Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
21 Janeiro de 2011
Em Setembro de 2010 convidei os leitores a debruçarem-se sobre a mudança estratégica chinesa e os receios que esse conjunto de iniciativas estava a provocar nos países ditos desenvolvidos. Nesse artigo dediquei mesmo um capítulo ao tema “Da produção em massa à qualidade e à especialização”. No mês seguinte, escrevi sobre a absoluta necessidade que a China sente de não estar tão vulnerável às exportações, centrando atenções no que designei por inevitabilidade de incrementar o consumo interno. Mas o desafio mais profundo que se coloca a esta importante economia na próxima década, chamar-se-á inovação. Se a fase de cópia de produtos estrangeiros deu os seus frutos no passado, captando capitais que permitiram a gigantesca massificação da produção, e de seguida, a orientação para bens de qualidade, discutido em ”Leve que é garantido, é Made in China”, hoje é o vanguardismo da inovação que concentra as atenções dos estrategas chineses.
A cultura ocidental habituou-se a definir “Inovar” como introdução de novidades em; renovação; invenção; criação. São estes os significados que encontramos no dicionário online Priberam. Para a mesma fonte, “Criatividade” quer dizer dar existência a; dar o ser a; gerar; produzir; originar; educar; inventar; fomentar; estabelecer; interpretar; nascer; produzir-se; crescer; passar à juventude. Até parece que a “Criatividade” é mais fácil de explicar do que a “Inovação”.
Proponho que fiquemos, no contexto em que estamos, pela seguinte precisão: “Inovar” significa criar algo de diferente e que não seja mero melhoramento do que já existe. Conveniente será recordar as sábias palavras de Peter Drucker quando afirmava que a inovação só faz sentido quando precedida de experiência. Ou seja, só interpretando correctamente as ofertas e necessidades actuais, se pode criar algo que preencha as lacunas detectadas. Quão importante era o conhecimento para Drucker.
Evolução do investimento em R&D
O investimento em R&D não garante qualquer sucesso, é certo. O parágrafo anterior é elucidativo da bondade desta afirmação. É a excelência do Know-how que conduz ao sucesso, e não a quantidade de dinheiro que se possa injectar nos programas de R&D. Mas também é verdade que as carências financeiras em R&D tornam a caminhada para a inovação numa missão impossível. O esforço financeiro chinês neste terreno tem sido assinalável – de 1.25% do PIB em 2004, passou para 1.5% em 2008 (e como subiu o PIB chinês de 2004 a 2008). Mesmo assim, não deverá ter atingido 2% em 2010, como alguns analistas arriscaram prever, baseados no plano quinquenal que se encerrou no ano passado. Para maior detalhe na evolução do investimento chinês em R&D, consulte por exemplo como evoluiu no sector químico, uma das mais importantes apostas chinesas.
Não é, porém, somente nos valores envolvidos que a aposta chinesa em R&D merece tanta atenção. É também na implementação duma agressiva política de descentralização – de actividade fortemente centralizada, aliás consentânea com o regime político vigente, chegou-se hoje a cerca de 60% da investigação ser processada em grandes e médias empresas privadas. Eis alguns indicadores que confirmam esta aposta - o investimento estrangeiro neste domínio, já era, em Novembro de 2009, responsável por 7% do total, e as empresas multinacionais a operar na China, dispunham nesta data de cerca de 1500 centros de R&D autónomos. Face a esta evidência, alguns comentadores alertaram, em 2009, para o facto das multinacionais estarem a deslocalizar R&D para a China, e, num outro trabalho, de 2011, outros analistas terem chamado a atenção para que, em vários domínios da investigação, se bem que os USA ainda ocupem o primeiro lugar, a China já conquistou a segunda posição mundial. Não será de admirar que em 2010, de que ainda não se conhecem números finais, a China venha a ultrapassar os USA em patentes registadas, mas não tardará muito para que tal venha a acontecer.
A experiência mostrou às autoridades chinesas que a inovação não se decreta nem se impõe. A China não quer voltar a cometer os mesmos erros. O caso da tentativa de desenvolvimento autónomo de tecnologia TD-SCDMA, é sintomático de como as autoridades chinesas aprenderam que a inovação não se impõe de cima para baixo. Esta iniciativa só atingiu 10% dos objectivos traçados – um gigantesco e inesquecível “flop”.
O exemplo indiano mostrou-lhes que as apostas não podem orientar-se exclusivamente para a inovação operacional – a construção dum modelo criativo consistente é crucial. Por outras palavras, trata-se de conceber e colocar no terreno uma cultura de inovação. Este artigo, publicado na Business Week, e assinado pelo CEO da Infosys, intitulado “Obstáculos à Inovação na China e na Índia”, explica bem as dificuldades que têm de ser vencidas para alcançar o sucesso nesta área.
O mercado de veículos movidos a energia eléctrica é um bom exemplo das preocupações das autoridades económicas chinesas no que respeita a inovação, não só porque o mundo está ávido desta tecnologia, como a China precisa de reestruturar a frota de carros oficiais e a rede nacional de táxis. A procura será muito significativa, como se calculará, e os chineses não querem entregar esta oportunidade aos estrangeiros.
Algumas fontes calculam que a China vá investir em R&D nesta indústria cerca de 8 mil milhões USD, com base nas perspectivas de vendas para 2020. É uma forte aposta, de facto, e um óptimo exemplo da objectividade chinesa.
Encargos R&D em 2020, China vs USA (previsão)
Não nos podemos alhear de que estamos a falar de enormes mercados e economias gigantescas. A título comparativo, repare-se na grande disparidade de investimentos em R&D quando se compara os USA com a China.
Por exemplo, um estudo de Janeiro de 2010, referia para os dois países os seguintes valores de investimento em R&D, previstos para 2020: China – 86 / 281 / 714; USA – 446 / 554 / 684. Os valores estão em milhares de milhões USD, sendo o primeiro calculado com base em estimativa moderada de evolução das economias, o segundo média, e o terceiro favorável.
Que nos dizem estes cálculos? Que a diferença entre os dois países ainda é muito grande; que não é impossível a China ultrapassar os USA no final da próxima década, mas que não será muito fácil que tal aconteça – na China teria de se verificar um incremento anual médio de cerca de 24% durante 10 anos, o que será pouco provável. Para consulta do modelo aplicado vá aqui.
Que se passa com o grande consumo?
Aqui as notícias não parecem tão risonhas. O sector electrónico continua dependente dos produtos desenvolvidos no Japão e na Coreia do Sul, se bem com melhorias pontuais. De novo, nada, ou quase. Um dos obstáculos à evolução neste sector poderá ser a total ausência de estudos de mercado – as empresas produzem o que acham que devem produzir. Ninguém se preocupa em saber o que os consumidores querem. Aqui encontrará uma análise do que se passa, ou melhor, do que não se passa.
Nos serviços o panorama é semelhante – muito pouca inovação. Na banca e nos seguros, por exemplo, os produtos disponíveis são tradicionais, por vezes mesmo ultrapassados. É certo que as autoridades receiam a introdução de produtos inadequados nos mercados. O exemplo dos tóxicos que afectou toda a economia mundial está bem fresco. Contudo, os negócios implicam risco, e estagnar nestas áreas pode ser muito arriscado. Consulte aqui, aqui, e aqui, o que neste espaço já foi escrito sobre políticas anti-inflaccionistas na China.
Assim sendo…
Decisões políticas, precisam-se.
A Índia dispõe duma aposta fortíssima na área dos carros eléctricos de baixo custo – o Tata. O modelo Nano, o carro mais barato do mundo, pode vir a tornar-se um revés para as empresas de automóveis populares na China.
Nas energias recicláveis, a China precisa de se libertar do know-how ocidental, nomeadamente alemão, e explorar os técnicos nacionais que têm vindo a ser formados em quantidades apreciáveis todos os anos.
A quinta geração de dirigentes chineses pós-revolução [nota 1] irá tomar as rédeas da nação a partir de 2012-2013 [nota 2]. Contudo, sabendo-se da capacidade planificadora dos chineses, não é preciso ficar à espera dos novos líderes para tomar a iniciativa de apoiar a inovação.
Massa cinzenta, não falta.
A China prepara-se para novo passo em frente. Só terá a ganhar com isso. E eu quero acreditar que o mundo também.
E os leitores, o que pensam sobre isto?
___________________________________________________
NOTAS:
[nota 1] As cinco gerações a que me refiro, são personificadas por: Mao Zedong, Deng Xiaoping, Jian Zemin, Hu Jintao e Wen Jiabao, Xi Jinping e Li Keqiang.
[nota 2] Em 2012 ocorrerá a eleição do novo secretário-geral do PCC, e em 2013 terá lugar a eleição do novo primeiro-ministro. Esta geração será a dos homens de leis - Xi é engenheiro químico, com um doutoramento em ciências sociais; Li é licenciado em direito. Em termos de formação académica, as diferenças para os seus antecessores são notórias – Hu é engenheiro com passado militar; Wen é geólogo.
Mostrar mensagens com a etiqueta novas tecnologias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta novas tecnologias. Mostrar todas as mensagens
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
terça-feira, 21 de setembro de 2010
A estratégia económica chinesa ensaia a mudança e o mundo aguarda impaciente
A estratégia chinesa para o yuan, as matérias-primas, e a energia, sem esquecer o importante papel das forças armadas no cenário internacional, foi abordada em artigo anterior [1]. Também as relações entre a China e a Alemanha, e em particular o perigo da recuperação alemã demasiadamente dependente do “milagre económico chinês” já foram alvo de análise neste espaço [2].
Hoje, a reflexão incide na mudança estratégica que se parece vislumbrar na China. Num país onde o crescimento económico tem sido tão significativo e por tão longo período de tempo, uma mudança estratégica não tem só repercussões internas, interessa e afecta todo o mundo.
Visitemos, então, algumas áreas cruciais, estruturantes mesmo, onde se podem observar importantes opções estratégicas. Na China nada é deixado ao acaso, tudo é planeado. Quem pensar o contrário, não pode estar atento.
A tentativa de enterrar a imagem dos “baixos salários”
Durante décadas a China permitiu, ou fomentou mesmo, a imagem de país onde a mão-de-obra era abundante e barata.
Que é abundante ninguém duvida, pois a China conta com 1300 milhões de habitantes, dos quais 1000 milhões constituem a população activa. Daqui se infere que 300 milhões se encontram desempregados, cerca de 22% [3]. Não corresponde à realidade pensar que se trata unicamente de pessoas que não encontraram ainda ocupação. Muitos destes desempregados perderam, de facto, os seus postos de trabalho fruto de alterações importantes no tecido laboral [4]. Além disso, as autoridades chinesas terão também, e no curto prazo, de encontrar solução para cerca de 100 milhões de trabalhadores rurais que querem reconverter em urbanos.
Mas o esforço de actualização salarial no país é real [5], embora em média os rendimentos do trabalho continuem muito baixos quando comparados com os seus concorrentes e parceiros. Como referência, relevem-se os seguintes valores:
PIB (em triliões de US$): China – 8.791; UE – 14.953; USA – 14.256; Brasil – 1.995; Índia – 2.965; Rússia – 4.406.
PIB per capita (em US$): China – 6500; UE – 28213; USA – 46381; Brasil – 10296; Índia – 2972; Rússia – 15947. [6]
Para facilitar a comparação, os valores para Portugal são 233.4 mil milhões e 21800 US$, respectivamente.
Da produção em massa à qualidade e à especialização
Em 2009 a China ultrapassou os USA e a Alemanha em volume total de exportações. Segundo informações do próprio Departamento de Estatísticas da Alemanha, as vendas chinesas atingiram no ano passado 1.201 triliões de US$, enquanto que as exportações alemãs se ficaram pelos 1,121 triliões. Para se avaliar o que isto significa, diga-se que nos últimos 20 anos, as exportações chinesas aumentaram 20 vezes. Uma profunda preocupação para os alemães [7], dado que ninguém espera que esta tendência se inverta, nem que a Alemanha, ex-primeiro exportador mundial, recupere a posição perdida.
Mas a luta entre alemães e chineses não se resume aos montantes totais, desenrola-se violentamente batalha a batalha, mercado a mercado, produto a produto. Vejam-se, por exemplo, os seguintes casos ocorridos em 2009, só na indústria aumtomóvel:
- A justiça grega decide que o pequeno utilitário Noble não é um clone do famoso Smart, uma joint venture da Daimler e da Swatch, como a Mercedes pretendia [8];
- A BMW entrou com uma acção em tribunal para proibir a venda na Alemanha do SUV Shuanghuan CEO, alegando que se tratava dum clone do modelo X5 da marca alemã. Ganhou, mas não conseguiu parar as vendas do modelo chinês na Grécia e Itália, como pretendia [9];
- A Porsche viu-se confrontada no Salão Automóvel de Pequim com um clone do modelo Cayenne, produzido na China pela empresa Huatai, a um preço muito inferior. E não chega que os alemães afirmem que a qualidade e a segurança não se comparam com as do modelo original. Os compradores não se regem sempre pelos mesmos valores [10].
Em busca da ocupação de nichos
Os mercados de nicho, dadas as suas características de grande concentração de recursos, exigem estratégias muito peculiares tanto de defesa como de ataque. Os mercados ecológicos não podem ser apelidados de nicho na verdadeira acepção do termo, mas, em termos estratégicos, assemelham-se.
Proponho que nos debrucemos sobre três vertentes dessa tão actual participação com inequívoco impacte no terreno da Responsabilidade Social Comunitária: A Energia, em particular o aproveitamento da energia solar, e os Transportes, no sub-sector automóvel.
Até agora, em qualquer destes campos, a China tem-se destacado pelo recurso às tecnologias e meios de produção mais rentáveis, que não respeitam, como é conhecido, as recomendações das organizações ecologistas. Em particular relevo, encontra-se a produção de energia a partir de combustíveis fósseis, onde o carvão assume papel de negativo destaque, sabendo-se que o carvão representava em 2007, 70% da energia consumida no país [11]. Mesmo assim o governo chinês pôs em prática um agressivo plano para reduzir o impacte desta situação, mesmo em termos de segurança dos trabalhadores dessas minas (4,700 mortes só em 2006) – no dia 14.01.2008, um domingo, as autoridades anunciaram ter encerrado mais de 11,115 pequenas minas no país [12]. Apesar destas notícias, que foram bem recebidas pela comunidade internacional, continuam a surgir mensagens contraditórias que apontam no sentido da intensificação da exploração de carvão em super-minas, num plano que visa a abertura de 2º grandes minas até 2015 [13].
A energia solar
É consensual a ideia de que a exploração da energia solar é solução de futuro. Vários países, como Portugal p.e., anunciaram incentivos aos privados que optem pela instalação de soluções individuais deste tipo. Na Alemanha e no Japão, em particular nos casos da Siemens e da Sharp, os governos instituiram consideráveis apoios para que estas empresas apostassem no desenvolvimento de centrais fotovoltaicas [14], capazes de produzirem energia limpa em quantidade para justificar o interesse de outras indústrias na sua utilização. Gerou-se mesmo a ideia de que estas empresas estariam no topo destes investimentos. Esta é, contudo, uma parte da verdade – a indústria alemã está a deslocalizar esta produção para a China. A Alemanha continua responsável por cerca 50% das instalações de energia solar mundial, mas é a China que produz 50% dos produtos que alimentam esta indústria [15], e parece estar cada vez mais agressiva nesta investida [16].
Até parece que enquanto os países ocidentais continuarem a subsidiar as instalações de paineis solares, a produção chinesa, que exporta 70% do que fabrica, continuará a ser um “negócio da china”.
O sector automóvel
A China é um mercado muito importante para as exportações de carros de todo o mundo, em particular da Alemanha, onde a Audi, Mercedes, e BMW, continuam a alimentar a sede de luxo das novas classes com posses no país, e a VW encontrou um imenso filão no abatecimento de viaturas para a polícia e táxis, como refri em artigo anterior [17].
Mas a China, como já salientei no artigo que mesmo agora citei, já não se limita a ser a fábrica do mundo. Quer mais, aposta em joint-ventures como contrapartida negocial. Digamos que é “pegar ou largar” – quem quiser avançar com os benefícios da produção na China tem de facilitar acesso ao know-how. Pode imaginar-se o que isto significa para as grandes marcas alemãs que não podendo já satisfazer a procura chinesa a partir da Alemanha, e penalizados pelos elevados direitos de importação chineses, têm de instalar fábricas na China. E estamos a falar de AUDI A7, Mercedes S, e BMW 7, topos de gama, portanto.
E que dizer da GM envolvida em dramática luta pela sobrevivência? Estará em posição de exigir algo de significativo das autoridades chinesas? Não, claro.
Releve-se também o que se passa com as novas tecnologias. Conhecem-se os esforços dos grandes construtores no domínio da diminuição, ou messmo, independência dos combustíveis fósseis.
O mundo ainda desconhece uma empresa chinesa produtora de baterias para telemóveis, a BYD – Build Your Dreams [18] – que, a partir de 2003 passou a investir na fabricação de automóveis. Em 2008 iniciou a comercialização do primeiro modelo produzido em massa, e em 2009 vendeu mais de 448 mil carros na China. Uma aventura? Não parece, pois em 2008 Warren Buffet, que não costuma desperdiçar dinheiro, investiu 230 milhões US$ por 10% da BYD.
O feitiço e o feiticeiro
Os empresários de todo o mundo, em particular os alemães, queixam-se do plágio e contra-facção chineses.
Nos subsectores atrás citados, os industriais ocidentais continuam a argumentar que as cópias chinesas são mais baratas porque incorporam componentes de qualidade inferior e não respeitam as regras de segurança.
É por demais conhecido o drama dos produtores de software que não vêm respeitados os direitos de autor como pretendem. Nesta indústria, a situação ainda se torna mais difícil pelo facto da legislação chinesa ser bastante diferente da que se aplica em outros países [19].
No entanto, e apesar de todas as lamentações e protestos, os empresários ocidentais hesitam em levar as companhias chinesas a tribunal, por duas elementares razões: não acreditam nos tribunais locais, e temem eventuais represálias.
Terão algum dia coragem e condições para se retirarem do gigantesco mercado chinês?
____________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-em-guerra-pelas.html
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-e-o-mundo-alemanha-01.html
[3] http://economia.publico.pt/Noticia/desemprego-na-china-afecta-22-por-cento-da-populacao-activa_1455269
[4] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/os-custos-de-producao-na-china.html
[5] Em Junho deste ano, o salário minímo em Pequim passou a ser 960 yuans, um aumento de 20%. Este valor corresponde a cerca de € 114 ou 140 US$, segundo a agência noticiosa Xinhua. http://www1.folha.uol.com.br/mercado/784733-salario-minimo-chines-continua-subindo-em-2010.shtml
[6] Informações recolhidas em Setembro de 2010 em Wikipedia.
Veja aqui: China negoceia a compra de 150 novos Airbus, que pode chegar a 200, no valor de 16 mil milhões de euros: http://www.oje.pt/noticia.aspx?channelid=C32FD067-0BC2-4366-9A04-208E8B2DB854&contentid=FEA9442D-E537-45E4-927D-E8C704FB5CC1
e aqui, o “dia histórico” da entrega do primeiro Airbus A320 produzido na inteiramente na China: http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/8114464.stm
[7] http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1484433-9356,00-CHINA+SUPERA+ALEMANHA+E+E+O+MAIOR+EXPORTADOR+DO+MUNDO.html
[8] http://www.noticiasautomotivas.com.br/justica-grega-diz-que-chines-noble-nao-e-um-clone-do-smart/
[9] http://www.noticiasautomotivas.com.br/bmw-vence-shuanghuan-ceo-nao-podera-entrar-na-alemanha/
[10] http://www.noticiasautomotivas.com.br/huatai-marca-chinesa-faz-um-clone-do-porsche-cayenne-para-o-salao-de-pequim/
[11] http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u363108.shtml
[12] idem
[13] http://www.capitalvue.com/home/CE-news/inset/%4010063/post/1202723
[14] The Economist tem revelado amiúde os valores suportados pelos contribuintes alemães por efeito da aposta de Angela Merkel na energia foto voltaica. http://www.economist.com/node/15213817%3Fstory_id%3D15213817
Apesar do esforço exigido aos contribuintes alemães, que alguns analistas estimam em € 14 biliões ao longo dos próximos 20 anos, só para os investimentos feitos em 2009, hoje já se questiona parar com esta ajuda, talvez por efeito da própria crise económica que afecta a Alemanha.
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5279253,00.html
[15] http://www.greenchipstocks.com/articles/crabs-are-good-for-you/1057
[16] http://www.gstriatum.com/pt/china-cresceu-150-na-producao-de-modulos-solares/
[17] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-alemanha-02.html
[18] http://en.wikipedia.org/wiki/BYD_Auto
[19] http://www.gov.cn/english/laws/2005-08/24/content_25701.htm
Hoje, a reflexão incide na mudança estratégica que se parece vislumbrar na China. Num país onde o crescimento económico tem sido tão significativo e por tão longo período de tempo, uma mudança estratégica não tem só repercussões internas, interessa e afecta todo o mundo.
Visitemos, então, algumas áreas cruciais, estruturantes mesmo, onde se podem observar importantes opções estratégicas. Na China nada é deixado ao acaso, tudo é planeado. Quem pensar o contrário, não pode estar atento.
A tentativa de enterrar a imagem dos “baixos salários”
Durante décadas a China permitiu, ou fomentou mesmo, a imagem de país onde a mão-de-obra era abundante e barata.
Que é abundante ninguém duvida, pois a China conta com 1300 milhões de habitantes, dos quais 1000 milhões constituem a população activa. Daqui se infere que 300 milhões se encontram desempregados, cerca de 22% [3]. Não corresponde à realidade pensar que se trata unicamente de pessoas que não encontraram ainda ocupação. Muitos destes desempregados perderam, de facto, os seus postos de trabalho fruto de alterações importantes no tecido laboral [4]. Além disso, as autoridades chinesas terão também, e no curto prazo, de encontrar solução para cerca de 100 milhões de trabalhadores rurais que querem reconverter em urbanos.
Mas o esforço de actualização salarial no país é real [5], embora em média os rendimentos do trabalho continuem muito baixos quando comparados com os seus concorrentes e parceiros. Como referência, relevem-se os seguintes valores:
PIB (em triliões de US$): China – 8.791; UE – 14.953; USA – 14.256; Brasil – 1.995; Índia – 2.965; Rússia – 4.406.
PIB per capita (em US$): China – 6500; UE – 28213; USA – 46381; Brasil – 10296; Índia – 2972; Rússia – 15947. [6]
Para facilitar a comparação, os valores para Portugal são 233.4 mil milhões e 21800 US$, respectivamente.
Da produção em massa à qualidade e à especialização
Em 2009 a China ultrapassou os USA e a Alemanha em volume total de exportações. Segundo informações do próprio Departamento de Estatísticas da Alemanha, as vendas chinesas atingiram no ano passado 1.201 triliões de US$, enquanto que as exportações alemãs se ficaram pelos 1,121 triliões. Para se avaliar o que isto significa, diga-se que nos últimos 20 anos, as exportações chinesas aumentaram 20 vezes. Uma profunda preocupação para os alemães [7], dado que ninguém espera que esta tendência se inverta, nem que a Alemanha, ex-primeiro exportador mundial, recupere a posição perdida.
Mas a luta entre alemães e chineses não se resume aos montantes totais, desenrola-se violentamente batalha a batalha, mercado a mercado, produto a produto. Vejam-se, por exemplo, os seguintes casos ocorridos em 2009, só na indústria aumtomóvel:
- A justiça grega decide que o pequeno utilitário Noble não é um clone do famoso Smart, uma joint venture da Daimler e da Swatch, como a Mercedes pretendia [8];
- A BMW entrou com uma acção em tribunal para proibir a venda na Alemanha do SUV Shuanghuan CEO, alegando que se tratava dum clone do modelo X5 da marca alemã. Ganhou, mas não conseguiu parar as vendas do modelo chinês na Grécia e Itália, como pretendia [9];
- A Porsche viu-se confrontada no Salão Automóvel de Pequim com um clone do modelo Cayenne, produzido na China pela empresa Huatai, a um preço muito inferior. E não chega que os alemães afirmem que a qualidade e a segurança não se comparam com as do modelo original. Os compradores não se regem sempre pelos mesmos valores [10].
Em busca da ocupação de nichos
Os mercados de nicho, dadas as suas características de grande concentração de recursos, exigem estratégias muito peculiares tanto de defesa como de ataque. Os mercados ecológicos não podem ser apelidados de nicho na verdadeira acepção do termo, mas, em termos estratégicos, assemelham-se.
Proponho que nos debrucemos sobre três vertentes dessa tão actual participação com inequívoco impacte no terreno da Responsabilidade Social Comunitária: A Energia, em particular o aproveitamento da energia solar, e os Transportes, no sub-sector automóvel.
Até agora, em qualquer destes campos, a China tem-se destacado pelo recurso às tecnologias e meios de produção mais rentáveis, que não respeitam, como é conhecido, as recomendações das organizações ecologistas. Em particular relevo, encontra-se a produção de energia a partir de combustíveis fósseis, onde o carvão assume papel de negativo destaque, sabendo-se que o carvão representava em 2007, 70% da energia consumida no país [11]. Mesmo assim o governo chinês pôs em prática um agressivo plano para reduzir o impacte desta situação, mesmo em termos de segurança dos trabalhadores dessas minas (4,700 mortes só em 2006) – no dia 14.01.2008, um domingo, as autoridades anunciaram ter encerrado mais de 11,115 pequenas minas no país [12]. Apesar destas notícias, que foram bem recebidas pela comunidade internacional, continuam a surgir mensagens contraditórias que apontam no sentido da intensificação da exploração de carvão em super-minas, num plano que visa a abertura de 2º grandes minas até 2015 [13].
A energia solar
É consensual a ideia de que a exploração da energia solar é solução de futuro. Vários países, como Portugal p.e., anunciaram incentivos aos privados que optem pela instalação de soluções individuais deste tipo. Na Alemanha e no Japão, em particular nos casos da Siemens e da Sharp, os governos instituiram consideráveis apoios para que estas empresas apostassem no desenvolvimento de centrais fotovoltaicas [14], capazes de produzirem energia limpa em quantidade para justificar o interesse de outras indústrias na sua utilização. Gerou-se mesmo a ideia de que estas empresas estariam no topo destes investimentos. Esta é, contudo, uma parte da verdade – a indústria alemã está a deslocalizar esta produção para a China. A Alemanha continua responsável por cerca 50% das instalações de energia solar mundial, mas é a China que produz 50% dos produtos que alimentam esta indústria [15], e parece estar cada vez mais agressiva nesta investida [16].
Até parece que enquanto os países ocidentais continuarem a subsidiar as instalações de paineis solares, a produção chinesa, que exporta 70% do que fabrica, continuará a ser um “negócio da china”.
O sector automóvel
A China é um mercado muito importante para as exportações de carros de todo o mundo, em particular da Alemanha, onde a Audi, Mercedes, e BMW, continuam a alimentar a sede de luxo das novas classes com posses no país, e a VW encontrou um imenso filão no abatecimento de viaturas para a polícia e táxis, como refri em artigo anterior [17].
Mas a China, como já salientei no artigo que mesmo agora citei, já não se limita a ser a fábrica do mundo. Quer mais, aposta em joint-ventures como contrapartida negocial. Digamos que é “pegar ou largar” – quem quiser avançar com os benefícios da produção na China tem de facilitar acesso ao know-how. Pode imaginar-se o que isto significa para as grandes marcas alemãs que não podendo já satisfazer a procura chinesa a partir da Alemanha, e penalizados pelos elevados direitos de importação chineses, têm de instalar fábricas na China. E estamos a falar de AUDI A7, Mercedes S, e BMW 7, topos de gama, portanto.
E que dizer da GM envolvida em dramática luta pela sobrevivência? Estará em posição de exigir algo de significativo das autoridades chinesas? Não, claro.
Releve-se também o que se passa com as novas tecnologias. Conhecem-se os esforços dos grandes construtores no domínio da diminuição, ou messmo, independência dos combustíveis fósseis.
O mundo ainda desconhece uma empresa chinesa produtora de baterias para telemóveis, a BYD – Build Your Dreams [18] – que, a partir de 2003 passou a investir na fabricação de automóveis. Em 2008 iniciou a comercialização do primeiro modelo produzido em massa, e em 2009 vendeu mais de 448 mil carros na China. Uma aventura? Não parece, pois em 2008 Warren Buffet, que não costuma desperdiçar dinheiro, investiu 230 milhões US$ por 10% da BYD.
O feitiço e o feiticeiro
Os empresários de todo o mundo, em particular os alemães, queixam-se do plágio e contra-facção chineses.
Nos subsectores atrás citados, os industriais ocidentais continuam a argumentar que as cópias chinesas são mais baratas porque incorporam componentes de qualidade inferior e não respeitam as regras de segurança.
É por demais conhecido o drama dos produtores de software que não vêm respeitados os direitos de autor como pretendem. Nesta indústria, a situação ainda se torna mais difícil pelo facto da legislação chinesa ser bastante diferente da que se aplica em outros países [19].
No entanto, e apesar de todas as lamentações e protestos, os empresários ocidentais hesitam em levar as companhias chinesas a tribunal, por duas elementares razões: não acreditam nos tribunais locais, e temem eventuais represálias.
Terão algum dia coragem e condições para se retirarem do gigantesco mercado chinês?
____________________________________________
NOTAS:
[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-em-guerra-pelas.html
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-e-o-mundo-alemanha-01.html
[3] http://economia.publico.pt/Noticia/desemprego-na-china-afecta-22-por-cento-da-populacao-activa_1455269
[4] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/os-custos-de-producao-na-china.html
[5] Em Junho deste ano, o salário minímo em Pequim passou a ser 960 yuans, um aumento de 20%. Este valor corresponde a cerca de € 114 ou 140 US$, segundo a agência noticiosa Xinhua. http://www1.folha.uol.com.br/mercado/784733-salario-minimo-chines-continua-subindo-em-2010.shtml
[6] Informações recolhidas em Setembro de 2010 em Wikipedia.
Veja aqui: China negoceia a compra de 150 novos Airbus, que pode chegar a 200, no valor de 16 mil milhões de euros: http://www.oje.pt/noticia.aspx?channelid=C32FD067-0BC2-4366-9A04-208E8B2DB854&contentid=FEA9442D-E537-45E4-927D-E8C704FB5CC1
e aqui, o “dia histórico” da entrega do primeiro Airbus A320 produzido na inteiramente na China: http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/8114464.stm
[7] http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1484433-9356,00-CHINA+SUPERA+ALEMANHA+E+E+O+MAIOR+EXPORTADOR+DO+MUNDO.html
[8] http://www.noticiasautomotivas.com.br/justica-grega-diz-que-chines-noble-nao-e-um-clone-do-smart/
[9] http://www.noticiasautomotivas.com.br/bmw-vence-shuanghuan-ceo-nao-podera-entrar-na-alemanha/
[10] http://www.noticiasautomotivas.com.br/huatai-marca-chinesa-faz-um-clone-do-porsche-cayenne-para-o-salao-de-pequim/
[11] http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u363108.shtml
[12] idem
[13] http://www.capitalvue.com/home/CE-news/inset/%4010063/post/1202723
[14] The Economist tem revelado amiúde os valores suportados pelos contribuintes alemães por efeito da aposta de Angela Merkel na energia foto voltaica. http://www.economist.com/node/15213817%3Fstory_id%3D15213817
Apesar do esforço exigido aos contribuintes alemães, que alguns analistas estimam em € 14 biliões ao longo dos próximos 20 anos, só para os investimentos feitos em 2009, hoje já se questiona parar com esta ajuda, talvez por efeito da própria crise económica que afecta a Alemanha.
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5279253,00.html
[15] http://www.greenchipstocks.com/articles/crabs-are-good-for-you/1057
[16] http://www.gstriatum.com/pt/china-cresceu-150-na-producao-de-modulos-solares/
[17] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-alemanha-02.html
[18] http://en.wikipedia.org/wiki/BYD_Auto
[19] http://www.gov.cn/english/laws/2005-08/24/content_25701.htm
Subscrever:
Mensagens (Atom)