:
Exportações (2008 / 2010): 1.429 / 1.194 t$ (- 16.5 %)
Importações (2008 / 2010): 1.131 / 0.922 t$ (-18.5 %)
Recorde-se que as relações comerciais da China são muito concentradas em poucos parceiros:
Exportações (%): USA 17.7, Hong-Kong 13.3, Japão 8.1, Coreia do Sul 5.2, Alemanha 4.1
Importações (%): Japão 13.3, Coreia do Sul 9.9, USA 7.2, Alemanha 4.9
Produto Interno Bruto (PIB)
Mesmo em plena crise económica mundial, o crescimento do PIB chinês em 2010 foi 10.5 %, para um total de 5,745.13 b$, prevendo-se para 2011 um crescimento de 11.8 %, alcançando 6,422.3 b$. Em 2015, o valor estimado para o PIB é 9,982.1 b$.
Em 2010, a população chinesa era 1.341 b. A previsão para 2015 é 1.375 b. Isto corresponde a um abrandamento notável no crescimento da população chinesa.
As preocupações das autoridades chinesas em relação à população não se confinam ao controlo do crescimento, que tem sido, como é público, alvo de particular atenção (ver artigo sobre Política de Filho Único). Como Wen Jiabao relembrou na Assembleia Nacional do Povo em Março passado, a qualidade de vida da população chinesa é uma prioridade do governo.
O desemprego verificado em 2010 foi 4.1 %, menos 4.65 % do que em 2009, prevendo-se que no período 2011 a 2015 se fixe em 4 %. Questão que parece controlada.
A inflação em 2010 foi 3.5 %. Uma enorme preocupação para o governo, pois correspondeu a um aumento de 428 % em relação a 2009. Apesar das medidas já tomadas, a inflação parece fora do controlo desejado (o Plano Quinquenal, aprovado em Março passado, impõe limitação a 4% para este ano, mas o valor verificado em Junho foi de 6.5 %). Novas medidas terão de ser tomadas, pois os planos já em curso (ver aqui e aqui também), parecem não estar a ser suficientes.
Endividamento dos governos locais
Oficialmente, e de acordo com os números revelados pelo National Audit Office ( ver FT de 08.Jul.2011), a dívida dos governos locais já ascende a 1.654 t$, dos quais 80%, embora por via indirecta, recai sobre os bancos centrais. Um valor muito elevado, mas nada comparado com a preocupante estimativa da agência de notação Moody’s que a coloca em 2.2 t$.
Perguntar-se-á como foi isto possível, conhecendo-se o controlo apertado, que foi imposto pelo governo aos bancos centrais, para este tipo de operações (ver aqui)? É que os operadores intermediários criaram muitas empresas que contraíram os empréstimos, cedendo-os depois aos governos regionais. A EIU de 21.Jun.2011, refere que, entre 2008 e 2010, o número destas empresas aumentou 25%, qualquer coisa como mais de 10,000 intermediários. A quase totalidade destas dívidas vencer-se-á em 2014-2015. Um horizonte próximo nada agradável, e que os investidores particularmente receiam.
A agência Fitch estima que, se 20% deste montante se vier a revelar incobrável, o que não será de todo irrealista, estaremos a falar de cerca de 450 b$. Ora, se o governo central vier a ser obrigado a cobrir esta lacuna, tal significará acrescentar cerca de 6 pontos percentuais aos oficiais 1.14% de incobráveis nacionais (números finais de 2010). A solidez do sistema será naturalmente afectada e a confiança no sistema perigosamente abalada.
Visto de outro ângulo, segundo os valores oficiais do Banco Popular da China, a dívida do governo central é de cerca de 20% do PIB. Um montante bastante saudável. Contudo, de acordo com os valores atrás referidos para a dívida dos governos locais, tal representará 35% do PIB. Alguns analistas calculam que, se o governo central for obrigado a incorporar todas as dívidas dos governos regionais e suas implicações no orçamento nacional, então será provável que os mais que aceitáveis rácios da divida pública chinesa actual – abaixo de 20% do PIB – se venham a transformar nuns preocupante 80%, a prazo relativamente curto. Que imagem degradada seria, assim, projectada para os mercados.
Que sinais se notam nas bolsas?
Na edição online do FT de 08.Jul.2011, relatava-se que a companhia de investimento de Singapura, Temasek, havia vendido 3.6 b$ de acções de dois bancos chineses, não especificando quais. Vários outros periódicos deram notícia de que o National Social Security Fund, que administra o plano de pensões chinês, havia cortado as suas posições accionistas nos bancos chineses.
Nestes meios, as coincidências não aparecem por acaso, nem as notícias são inocentes. Os investidores costumam estar atentos. Os anunciados 1.65 t$ de dívidas detectados a nível dos governos locais, não ajudavam a aliviar as preocupações. As dúvidas da Moody’s, atrás referidas (2.2 t$?), só carregam, e de que maneira, o cenário.
Entretanto em 2010, a valorização bolsista dos principais bancos chineses não foi poupada: em Shanghai, as acções do Industrial and Commercial Bank of China, perderam 19%, e em Hong-Kong 8%; também em Shanghai, e nos últimos 18 meses, as acções do Bank of China desvalorizaram 26%, e as do China Merchants Bank 23%. Os investidores não gostam nada destes indicadores. Laertas amarelos, no mínimo foram accionados.
Estará a China à beira de novo resgate?
Os mercados detestam resgates. Eles representam sempre perdas para os investidores.
Recorde-se que nos anos 1990s (como a memória nestes domínios se mostra tão volátil), a China recorreu a uma importante operação de salvamento do seu sistema bancário, vulgo reestruturação ou resgate de dívidas, enfrentando e recuperando o colossal endividamento que o ameaçava de colapso todo o sistema. Na época, as autoridades políticas injectaram centenas de biliões de dólares no mercado (ver aqui). A operação resultou, e os mercados pareceram ter querido esquecer o acontecimento.
Ora, alguns vêem nas actuais advertências do People Bank of China, um alerta para possível nova intervenção do governo, talvez já em Setembro próximo, assumindo a dívida de cerca de 2.2 t$ (números estimados pela Moody’s), ou parte dela, embora as autoridades chinesas se tenham apressado a negar essa eventualidade. É possível, porém, que algum compromisso venha a ocorrer envolvendo os bancos e o governo central, partilhando responsabilidades na solução desta questão, que não se pode arrastar como se de nada se tratasse. Uma alternativa poderá ser a emissão de obrigações pelas autoridades regionais, procurando melhorar a transparência das suas contas. Mas tal terá custos elevados a suportar.
Uma iniciativa deste tipo, dependendo da forma e extensão que vierem a ser decididas, poderá, contudo, como foi dito atrás, elevar relativamente os salutares níveis da dívida em relação ao PIB dos 20% actuais para preocupantes 80% futuros. Como estes novos valores poderão ocorrer ainda este ano, ou seja, numa altura em que o mundo ainda tenta superar dos efeitos da crise que se iniciou em 2008, estas previsões não agradam a ninguém.
Para melhor compreensão: Uma intervenção desta dimensão significa cerca de 8% do PIB chinês, superior portanto ao esforço de 5% do PIB dos USA que os americanos decidiram em 2008, com base no Programa de Alívio dos Activos Problemáticos (TARP). Sendo certo que a China dispõe de gigantescas reservas em divisas, não será de prever qualquer falência da banca causada por estas eventuais medidas, mas com certeza que surgirão problemas, ainda que pontuais, de liquidez nalgumas entidades.
Acresce que algumas fontes, o Standard Chartered Bank por exemplo, chama a atenção para que se não forem imediatamente levantadas barreiras ao processo de endividamento dos governos regionais, estes, só por força do investimento em habitações a preços regulados, poderão vir a atingir um acréscimo de 300 b$ apenas referentes a 2012.
Os desafios mais imediatos da China
Conforme ficou decidido na Assembleia Nacional do Povo de Março deste ano, continuam a ser enormes os desafios que se colocam à China moderna, em quase todos os domínios. Um dos mais importantes está em curso, e respeita à democratização do sistema económico, tradicionalmente fortemente centralizado.
Os transportes, as comunicações, e os recursos energéticos encontram-se entre as grandes prioridades. O governo, altamente competente sob o ponto de vista técnico, está ciente de que com infra-estruturas deficientes tudo fica mais difícil. A China procura afincadamente construir infra-estruturas de primeira classe mundial. Mas a sua extensão territorial requer investimentos gigantescos que têm de ser escalonados. Toda a liquidez será bem-vinda, ou, dito doutra forma, crises de liquidez não são de todo desejadas.
Outras questões importantes justificam atenção acrescida, como o presidente Hu Jintao, referiu na recente visita aos USA (ver detalhes do discurso aqui):
Nivelamento dos índices de desenvolvimento da população, nomeadamente na aproximação das capacidades económicas do interior rural ao urbanismo do litoral;
Combate sem tréguas à corrupção que ameaça o desenvolvimento saudável do tecido económico e as estruturas da administração;
Luta contra as ameaças à saúde, incluindo a taxa crescente da infecção por HIV;
Modernização do sistema político, adaptando-o às novas realidades nacionais e internacionais, que permita a convivência das escolhas políticas lideradas pelo PCC com o liberalismo crescente na economia;
Sustentabilidade ambiental compatível com o enorme desenvolvimento económico que o país tem conhecido nas últimas três décadas, e que se pretende continuar.
A China, já desde o ano passado a segunda potência económica mundial, ambiciona e poderá vir a superar os USA. Não será tarefa fácil, e por certo levará décadas a concretizar. Mas paciência, planeamento, e espírito de missão não constam das carências chinesas.
O domínio económico não é, contudo, indissociável do domínio político, o que segundo os padrões actuais implica poder militar (ver a propósito o que escrevi em Setembro de 2010 sobre a difícil relação da China com o Japão). A China procura fortalecer-se militarmente, mas está muito longe de poder ambicionar, a médio prazo, a constituir qualquer ameaça à descomunal capacidade militar dos USA, tanto a nível aéreo, naval, como espacial, se bem que disponha do exército terrestre com mais efectivos.
Coco Channel disse um dia que “uma mulher nunca é suficientemente rica nem suficientemente magra”. Nas relações internacionais poder-se-á dizer que “um país nunca dispõe de suficientes recursos, capacidades económicas, e poder político-militar”.
Parece ganhar novo fôlego o aparentemente extinto conceito de Coexistência Pacífica.
vitor.trigo@gmail.com
26 Julho de 2011
Nota importante:
Este artigo lida com valores monetários de magnitude anormal para o comum leitor português. A fim de facilitar comparações com artigos internacionais, todos os valores monetários serão expressos em dólares norte-americanos ($), a terminologia será a mais comum a nível internacional, ou seja: 1 milhão (m) = 1,000,000; 1 bilião (b) = 1,000,000,000; 1 trilião (t) = 1,000,000,000,000, e o valor de conversão Yuan (Renminbi) é, de forma muito simplificada, 1$ ≈ 6.5¥.
Muitos são os que esperam que a China, cujos indicadores económicos parecem não ter sido significativamente afectados pela crise financeira e económica que vem afectando o resto do mundo desde meados de 2008, assuma a salvação do capitalismo tal como o conhecemos. Derradeira e desesperada esperança dos demasiadamente conversadores, ou clarividência dos verdadeiros controladores do sistema, que venho intitulando neste espaço, como “mandantes”?
Jim Rogers, presidente da empresa de investimentos Rogers Holdings e Beeland Interests Inc, é um exemplo dos optimistas que prevêem que a China poderá vir a enfrentar algum declínio económico no curto prazo, mas que, tal como os americanos sempre fizeram com evidente êxito, irá superá-los no médio e longo prazos, não se deixando colapsar. Garry Shilling, presidente do A. Garry Shilling & Co., manifesta-se em sentido diverso: O modelo de crescimento “tipo-China” é insustentável; as excessivas dependências das exportações e do artificial controlo da moeda, não resistirão se, por exemplo, os consumidores norte-americanos se virem obrigados a poupanças forçadas (ver, mais adiante, como a China depende do consumo norte-americano).
Opiniões de analistas sobre o fenómeno chinês não faltam, e para os mais diversos gostos e clientelas. Olhemos por isso para os números mais recentes sobre a economia chinesa, tentando perceber o que eles parecem querer revelar. Todas as interpretações serão, naturalmente, subjectivas.
Comércio externo - exportações e importações
As exportações chinesas cresceram 17.9% em Junho, em relação a Maio de 2011, cifrando-se em 121.5 b$. No mesmo período as importações cresceram 19.3%, contra o crescimento de 28.4% em Maio. Mesmo assim, daqui resulta um acréscimo do excedente comercial esterno de 23.3 b$. Um valor que continua impressionante, quaisquer que sejam os filtros interpretativos que utilizemos.
Alguns analistas julgam ver no menor crescimento das importações um certo resfriamento da produção e/ou do consumo interno. Os dois domínios são especialmente sensíveis, dada a aposta continuada nas exportações concomitante com a nova aposta no consumo interno (ver “China forçada a dinamizar o consumo interno” e também ”O boom do consumo interno visto pelos estrangeiros). É, contudo, muito cedo para identificar tendências e antecipar implicações, mas o alerta já foi dado e a atenção vira-se agora para a confirmação ou não das previsões dos mais alarmistas.
De facto, se compararmos 2010 com 2008, verificamos que os valores decresceram (ver Economywatch de 12.Jul.2011:
Exportações (2008 / 2010): 1.429 / 1.194 t$ (- 16.5 %)
Importações (2008 / 2010): 1.131 / 0.922 t$ (-18.5 %)
Recorde-se que as relações comerciais da China são muito concentradas em poucos parceiros:
Exportações (%): USA 17.7, Hong-Kong 13.3, Japão 8.1, Coreia do Sul 5.2, Alemanha 4.1
Importações (%): Japão 13.3, Coreia do Sul 9.9, USA 7.2, Alemanha 4.9
Produto Interno Bruto (PIB)
Mesmo em plena crise económica mundial, o crescimento do PIB chinês em 2010 foi 10.5 %, para um total de 5,745.13 b$, prevendo-se para 2011 um crescimento de 11.8 %, alcançando 6,422.3 b$. Em 2015, o valor estimado para o PIB é 9,982.1 b$.
Em 2010, a população chinesa era 1.341 b. A previsão para 2015 é 1.375 b. Isto corresponde a um abrandamento notável no crescimento da população chinesa.
As preocupações das autoridades chinesas em relação à população não se confinam ao controlo do crescimento, que tem sido, como é público, alvo de particular atenção (ver artigo sobre Política de Filho Único). Como Wen Jiabao relembrou na Assembleia Nacional do Povo em Março passado, a qualidade de vida da população chinesa é uma prioridade do governo.
O desemprego verificado em 2010 foi 4.1 %, menos 4.65 % do que em 2009, prevendo-se que no período 2011 a 2015 se fixe em 4 %. Questão que parece controlada.
A inflação em 2010 foi 3.5 %. Uma enorme preocupação para o governo, pois correspondeu a um aumento de 428 % em relação a 2009. Apesar das medidas já tomadas, a inflação parece fora do controlo desejado (o Plano Quinquenal, aprovado em Março passado, impõe limitação a 4% para este ano, mas o valor verificado em Junho foi de 6.5 %). Novas medidas terão de ser tomadas, pois os planos já em curso (ver aqui e aqui também), parecem não estar a ser suficientes.
Endividamento dos governos locais
Oficialmente, e de acordo com os números revelados pelo National Audit Office ( ver FT de 08.Jul.2011), a dívida dos governos locais já ascende a 1.654 t$, dos quais 80%, embora por via indirecta, recai sobre os bancos centrais. Um valor muito elevado, mas nada comparado com a preocupante estimativa da agência de notação Moody’s que a coloca em 2.2 t$.
Perguntar-se-á como foi isto possível, conhecendo-se o controlo apertado, que foi imposto pelo governo aos bancos centrais, para este tipo de operações (ver aqui)? É que os operadores intermediários criaram muitas empresas que contraíram os empréstimos, cedendo-os depois aos governos regionais. A EIU de 21.Jun.2011, refere que, entre 2008 e 2010, o número destas empresas aumentou 25%, qualquer coisa como mais de 10,000 intermediários. A quase totalidade destas dívidas vencer-se-á em 2014-2015. Um horizonte próximo nada agradável, e que os investidores particularmente receiam.
A agência Fitch estima que, se 20% deste montante se vier a revelar incobrável, o que não será de todo irrealista, estaremos a falar de cerca de 450 b$. Ora, se o governo central vier a ser obrigado a cobrir esta lacuna, tal significará acrescentar cerca de 6 pontos percentuais aos oficiais 1.14% de incobráveis nacionais (números finais de 2010). A solidez do sistema será naturalmente afectada e a confiança no sistema perigosamente abalada.
Visto de outro ângulo, segundo os valores oficiais do Banco Popular da China, a dívida do governo central é de cerca de 20% do PIB. Um montante bastante saudável. Contudo, de acordo com os valores atrás referidos para a dívida dos governos locais, tal representará 35% do PIB. Alguns analistas calculam que, se o governo central for obrigado a incorporar todas as dívidas dos governos regionais e suas implicações no orçamento nacional, então será provável que os mais que aceitáveis rácios da divida pública chinesa actual – abaixo de 20% do PIB – se venham a transformar nuns preocupante 80%, a prazo relativamente curto. Que imagem degradada seria, assim, projectada para os mercados.
Que sinais se notam nas bolsas?
Na edição online do FT de 08.Jul.2011, relatava-se que a companhia de investimento de Singapura, Temasek, havia vendido 3.6 b$ de acções de dois bancos chineses, não especificando quais. Vários outros periódicos deram notícia de que o National Social Security Fund, que administra o plano de pensões chinês, havia cortado as suas posições accionistas nos bancos chineses.
Nestes meios, as coincidências não aparecem por acaso, nem as notícias são inocentes. Os investidores costumam estar atentos. Os anunciados 1.65 t$ de dívidas detectados a nível dos governos locais, não ajudavam a aliviar as preocupações. As dúvidas da Moody’s, atrás referidas (2.2 t$?), só carregam, e de que maneira, o cenário.
Entretanto em 2010, a valorização bolsista dos principais bancos chineses não foi poupada: em Shanghai, as acções do Industrial and Commercial Bank of China, perderam 19%, e em Hong-Kong 8%; também em Shanghai, e nos últimos 18 meses, as acções do Bank of China desvalorizaram 26%, e as do China Merchants Bank 23%. Os investidores não gostam nada destes indicadores. Laertas amarelos, no mínimo foram accionados.
Estará a China à beira de novo resgate?
Os mercados detestam resgates. Eles representam sempre perdas para os investidores.
Recorde-se que nos anos 1990s (como a memória nestes domínios se mostra tão volátil), a China recorreu a uma importante operação de salvamento do seu sistema bancário, vulgo reestruturação ou resgate de dívidas, enfrentando e recuperando o colossal endividamento que o ameaçava de colapso todo o sistema. Na época, as autoridades políticas injectaram centenas de biliões de dólares no mercado (ver aqui). A operação resultou, e os mercados pareceram ter querido esquecer o acontecimento.
Ora, alguns vêem nas actuais advertências do People Bank of China, um alerta para possível nova intervenção do governo, talvez já em Setembro próximo, assumindo a dívida de cerca de 2.2 t$ (números estimados pela Moody’s), ou parte dela, embora as autoridades chinesas se tenham apressado a negar essa eventualidade. É possível, porém, que algum compromisso venha a ocorrer envolvendo os bancos e o governo central, partilhando responsabilidades na solução desta questão, que não se pode arrastar como se de nada se tratasse. Uma alternativa poderá ser a emissão de obrigações pelas autoridades regionais, procurando melhorar a transparência das suas contas. Mas tal terá custos elevados a suportar.
Uma iniciativa deste tipo, dependendo da forma e extensão que vierem a ser decididas, poderá, contudo, como foi dito atrás, elevar relativamente os salutares níveis da dívida em relação ao PIB dos 20% actuais para preocupantes 80% futuros. Como estes novos valores poderão ocorrer ainda este ano, ou seja, numa altura em que o mundo ainda tenta superar dos efeitos da crise que se iniciou em 2008, estas previsões não agradam a ninguém.
Para melhor compreensão: Uma intervenção desta dimensão significa cerca de 8% do PIB chinês, superior portanto ao esforço de 5% do PIB dos USA que os americanos decidiram em 2008, com base no Programa de Alívio dos Activos Problemáticos (TARP). Sendo certo que a China dispõe de gigantescas reservas em divisas, não será de prever qualquer falência da banca causada por estas eventuais medidas, mas com certeza que surgirão problemas, ainda que pontuais, de liquidez nalgumas entidades.
Acresce que algumas fontes, o Standard Chartered Bank por exemplo, chama a atenção para que se não forem imediatamente levantadas barreiras ao processo de endividamento dos governos regionais, estes, só por força do investimento em habitações a preços regulados, poderão vir a atingir um acréscimo de 300 b$ apenas referentes a 2012.
Os desafios mais imediatos da China
Conforme ficou decidido na Assembleia Nacional do Povo de Março deste ano, continuam a ser enormes os desafios que se colocam à China moderna, em quase todos os domínios. Um dos mais importantes está em curso, e respeita à democratização do sistema económico, tradicionalmente fortemente centralizado.
Os transportes, as comunicações, e os recursos energéticos encontram-se entre as grandes prioridades. O governo, altamente competente sob o ponto de vista técnico, está ciente de que com infra-estruturas deficientes tudo fica mais difícil. A China procura afincadamente construir infra-estruturas de primeira classe mundial. Mas a sua extensão territorial requer investimentos gigantescos que têm de ser escalonados. Toda a liquidez será bem-vinda, ou, dito doutra forma, crises de liquidez não são de todo desejadas.
Outras questões importantes justificam atenção acrescida, como o presidente Hu Jintao, referiu na recente visita aos USA (ver detalhes do discurso aqui):
Nivelamento dos índices de desenvolvimento da população, nomeadamente na aproximação das capacidades económicas do interior rural ao urbanismo do litoral;
Combate sem tréguas à corrupção que ameaça o desenvolvimento saudável do tecido económico e as estruturas da administração;
Luta contra as ameaças à saúde, incluindo a taxa crescente da infecção por HIV;
Modernização do sistema político, adaptando-o às novas realidades nacionais e internacionais, que permita a convivência das escolhas políticas lideradas pelo PCC com o liberalismo crescente na economia;
Sustentabilidade ambiental compatível com o enorme desenvolvimento económico que o país tem conhecido nas últimas três décadas, e que se pretende continuar.
A China, já desde o ano passado a segunda potência económica mundial, ambiciona e poderá vir a superar os USA. Não será tarefa fácil, e por certo levará décadas a concretizar. Mas paciência, planeamento, e espírito de missão não constam das carências chinesas.
O domínio económico não é, contudo, indissociável do domínio político, o que segundo os padrões actuais implica poder militar (ver a propósito o que escrevi em Setembro de 2010 sobre a difícil relação da China com o Japão). A China procura fortalecer-se militarmente, mas está muito longe de poder ambicionar, a médio prazo, a constituir qualquer ameaça à descomunal capacidade militar dos USA, tanto a nível aéreo, naval, como espacial, se bem que disponha do exército terrestre com mais efectivos.
Coco Channel disse um dia que “uma mulher nunca é suficientemente rica nem suficientemente magra”. Nas relações internacionais poder-se-á dizer que “um país nunca dispõe de suficientes recursos, capacidades económicas, e poder político-militar”.
Parece ganhar novo fôlego o aparentemente extinto conceito de Coexistência Pacífica.
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
CHINA-USA: “O (Oceano Pacífico) que nos une”
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
14 Fevereiro de 2011
Agora, que pousou suficiente poeira sobre a visita de Hu Jintao aos USA, acho que chegou a altura de analisar o que foi dito, e o que tal poderá significar. Não quis fazê-lo em cima do acontecimento, mas agora já chega de reflexão e é hora de comentário.
Que mensagem transmitiu Hu Jintao aos americanos?
“Senhoras e senhores, há trinta e dois anos, Deng Xiaoping, o grande arquitecto da reforma e da abertura da China, fez uma visita histórica aos Estados Unidos. Aqui ele disse que o Oceano Pacífico deixou de ser um obstáculo que nos separa. Pelo contrário, é um vínculo que nos une. A história provou a justeza dessa afirmação”.
Foi assim, com todo este calor metafórico, que o presidente Hu Jintao se referiu às relações entre os dois gigantes da economia mundial, durante um almoço de cortesia oferecido por organizações americanas a 20 de Janeiro em Washington. O discurso total foi publicado pela agência Xinhua.
Após relembrar como os dois países partilham interesses estratégicos – destacando a questão nuclear coreana e o Afeganistão – o presidente chinês tratou de recordar aos seus ilustres anfitriões como os tem ajudado. Por certo que os USA não concordarão com a afirmação, mas Hu Jintao referiu que na última década a qualidade dos produtos chineses de baixo custo permitiu aos americanos pouparem cerca de 600 mil milhões de USD, e que 70% das empresas norte-americanas na China continuaram a ser rentáveis no difícil período de 2008-2009, isto sem esquecer que actualmente o fluxo turístico entre os dois países ultrapassa 3 milhões de viagens por ano.
Aproveitando os progressos já conseguidos, o presidente chinês lançou o que considera serem os cinco alicerces do crescimento conjunto (Hu Jintao afirmou mesmo que se estava a referir a cooperação estratégica e não um qualquer jogo de soma nula):
(1) Os dois lados devem ver e tratar as relações bilaterais sob perspectiva global;
(2) Tanto a China com os USA devem avançar na reestruturação económica, protecção do ambiente, energia e inovação tecnológica, saúde, educação e outros programas sociais, aviação e exploração espacial;
(3) Os nossos países devem melhorar a coordenação global, enfrentar as mudanças climáticas, promover a segurança energética e dos recursos, a qualidade alimentar e a saúde pública, mantendo diálogo e intercâmbio nas questões de segurança regional;
(4) Precisamos reforçar iniciativas que garantam que as gerações mais novas se empenhem em levar por diante a amizade China-USA;
(5) Devemos tratar-nos com mútuo respeito e em igualdade, endereçando de forma adequada as questões sensíveis.
Releve-se como o orador prepara o caminho para o ponto quinto. Os quatro pilares anteriores são tratados de forma suave, natural, em paz, em continuidade, e sem ameaças. Contudo, a surpresa estava reservada para o último ponto – o tratamento respeitoso e igualitário. Hu Jintao, foi claro – em relação ao Tibete e Taiwan, e a todas as questões de integridade nacional chinesa, ou os USA optam por respeitar a sensibilidade de 1,300 milhões de chineses, ou as nossas relações irão sofrer problemas constantes ou mesmo tensão.
Retomando o discurso amistoso e cooperativo, Hu regressou aos números, e aos argumentos que mais atraem este tipo de assistência. Em jeito de balanço da primeira do século XXI, o presidente chinês relembrou que a China:
- Cresceu à média anual de 11%;
- Importou 687 mil milhões de USD;
- Justificou a criação / manutenção de 14 milhões de empregos no estrangeiro;
- Desempenhou papel relevante na resolução de importantes crises internacionais, em particular na recuperação económica global e na reformulação do sistema financeiro internacional.
Após a aplicação da técnica da sanduíche, ou mais propriamente do hamburger já que estava em terras do Tio Sam, colocando a delicada questão da soberania nacional meio disfarçada no discurso que todos queriam ouvir, Hu Jintao terminou com uma vasta lista de promessas e directivas, que deve ter deixado os ilustres homens de negócios de “olhos em bico”.
Destaco:
- A China é o maior país em desenvolvimento;
- O desenvolvimento, em particular o científico, é a base para a resolução dos nossos problemas;
- Estamos decididos em colocar as pessoas em primeiro lugar, promovendo políticas holísticas de bem-estar, equidade e justiça social;
- Já definimos as linhas mestras para o desenvolvimento sustentável nos próximos cinco anos;
- Continuaremos a aprofundar a abertura ao exterior, as reformas, a reestruturação económica, política, cultural, e social;
- Vamos desenvolver a democracia socialista e construir um país socialista sob o primado da lei;
- Defendemos soluções pacíficas para os diferendos internacionais;
- Não nos envolveremos na corrida armamentista, nem seremos ameaça para nenhum país;
- A China nunca prosseguirá políticas expansionistas.
Quaisquer que sejam as suas opções ideológicas, o leitor poderá imaginar o impacte tremendo que tais afirmações produzem junto de magnates dos negócios. De facto, que poderiam eles esperar mais?
Mas, que consistência terá, afinal, este discurso?
Hu Jintao é um político arguto. Provou-o repetidas vezes ao longo do seu mandato. O que disse aos homens de negócios americanos não foi, de todo, surpresa, principalmente no que diz respeito aos grandes números que apresentou. Tais mensagens haviam sido publicadas no People’s Daily em 2009.
O mesmo se pode dizer das referências ideológicas e das linhas mestras da política chinesa. Recorde-se, por exemplo, que numa visita a Londres, também em 2009, o presidente Jintao não hesitou em citar Adam Smith e a sua Teoria dos Sentimentos Morais – “Se os frutos do desenvolvimento não forem compartilhados por todos, então o desenvolvimento será moralmente condenável e tornar-se-á numa ameaça à instabilidade”, como relata The Economist de 19 de Março de 2009. Sempre oportuno, Hu Jintao.
Mas, vejamos por partes se os números apresentados não são mera argumentação política.
1. Sobre a alegada poupança de 600 mil milhões de USD de que os norte-americanos terão beneficiado graças aos produtos de baixo custo importados da China
No artigo “The Effect of Trade with Low-Income Countries on U.S. Industry”, publicado em Junho de 2008, Raphael Auer do Swiss National Bank e Andreas M. Fischer do Swiss National Bank e CEPR, explicam porque consideram que os valores em causa não estão longe da realidade. Resumidamente, o artigo diz o seguinte:
- O estudo incidiu em 325 empresas transformadoras norte-americanas de comida para animais domésticos;
- Os autores estimam que, sempre que as importações chinesas aumentarem a sua quota de mercado em 1 ponto percentual, os preços ao produtor americano quebrarão cerca de 2,5%;
- De 2001 a 2006, a China alegou ter passado duma quota de mercado de 3.7% para 8.6%. Nesse período as importações norte-americanas provenientes da China cresceram cerca de 28%, enquanto as importações totais dos USA subiram apenas 4%. Face a estes dados, os autores, concluem que a China terá ampliado a sua quota de mercado de fabricação para 10.6%;
- Tal significaria que a penetração da China nos mercados norte-americanos teria aumentado 6.9 pontos percentuais entre 2001 e 2010, ou seja, 0.69 pontos anuais.
- Se cada ponto a mais tivesse reduzido os preços em 2.5%, a expansão chinesa teria sido responsável pelo corte de 1.7% ao ano;
- Ora, como as vendas totais de produtos manufacturados atingiu 4,512 mil milhões de USD por ano na última década, os cálculos anteriores sugerem que essas transferências poderiam ter custado 4,590 mil milhões, se a China não tivesse interferido;
- Donde se pode extrair a implicação de 78 mil milhões por ano, ou seja, 780 mil milhões de USD ao longo da década.
Cálculos complicados que o público não fará, por certo, mas que não estão muito distantes da análise global feita por Hu Jintao.
2. A China, desde a adesão à OMC, terá sido responsável pela criação de mais de 14 milhões de empregos em todo o mundo
Provavelmente, a assistência terá reagido com misto de incapacidade de verificação e sentimento de propaganda. No entanto, os números coligidos por fontes como o FMI (Fundo Monetário Internacional) ou o CEIC (Centro de Estudos e Investigação Científica) variam, conforme os anos, entre 14 e 17 milhões. Alguns até poderiam ter presente os relatórios do FMI que estimam que o comércio USA-China terá criado 600 mil postos de trabalho nos USA.
Contudo, é bem provável que sigam mais atentamente os artigos de Paul Krugman do que os relatórios do FMI.
E qual é a opinião de Krugman sobre o tema? Arrasadora! O prémio Nobel economista, que se define no seu blog – “The Conscience of a Liberal” – no New York Times, afirmou em 31 de Dezembro de 2009, que um dos efeitos do mercantilismo chinês foi a destruição de 1.4 milhões de postos de trabalho nos USA.
Posições completamente divergentes, como se constata.
No entanto, nalguns países asiáticos observou-se realmente um acréscimo de postos de trabalho ao mesmo tempo que se verificava aumento de exportações para a China. Coincidência? Correlação? Pode argumentar-se que é bem provável que tal se tenha ficado a dever ao aumento de outsourcing chinês em busca de mão-de-obra cada vez mais barata. Especulações que só o tempo permitirá, ou não, confirmar.
Uma dúvida parece estar a emergir
Uma mensagem / proposta parece evidente: A China prepara-se para partilhar a recuperação mundial e a divisão de mercados com o seu rival mais directo.
Se com a ex-URSS os USA mantiveram uma longa Guerra Fria, será que tudo se conjuga para manterem agora uma Paz Quente com a China?
vitor.trigo@gmail.com
14 Fevereiro de 2011
Agora, que pousou suficiente poeira sobre a visita de Hu Jintao aos USA, acho que chegou a altura de analisar o que foi dito, e o que tal poderá significar. Não quis fazê-lo em cima do acontecimento, mas agora já chega de reflexão e é hora de comentário.
Que mensagem transmitiu Hu Jintao aos americanos?
“Senhoras e senhores, há trinta e dois anos, Deng Xiaoping, o grande arquitecto da reforma e da abertura da China, fez uma visita histórica aos Estados Unidos. Aqui ele disse que o Oceano Pacífico deixou de ser um obstáculo que nos separa. Pelo contrário, é um vínculo que nos une. A história provou a justeza dessa afirmação”.
Foi assim, com todo este calor metafórico, que o presidente Hu Jintao se referiu às relações entre os dois gigantes da economia mundial, durante um almoço de cortesia oferecido por organizações americanas a 20 de Janeiro em Washington. O discurso total foi publicado pela agência Xinhua.
Após relembrar como os dois países partilham interesses estratégicos – destacando a questão nuclear coreana e o Afeganistão – o presidente chinês tratou de recordar aos seus ilustres anfitriões como os tem ajudado. Por certo que os USA não concordarão com a afirmação, mas Hu Jintao referiu que na última década a qualidade dos produtos chineses de baixo custo permitiu aos americanos pouparem cerca de 600 mil milhões de USD, e que 70% das empresas norte-americanas na China continuaram a ser rentáveis no difícil período de 2008-2009, isto sem esquecer que actualmente o fluxo turístico entre os dois países ultrapassa 3 milhões de viagens por ano.
Aproveitando os progressos já conseguidos, o presidente chinês lançou o que considera serem os cinco alicerces do crescimento conjunto (Hu Jintao afirmou mesmo que se estava a referir a cooperação estratégica e não um qualquer jogo de soma nula):
(1) Os dois lados devem ver e tratar as relações bilaterais sob perspectiva global;
(2) Tanto a China com os USA devem avançar na reestruturação económica, protecção do ambiente, energia e inovação tecnológica, saúde, educação e outros programas sociais, aviação e exploração espacial;
(3) Os nossos países devem melhorar a coordenação global, enfrentar as mudanças climáticas, promover a segurança energética e dos recursos, a qualidade alimentar e a saúde pública, mantendo diálogo e intercâmbio nas questões de segurança regional;
(4) Precisamos reforçar iniciativas que garantam que as gerações mais novas se empenhem em levar por diante a amizade China-USA;
(5) Devemos tratar-nos com mútuo respeito e em igualdade, endereçando de forma adequada as questões sensíveis.
Releve-se como o orador prepara o caminho para o ponto quinto. Os quatro pilares anteriores são tratados de forma suave, natural, em paz, em continuidade, e sem ameaças. Contudo, a surpresa estava reservada para o último ponto – o tratamento respeitoso e igualitário. Hu Jintao, foi claro – em relação ao Tibete e Taiwan, e a todas as questões de integridade nacional chinesa, ou os USA optam por respeitar a sensibilidade de 1,300 milhões de chineses, ou as nossas relações irão sofrer problemas constantes ou mesmo tensão.
Retomando o discurso amistoso e cooperativo, Hu regressou aos números, e aos argumentos que mais atraem este tipo de assistência. Em jeito de balanço da primeira do século XXI, o presidente chinês relembrou que a China:
- Cresceu à média anual de 11%;
- Importou 687 mil milhões de USD;
- Justificou a criação / manutenção de 14 milhões de empregos no estrangeiro;
- Desempenhou papel relevante na resolução de importantes crises internacionais, em particular na recuperação económica global e na reformulação do sistema financeiro internacional.
Após a aplicação da técnica da sanduíche, ou mais propriamente do hamburger já que estava em terras do Tio Sam, colocando a delicada questão da soberania nacional meio disfarçada no discurso que todos queriam ouvir, Hu Jintao terminou com uma vasta lista de promessas e directivas, que deve ter deixado os ilustres homens de negócios de “olhos em bico”.
Destaco:
- A China é o maior país em desenvolvimento;
- O desenvolvimento, em particular o científico, é a base para a resolução dos nossos problemas;
- Estamos decididos em colocar as pessoas em primeiro lugar, promovendo políticas holísticas de bem-estar, equidade e justiça social;
- Já definimos as linhas mestras para o desenvolvimento sustentável nos próximos cinco anos;
- Continuaremos a aprofundar a abertura ao exterior, as reformas, a reestruturação económica, política, cultural, e social;
- Vamos desenvolver a democracia socialista e construir um país socialista sob o primado da lei;
- Defendemos soluções pacíficas para os diferendos internacionais;
- Não nos envolveremos na corrida armamentista, nem seremos ameaça para nenhum país;
- A China nunca prosseguirá políticas expansionistas.
Quaisquer que sejam as suas opções ideológicas, o leitor poderá imaginar o impacte tremendo que tais afirmações produzem junto de magnates dos negócios. De facto, que poderiam eles esperar mais?
Mas, que consistência terá, afinal, este discurso?
Hu Jintao é um político arguto. Provou-o repetidas vezes ao longo do seu mandato. O que disse aos homens de negócios americanos não foi, de todo, surpresa, principalmente no que diz respeito aos grandes números que apresentou. Tais mensagens haviam sido publicadas no People’s Daily em 2009.
O mesmo se pode dizer das referências ideológicas e das linhas mestras da política chinesa. Recorde-se, por exemplo, que numa visita a Londres, também em 2009, o presidente Jintao não hesitou em citar Adam Smith e a sua Teoria dos Sentimentos Morais – “Se os frutos do desenvolvimento não forem compartilhados por todos, então o desenvolvimento será moralmente condenável e tornar-se-á numa ameaça à instabilidade”, como relata The Economist de 19 de Março de 2009. Sempre oportuno, Hu Jintao.
Mas, vejamos por partes se os números apresentados não são mera argumentação política.
1. Sobre a alegada poupança de 600 mil milhões de USD de que os norte-americanos terão beneficiado graças aos produtos de baixo custo importados da China
No artigo “The Effect of Trade with Low-Income Countries on U.S. Industry”, publicado em Junho de 2008, Raphael Auer do Swiss National Bank e Andreas M. Fischer do Swiss National Bank e CEPR, explicam porque consideram que os valores em causa não estão longe da realidade. Resumidamente, o artigo diz o seguinte:
- O estudo incidiu em 325 empresas transformadoras norte-americanas de comida para animais domésticos;
- Os autores estimam que, sempre que as importações chinesas aumentarem a sua quota de mercado em 1 ponto percentual, os preços ao produtor americano quebrarão cerca de 2,5%;
- De 2001 a 2006, a China alegou ter passado duma quota de mercado de 3.7% para 8.6%. Nesse período as importações norte-americanas provenientes da China cresceram cerca de 28%, enquanto as importações totais dos USA subiram apenas 4%. Face a estes dados, os autores, concluem que a China terá ampliado a sua quota de mercado de fabricação para 10.6%;
- Tal significaria que a penetração da China nos mercados norte-americanos teria aumentado 6.9 pontos percentuais entre 2001 e 2010, ou seja, 0.69 pontos anuais.
- Se cada ponto a mais tivesse reduzido os preços em 2.5%, a expansão chinesa teria sido responsável pelo corte de 1.7% ao ano;
- Ora, como as vendas totais de produtos manufacturados atingiu 4,512 mil milhões de USD por ano na última década, os cálculos anteriores sugerem que essas transferências poderiam ter custado 4,590 mil milhões, se a China não tivesse interferido;
- Donde se pode extrair a implicação de 78 mil milhões por ano, ou seja, 780 mil milhões de USD ao longo da década.
Cálculos complicados que o público não fará, por certo, mas que não estão muito distantes da análise global feita por Hu Jintao.
2. A China, desde a adesão à OMC, terá sido responsável pela criação de mais de 14 milhões de empregos em todo o mundo
Provavelmente, a assistência terá reagido com misto de incapacidade de verificação e sentimento de propaganda. No entanto, os números coligidos por fontes como o FMI (Fundo Monetário Internacional) ou o CEIC (Centro de Estudos e Investigação Científica) variam, conforme os anos, entre 14 e 17 milhões. Alguns até poderiam ter presente os relatórios do FMI que estimam que o comércio USA-China terá criado 600 mil postos de trabalho nos USA.
Contudo, é bem provável que sigam mais atentamente os artigos de Paul Krugman do que os relatórios do FMI.
E qual é a opinião de Krugman sobre o tema? Arrasadora! O prémio Nobel economista, que se define no seu blog – “The Conscience of a Liberal” – no New York Times, afirmou em 31 de Dezembro de 2009, que um dos efeitos do mercantilismo chinês foi a destruição de 1.4 milhões de postos de trabalho nos USA.
Posições completamente divergentes, como se constata.
No entanto, nalguns países asiáticos observou-se realmente um acréscimo de postos de trabalho ao mesmo tempo que se verificava aumento de exportações para a China. Coincidência? Correlação? Pode argumentar-se que é bem provável que tal se tenha ficado a dever ao aumento de outsourcing chinês em busca de mão-de-obra cada vez mais barata. Especulações que só o tempo permitirá, ou não, confirmar.
Uma dúvida parece estar a emergir
Uma mensagem / proposta parece evidente: A China prepara-se para partilhar a recuperação mundial e a divisão de mercados com o seu rival mais directo.
Se com a ex-URSS os USA mantiveram uma longa Guerra Fria, será que tudo se conjuga para manterem agora uma Paz Quente com a China?
sábado, 29 de janeiro de 2011
CHINA – De Deng Xiaoping a Hu Jintao, O "Grande Salto"
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
29 Janeiro de 2011
A China do “Grande Salto” começou em 1978
Pequim, 13 de Dezembro de 1978, reunião do plenário eleito no XI Congresso do Partido Comunista Chinês de 1977. Eram 169 dirigentes efectivos e 112 suplentes do PCC, todos formados segundo os ensinamentos do fundador da Nova China, emancipada após a vitória de Mao Zedong, e das históricas palavras que proferiu na praça Tiananmen no dia 01 de Outubro de 1949: “O povo chinês levantou a cabeça”.
De 1949 a 1977, a China conheceu profundas movimentações políticas e económicas, de que se destacam o falhado plano de 1959 visando a industrialização do país, as obscuras e sangrentas iniciativas dos Guardas Vermelhos e “sua” Revolução Cultural, terminando no que ficou conhecido como a tentativa de golpe de estado do “Bando dos Quatro”, em que pontificava a viúva do Grande Timoneiro Mao, que havia falecido a 09 de Setembro de 1976, quando já se encontrava muito debilitado mas, apesar disso, com as rédeas do poder nas mãos.
Naquele dia de Dezembro de 1978, a tensão era grande – tratava-se de decidir entre o projecto de continuidade de Hua Guofeng e a mudança proposta por Deng Xiaoping, apontado pelos conservadores como “o homem que iria destruir o socialismo”. Quando Deng falou aos congressistas em “libertar a mente, pôr o cérebro a funcionar, procurar a verdade, e reforçar a solidariedade”, todos perceberam que a China se iria libertar do atavismo imposto pelo “Bando dos Quatro” liderado por Lin Biao, que a meritocracia venceria a burocracia, que a descentralização iria começar, ainda que muito controlada pelo poder, e que a abertura ao progresso e ao desenvolvimento iriam ser primordiais, mesmo percebendo que alguns dogmas sagrados teriam de ser questionados e ultrapassados.
Uma nova China acabara de despontar. Fortemente nacionalista, é certo, ainda hoje o é, mas finalmente aberta ao exterior. É atribuída a Deng Xiaoping esta elucidativa frase: “Quando se abrem as janelas no Verão, juntamente como ar fresco entra sempre alguma mosca”. Desta forma simples, Deng preparava o seu povo para os percalços que iriam inevitavelmente surgir.
E que gigantesco foi o “Grande Salto”
Este artigo não visa descrever o circuito político percorrido pela China desde 1978, mas antes relevar algumas das mais significativas mudanças que o país China conheceu nos últimos trinta anos.
- Em 1978, a China era uma economia completamente fechada. Em 2010, tornou-se na segunda economia mundial, à frente da ex-super-potência regional Japão, como aqui referi;
- Em 1978, toda a produção industrial chinesa era estatal. Em 2010, cerca de metade é privada, em parte assegurada por empresas estrangeiras ou capitais estrangeiros;
- Em 1978, o sistema bancário era fechado e obsoleto. Em 2010, é moderno, adaptado às necessidades de investimento, e ao controlo inflacionário que o enorme desenvolvimento poderia provocar. O volume de depósitos de que dispõe é hoje cerca de 900 vezes o que era há trinta anos;
- Em 1978, o PIB per capita era 40 vezes inferior ao actual nas zonas urbanas e 30 vezes nas rurais. Veja aqui como a China está a descolar dos níveis de pobreza de outras zonas do globo. Para melhor referência, neste artigo encontrará os PIB e PIB per capita em diversos países;
- Em 1978, perto de 80% da população chinesa vivia no campo. Em 2010, a China tem 117 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, sendo que em 13 delas habitam mais de 4 milhões;
- Em 1978 não existiam centrais nucleares. Em 2010 há 11 e outras tantas estão em construção. Para além disso, a China já ocupa lugar de relevo nas áreas de novas tecnologias e energias limpas;
- Em 1978, existiam menos de 1.5 milhões de veículos em circulação (excluindo motociclos). Hoje, esse número excede 40 milhões;
- Em 1978, a China dispunha de pouco mais de 160 mil licenciados. Actualmente licenciam-se mais de 4 milhões por ano.
Capitalismo ou Socialismo? Esta não é a questão
Os números são, de facto, impressionantes. Para aquém e para além deles, muito fervilha neste imenso país que parece devotado ao crescimento imparável.
Deng Xiaoping, que irá ficar para a história como o pai da mudança e o arquitecto do desenvolvimento, disse um dia que a diferença entre capitalismo e socialismo não se resumia a contrapor a economia de mercado à economia planificada, mas antes na exploração do homem pelo homem (a tradicional bandeira marxista) contra a libertação do homem. Poderia assim dizer-se que se o capitalismo é opressão por excelência, a China iria promover a emancipação do homem na base dos seus direitos naturais. Grande evolução se verificou na China desde 1978, sem dúvida. Mas o leitor ajuizará sobre o que ainda hoje são os direitos humanos neste país.
Actualmente poucos duvidam que a China é um país capitalista sob regime comunista. Alguns ousarão mesmo dizer que aqui se encontra um novo estádio do capitalismo, a salvação do capitalismo, e outras figuras retóricas. Pessoalmente, prefiro classificar o que se está a construir na China como super-capitalismo. Dito doutra forma, se o capitalismo é opressor, o que aqui se está a testar é uma fase superior de opressão. Porquê? Porque aqui a autoridade não se preocupa em mostrar as flexibilidades, mesmo que não reais e genuínas, que os países ocidentais não dispensam para sua promoção.
As cinco gerações de políticos chineses
Desde 1978, exerceram o poder três gerações de políticos –
Deng Xiaoping, que ousou definir o “Grande Salto em Frente” teorizado pelo VIII Congresso do PCC, e que rompeu definitivamente com o culto da personalidade de Mao Zedong “O Grande Timoneiro”, grande responsável pelo isolamento do ap´si ao mundo;
Jian Zemin, de certa forma um outsider, por não ter sido preparado pelo núcleo central do PCC, que foi capaz de conter a espiral inflacionista que a deriva capitalista iniciada com Deng estava a gerar, e que introduziu a Teoria das Três Representações - O Partido é a Vanguarda Cultural, detém os Interesses Fundamentais do povo, e corporiza as Forças Produtivas mais Avançadas;
Hu Jintao, um ex-dirigente da Escola Central do Partido, não deixou cair a Teoria das Três Representações. É um tecnocrata, um diplomata, um moderado. Não hesitou em citar Adam Smith, praticar jogging, jogar bridge, misturando prazer com instrumentalismo. Corre mundo, e leva os interesses comerciais chineses a toda a parte – é o paradigma do dirigente da globalização, um actor global. Mostra a China como um país respeitador dos interesses dos países parceiros, evidenciando a distinção para a tradicional ingerência característica dos países ex-colonialistas. Internamente, introduziu dois novos conceitos – a “Visão Científica do Desenvolvimento”, onde pontificam a sustentabilidade, o equilíbrio social, e a compatibilidade entre ambiente e bem-estar económico; e a “Construção da Sociedade Socialista Harmoniosa”, em que compatibiliza as teses marxistas com as teorias confucianas.
Os anos de 2012, eleição do novo Secretário-Geral do PCC, e de 2013, eleição do novo Presidente da RPC, conduzirão ao poder a Quinta Geração de dirigentes pós-revolução. Os seus nomes são conhecidos Xi Jinping, douturado em ciências sociais, e Li Keqiang, licenciado em direito. Deles se espera muita coisa, a começar pela substituição duma gestão tecnocrata (Hu Jintao e Wen Jiabao) pelo primado das leis. Hu Jintao passar-lhes-á intacto, e reforçado pelo XVII Congresso do PCC, um importante legado teórico, vínculo contínuo do PCC, conhecido por “Quatro Princípios Cardinais” – (1) O Marxismo-Leninismo; (2) A Ditadura do Proletariado; (3) Os Pensamentos de Mao Zedong; (4) A Liderança do Partido Comunista. Que irão fazer com eles, Xi e Li?
Até às eleições, é preciso atravessar 2011
Este mês, o director do escritório da McKinsey em Xangai, publicou na sua habitual coluna o que considera serem as seis principais notícias com que a China iria surpreender o mundo (a expressão surpreender é dele). O prestígio da organização que serve e a sua própria experiência pessoal mereceram-me a seguinte reflexão:
1. Aumento dos preços dos produtos alimentares
A questão não é nova. Já começou a impactar a inflação e a merecer a atenção das autoridades, tendo sido já alvo de tratamento neste blog, por diversas vezes. A novidade poderá residir no efeito das medidas tomadas, que poderão não ter sido suficientes. Esperam-se medidas mais estruturantes, ao longo de toda a cadeia de produção e distribuição, o que poderá vir a provocar alguma contestação social, algo não desejável em vésperas de mudança de dirigentes políticos. Se vierem a ocorrer manifestações populares, especula-se sobre o tipo de intervenção que as autoridades poderão adoptar (ver aqui como alguns teorizam em redor duma possível greve geral na China).
2. Falência dos apostadores em especulação imobiliária
Em Dezembro, quando abordei a evolução dos preços das habitações, referi o facto dos aumentos verificados estarem a caminho do insustentável. Embora o governo tenha tomado medidas junto da banca, pode existir já uma perigosa bolha imobiliária, cuja gestão tem de ser cuidadosamente acautelada. A ocorrência de falências dos investidores nesta área pode tornar-se inevitável, e não consta que as autoridades estarão dispostas a apoiá-los.
3. Reivindicações salariais
Em 2010 ocorreram aumentos salariais generalizados nas zonas urbanas. Também os salários mínimos foram actualizados (note-se que na China o salário mínimo é estabelecido por regiões). No mesmo período também se verificaram incrementos significativos na produtividade das empresas. Contudo, o custo de vida continua a aumentar. Este cenário, conjugado com a absoluta necessidade de aumentar a consumo interno, a fim de diminuir a dependência das exportações, irá penalizar o custo de vida, e, possivelmente justificando reivindicações salariais, ou seja, novo foco de turbulência social, que será, por certo, contido. Como?
4. Diminuição do crescimento económico
Em 2011 o PIB chinês continuará a crescer, mas menos do que nos anos anteriores, e provavelmente menos do que as previsões oficiais. A lenta recuperação mundial e a diminuição dos incentivos ao consumo de importantes mercados, como o uso de energias tradicionais e a aquisição de meios de transporte individuais, assim o fazem prever.
5. Intensificação da guerra das moedas
O yuan, na opinião dos governos estrangeiros, continua artificialmente desvalorizado em relação a outras moedas. Mas, este é um dos pilares da globalização chinesa – facilitar as exportações, limitar apoios às importações. A China continua a recusar corrigir a fundo esta relação. Fá-lo pontualmente e só quando isso lhe é indispensável. Actualmente, com as gigantescas divisas de que dispõe, e face à crise internacional designada com de “dívidas soberanas”, a China encontra-se em posição negocial de crescente força. Podem mesmo vir a verificar-se acrescidas exigências ao investimento estrangeiro no país, como sejam a imposição de parcerias e partilha de know-how.
6. Nova onda de privatizações
O caminho traçado está definido – o estado deverá diminuir a sua participação nas empresas. Sem hesitações, mas com segurança como preconizava Deng Xiaoping. O capitalismo chinês ganha terreno.
Good Bye Mr. Hu.
Welcome Mr. Li
A lista de previsões do senhor Gordon Orr não me pareceu especialmente interessante, apesar da sua reconhecida competência. Francamente, esperava mais. Mesmo assim, aproveitei-a para alguns comentários e uma certa ordenação de ideias, visto que a sua revista é lida por tantas pessoas.
Pessoalmente, penso que 2011 irá ser um ano de contenção em termos de grandes mudanças. Hu Jintao está em fim de mandato, e a sua preocupação parece ser a passagem de testemunho em boas condições. Aliás na linha da famosa resposta que deu, em 2006, ao jornalista que na Casa Branca lhe perguntou: “Presidente, quando é que a China se tornará numa democracia com eleições livres?”
O sagaz e diplomata presidente Hu, respondeu assim, segundo The Swamp: “Não sei o que o senhor entende por democracia. Posso dizer-lhe que nós, na China, sempre acreditámos que sem democracia não há modernização. Desde os anos setenta, quando arrancámos com a abertura ao exterior, lançámos as reformas económicas e, de forma adequada, a reestruturação política. No futuro, atentos às condições nacionais e à vontade do povo, prosseguiremos com a reestruturação política, alargaremos a participação dos cidadãos, ou seja, os indivíduos encontrar-se-ão em posição de exercerem melhor os seus direitos democráticos”.
Assim pensa e fala o líder da Quarta Geração chinesa da pós-revolução.
Esperemos para ver como pensa, fala, e age o líder da Quinta Geração.
vitor.trigo@gmail.com
29 Janeiro de 2011
A China do “Grande Salto” começou em 1978
Pequim, 13 de Dezembro de 1978, reunião do plenário eleito no XI Congresso do Partido Comunista Chinês de 1977. Eram 169 dirigentes efectivos e 112 suplentes do PCC, todos formados segundo os ensinamentos do fundador da Nova China, emancipada após a vitória de Mao Zedong, e das históricas palavras que proferiu na praça Tiananmen no dia 01 de Outubro de 1949: “O povo chinês levantou a cabeça”.
De 1949 a 1977, a China conheceu profundas movimentações políticas e económicas, de que se destacam o falhado plano de 1959 visando a industrialização do país, as obscuras e sangrentas iniciativas dos Guardas Vermelhos e “sua” Revolução Cultural, terminando no que ficou conhecido como a tentativa de golpe de estado do “Bando dos Quatro”, em que pontificava a viúva do Grande Timoneiro Mao, que havia falecido a 09 de Setembro de 1976, quando já se encontrava muito debilitado mas, apesar disso, com as rédeas do poder nas mãos.
Naquele dia de Dezembro de 1978, a tensão era grande – tratava-se de decidir entre o projecto de continuidade de Hua Guofeng e a mudança proposta por Deng Xiaoping, apontado pelos conservadores como “o homem que iria destruir o socialismo”. Quando Deng falou aos congressistas em “libertar a mente, pôr o cérebro a funcionar, procurar a verdade, e reforçar a solidariedade”, todos perceberam que a China se iria libertar do atavismo imposto pelo “Bando dos Quatro” liderado por Lin Biao, que a meritocracia venceria a burocracia, que a descentralização iria começar, ainda que muito controlada pelo poder, e que a abertura ao progresso e ao desenvolvimento iriam ser primordiais, mesmo percebendo que alguns dogmas sagrados teriam de ser questionados e ultrapassados.
Uma nova China acabara de despontar. Fortemente nacionalista, é certo, ainda hoje o é, mas finalmente aberta ao exterior. É atribuída a Deng Xiaoping esta elucidativa frase: “Quando se abrem as janelas no Verão, juntamente como ar fresco entra sempre alguma mosca”. Desta forma simples, Deng preparava o seu povo para os percalços que iriam inevitavelmente surgir.
E que gigantesco foi o “Grande Salto”
Este artigo não visa descrever o circuito político percorrido pela China desde 1978, mas antes relevar algumas das mais significativas mudanças que o país China conheceu nos últimos trinta anos.
- Em 1978, a China era uma economia completamente fechada. Em 2010, tornou-se na segunda economia mundial, à frente da ex-super-potência regional Japão, como aqui referi;
- Em 1978, toda a produção industrial chinesa era estatal. Em 2010, cerca de metade é privada, em parte assegurada por empresas estrangeiras ou capitais estrangeiros;
- Em 1978, o sistema bancário era fechado e obsoleto. Em 2010, é moderno, adaptado às necessidades de investimento, e ao controlo inflacionário que o enorme desenvolvimento poderia provocar. O volume de depósitos de que dispõe é hoje cerca de 900 vezes o que era há trinta anos;
- Em 1978, o PIB per capita era 40 vezes inferior ao actual nas zonas urbanas e 30 vezes nas rurais. Veja aqui como a China está a descolar dos níveis de pobreza de outras zonas do globo. Para melhor referência, neste artigo encontrará os PIB e PIB per capita em diversos países;
- Em 1978, perto de 80% da população chinesa vivia no campo. Em 2010, a China tem 117 cidades com mais de 1 milhão de habitantes, sendo que em 13 delas habitam mais de 4 milhões;
- Em 1978 não existiam centrais nucleares. Em 2010 há 11 e outras tantas estão em construção. Para além disso, a China já ocupa lugar de relevo nas áreas de novas tecnologias e energias limpas;
- Em 1978, existiam menos de 1.5 milhões de veículos em circulação (excluindo motociclos). Hoje, esse número excede 40 milhões;
- Em 1978, a China dispunha de pouco mais de 160 mil licenciados. Actualmente licenciam-se mais de 4 milhões por ano.
Capitalismo ou Socialismo? Esta não é a questão
Os números são, de facto, impressionantes. Para aquém e para além deles, muito fervilha neste imenso país que parece devotado ao crescimento imparável.
Deng Xiaoping, que irá ficar para a história como o pai da mudança e o arquitecto do desenvolvimento, disse um dia que a diferença entre capitalismo e socialismo não se resumia a contrapor a economia de mercado à economia planificada, mas antes na exploração do homem pelo homem (a tradicional bandeira marxista) contra a libertação do homem. Poderia assim dizer-se que se o capitalismo é opressão por excelência, a China iria promover a emancipação do homem na base dos seus direitos naturais. Grande evolução se verificou na China desde 1978, sem dúvida. Mas o leitor ajuizará sobre o que ainda hoje são os direitos humanos neste país.
Actualmente poucos duvidam que a China é um país capitalista sob regime comunista. Alguns ousarão mesmo dizer que aqui se encontra um novo estádio do capitalismo, a salvação do capitalismo, e outras figuras retóricas. Pessoalmente, prefiro classificar o que se está a construir na China como super-capitalismo. Dito doutra forma, se o capitalismo é opressor, o que aqui se está a testar é uma fase superior de opressão. Porquê? Porque aqui a autoridade não se preocupa em mostrar as flexibilidades, mesmo que não reais e genuínas, que os países ocidentais não dispensam para sua promoção.
As cinco gerações de políticos chineses
Desde 1978, exerceram o poder três gerações de políticos –
Deng Xiaoping, que ousou definir o “Grande Salto em Frente” teorizado pelo VIII Congresso do PCC, e que rompeu definitivamente com o culto da personalidade de Mao Zedong “O Grande Timoneiro”, grande responsável pelo isolamento do ap´si ao mundo;
Jian Zemin, de certa forma um outsider, por não ter sido preparado pelo núcleo central do PCC, que foi capaz de conter a espiral inflacionista que a deriva capitalista iniciada com Deng estava a gerar, e que introduziu a Teoria das Três Representações - O Partido é a Vanguarda Cultural, detém os Interesses Fundamentais do povo, e corporiza as Forças Produtivas mais Avançadas;
Hu Jintao, um ex-dirigente da Escola Central do Partido, não deixou cair a Teoria das Três Representações. É um tecnocrata, um diplomata, um moderado. Não hesitou em citar Adam Smith, praticar jogging, jogar bridge, misturando prazer com instrumentalismo. Corre mundo, e leva os interesses comerciais chineses a toda a parte – é o paradigma do dirigente da globalização, um actor global. Mostra a China como um país respeitador dos interesses dos países parceiros, evidenciando a distinção para a tradicional ingerência característica dos países ex-colonialistas. Internamente, introduziu dois novos conceitos – a “Visão Científica do Desenvolvimento”, onde pontificam a sustentabilidade, o equilíbrio social, e a compatibilidade entre ambiente e bem-estar económico; e a “Construção da Sociedade Socialista Harmoniosa”, em que compatibiliza as teses marxistas com as teorias confucianas.
Os anos de 2012, eleição do novo Secretário-Geral do PCC, e de 2013, eleição do novo Presidente da RPC, conduzirão ao poder a Quinta Geração de dirigentes pós-revolução. Os seus nomes são conhecidos Xi Jinping, douturado em ciências sociais, e Li Keqiang, licenciado em direito. Deles se espera muita coisa, a começar pela substituição duma gestão tecnocrata (Hu Jintao e Wen Jiabao) pelo primado das leis. Hu Jintao passar-lhes-á intacto, e reforçado pelo XVII Congresso do PCC, um importante legado teórico, vínculo contínuo do PCC, conhecido por “Quatro Princípios Cardinais” – (1) O Marxismo-Leninismo; (2) A Ditadura do Proletariado; (3) Os Pensamentos de Mao Zedong; (4) A Liderança do Partido Comunista. Que irão fazer com eles, Xi e Li?
Até às eleições, é preciso atravessar 2011
Este mês, o director do escritório da McKinsey em Xangai, publicou na sua habitual coluna o que considera serem as seis principais notícias com que a China iria surpreender o mundo (a expressão surpreender é dele). O prestígio da organização que serve e a sua própria experiência pessoal mereceram-me a seguinte reflexão:
1. Aumento dos preços dos produtos alimentares
A questão não é nova. Já começou a impactar a inflação e a merecer a atenção das autoridades, tendo sido já alvo de tratamento neste blog, por diversas vezes. A novidade poderá residir no efeito das medidas tomadas, que poderão não ter sido suficientes. Esperam-se medidas mais estruturantes, ao longo de toda a cadeia de produção e distribuição, o que poderá vir a provocar alguma contestação social, algo não desejável em vésperas de mudança de dirigentes políticos. Se vierem a ocorrer manifestações populares, especula-se sobre o tipo de intervenção que as autoridades poderão adoptar (ver aqui como alguns teorizam em redor duma possível greve geral na China).
2. Falência dos apostadores em especulação imobiliária
Em Dezembro, quando abordei a evolução dos preços das habitações, referi o facto dos aumentos verificados estarem a caminho do insustentável. Embora o governo tenha tomado medidas junto da banca, pode existir já uma perigosa bolha imobiliária, cuja gestão tem de ser cuidadosamente acautelada. A ocorrência de falências dos investidores nesta área pode tornar-se inevitável, e não consta que as autoridades estarão dispostas a apoiá-los.
3. Reivindicações salariais
Em 2010 ocorreram aumentos salariais generalizados nas zonas urbanas. Também os salários mínimos foram actualizados (note-se que na China o salário mínimo é estabelecido por regiões). No mesmo período também se verificaram incrementos significativos na produtividade das empresas. Contudo, o custo de vida continua a aumentar. Este cenário, conjugado com a absoluta necessidade de aumentar a consumo interno, a fim de diminuir a dependência das exportações, irá penalizar o custo de vida, e, possivelmente justificando reivindicações salariais, ou seja, novo foco de turbulência social, que será, por certo, contido. Como?
4. Diminuição do crescimento económico
Em 2011 o PIB chinês continuará a crescer, mas menos do que nos anos anteriores, e provavelmente menos do que as previsões oficiais. A lenta recuperação mundial e a diminuição dos incentivos ao consumo de importantes mercados, como o uso de energias tradicionais e a aquisição de meios de transporte individuais, assim o fazem prever.
5. Intensificação da guerra das moedas
O yuan, na opinião dos governos estrangeiros, continua artificialmente desvalorizado em relação a outras moedas. Mas, este é um dos pilares da globalização chinesa – facilitar as exportações, limitar apoios às importações. A China continua a recusar corrigir a fundo esta relação. Fá-lo pontualmente e só quando isso lhe é indispensável. Actualmente, com as gigantescas divisas de que dispõe, e face à crise internacional designada com de “dívidas soberanas”, a China encontra-se em posição negocial de crescente força. Podem mesmo vir a verificar-se acrescidas exigências ao investimento estrangeiro no país, como sejam a imposição de parcerias e partilha de know-how.
6. Nova onda de privatizações
O caminho traçado está definido – o estado deverá diminuir a sua participação nas empresas. Sem hesitações, mas com segurança como preconizava Deng Xiaoping. O capitalismo chinês ganha terreno.
Good Bye Mr. Hu.
Welcome Mr. Li
A lista de previsões do senhor Gordon Orr não me pareceu especialmente interessante, apesar da sua reconhecida competência. Francamente, esperava mais. Mesmo assim, aproveitei-a para alguns comentários e uma certa ordenação de ideias, visto que a sua revista é lida por tantas pessoas.
Pessoalmente, penso que 2011 irá ser um ano de contenção em termos de grandes mudanças. Hu Jintao está em fim de mandato, e a sua preocupação parece ser a passagem de testemunho em boas condições. Aliás na linha da famosa resposta que deu, em 2006, ao jornalista que na Casa Branca lhe perguntou: “Presidente, quando é que a China se tornará numa democracia com eleições livres?”
O sagaz e diplomata presidente Hu, respondeu assim, segundo The Swamp: “Não sei o que o senhor entende por democracia. Posso dizer-lhe que nós, na China, sempre acreditámos que sem democracia não há modernização. Desde os anos setenta, quando arrancámos com a abertura ao exterior, lançámos as reformas económicas e, de forma adequada, a reestruturação política. No futuro, atentos às condições nacionais e à vontade do povo, prosseguiremos com a reestruturação política, alargaremos a participação dos cidadãos, ou seja, os indivíduos encontrar-se-ão em posição de exercerem melhor os seus direitos democráticos”.
Assim pensa e fala o líder da Quarta Geração chinesa da pós-revolução.
Esperemos para ver como pensa, fala, e age o líder da Quinta Geração.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
CHINA - Em Força na Inovação
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
21 Janeiro de 2011
Em Setembro de 2010 convidei os leitores a debruçarem-se sobre a mudança estratégica chinesa e os receios que esse conjunto de iniciativas estava a provocar nos países ditos desenvolvidos. Nesse artigo dediquei mesmo um capítulo ao tema “Da produção em massa à qualidade e à especialização”. No mês seguinte, escrevi sobre a absoluta necessidade que a China sente de não estar tão vulnerável às exportações, centrando atenções no que designei por inevitabilidade de incrementar o consumo interno. Mas o desafio mais profundo que se coloca a esta importante economia na próxima década, chamar-se-á inovação. Se a fase de cópia de produtos estrangeiros deu os seus frutos no passado, captando capitais que permitiram a gigantesca massificação da produção, e de seguida, a orientação para bens de qualidade, discutido em ”Leve que é garantido, é Made in China”, hoje é o vanguardismo da inovação que concentra as atenções dos estrategas chineses.
A cultura ocidental habituou-se a definir “Inovar” como introdução de novidades em; renovação; invenção; criação. São estes os significados que encontramos no dicionário online Priberam. Para a mesma fonte, “Criatividade” quer dizer dar existência a; dar o ser a; gerar; produzir; originar; educar; inventar; fomentar; estabelecer; interpretar; nascer; produzir-se; crescer; passar à juventude. Até parece que a “Criatividade” é mais fácil de explicar do que a “Inovação”.
Proponho que fiquemos, no contexto em que estamos, pela seguinte precisão: “Inovar” significa criar algo de diferente e que não seja mero melhoramento do que já existe. Conveniente será recordar as sábias palavras de Peter Drucker quando afirmava que a inovação só faz sentido quando precedida de experiência. Ou seja, só interpretando correctamente as ofertas e necessidades actuais, se pode criar algo que preencha as lacunas detectadas. Quão importante era o conhecimento para Drucker.
Evolução do investimento em R&D
O investimento em R&D não garante qualquer sucesso, é certo. O parágrafo anterior é elucidativo da bondade desta afirmação. É a excelência do Know-how que conduz ao sucesso, e não a quantidade de dinheiro que se possa injectar nos programas de R&D. Mas também é verdade que as carências financeiras em R&D tornam a caminhada para a inovação numa missão impossível. O esforço financeiro chinês neste terreno tem sido assinalável – de 1.25% do PIB em 2004, passou para 1.5% em 2008 (e como subiu o PIB chinês de 2004 a 2008). Mesmo assim, não deverá ter atingido 2% em 2010, como alguns analistas arriscaram prever, baseados no plano quinquenal que se encerrou no ano passado. Para maior detalhe na evolução do investimento chinês em R&D, consulte por exemplo como evoluiu no sector químico, uma das mais importantes apostas chinesas.
Não é, porém, somente nos valores envolvidos que a aposta chinesa em R&D merece tanta atenção. É também na implementação duma agressiva política de descentralização – de actividade fortemente centralizada, aliás consentânea com o regime político vigente, chegou-se hoje a cerca de 60% da investigação ser processada em grandes e médias empresas privadas. Eis alguns indicadores que confirmam esta aposta - o investimento estrangeiro neste domínio, já era, em Novembro de 2009, responsável por 7% do total, e as empresas multinacionais a operar na China, dispunham nesta data de cerca de 1500 centros de R&D autónomos. Face a esta evidência, alguns comentadores alertaram, em 2009, para o facto das multinacionais estarem a deslocalizar R&D para a China, e, num outro trabalho, de 2011, outros analistas terem chamado a atenção para que, em vários domínios da investigação, se bem que os USA ainda ocupem o primeiro lugar, a China já conquistou a segunda posição mundial. Não será de admirar que em 2010, de que ainda não se conhecem números finais, a China venha a ultrapassar os USA em patentes registadas, mas não tardará muito para que tal venha a acontecer.
A experiência mostrou às autoridades chinesas que a inovação não se decreta nem se impõe. A China não quer voltar a cometer os mesmos erros. O caso da tentativa de desenvolvimento autónomo de tecnologia TD-SCDMA, é sintomático de como as autoridades chinesas aprenderam que a inovação não se impõe de cima para baixo. Esta iniciativa só atingiu 10% dos objectivos traçados – um gigantesco e inesquecível “flop”.
O exemplo indiano mostrou-lhes que as apostas não podem orientar-se exclusivamente para a inovação operacional – a construção dum modelo criativo consistente é crucial. Por outras palavras, trata-se de conceber e colocar no terreno uma cultura de inovação. Este artigo, publicado na Business Week, e assinado pelo CEO da Infosys, intitulado “Obstáculos à Inovação na China e na Índia”, explica bem as dificuldades que têm de ser vencidas para alcançar o sucesso nesta área.
O mercado de veículos movidos a energia eléctrica é um bom exemplo das preocupações das autoridades económicas chinesas no que respeita a inovação, não só porque o mundo está ávido desta tecnologia, como a China precisa de reestruturar a frota de carros oficiais e a rede nacional de táxis. A procura será muito significativa, como se calculará, e os chineses não querem entregar esta oportunidade aos estrangeiros.
Algumas fontes calculam que a China vá investir em R&D nesta indústria cerca de 8 mil milhões USD, com base nas perspectivas de vendas para 2020. É uma forte aposta, de facto, e um óptimo exemplo da objectividade chinesa.
Encargos R&D em 2020, China vs USA (previsão)
Não nos podemos alhear de que estamos a falar de enormes mercados e economias gigantescas. A título comparativo, repare-se na grande disparidade de investimentos em R&D quando se compara os USA com a China.
Por exemplo, um estudo de Janeiro de 2010, referia para os dois países os seguintes valores de investimento em R&D, previstos para 2020: China – 86 / 281 / 714; USA – 446 / 554 / 684. Os valores estão em milhares de milhões USD, sendo o primeiro calculado com base em estimativa moderada de evolução das economias, o segundo média, e o terceiro favorável.
Que nos dizem estes cálculos? Que a diferença entre os dois países ainda é muito grande; que não é impossível a China ultrapassar os USA no final da próxima década, mas que não será muito fácil que tal aconteça – na China teria de se verificar um incremento anual médio de cerca de 24% durante 10 anos, o que será pouco provável. Para consulta do modelo aplicado vá aqui.
Que se passa com o grande consumo?
Aqui as notícias não parecem tão risonhas. O sector electrónico continua dependente dos produtos desenvolvidos no Japão e na Coreia do Sul, se bem com melhorias pontuais. De novo, nada, ou quase. Um dos obstáculos à evolução neste sector poderá ser a total ausência de estudos de mercado – as empresas produzem o que acham que devem produzir. Ninguém se preocupa em saber o que os consumidores querem. Aqui encontrará uma análise do que se passa, ou melhor, do que não se passa.
Nos serviços o panorama é semelhante – muito pouca inovação. Na banca e nos seguros, por exemplo, os produtos disponíveis são tradicionais, por vezes mesmo ultrapassados. É certo que as autoridades receiam a introdução de produtos inadequados nos mercados. O exemplo dos tóxicos que afectou toda a economia mundial está bem fresco. Contudo, os negócios implicam risco, e estagnar nestas áreas pode ser muito arriscado. Consulte aqui, aqui, e aqui, o que neste espaço já foi escrito sobre políticas anti-inflaccionistas na China.
Assim sendo…
Decisões políticas, precisam-se.
A Índia dispõe duma aposta fortíssima na área dos carros eléctricos de baixo custo – o Tata. O modelo Nano, o carro mais barato do mundo, pode vir a tornar-se um revés para as empresas de automóveis populares na China.
Nas energias recicláveis, a China precisa de se libertar do know-how ocidental, nomeadamente alemão, e explorar os técnicos nacionais que têm vindo a ser formados em quantidades apreciáveis todos os anos.
A quinta geração de dirigentes chineses pós-revolução [nota 1] irá tomar as rédeas da nação a partir de 2012-2013 [nota 2]. Contudo, sabendo-se da capacidade planificadora dos chineses, não é preciso ficar à espera dos novos líderes para tomar a iniciativa de apoiar a inovação.
Massa cinzenta, não falta.
A China prepara-se para novo passo em frente. Só terá a ganhar com isso. E eu quero acreditar que o mundo também.
E os leitores, o que pensam sobre isto?
___________________________________________________
NOTAS:
[nota 1] As cinco gerações a que me refiro, são personificadas por: Mao Zedong, Deng Xiaoping, Jian Zemin, Hu Jintao e Wen Jiabao, Xi Jinping e Li Keqiang.
[nota 2] Em 2012 ocorrerá a eleição do novo secretário-geral do PCC, e em 2013 terá lugar a eleição do novo primeiro-ministro. Esta geração será a dos homens de leis - Xi é engenheiro químico, com um doutoramento em ciências sociais; Li é licenciado em direito. Em termos de formação académica, as diferenças para os seus antecessores são notórias – Hu é engenheiro com passado militar; Wen é geólogo.
vitor.trigo@gmail.com
21 Janeiro de 2011
Em Setembro de 2010 convidei os leitores a debruçarem-se sobre a mudança estratégica chinesa e os receios que esse conjunto de iniciativas estava a provocar nos países ditos desenvolvidos. Nesse artigo dediquei mesmo um capítulo ao tema “Da produção em massa à qualidade e à especialização”. No mês seguinte, escrevi sobre a absoluta necessidade que a China sente de não estar tão vulnerável às exportações, centrando atenções no que designei por inevitabilidade de incrementar o consumo interno. Mas o desafio mais profundo que se coloca a esta importante economia na próxima década, chamar-se-á inovação. Se a fase de cópia de produtos estrangeiros deu os seus frutos no passado, captando capitais que permitiram a gigantesca massificação da produção, e de seguida, a orientação para bens de qualidade, discutido em ”Leve que é garantido, é Made in China”, hoje é o vanguardismo da inovação que concentra as atenções dos estrategas chineses.
A cultura ocidental habituou-se a definir “Inovar” como introdução de novidades em; renovação; invenção; criação. São estes os significados que encontramos no dicionário online Priberam. Para a mesma fonte, “Criatividade” quer dizer dar existência a; dar o ser a; gerar; produzir; originar; educar; inventar; fomentar; estabelecer; interpretar; nascer; produzir-se; crescer; passar à juventude. Até parece que a “Criatividade” é mais fácil de explicar do que a “Inovação”.
Proponho que fiquemos, no contexto em que estamos, pela seguinte precisão: “Inovar” significa criar algo de diferente e que não seja mero melhoramento do que já existe. Conveniente será recordar as sábias palavras de Peter Drucker quando afirmava que a inovação só faz sentido quando precedida de experiência. Ou seja, só interpretando correctamente as ofertas e necessidades actuais, se pode criar algo que preencha as lacunas detectadas. Quão importante era o conhecimento para Drucker.
Evolução do investimento em R&D
O investimento em R&D não garante qualquer sucesso, é certo. O parágrafo anterior é elucidativo da bondade desta afirmação. É a excelência do Know-how que conduz ao sucesso, e não a quantidade de dinheiro que se possa injectar nos programas de R&D. Mas também é verdade que as carências financeiras em R&D tornam a caminhada para a inovação numa missão impossível. O esforço financeiro chinês neste terreno tem sido assinalável – de 1.25% do PIB em 2004, passou para 1.5% em 2008 (e como subiu o PIB chinês de 2004 a 2008). Mesmo assim, não deverá ter atingido 2% em 2010, como alguns analistas arriscaram prever, baseados no plano quinquenal que se encerrou no ano passado. Para maior detalhe na evolução do investimento chinês em R&D, consulte por exemplo como evoluiu no sector químico, uma das mais importantes apostas chinesas.
Não é, porém, somente nos valores envolvidos que a aposta chinesa em R&D merece tanta atenção. É também na implementação duma agressiva política de descentralização – de actividade fortemente centralizada, aliás consentânea com o regime político vigente, chegou-se hoje a cerca de 60% da investigação ser processada em grandes e médias empresas privadas. Eis alguns indicadores que confirmam esta aposta - o investimento estrangeiro neste domínio, já era, em Novembro de 2009, responsável por 7% do total, e as empresas multinacionais a operar na China, dispunham nesta data de cerca de 1500 centros de R&D autónomos. Face a esta evidência, alguns comentadores alertaram, em 2009, para o facto das multinacionais estarem a deslocalizar R&D para a China, e, num outro trabalho, de 2011, outros analistas terem chamado a atenção para que, em vários domínios da investigação, se bem que os USA ainda ocupem o primeiro lugar, a China já conquistou a segunda posição mundial. Não será de admirar que em 2010, de que ainda não se conhecem números finais, a China venha a ultrapassar os USA em patentes registadas, mas não tardará muito para que tal venha a acontecer.
A experiência mostrou às autoridades chinesas que a inovação não se decreta nem se impõe. A China não quer voltar a cometer os mesmos erros. O caso da tentativa de desenvolvimento autónomo de tecnologia TD-SCDMA, é sintomático de como as autoridades chinesas aprenderam que a inovação não se impõe de cima para baixo. Esta iniciativa só atingiu 10% dos objectivos traçados – um gigantesco e inesquecível “flop”.
O exemplo indiano mostrou-lhes que as apostas não podem orientar-se exclusivamente para a inovação operacional – a construção dum modelo criativo consistente é crucial. Por outras palavras, trata-se de conceber e colocar no terreno uma cultura de inovação. Este artigo, publicado na Business Week, e assinado pelo CEO da Infosys, intitulado “Obstáculos à Inovação na China e na Índia”, explica bem as dificuldades que têm de ser vencidas para alcançar o sucesso nesta área.
O mercado de veículos movidos a energia eléctrica é um bom exemplo das preocupações das autoridades económicas chinesas no que respeita a inovação, não só porque o mundo está ávido desta tecnologia, como a China precisa de reestruturar a frota de carros oficiais e a rede nacional de táxis. A procura será muito significativa, como se calculará, e os chineses não querem entregar esta oportunidade aos estrangeiros.
Algumas fontes calculam que a China vá investir em R&D nesta indústria cerca de 8 mil milhões USD, com base nas perspectivas de vendas para 2020. É uma forte aposta, de facto, e um óptimo exemplo da objectividade chinesa.
Encargos R&D em 2020, China vs USA (previsão)
Não nos podemos alhear de que estamos a falar de enormes mercados e economias gigantescas. A título comparativo, repare-se na grande disparidade de investimentos em R&D quando se compara os USA com a China.
Por exemplo, um estudo de Janeiro de 2010, referia para os dois países os seguintes valores de investimento em R&D, previstos para 2020: China – 86 / 281 / 714; USA – 446 / 554 / 684. Os valores estão em milhares de milhões USD, sendo o primeiro calculado com base em estimativa moderada de evolução das economias, o segundo média, e o terceiro favorável.
Que nos dizem estes cálculos? Que a diferença entre os dois países ainda é muito grande; que não é impossível a China ultrapassar os USA no final da próxima década, mas que não será muito fácil que tal aconteça – na China teria de se verificar um incremento anual médio de cerca de 24% durante 10 anos, o que será pouco provável. Para consulta do modelo aplicado vá aqui.
Que se passa com o grande consumo?
Aqui as notícias não parecem tão risonhas. O sector electrónico continua dependente dos produtos desenvolvidos no Japão e na Coreia do Sul, se bem com melhorias pontuais. De novo, nada, ou quase. Um dos obstáculos à evolução neste sector poderá ser a total ausência de estudos de mercado – as empresas produzem o que acham que devem produzir. Ninguém se preocupa em saber o que os consumidores querem. Aqui encontrará uma análise do que se passa, ou melhor, do que não se passa.
Nos serviços o panorama é semelhante – muito pouca inovação. Na banca e nos seguros, por exemplo, os produtos disponíveis são tradicionais, por vezes mesmo ultrapassados. É certo que as autoridades receiam a introdução de produtos inadequados nos mercados. O exemplo dos tóxicos que afectou toda a economia mundial está bem fresco. Contudo, os negócios implicam risco, e estagnar nestas áreas pode ser muito arriscado. Consulte aqui, aqui, e aqui, o que neste espaço já foi escrito sobre políticas anti-inflaccionistas na China.
Assim sendo…
Decisões políticas, precisam-se.
A Índia dispõe duma aposta fortíssima na área dos carros eléctricos de baixo custo – o Tata. O modelo Nano, o carro mais barato do mundo, pode vir a tornar-se um revés para as empresas de automóveis populares na China.
Nas energias recicláveis, a China precisa de se libertar do know-how ocidental, nomeadamente alemão, e explorar os técnicos nacionais que têm vindo a ser formados em quantidades apreciáveis todos os anos.
A quinta geração de dirigentes chineses pós-revolução [nota 1] irá tomar as rédeas da nação a partir de 2012-2013 [nota 2]. Contudo, sabendo-se da capacidade planificadora dos chineses, não é preciso ficar à espera dos novos líderes para tomar a iniciativa de apoiar a inovação.
Massa cinzenta, não falta.
A China prepara-se para novo passo em frente. Só terá a ganhar com isso. E eu quero acreditar que o mundo também.
E os leitores, o que pensam sobre isto?
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NOTAS:
[nota 1] As cinco gerações a que me refiro, são personificadas por: Mao Zedong, Deng Xiaoping, Jian Zemin, Hu Jintao e Wen Jiabao, Xi Jinping e Li Keqiang.
[nota 2] Em 2012 ocorrerá a eleição do novo secretário-geral do PCC, e em 2013 terá lugar a eleição do novo primeiro-ministro. Esta geração será a dos homens de leis - Xi é engenheiro químico, com um doutoramento em ciências sociais; Li é licenciado em direito. Em termos de formação académica, as diferenças para os seus antecessores são notórias – Hu é engenheiro com passado militar; Wen é geólogo.
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
CHINA – Medidas contra a ameaça de inflação (2) - Na Casa e na Alimentação
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
22 Dezembro de 2010
Na China tudo tem enormes dimensões e acontece muito depressa. A 20 de Novembro, e com base nos indicadores que foram dados a conhecer pelas autoridades chinesas no mês anterior, questionei-me sobre os reais impactes que a inflação desregrada poderia trazer a este gigante durante tanto tempo adormecido. Terminei o artigo dizendo que o início de 2011 nos iria trazer importantes novidades neste domínio. Mal poderia imaginar que um dia após, teria de voltar ao tema face às medidas que o poder acabara de anunciar para tentar controlar a subida generalizada dos preços que ameaçavam desestabilizar a nação.
E aqui estou de novo, ainda antes do fecho de 2010, reflectindo sobre tão importante questão. Os dados mais recentes sobre o aumento das despesas domésticas confirmam as preocupações com o agravamento da situação.
As despesas fixas de Liu Qi
A versão em Inglês do diário Sina publicou há quase um ano – 21 de Janeiro de 2010 – um interessante artigo sobre o aumento de preços na China, recorrendo ao exemplo de Liu Qi, uma jovem de 29 anos empregada há oito numa empresa de publicidade em Pequim.
Naquela quinta-feira, Liu Qi gastara 80 yuans (11.7 US$, 9 €) no supermercado – metade em comida, metade em necessidades diárias. Esta jovem que dispunha de 6500 yuans mensais, supostamente já deduzidos de impostos, afirmou gastar mensalmente 1200 yuans em comida, 1300 em alojamento e despesas associadas, 1000 a jantar fora e diversões com amigos, 500 em roupa, e 200 em comunicações de telemóvel, sobrando-lhe assim 2300 yuans, o equivalente a 260 €. A sua principal preocupação consistia em como juntar dinheiro para comprar uma casa.
O preço das casas na China
Na Segunda Circular de Pequim, em 2009, o preço de venda das casas em segunda mão aumentara 43% e os alugueres 5% em média, segundo o artigo citado. Esta não será a regra no imenso e muito diversificado território chinês, mas é um exemplo real.
Desde Fevereiro de 2009 que os protestos populares por causa desta cavalgada de preços vinham preocupando as autoridades, que implementaram novas regras para o sistema bancário, quer pela via fiscal quer pelos empréstimos concedidos a este tipo de negócio. Os resultados não se fizeram esperar, e o efeito directo sobre a inflação já foi praticamente insignificante em Novembro. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) deverá fixar-se entre 3 e 4% em 2010, ano sobre ano.
Contudo, as despesas de habitação incluem outras rubricas para além do aluguer ou da amortização, como a água, a electricidade, e os custos de manutenção. O National Bureau of Statistics (NBS) calcula assim a evolução do peso das despesas com a habitação no cabaz IPC – 9.7% em 2000, 13.2% em 2006, estimando 13.6% para 2010 (a rubrica custos de aquisição de habitação não faz parte do cabaz IPC).
Apesar da tradicional falta de informações oficiais na China, os analistas não oficiais calculam que as pessoas como Liu Qi gastem com a habitação cerca de 20% dos seus rendimentos, longe dos 13.6% referidos pelo NBS.
A evolução dos preços no mercado
Segundo o Xiong Peng, analista sénior do Bank of Communications (BOC), os preços dos alimentos subiram 5.3% em Dezembro de 2009, o que justificou um agravamento de 1.74% no IPC. Os alugueres da casa ao subirem 1.5% foram responsáveis pelo crescimento de 0.21% do IPC.
O governo tem, portanto, pela frente duas frentes de batalha prioritárias para travar a inflação – Imobiliário e Alimentação.
Ao impor o reforço das reservas bancárias para 18%, o governo pensa que as concessões de crédito passarão a ser mais rigorosas. Dito doutra forma, dificultarão as acções especulativas nos domínios imobiliário e commodities, apesar de se saber que este tipo de medidas não é do agrado dos investidores, podendo mesmo vir a originar alguma desaceleração no crescimento económico .
Consideram os economistas que foi o excesso de liquidez, associado a deficientes políticas monetárias nos últimos oito anos, que fomentaram a especulação e trouxeram a inflação para níveis indesejáveis. O aumento dos custos de produção e a política de juros negativos, encarregaram-se do resto.
Os receios dos investidores
Os investidores não gostam de medidas disciplinadoras. Temem-nas, e é isso que está a acontecer.
Quem investe antecipa-se, não espera para reagir. E, de facto, a maioria dos analistas prevê que as taxas de crescimento da ordem dos 12% não voltarão a verificar-se, embora se pense que poderão rondar 7 a 8% durante a próxima década, um valor ainda muito elevado, atendendo a que, quanto mais uma economia cresce, mais difícil será manter as taxas de crescimento.
Mas todos estão cientes que forçar o aumento das reservas financeiras dos bancos, subir os juros, e controlar alguns preços cruciais não é suficiente, nem estruturante.
A bolha imobiliária está escondida?
Há uns meses, correu a notícia, entretanto desmentida pelas empresas de energia, que poderiam existir 64.5 milhões de habitações não ocupadas . O fundamento de tal estimativa baseava-se no não consumo de electricidade nessas casas por seis meses consecutivos. A ser verdade, isto significaria duas coisas – oferta de habitação não correspondida para cerca de 200 milhões de pessoas (um número, de facto, impressionante), e, ou os preços estariam propositadamente inflacionados, ou desadequados face às reais capacidades dos potenciais compradores.
Será que os actuais proprietários estão a apostar no aumento da inflação, esperando por melhor altura para venderem os apartamentos? Mas, esta opção tende a provocar, ela mesma, uma espiral inflacionista. Se não venderem pelo preço que pretendem, poderão vir a alugá-los por rendas mais elevadas, influenciando assim negativamente o IPC.
Contudo, e comparando com situação semelhante noutros países – USA, Islândia, Irlanda, UK, Espanha, etc. - onde ocorreram bolhas imobiliárias com as nefastas consequências que se conhecem, os analistas apreçam-se a estabelecer a diferença: na China não existe o perigo de bolha imobiliária em preços, mas pode haver em quantidade.
A história tem mostrado, que quando estas bolhas crescem juntas, os efeitos podem ser devastadores. O exemplo do Sudoeste Asiático na década de 1990 e de Taiwan nos finais de 1980, ainda estão bem presentes. Bem como os efeitos da bolha de preços americana que desencadeou a actual crise económica global, que ainda parece longe de estar superada.
Uma crise chinesa neste domínio, nos tempos mais próximos, poderia ter consequências avassaladoras a nível global.
A habitação na China é, de facto, um caso diferente
Tem-se construído imenso na China nos últimos anos. Calcula-se (sempre a mesma carência de informações fidedignas), que se tenham construído perto de 60 milhões de apartamentos privados nos últimos 10 anos. Actualmente, crê-se que estejam em construção mais cerca de 20 milhões de habitações particulares, e que as administrações locais e governamentais estejam a construir outros 20 a 30 milhões.
Nos últimos anos, cerca de 1000 milhões de metros quadrados habitáveis foram reconstruídos, faltando ainda proceder de igual forma sobre os 9000 milhões que continuam em condições insustentáveis para vida digna.
Não são só as autoridades políticas que estão envolvidas neste gigantesco processo, mas também as empresas que constroem para os seus trabalhadores habitarem, como no passado. Apesar disso, calcula-se que cerca de 200 milhões de trabalhadores migrantes, deslocados do interior para as periferias dos grandes aglomerados industrias e urbanos, continuem a viver em dormitórios subterrâneos, geralmente uma só divisão sem janelas. Um expediente a que muitos jovens recorrem em início de carreira.
As novas habitações chinesas
Calcula-se que, em 2009, a venda de casas novas na China, tenha representado mais de 14% do PIB – uma cifra impressionante. Surpreendente, também, é a dimensão média per capita dos novos apartamentos na maioria das cidades - entre 28 a 30 metros quadrados. Este valor situa-se entre as posições 148 e 153 da lista de 355 cidades mundiais, superando por exemplo, Las Palmas, Nápoles, Varsóvia, São Peterburgo, Zagreb, Belgrado, Gdansk, ou Budapeste.
Mesmo que o valor estimativo de 64.5 milhões de apartamentos desocupados, esteja errado, e que só metade deles se encontre nessa situação, isso equivale a cerca de 20% de todos os domicílios urbanos. Num mercado em tão rápida mutação, e com tantos cidadãos a deslocarem-se para outras localizações, esta taxa não se pode considerar anormal.
A questão muda de figura, se esta oferta estiver, de facto, distante da procura efectiva, e desadequada para o cidadão comum.
Os governos locais, altamente endividados por força dos investimentos que fizeram para atrair capitais, precisam das receitas provenientes das trocas imobiliárias. Especula-se, pois não se conhecem dados oficiais, que os governos locais e regionais tenham, em média, receitas correspondentes a 20% das dívidas acumuladas. Se as receitas do imobiliário não entrarem, só há uma alternativa – reduzir despesas. E sabe-se como os políticos são avessos a este caminho.
A renovação política
Dentro de menos de dois anos, a China irá para eleições. Os actuais dirigentes políticos darão lugar a uma nova classe de quadros, cada vez mais distantes dos valores que conduziram Mao e o Partido Comunista ao poder em 1 de Outubro de 1949. Possuem cada vez mais mentalidade capitalista.
Pelo que ficou exposto, conclui-se que se exigem medidas estruturantes. Os dirigentes chineses, que já deram imensas provas de serem exímios planeadores, sabem que adiar soluções pode custar muito caro, incluindo contestação social ao regime, se a economia interromper o ritmo de crescimento das duas últimas décadas.
Mas todos sabemos, também, como os políticos são avessos a tomar medidas impopulares antes de eleições.
Alguns perigos se vislumbram no horizonte, portanto. E não só para a China.
O que lá vier a acontecer interessará ao mundo inteiro.
vitor.trigo@gmail.com
22 Dezembro de 2010
Na China tudo tem enormes dimensões e acontece muito depressa. A 20 de Novembro, e com base nos indicadores que foram dados a conhecer pelas autoridades chinesas no mês anterior, questionei-me sobre os reais impactes que a inflação desregrada poderia trazer a este gigante durante tanto tempo adormecido. Terminei o artigo dizendo que o início de 2011 nos iria trazer importantes novidades neste domínio. Mal poderia imaginar que um dia após, teria de voltar ao tema face às medidas que o poder acabara de anunciar para tentar controlar a subida generalizada dos preços que ameaçavam desestabilizar a nação.
E aqui estou de novo, ainda antes do fecho de 2010, reflectindo sobre tão importante questão. Os dados mais recentes sobre o aumento das despesas domésticas confirmam as preocupações com o agravamento da situação.
As despesas fixas de Liu Qi
A versão em Inglês do diário Sina publicou há quase um ano – 21 de Janeiro de 2010 – um interessante artigo sobre o aumento de preços na China, recorrendo ao exemplo de Liu Qi, uma jovem de 29 anos empregada há oito numa empresa de publicidade em Pequim.
Naquela quinta-feira, Liu Qi gastara 80 yuans (11.7 US$, 9 €) no supermercado – metade em comida, metade em necessidades diárias. Esta jovem que dispunha de 6500 yuans mensais, supostamente já deduzidos de impostos, afirmou gastar mensalmente 1200 yuans em comida, 1300 em alojamento e despesas associadas, 1000 a jantar fora e diversões com amigos, 500 em roupa, e 200 em comunicações de telemóvel, sobrando-lhe assim 2300 yuans, o equivalente a 260 €. A sua principal preocupação consistia em como juntar dinheiro para comprar uma casa.
O preço das casas na China
Na Segunda Circular de Pequim, em 2009, o preço de venda das casas em segunda mão aumentara 43% e os alugueres 5% em média, segundo o artigo citado. Esta não será a regra no imenso e muito diversificado território chinês, mas é um exemplo real.
Desde Fevereiro de 2009 que os protestos populares por causa desta cavalgada de preços vinham preocupando as autoridades, que implementaram novas regras para o sistema bancário, quer pela via fiscal quer pelos empréstimos concedidos a este tipo de negócio. Os resultados não se fizeram esperar, e o efeito directo sobre a inflação já foi praticamente insignificante em Novembro. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) deverá fixar-se entre 3 e 4% em 2010, ano sobre ano.
Contudo, as despesas de habitação incluem outras rubricas para além do aluguer ou da amortização, como a água, a electricidade, e os custos de manutenção. O National Bureau of Statistics (NBS) calcula assim a evolução do peso das despesas com a habitação no cabaz IPC – 9.7% em 2000, 13.2% em 2006, estimando 13.6% para 2010 (a rubrica custos de aquisição de habitação não faz parte do cabaz IPC).
Apesar da tradicional falta de informações oficiais na China, os analistas não oficiais calculam que as pessoas como Liu Qi gastem com a habitação cerca de 20% dos seus rendimentos, longe dos 13.6% referidos pelo NBS.
A evolução dos preços no mercado
Segundo o Xiong Peng, analista sénior do Bank of Communications (BOC), os preços dos alimentos subiram 5.3% em Dezembro de 2009, o que justificou um agravamento de 1.74% no IPC. Os alugueres da casa ao subirem 1.5% foram responsáveis pelo crescimento de 0.21% do IPC.
O governo tem, portanto, pela frente duas frentes de batalha prioritárias para travar a inflação – Imobiliário e Alimentação.
Ao impor o reforço das reservas bancárias para 18%, o governo pensa que as concessões de crédito passarão a ser mais rigorosas. Dito doutra forma, dificultarão as acções especulativas nos domínios imobiliário e commodities, apesar de se saber que este tipo de medidas não é do agrado dos investidores, podendo mesmo vir a originar alguma desaceleração no crescimento económico .
Consideram os economistas que foi o excesso de liquidez, associado a deficientes políticas monetárias nos últimos oito anos, que fomentaram a especulação e trouxeram a inflação para níveis indesejáveis. O aumento dos custos de produção e a política de juros negativos, encarregaram-se do resto.
Os receios dos investidores
Os investidores não gostam de medidas disciplinadoras. Temem-nas, e é isso que está a acontecer.
Quem investe antecipa-se, não espera para reagir. E, de facto, a maioria dos analistas prevê que as taxas de crescimento da ordem dos 12% não voltarão a verificar-se, embora se pense que poderão rondar 7 a 8% durante a próxima década, um valor ainda muito elevado, atendendo a que, quanto mais uma economia cresce, mais difícil será manter as taxas de crescimento.
Mas todos estão cientes que forçar o aumento das reservas financeiras dos bancos, subir os juros, e controlar alguns preços cruciais não é suficiente, nem estruturante.
A bolha imobiliária está escondida?
Há uns meses, correu a notícia, entretanto desmentida pelas empresas de energia, que poderiam existir 64.5 milhões de habitações não ocupadas . O fundamento de tal estimativa baseava-se no não consumo de electricidade nessas casas por seis meses consecutivos. A ser verdade, isto significaria duas coisas – oferta de habitação não correspondida para cerca de 200 milhões de pessoas (um número, de facto, impressionante), e, ou os preços estariam propositadamente inflacionados, ou desadequados face às reais capacidades dos potenciais compradores.
Será que os actuais proprietários estão a apostar no aumento da inflação, esperando por melhor altura para venderem os apartamentos? Mas, esta opção tende a provocar, ela mesma, uma espiral inflacionista. Se não venderem pelo preço que pretendem, poderão vir a alugá-los por rendas mais elevadas, influenciando assim negativamente o IPC.
Contudo, e comparando com situação semelhante noutros países – USA, Islândia, Irlanda, UK, Espanha, etc. - onde ocorreram bolhas imobiliárias com as nefastas consequências que se conhecem, os analistas apreçam-se a estabelecer a diferença: na China não existe o perigo de bolha imobiliária em preços, mas pode haver em quantidade.
A história tem mostrado, que quando estas bolhas crescem juntas, os efeitos podem ser devastadores. O exemplo do Sudoeste Asiático na década de 1990 e de Taiwan nos finais de 1980, ainda estão bem presentes. Bem como os efeitos da bolha de preços americana que desencadeou a actual crise económica global, que ainda parece longe de estar superada.
Uma crise chinesa neste domínio, nos tempos mais próximos, poderia ter consequências avassaladoras a nível global.
A habitação na China é, de facto, um caso diferente
Tem-se construído imenso na China nos últimos anos. Calcula-se (sempre a mesma carência de informações fidedignas), que se tenham construído perto de 60 milhões de apartamentos privados nos últimos 10 anos. Actualmente, crê-se que estejam em construção mais cerca de 20 milhões de habitações particulares, e que as administrações locais e governamentais estejam a construir outros 20 a 30 milhões.
Nos últimos anos, cerca de 1000 milhões de metros quadrados habitáveis foram reconstruídos, faltando ainda proceder de igual forma sobre os 9000 milhões que continuam em condições insustentáveis para vida digna.
Não são só as autoridades políticas que estão envolvidas neste gigantesco processo, mas também as empresas que constroem para os seus trabalhadores habitarem, como no passado. Apesar disso, calcula-se que cerca de 200 milhões de trabalhadores migrantes, deslocados do interior para as periferias dos grandes aglomerados industrias e urbanos, continuem a viver em dormitórios subterrâneos, geralmente uma só divisão sem janelas. Um expediente a que muitos jovens recorrem em início de carreira.
As novas habitações chinesas
Calcula-se que, em 2009, a venda de casas novas na China, tenha representado mais de 14% do PIB – uma cifra impressionante. Surpreendente, também, é a dimensão média per capita dos novos apartamentos na maioria das cidades - entre 28 a 30 metros quadrados. Este valor situa-se entre as posições 148 e 153 da lista de 355 cidades mundiais, superando por exemplo, Las Palmas, Nápoles, Varsóvia, São Peterburgo, Zagreb, Belgrado, Gdansk, ou Budapeste.
Mesmo que o valor estimativo de 64.5 milhões de apartamentos desocupados, esteja errado, e que só metade deles se encontre nessa situação, isso equivale a cerca de 20% de todos os domicílios urbanos. Num mercado em tão rápida mutação, e com tantos cidadãos a deslocarem-se para outras localizações, esta taxa não se pode considerar anormal.
A questão muda de figura, se esta oferta estiver, de facto, distante da procura efectiva, e desadequada para o cidadão comum.
Os governos locais, altamente endividados por força dos investimentos que fizeram para atrair capitais, precisam das receitas provenientes das trocas imobiliárias. Especula-se, pois não se conhecem dados oficiais, que os governos locais e regionais tenham, em média, receitas correspondentes a 20% das dívidas acumuladas. Se as receitas do imobiliário não entrarem, só há uma alternativa – reduzir despesas. E sabe-se como os políticos são avessos a este caminho.
A renovação política
Dentro de menos de dois anos, a China irá para eleições. Os actuais dirigentes políticos darão lugar a uma nova classe de quadros, cada vez mais distantes dos valores que conduziram Mao e o Partido Comunista ao poder em 1 de Outubro de 1949. Possuem cada vez mais mentalidade capitalista.
Pelo que ficou exposto, conclui-se que se exigem medidas estruturantes. Os dirigentes chineses, que já deram imensas provas de serem exímios planeadores, sabem que adiar soluções pode custar muito caro, incluindo contestação social ao regime, se a economia interromper o ritmo de crescimento das duas últimas décadas.
Mas todos sabemos, também, como os políticos são avessos a tomar medidas impopulares antes de eleições.
Alguns perigos se vislumbram no horizonte, portanto. E não só para a China.
O que lá vier a acontecer interessará ao mundo inteiro.
domingo, 5 de dezembro de 2010
A Crise é dos periféricos? Do Euro? Ou do Projecto EU? (2 de 2)
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
05 Dezembro de 2010
(continuação do mesmo título, em 1 de 2)
Em Maio deste ano, quando a EU anunciou a criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), já havia decorrido mais de ano e meio sobre o início da crise. Os políticos europeus, que se haviam escandalosamente atrasado na tomada das medidas que lhes competiam, apressaram-se então a informar que a reserva que estavam a anunciar era de carácter psicológico, pois não previam que houvesse necessidade desta vir a ser de facto utilizada.
Mas não foi isso que aconteceu. Em 21 de Novembro passado, a Irlanda cedeu às pressões dos companheiros europeus, nomeadamente da Alemanha, e acabou por pedir ajuda de emergência no valor de 85 mil milhões €, iniciativa que, de forma insistente, vinha negando como possível.
A EU, com esta nova medida, do mesmo estilo da que utilizara no caso grego, parecia dar mostras de desconhecer outra reacção às debilidades dos países em dificuldade, senão a injecção de dinheiro que pudesse protelar a questão, e acalmar os “mercados”.
A eventualidade de um periférico vir a abandonar o Euro
A EU parece não dispor de nenhuma solução sustentável para o caso de algum país periférico decidir abandonar o Euro, ou a isso for forçado. Um acontecimento deste tipo originaria, por certo, uma corrida imediata dos investidores aos sistema bancário desse país, provocando o seu inevitável colapso financeiro, que, por sua vez, lançaria inevitáveis e imprevisíveis ondas de choque por toda a zona euro. O mundo que ainda não esqueceu o que aconteceu com o Lehman Brothers em 2008, teme a repetição.
Preocupada, a EU anunciou uma alternativa, esperando evitar o contágio dos fenómenos Grécia e Irlanda a outros países em dificuldade, procurando serenar os “mercados”, e, dessa forma, provocar a descida nas taxas de juro dos países em crise mais evidente. Assim nasceu o Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM), cuja data efectiva de disponibilidade está prevista para 2013.
O que é o ESM
O ESM é um pacote de opções, anunciadas como flexíveis, a que os países em crise pelo excesso de dívida podem recorrer. A grande novidade do ESM é que, em situação de emergência, os países excessivamente endividados, podem ver parte dos seus débitos anulados, sendo esse custo compartilhado pelos credores – privados, bancos e fundos de investimento. Esta foi uma importante batalha ganha, há uma semana atrás, embora com dificuldade, pela chanceler Angela Merkel, em Conselho de Ministros das Finanças.
Destacando, de forma resumida, o que de novo aporta a filosofia ESM:
Se a crise for de carência de liquidez no curto prazo, a solução preferencial deverá continuar a ser o resgate via BCE/FMI. Neste caso, os credores deverão, após negociação, aceitar protelamentos nos pagamentos. O país em crise de liquidez seria assim aliviado da pressão imediata, ganhando tempo para recuperar.
No caso da crise ser estrutural, ou seja quando o país mostrar incapacidade para cumprir as suas obrigações, então deverá ser convocada uma assembleia de credores que terá competência para, através de maioria qualificada, aprovar o reescalonamento da dívida, admitindo-se a possibilidade de dispensa de pagamento de juros, à semelhança do que em Wall Street se designa por “corte de cabelo” (”Haircut”).
Apesar deste anúncio ter sido muito elogiado pela Alemanha, os “mercados” continuaram intranquilos, pois o acordo só se aplicará a títulos emitidos a partir de Junho de 2013. Mesmo que as taxas de juro venham a recuar, será praticamente impossível que regressem a valores anteriores à crise. Solução para o futuro não resolve a crise actual, parece ser a ideia dos “mercados”.
Portanto, e até 2013…
Se algum país deixar de ser capaz de pagar as suas dívidas, a solução que resta à EU é continuar a apoiar esse país. Se assim não acontecer, só haverá um caminho - solicitar uma renegociação.
Ora, sabe-se como os bancos evitam reescalonar dívidas. Mostraram-no em 1989 no Japão, em 2008 na sequência do Setembro Negro, nos USA (ver ”From Economic Crisis to Debt Crisis?”), e tudo indica que não venham a alterar esta posição.
De facto, se os bancos renunciassem a parte das dívidas, isso equivaleria à desvalorização dos títulos do país em causa, o que afectaria os capitais próprios desses bancos credores, situação que eles alegam não estar em condições de suportar.
Apesar disto, alguns analistas conseguem ver mérito nestas novas disposições, reconhecendo-lhe vantagens evidentes no longo prazo, ao nível da disciplina orçamental. Mas, as soluções no curto prazo, à custa de ”Haircut” nos bancos TBTF não parecem, como vimos, estar à vista.
Vários cenários se colocam:
1. Portugal, pressionado por diferentes influenciadores, é obrigado a solicitar ajuda de emergência do FEED.
Um desses influenciadores, a agência de rating S&P alertou, esta semana, que tinha colocado o país sob vigilância negativa, e que podia vir a baixar as cotações da República e da banca até Março de 2011. Outro indício destas pressões ocorrerá na sessão de amanhã dos Ministros das Finanças em Bruxelas, cuja agenda contempla a análise das saídas possíveis para Portugal evitar o contágio da Grécia e da Irlanda (”Eurogrupo discute amanhã situação de Portugal”).
Na realidade, Portugal, pela sua dimensão, não preocupa tanto a EU como a Espanha, o maior dos PIGS. Por vezes até parece que a EU preferia que Portugal caísse rapidamente nas mãos do FEEF, pois tal permitiria passar a mensagem de que a crise ficaria estancada com este episódio, preservando a Espanha (12% da economia europeia), e o grupo duro. Recorde-se que, dos 750 mil milhões do FEEF, apenas 85 mil milhões (que poderão alcançar 100 mil milhões) foram resgatados, dado que os 110 mil milhões da Grécia constituem pacote à parte.
A EU conseguiria, desta forma, com apoio reforçado do BCE, continuando a comprar dívidas soberanas, segurar a crise até 2013, data da entrada em vigor do ESM.
2. A Espanha não resistindo às pressões externas solicita ajuda ao FEEF.
Portugal cairia por arrasto, a EU não consegue responder, pois o que resta dos 750 mil milhões será manifestamente insuficiente, e os PIGS não teriam alternativa senão abandonarem o Euro. Neste caso, estes países tornar-se-iam vítimas de enormes fugas de capitais como reacção às duríssimas políticas fiscais que teriam de adoptar, que resultariam em significativa perda de produtividade de toda esta zona. Em 2013, provavelmente, nenhum dos PIGS iria cumprir o limite deficitário de 3% do PIB, o que resultaria em acrescidas dificuldades de acesso a financiamentos externos, e, claro, novo ciclo de políticas fiscais ainda mais violentas. Origens e efeitos confundir-se-iam numa espiral difícil de estancar.
Que aconteceria, de imediato? Reavaliação dos acordos de adesão ao euro e à livre circulação de capitais, o que aprofundaria ainda mais a crise. Note-se que voltar às moedas nacionais, obrigaria à reavaliação das dívidas em euros, convertendo-as em moedas nacionais entretanto desvalorizadas. Os próprios bancos nacionais correriam sérios riscos de insolvência. E se os governos decidissem apoiar os bancos, provavelmente iriam incorrer em incapacidade de pagamentos das suas próprias dívidas. Um cenário muito preocupante.
Há, contudo, analistas que recordam como a ”Argentina na década de 1990” e a ”Inglaterra ao abandonar o ERM em 1992” conseguiram superar situações muito difíceis, considerando que a solução de abandono dos PIGS (quantos e quais?) do euro poderá não ser tão catastrófica quanto possa parecer. Mas não nos devemos esquecer, acima de tudo, que a maioria dos economistas comenta melhor do que prevê ou recomenda.
A saída dos PIGS do Euro, apesar das consequências atrás enunciadas, pode ter um lado positivo, embora que débil – a desvalorização da moeda e o abaixamento dos salários, contribuiria para o aumento da competitividade exportadora da zona, incluindo para os outros países da EU. E a crise social? Quem a iria resolver?
Se tal se viesse a revelar como forma de ultrapassar a crise, como iria reagir a Itália? Ficava no Euro, ou abandonava-o? E se a Itália partisse, como iria a França sentir-se entre os países fracos e o núcleo duro? Então, se a França viesse a sair do Euro, a Zona Euro não teria hipóteses de sobrevivência, e definharia. Com ela, porventura, morreria o próprio projecto EU.
3. E se fosse a Alemanha a decidir unilateralmente voltar ao Marco?
Não é de todo impossível. O grande projecto alemão de reunificação da Alemanha, na opinião dos políticos alemães da época, dependia do sucesso do lançamento do Euro. Ora, a Alemanha já está reunificada, tendo pago, financeira e politicamente, um elevado preço por isso, não sendo dado adquirido que os actuais dirigentes políticos pensem sobre o Euro o que os seus antecessores pensavam. Aliás, os jornais, já deram conta duma acesa discussão entre Angela Merkel e George Papandreou sobre a possibilidade da Alemanha vir a abandonar o Euro (27 de Outubro de 2010).
Os políticos alemães actuais, governo e oposições, parecem acreditar que a Alemanha seria mais forte se estivesse fora do Euro. Esta crença pode ser determinante na opção que o país vier a tomar. Certo é que os contribuintes alemães não querem continuar a pagar pelo que consideram ser desvarios dos europeus não-alemães. A decisão recente, desta semana, do BCE continuar a comprar doses maciças de dívidas soberanas pode, também, vir a tornar-se factor desequilibrador na dúvida alemã. Alguns políticos alemães argumentam que o apoio comunitário aos países em crise na zona euro não resistiria ao parecer do Tribunal Constitucional, por não ter sido ratificado por nenhum Estado Membro. A ser assim, estaríamos perante grave violação dos tratados europeus em vigor.
O reverso, para a Alemanha, seria que a revalorização do Marco iria prejudicar as exportações, e os produtos importados ao tornarem-se mais baratos, poderiam conduzir a uma indesejável e perigosa situação de deflação. Nos outros países, provavelmente, assistir-se-ia a aumentos significativos da inflação.
4. Misterioso continua o impacte da intervenção da China no contexto europeu, quer comprando dívidas soberanas, inclusive da França, quer participando em parcerias estratégicas em empresas de ponta e na banca, quer intervindo directamente com as suas próprias empresas. Em artigo separado, comentarei o que penso sobre isto.
5. Há ainda a considerar as alterações geopolíticas que se estão a desenhar no espaço europeu alargado, incluindo as parcerias com a Rússia e ex-países da URSS. A NATO deverá vir a desempenhar papel relevante nestas redefinições, que deverão modificar a importância relativa dos diversos países europeus. Para a Polónia e para a Turquia poderão estar reservados papéis de primeiro plano, obviamente substituindo os tradicionais senhores da situação. Assunto a endereçar em próxima reflexão.
______
Perante cenários tão complexos e diversificados que pode pensar o “simples cidadão”?
Que, por certo, todos corremos grandes riscos, e que a desejada solução para a crise ainda está distante.
vitor.trigo@gmail.com
05 Dezembro de 2010
(continuação do mesmo título, em 1 de 2)
Em Maio deste ano, quando a EU anunciou a criação do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), já havia decorrido mais de ano e meio sobre o início da crise. Os políticos europeus, que se haviam escandalosamente atrasado na tomada das medidas que lhes competiam, apressaram-se então a informar que a reserva que estavam a anunciar era de carácter psicológico, pois não previam que houvesse necessidade desta vir a ser de facto utilizada.
Mas não foi isso que aconteceu. Em 21 de Novembro passado, a Irlanda cedeu às pressões dos companheiros europeus, nomeadamente da Alemanha, e acabou por pedir ajuda de emergência no valor de 85 mil milhões €, iniciativa que, de forma insistente, vinha negando como possível.
A EU, com esta nova medida, do mesmo estilo da que utilizara no caso grego, parecia dar mostras de desconhecer outra reacção às debilidades dos países em dificuldade, senão a injecção de dinheiro que pudesse protelar a questão, e acalmar os “mercados”.
A eventualidade de um periférico vir a abandonar o Euro
A EU parece não dispor de nenhuma solução sustentável para o caso de algum país periférico decidir abandonar o Euro, ou a isso for forçado. Um acontecimento deste tipo originaria, por certo, uma corrida imediata dos investidores aos sistema bancário desse país, provocando o seu inevitável colapso financeiro, que, por sua vez, lançaria inevitáveis e imprevisíveis ondas de choque por toda a zona euro. O mundo que ainda não esqueceu o que aconteceu com o Lehman Brothers em 2008, teme a repetição.
Preocupada, a EU anunciou uma alternativa, esperando evitar o contágio dos fenómenos Grécia e Irlanda a outros países em dificuldade, procurando serenar os “mercados”, e, dessa forma, provocar a descida nas taxas de juro dos países em crise mais evidente. Assim nasceu o Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM), cuja data efectiva de disponibilidade está prevista para 2013.
O que é o ESM
O ESM é um pacote de opções, anunciadas como flexíveis, a que os países em crise pelo excesso de dívida podem recorrer. A grande novidade do ESM é que, em situação de emergência, os países excessivamente endividados, podem ver parte dos seus débitos anulados, sendo esse custo compartilhado pelos credores – privados, bancos e fundos de investimento. Esta foi uma importante batalha ganha, há uma semana atrás, embora com dificuldade, pela chanceler Angela Merkel, em Conselho de Ministros das Finanças.
Destacando, de forma resumida, o que de novo aporta a filosofia ESM:
Se a crise for de carência de liquidez no curto prazo, a solução preferencial deverá continuar a ser o resgate via BCE/FMI. Neste caso, os credores deverão, após negociação, aceitar protelamentos nos pagamentos. O país em crise de liquidez seria assim aliviado da pressão imediata, ganhando tempo para recuperar.
No caso da crise ser estrutural, ou seja quando o país mostrar incapacidade para cumprir as suas obrigações, então deverá ser convocada uma assembleia de credores que terá competência para, através de maioria qualificada, aprovar o reescalonamento da dívida, admitindo-se a possibilidade de dispensa de pagamento de juros, à semelhança do que em Wall Street se designa por “corte de cabelo” (”Haircut”).
Apesar deste anúncio ter sido muito elogiado pela Alemanha, os “mercados” continuaram intranquilos, pois o acordo só se aplicará a títulos emitidos a partir de Junho de 2013. Mesmo que as taxas de juro venham a recuar, será praticamente impossível que regressem a valores anteriores à crise. Solução para o futuro não resolve a crise actual, parece ser a ideia dos “mercados”.
Portanto, e até 2013…
Se algum país deixar de ser capaz de pagar as suas dívidas, a solução que resta à EU é continuar a apoiar esse país. Se assim não acontecer, só haverá um caminho - solicitar uma renegociação.
Ora, sabe-se como os bancos evitam reescalonar dívidas. Mostraram-no em 1989 no Japão, em 2008 na sequência do Setembro Negro, nos USA (ver ”From Economic Crisis to Debt Crisis?”), e tudo indica que não venham a alterar esta posição.
De facto, se os bancos renunciassem a parte das dívidas, isso equivaleria à desvalorização dos títulos do país em causa, o que afectaria os capitais próprios desses bancos credores, situação que eles alegam não estar em condições de suportar.
Apesar disto, alguns analistas conseguem ver mérito nestas novas disposições, reconhecendo-lhe vantagens evidentes no longo prazo, ao nível da disciplina orçamental. Mas, as soluções no curto prazo, à custa de ”Haircut” nos bancos TBTF não parecem, como vimos, estar à vista.
Vários cenários se colocam:
1. Portugal, pressionado por diferentes influenciadores, é obrigado a solicitar ajuda de emergência do FEED.
Um desses influenciadores, a agência de rating S&P alertou, esta semana, que tinha colocado o país sob vigilância negativa, e que podia vir a baixar as cotações da República e da banca até Março de 2011. Outro indício destas pressões ocorrerá na sessão de amanhã dos Ministros das Finanças em Bruxelas, cuja agenda contempla a análise das saídas possíveis para Portugal evitar o contágio da Grécia e da Irlanda (”Eurogrupo discute amanhã situação de Portugal”).
Na realidade, Portugal, pela sua dimensão, não preocupa tanto a EU como a Espanha, o maior dos PIGS. Por vezes até parece que a EU preferia que Portugal caísse rapidamente nas mãos do FEEF, pois tal permitiria passar a mensagem de que a crise ficaria estancada com este episódio, preservando a Espanha (12% da economia europeia), e o grupo duro. Recorde-se que, dos 750 mil milhões do FEEF, apenas 85 mil milhões (que poderão alcançar 100 mil milhões) foram resgatados, dado que os 110 mil milhões da Grécia constituem pacote à parte.
A EU conseguiria, desta forma, com apoio reforçado do BCE, continuando a comprar dívidas soberanas, segurar a crise até 2013, data da entrada em vigor do ESM.
2. A Espanha não resistindo às pressões externas solicita ajuda ao FEEF.
Portugal cairia por arrasto, a EU não consegue responder, pois o que resta dos 750 mil milhões será manifestamente insuficiente, e os PIGS não teriam alternativa senão abandonarem o Euro. Neste caso, estes países tornar-se-iam vítimas de enormes fugas de capitais como reacção às duríssimas políticas fiscais que teriam de adoptar, que resultariam em significativa perda de produtividade de toda esta zona. Em 2013, provavelmente, nenhum dos PIGS iria cumprir o limite deficitário de 3% do PIB, o que resultaria em acrescidas dificuldades de acesso a financiamentos externos, e, claro, novo ciclo de políticas fiscais ainda mais violentas. Origens e efeitos confundir-se-iam numa espiral difícil de estancar.
Que aconteceria, de imediato? Reavaliação dos acordos de adesão ao euro e à livre circulação de capitais, o que aprofundaria ainda mais a crise. Note-se que voltar às moedas nacionais, obrigaria à reavaliação das dívidas em euros, convertendo-as em moedas nacionais entretanto desvalorizadas. Os próprios bancos nacionais correriam sérios riscos de insolvência. E se os governos decidissem apoiar os bancos, provavelmente iriam incorrer em incapacidade de pagamentos das suas próprias dívidas. Um cenário muito preocupante.
Há, contudo, analistas que recordam como a ”Argentina na década de 1990” e a ”Inglaterra ao abandonar o ERM em 1992” conseguiram superar situações muito difíceis, considerando que a solução de abandono dos PIGS (quantos e quais?) do euro poderá não ser tão catastrófica quanto possa parecer. Mas não nos devemos esquecer, acima de tudo, que a maioria dos economistas comenta melhor do que prevê ou recomenda.
A saída dos PIGS do Euro, apesar das consequências atrás enunciadas, pode ter um lado positivo, embora que débil – a desvalorização da moeda e o abaixamento dos salários, contribuiria para o aumento da competitividade exportadora da zona, incluindo para os outros países da EU. E a crise social? Quem a iria resolver?
Se tal se viesse a revelar como forma de ultrapassar a crise, como iria reagir a Itália? Ficava no Euro, ou abandonava-o? E se a Itália partisse, como iria a França sentir-se entre os países fracos e o núcleo duro? Então, se a França viesse a sair do Euro, a Zona Euro não teria hipóteses de sobrevivência, e definharia. Com ela, porventura, morreria o próprio projecto EU.
3. E se fosse a Alemanha a decidir unilateralmente voltar ao Marco?
Não é de todo impossível. O grande projecto alemão de reunificação da Alemanha, na opinião dos políticos alemães da época, dependia do sucesso do lançamento do Euro. Ora, a Alemanha já está reunificada, tendo pago, financeira e politicamente, um elevado preço por isso, não sendo dado adquirido que os actuais dirigentes políticos pensem sobre o Euro o que os seus antecessores pensavam. Aliás, os jornais, já deram conta duma acesa discussão entre Angela Merkel e George Papandreou sobre a possibilidade da Alemanha vir a abandonar o Euro (27 de Outubro de 2010).
Os políticos alemães actuais, governo e oposições, parecem acreditar que a Alemanha seria mais forte se estivesse fora do Euro. Esta crença pode ser determinante na opção que o país vier a tomar. Certo é que os contribuintes alemães não querem continuar a pagar pelo que consideram ser desvarios dos europeus não-alemães. A decisão recente, desta semana, do BCE continuar a comprar doses maciças de dívidas soberanas pode, também, vir a tornar-se factor desequilibrador na dúvida alemã. Alguns políticos alemães argumentam que o apoio comunitário aos países em crise na zona euro não resistiria ao parecer do Tribunal Constitucional, por não ter sido ratificado por nenhum Estado Membro. A ser assim, estaríamos perante grave violação dos tratados europeus em vigor.
O reverso, para a Alemanha, seria que a revalorização do Marco iria prejudicar as exportações, e os produtos importados ao tornarem-se mais baratos, poderiam conduzir a uma indesejável e perigosa situação de deflação. Nos outros países, provavelmente, assistir-se-ia a aumentos significativos da inflação.
4. Misterioso continua o impacte da intervenção da China no contexto europeu, quer comprando dívidas soberanas, inclusive da França, quer participando em parcerias estratégicas em empresas de ponta e na banca, quer intervindo directamente com as suas próprias empresas. Em artigo separado, comentarei o que penso sobre isto.
5. Há ainda a considerar as alterações geopolíticas que se estão a desenhar no espaço europeu alargado, incluindo as parcerias com a Rússia e ex-países da URSS. A NATO deverá vir a desempenhar papel relevante nestas redefinições, que deverão modificar a importância relativa dos diversos países europeus. Para a Polónia e para a Turquia poderão estar reservados papéis de primeiro plano, obviamente substituindo os tradicionais senhores da situação. Assunto a endereçar em próxima reflexão.
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Perante cenários tão complexos e diversificados que pode pensar o “simples cidadão”?
Que, por certo, todos corremos grandes riscos, e que a desejada solução para a crise ainda está distante.
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