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sábado, 16 de outubro de 2010

E quando se acabar o petróleo, comemos o quê?

Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
16 Outubro de 2010

Na sequência da primeira crise do petróleo produziram-se muitos estudos que parece não terem interessado o mundo, em particular os políticos. Recordo por exemplo “Eating Oil” [1], que tão profusamente foi utilizado pela Academia um pouco por todo o lado [2]. Lamentavelmente nada aprendemos com a lição.
Na trilogia “Alterações Ambientais”, que acabei de publicar neste blog, procurei reflectir sobre o “pico do petróleo” e a produção de energia em geral. Visitei duas conhecidas teorias, a Olduvai e a Beyond, e uma obra de ficção “Uma Verdade Inconveniente” que confrontei com “A Ficção Científica de Al Gore”. Em todas encontrei uma certeza – a produção de petróleo começou a declinar e extinguir-se-á dentro de 25 a 30 anos.
Hoje vou debruçar-me sobre a alimentação, ou melhor, sobre os bens alimentares.

A produção

O sistema alimentar nunca esteve tão dependente do petróleo. Chegámos a um ponto completamente irracional e insustentável. Vamos ter de mudar sob pena de resultados catastróficos. Vejamos, para que não subsistam dúvidas sobre a gravidade da situação actual:
• A gasolina e o diesel são indispensáveis para os tractores e outros veículos agrícolas, tanto na plantação como na pulverização, colheita, e transporte;
• As fábricas de alimentos dependem do fornecimento just-in-time de produtos frescos e congelados, e da produção e distribuição de aditivos (vitaminas, minerais, emulsionantes, conservantes, corantes), muitos deles derivados do petróleo, mas todos carentes do petróleo para a sua entrega;
• As embalagens que usamos para disponibilizar os produtos alimentares – caixas, latas, potes - são essencialmente produzidos à base de petróleo, bem como etiquetas, bandejas, tampas, etc.;
• Até nós, para adquirirmos os bens alimentares aos retalhistas, precisamos de petróleo para lá chegarmos.

A distribuição

Mesmo a mais elementar análise ao custo-benefício que envolve colocação de bens alimentares no consumidor e a energia consumida para o efeito, se revela completamente ineficaz.
Atente-se por exemplo num estudo feito no Reino Unido [3], que mostrou que as importações de alimentos e alimentação para animais ascenderam a 83 milhões de toneladas-quilómetro (t-km). Para tal foram necessários 1.6 biliões de litros de combustível, o que significa, numa estimativa conservadora de 50 gramas de CO2 por t-km, qualquer coisa como 4.1 milhões de toneladas de CO2 emitidas [4] [5]. Releve-se que se detecta, de 1978 a 1999, um aumento de 16% nas quantidades transportadas e de 50% nas distâncias percorridas, o que indicia que a globalização tornou o mundo mais plano.
Estes valores tornam-se ainda mais absurdos ao saber-se que em 1997 o Reino Unido exportou 270 milhões de litros de leite líquido e importou 126 milhões. Ou no que se refere a leite em pó exportou 153 mil toneladas e importou 23 mil [7]. Mais ainda, nos últimos 20 anos o Reino Unido duplicou as importações de leite e nos últimos 30 quadruplicou as exportações [8].
E para que não se pense que o negócio do leite é caso único, acrescente-se o que se passou com as aves (importações de 61,400 t dos Países Baixos e exportações de 33,100 t para a Holanda), com os suínos (importações de 240,000 t e exportações de 195,000 t), e com os cordeiros (importações de 125,000 t e exportações de 102,000 t) [9]. Qualquer leigo concluirá sem dificuldade que esta situação é insustentável, ilógica, e bizarra. Só uma fonte energética muito barata a poderia suportar, isto mesmo sem pensar nas emissões de CO2.

O (absurdo) desperdício de energia

Ainda com referência no Reino Unido, um estudo de 2001 [10] verificou que transportar 5 kgs de batatas sicilianas para o Reino Unido (2,448 milhas) significava emitir 771 gramas de CO2. Batatas sicilianas transportadas de avião para o Reino Unido?
Absurdo? Mas verdadeiro, e longe de ser caso único.
Por exemplo, cada caloria de alface importada dos USA para o Reino Unido representa um gasto de 127 calorias no combustível do avião usado no transporte. Como cada caloria de espargos importados do Chile consome 97 calorias de combustível, ou ainda, cada caloria de cenoura importada da África do Sul consome 66 calorias na viagem.
Para que não se pense que estas aberrações estão sempre ligadas ao Reino Unido, que aliás sempre nos habituámos a ver como “desalinhado”, cite-se o que se passa com o negócio de ketchup na Suécia. Uma verdadeira loucura. O que a seguir se relata, resulta dum estudo efectuado pelo Instituto Sueco para a Alimentação e Biotecnologia em 1996 [11]. No seu trabalho, os autores tomaram em consideração os insumos para a agricultura, o cultivo de tomate e a conversão em pasta em Itália, o processamento e empacotamento do colar e outros ingredientes do ketchup, e o armazenamento e retalho na Suécia – num total de mais de 52 etapas de processamento e transporte! Eis algumas revelações surpreendentes:
• Os sacos que os italianos utilizam para o acondicionamento asséptico da polpa de tomate foram produzidos nos Países baixos;
• As garrafas utilizadas no empacotamento, efectuado na Suécia, foram produzidas no Reino Unido, ou na Suécia, com materiais importados do Japão, Itália, Bélgica, USA e Dinamarca;
• As tampas das garrafas, em polietileno de baixa densidade, foram produzidas na Dinamarca;
• Não foram abordadas as questões relacionadas com rotulagem, colas, tintas, etc., obviamente importadas como os restantes componentes.
Este exemplo é demonstrativo da dependência alimentar em que nos encontramos, no que diz respeito a deslocações internacionais. Escusado será relembrar que, na maioria das situações, para os adquirirmos dependemos do combustível usado nos nossos carros para nos deslocarmos aos postos de venda.
Por mais optimistas ou despreocupados que sejamos, isto não é sustentável, nem sensato, e muito menos inteligente.

O (anunciado) fim do petróleo

Quase dois terços das reservas mundiais de petróleo encontram-se no Médio Oriente, em especial na Arábia Saudita, Irão e Iraque [12]. De 1980 a 1998 houve um aumento de 11,2% na produção de crude, de 59.6 para 66.9 milhões de barris diários, situando-se actualmente nos 25 biliões por ano [13]. A aritmética mais elementar leva-nos a concluir que, mantendo-se constantes os níveis de consumo, as reservas de petróleo conhecidas (cerca de 1 trilião de barris) esgotar-se-á por volta de 2040 [14]. Mas o mundo sabia o que se iria passar – as crises petrolíferas de 1970, 1980 e 1991 foram claras, não deixando margem para dúvidas [15].
Antes de se extinguir, o petróleo irá rarear, e aumentar de preço. O aviso solene, para os mais desatentos, foi feito ainda no século passado [16]. As arenas mais consumidoras de petróleo continuam, dir-se-á agora passados mais de 13 anos após a obra de Campbell, a alimentação, os transportes e o aquecimento. Dentro em breve, estas três áreas irão competir pela matéria-prima comum que utilizam.
Quem irá sofrer em primeira instância? Os países mais pobres. Quem haveria de ser, afinal?
Iremos passar por uma crise inevitável de alimentação? Sem rodeios apelidada de fome mundial generalizada?
É bem provável. Mas não é inevitável.

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NOTAS:

[1] Green, B. M. (1978): Eating Oil - Energy Use in Food Production, Westview Press, Boulder, CO.
Artigo também muito interessante e detalhado em: http://www.sustainweb.org/pdf/eatoil_sumary.PDF
[2] Por esta chave de busca (eating oil) encontram-se com facilidade, na rede, centenas de trabalhos académicos e jornalísticos bem esclarecedores.
[3] O Reino Unido é um caso bem peculiar, visto as importações e exportações de bens alimentares recorrerem a meios terrestres, marítimos e aéreos.
[4] Os dados para transportes aéreos e marítimos podem ser encontrados em Guidelines for company reporting on greenhouse gas emissions. Department of the Environment, Transport and the Regions: London, March 2001.
Os dados para camiões podem ser encontradas em
Whitelegg, J. (1993): Transport for a sustainable future, the case for Europe, Belhaven Press, London
e em
Gover, M. P. (1994): UK petrol and diesel demand, energy and emission effects of a switch to diesel. Report for the Department of Trade and Industry, HMSO, London
[5] Estima-se [6] que a emissão de CO2 imputável à produção, transformação e distribuição dos alimentos consumidos por uma família inglesa de 4 pessoas seja cerca de 8 toneladas por ano
[6] BRE (1998): Building a sustainable future, General information report 53, energy efficiency best practice programme, Building Research Establishment, Garston, UK
[7] Lobstein, T. and Hoskins, R. (1998): The Perfect Pinta, Food Facts No. 2, The SAFE Alliance
[8] FAO (2001): Food Balance Database. 2001, Food and Agriculture Organisation, Rome em www.fao.org
[9] Campbell, Colin J. (1997): The Coming Oil Crisis. Multi- Science Publishing Co. Ltd
[10] Com base em dados da UKROFS e de um inquérito efectuado em supermercadis de Junho a Agosto; nas tabelas de distâncias para milhas aéreas em www.indo.com/cgi-bin/dist; e ainda no impacto ambiental dos fretes aéreos em Guidelines for company reporting on greenhouse gas emissions. Department of the Environment, Transport and the Regions, London, March 2001
[11] Andersson, K. Ohlsson, P. and Olsson, P. (1996): Life Cycle Assessment of Tomato Ketchup, The Swedish Institute for Food and Biotechnology, Gothenburg.
[12] EIA (2001): World Oil Market and Oil Price Chronologies: 1970 – 2000. Department of Energy’s Office of the Strategic Petroleum Reserve, Analysis Division, Energy Information Administration, Department of the Environment, USA, também disponível em www.eia.doe.gov
[13] Green Party USA (2001): World crude oil reserves – Statistical information. Based on data from the Oil and Gas Journal and the Energy Information Agency. Também disponível em http://environment.about.com/library/weekly/aa092700.htm
[14] Medea, European Agency for International Information (2001): Oil Reserves. Também em http://www.medea.be/en/
Fleming, David (2001): The Great Oil Denial, Submission to the UK Energy Review, ou em
http://www.cabinetoffice.gov.uk/innovation/2001/energy/submissions/Fleming
Para um pouco mais de detalhe acerca da evolução na produção de petróleo: http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/alteracoes-ambientais-parte-1-de-3.html
http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/alteracoes-ambientais-parte-2-de-3.html
http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/alteracoes-ambientais-parte-3-de-3.html
[15] EIA (2001): op. cit.
[16] Campbell, Colin J. (1997): op. cit.

domingo, 10 de outubro de 2010

Alterações Ambientais (parte 3 de 3)

Petróleo, População, Novas Fontes de Energia
O Ficcionismo de “Uma Verdade Inconveniente”


Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
10 Outubro de 2010

A terminar a trilogia “Alterações Ambientais”, e como prometido, chegou a hora de abordar o romance de ficção “Uma Verdade Inconveniente” (UVI) [1] que Al Gore [2] publicou com tanto êxito, que até lhe valeu o Nobel da Paz de 2007. Pode gostar-se ou não do estilo literário do autor, mas o conteúdo, esse é facilmente contestável sob o ponto de vista científico. Foi o que Marlo Lewis Jr, PhD [3] fez na sua obra “A Ficção Científica de Al Gore” [4], utilizada aqui como referência sistemática.
Marlo Lewis Jr. desmonta ponto por ponto as principais mensagens alarmistas de AL Gore, mostrando como elas não passam de interpretações especulativas de fenómenos que podem não ter a origem antropogénica que Gore lhes atribui, chegando mesmo a afirmar que algumas são falsas. Da capa de “A Ficção Científica de Al Gore” consta: “As alterações climáticas resultam de ciclos naturais em que o ser humano tem pouca ou nenhuma influência. As consequências catastróficas imputadas à acção do Homem pelos propagandistas do aquecimento global não têm fundamento científico” [5].
Ninguém ousará negar que a actual dependência energética nos países desenvolvidos é uma questão premente. Veja-se por exemplo, como a Europa tem de inverter a perigosa dependência em que se encontra: A Irlanda importa 90.9% da energia que consome, a Itália 86.9%, Portugal 83.1%, Espanha 81.4%, Alemanha 61.9%, França 51.4%, Reino Unido 21.8%. A Dinamarca produz mais 36.8% do que consome. [6] Até sob o ponto de vista de segurança esta situação é muito perigosa.
Lewis aborda e desmonta mais de uma centena dos mais emblemáticos cavalos de batalha de Gore. Aqui se citam algumas consideradas como as mais convenientes para abordar as lutas internacionais que se avizinham.

As cíclicas oscilações térmicas do planeta

Contrariando o alarmismo dos catastrofistas, Gore incluído, Lewis estuda o passado longínquo mostrando que as oscilações térmicas da Terra têm sido cíclicas e, acima de tudo, naturais.
Os “Períodos Quentes”, com temperaturas superiores às que hoje estamos a verificar ocorreram entre 8000AC e 3000AC (Óptimo Climático Holoceno), 200AC a 50DC (Período Quente Romano), e 800DC a 1300DC (Período Quente Medieval). Os “Períodos Frios”, deram-se entre 1350AC e 1250AC (Óptimo Climático Idade do Bronze), 100DC a 700DC (Período Frio Idade das Trevas), e 1350DC a 1850DC (LIA – Little Ice Age). Como se observa, as altas temperaturas alternaram com as baixas, de forma cíclica. [7]
Questiona-se, então: Porque ignora Gore tão importantes dados? Não acompanham as suas teorias que atribuem ao homem e à combustão fóssil todos os males?
Idêntico raciocínio se aplica quando Gore pretende demonstrar que as neves do Kilimanjaro estão a derreter de forma irreversível devido ao aquecimento global do planeta (sempre e só com origem nas emissões de CO2). Ora, Lewis apresenta registos que mostram que a dita liquefacção constante e acelerada a que Gore se refere, não corresponde à realidade: Em 1950 o Kilimanjaro perdera 45% das neves em relação a 1900. Nesse período verificou-se um aquecimento do ar na zona. Contudo, de 1953 a 1976, numa altura em que as temperaturas desceram, voltou a verificar-se uma diminuição de 21% no volume total das neves. De 1976 a 2000, de novo debaixo de um aquecimento do ar, as neves voltaram a recuar 12%.
É patente o recuo das neves do Kilimanjaro, mas não se pode afirmar que essa perda seja acelerada, como Gore afirma. Tão pouco se pode dizer que este fenómeno se deva a gradual aquecimento global, que não se tem verificado. Lewis defende que o recuo das neves coincide com a mudança de ar húmido para ar seco que se verificou em toda a zona, que as levou a retraírem-se e não a fundirem-se. [8]

Calamidades naturais

Muita especulação e inverdades se encontram nas citações de Gore sobre as calamidades naturais que assolam a Terra de forma cada vez mais persistente a avassaladora. Eis o que Lewis revela e Gore ignora [9]:
• Desde 1950 que os tornados que afectam os USA (Gore refere-se principalmente aos USA em UVI) estão a diminuir. Se as consequências têm sido mais graves, isso deve-se a factores socioeconómicos, em especial a concentração das populações junto às costas e a falta de respeito pelas mais elementares regras de prevenção e segurança;
• O número de mortes devido a calamidades naturais (tornados, secas, e inundações) diminuiu 95% em relação a 1920 [10];
• As maiores secas nos USA ocorreram na segunda metade do século e em 1930, não nos anos mais recentes [11].
Também não corresponde à realidade, e só o oportunismo e o alarmismo podem justificar, que Gore defenda que o nível das águas dos oceanos esteja a subir a níveis assustadores. Eis o que Lewis revela [12]:
• O nível das águas dos mares subiu cerca de 1 mm por ano no século XX;
• Não é o Tamisa que está a subir, é Londres que se está a afundar – 60 cm no século XX;
• É verdade que o glaciar WAIS está a perder massa, mas também é verdade que o EAIS está a ganhar massa. Gore refere o primeiro e omite o segundo. No cômputo geral a Antárctida reduziu 0.09 mm por ano [13];
• É verdade que a Gronelândia está a recuar, mas é preciso dizer que a perda de 101 gTon, verificada entre 2003 e 2005, corresponde a um recuo de 2.8 cm por século [14]. Note-se que a perda de massa (água doce muito fria) no Árctico resulta em alteração considerável na Circulação Termohalina afundando mais tarde as correntes superficiais quentes que provêem do Pacífico Norte dirigindo-se para o Atlântico Norte junto às costas continentais [15].

Assim sendo

Coloca-se outra vez a questão: o que leva Gore a omitir informações tão importantes e a utilizar argumentos sem sustentação científica?
O objectivo da trilogia de artigos “Alterações Ambientais” não era travar a discussão sobre o possível aumento de temperatura do planeta. Nem debater sobre o efeito de estufa pela emissão de CO2. Estes artigos não visavam discussões técnicas. Tão pouco colocar Al Gore e os alarmistas do perigo ambiental em cheque.
Estes artigos foram escritos como contribuição para o melhor entendimento das guerras que se irão travar pelo acesso ao petróleo e outras fontes de energia, que irão fatalmente escassear à medida que as reservas forem diminuindo, e os países subdesenvolvidos forem tendo cada vez maiores necessidades energéticas. Em particular há que estar atento à forma como os países emergentes irão desenvolver as suas economias, a fim de alcançarem o bem-estar dos países desenvolvidos. No fundo, como ratear o que começa a escassear.

Nota final

A Caleidoscópio editou em 2008 outro interessante e sério trabalho intitulado “A mentira do Aquecimento Global – Mito ou Ciência?”, da autoria de Roy Spencer. Como síntese: “A terra não é um planeta frágil mas resiliente”. O autor defende que o sistema climático da Terra não é tão sensível às emissões de gás e ao efeito de estufa como muitos cientistas pensam. Vale a pena lê-lo.
Se o entusiasmo continuar, não percam também “O Mundo é Plano – Uma História Breve do Século XXI” (2007) e “Quente, Plano e Cheio” (2008), ambos de Thomas L. Friedman, editados pela Actual Editora. Numa perspectiva diferente, são obras igualmente fascinantes.

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NOTAS:

[1] Publicado em Portugal (2007) pela Gradiva, numa versão de 192 páginas para jovens, apoiada pela CGD. Uma versão integral data de 2006, tem 328 páginas e foi editada pela Manole, Brasil. Aqui para download: http://yesfilmes.org/2008/10/download-uma-verdade-inconveniente.html (cuidado: solicita o número do seu TM)
[2] Al Gore, jornalista de profissão, foi Vice-Presidente de Bill Clinton. Perdeu a campanha de 2000 para George W. Bush. O seu primeiro livro foi “A Terra em Balanço” (1993). Tornou-se um mediático ecologista.
[3] Marlo Lewis Jr é PhD em Governo (Harvard) e BA em Ciências Políticas (Claremont McKenna). Desempenha funções de Senior Fellow no Competitive Enterprise Institute
[4] Almedina (2008), 1ª edição, Bnomics
[5] Comenta Lewis que: “Al Gore tornou-se o representante de uma corrente alarmista que tenta condicionar as consciências dos cidadãos, jornalistas e políticos”
[6] El Pais, cit in Sábado n. 239, Nov 2008, p. 18
[7] Marlo Lewis Jr. (2008): A Ficção Científica de Al Gore, Cap. 2 – Os Glaciares de Montanha, Booknomics, p.p. 29-40
[8] op. cit., p.p. 29 - 31
[9] op. cit., p.p. 57 – 67
[10] op. cit., p. 211, Fig. 40, citando Goklany. Ver também op. cit., p. 204, Fig.29 (fonte: World Climate Report (2003), e Figs. 32 a 39, op. cit., pags206 a 210
[11] op.cit., p. 78
[12] op. cit., p.p. 117 - 134
[13] Lewis apresenta registos gráficos destes dados nas Figs. 68 e 69 p. 226 (op. cit.), citando como fontes, respectivamente, Velicogna e Wahr (2006) e Davis et al. (2005)
[14] A Gronelândia nos anos 1920 e 1940 era tão ou mais quente do que na década passada (Lewis 2008, p. 216, Fig 49), citando Chylek et al (2006)
[15] A corrente profunda fria da Circulação Termohalina parte do Atlântico Norte para o Pacífico Norte passando junto da Antárctida. Qualquer alteração neste circuito produzirá efeitos na flora e fauna dos oceanos e na Corrente Quente do Golfo que é ao grande estabilizar do clima no Hemisfério Norte. Ver esquema da Circulação Termohalina em Lewis (op.cit.) Fig. 53, p.218.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Alterações Ambientais (parte 2 de 3)

Petróleo, População, Novas Fontes de Energia
A Teoria “Beyond”


Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
07 Outubro de 2010

No artigo anterior Alterações Ambientais (parte 1 de 3) apresentei a colecção dos três textos previstos e abordei a Teoria Olduvai, ou do Declínio Terminal Eminente, cujo autor Richard C. Duncan, engenheiro e MS em energia eléctrica e PhD em engenharia de sistemas, defende. Como referi, de acordo com este autor o futuro próximo será catastrófico, se a humanidade não inverter os hábitos e a dependência energética concentrada no petróleo, carvão, e electricidade tradicional.
A perspectiva Beyond, da autoria dos PhD Mario Raich PhD e Simon Dolan também não é animadora. Debruça-se, no essencial, no crescimento incontrolado da população e nos efeitos sobre a humanidade e o planeta.

“Beyond”, ou Para Além da Zona de Conforto

Tive o prazer de assistir a uma conferência dos PhD Mario Raich e Simon Dolan em Lisboa [1]. Não conhecia estes autores que me surpreenderam pela coerência e pela objectividade. De facto, as suas intervenções não são muito optimistas no que respeita ao futuro que nos espera se persistirmos nos mesmos erros. As suas preocupações focalizam-se no crescimento incontrolado da sociedade humana e na incapacidade da Terra suportar esta pressão dentro dos actuais padrões de vida.
Em resumo, quais são as principais preocupações destes autores?
• Temos um estilo de vida insustentável
• Crescemos a 80 milhões pessoas / ano (uma nova Alemanha todos os anos)
• 90 % dos 1.5 mil milhões de jovens vivem em países em vias de desenvolvimento
• Iremos ter 50 milhões de desalojados nas próximas décadas, só por causa de inundações
• Enfrentaremos novas guerras e terrorismo
• Já ultrapassámos o “Pico do Petróleo” (Duncan afirma o mesmo, como relatado no artigo anterior)
• Precisamos de 15 mil milhões de euros para infra-estruturas (verba irrisória se comparada com o valor calculado por estes autores para reforçar a rede eléctrica mundial usando a tecnologia actual – 60 triliões de US$ até 2030 [2] )
• Vivemos um urbanismo insuportável (mil milhões de pessoas vivem em bairros degradados)
• A nossa vida é uma “Realidade virtual”

O quadro não é animador, e o discurso de Mario Raich segue a mesma linha - não é confortável ouvi-lo, o que não é de espantar pois o próprio considera a sua mensagem como “para além da zona de conforto”. Eis o que M Raich identifica com as grandes origens dos problemas actuais:
Demografia ► Deterioração Ambiental ► Migração ► Conflitos ► Pobreza
Note-se que alguns destes passos podem ser ultrapassados, alcançando-se o fim da linha de forma mais rápida e contundente. O resultado final é sempre o mesmo – insustentabilidade.
Detalhando um pouco, os autores observam que de acordo com os relatórios da UN [3]:
• Em 2005 existiam 200 milhões de migrantes;
• 1/3 destes eram migrantes sul-sul, o que é surpreendente;
• As UN calculam que dentro de 45 anos possam existir 2.2 milhões de migrantes dos países subdesenvolvidos para os países desenvolvidos;
• Destes cerca de 1.1 milhões poderão tentar migrar para os USA.
É claro que poderá argumentar-se que se não for assim, os países desenvolvidos terão de abandonar o actual conceito de estado social e outros institutos que se baseiam na colecta de impostos directos sobre o trabalho. E também não se podem negligenciar as remessas que esses migrantes canalizarão para os seus países de origem. No seu conjunto, em 2004, os países subdesenvolvidos captaram 130b US$ em investimentos externos e receberam 160b US$ em receitas dos seus emigrantes [4].
Como consequências mais gravosas destes fenómenos, salientam-se [5]:
• Procura crescente de proteínas, o que implica excesso de gado em pastagens escassas e consequente destruição de áreas florestais, para além de acréscimo significativo nas emissões de CO2;
• Produtividade e mobilidade acrescidas, com inerentes aumentos da temperatura ambiente;
• Degradação do cultivo das terras, pela procura acrescida de trabalhos urbanos, e consequentes migrações internas e externas;
• Aumento e concentração das populações, que contribuirão para a escassez de recursos:
• Maior esperança de vida, o que implicará populações cada vez mais envelhecidas e novos problemas no financiamento dos Estados.
Face a tão dura realidade e rejeitando qualquer hipótese das sociedades prosseguirem insistindo exclusivamente em valores materiais, Beyond propõe-nos um mundo novo centrado nas pessoas numa perspectiva holística.
A primeira camada de valores a colocar em torno das pessoas, funcionaria como filtros com a envolvente, a saber: Valores Emocionais, Valores Espirituais, Valores Éticos, e Valores Económicos. Seria este conjunto estruturante, que, através das suas ligações todos-a-todos, asseguraria o equilíbrio dos vectores dominantes no mundo novo: a Família e os Amigos, a Educação e o Desenvolvimento, a Filantropia e a Caridade, a Cultura e a Arte, o Trabalho e o Negócio, a Sociedade e a Política. [6]
Pode parecer um modelo demasiadamente vago, utópico até. Mas uma proposta de clivagem com as sociedades actuais, tem de ser suficientemente genérico para ser abrangente e reunir valores que não sejam rejeitados de imediato.
Gosto da mensagem, e penso que vale a pena encará-la com seriedade. Por isso a trago aqui com este detalhe. Julgo que ela poderá ajudar a:
• Purificar o ar, melhorar a qualidade das águas, e assegurar alimentação para todos sem aumentar a degradação do ambiente;
• Proteger os ecossistemas;
• Reduzir as emissões de CO2;
• Limitar a corrida às armas de destruição massiva;
• Explorar correctamente as nano e biotecnologias, e outras tecnologias emergentes;
• Limitar as guerras por recursos básicos, como a água potável;
• Conviver com o mundo virtual;
• Controlar as migrações em massa;
• Construir um mundo verde.
Releve-se que, partindo de enfoques distintos, as Teorias Olduvai e Beyond apresentam de comum: (1) leituras preocupantes da realidade actual; (2) perspectivas sombrias do futuro próximo; (3) urgência na tomada de decisões fracturantes sobre o nosso modo de vida colectiva; (4) recusa no aproveitamento simplista de fenómenos da natureza imputáveis a factores antropogénicos.
Considero particularmente interessante o estudo conjunto destas duas Teorias – Olduvai e Beyond.

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NOTAS:

[1] Mario Raich é um distinto pensador do futuro. Da sua actividade profissional destacam-se Visiting Professor (HEC, Paris), Visiting Professor (ESADE Graduate School of Business, Barcelona), GSM da Educatis University (Altdorf), Associate Professor e Founding Director do Institute for Strategic Innovation.
Simon Dolan, por muitos considerado utópico, insiste em que a sua preocupação se chama sustentabilidade. S Dolan é Doctor of Philosophy (Organizational ychology/Behaviour & Administration (University of Minnesota), Master of Arts (IR/Human Resource Management (University of Minnesota), M.A. Human Resource Management (Tel Aviv University), M. Sc. in Organizational Behavior (Tel Aviv University), e B.A. Labour Studies (Tel Aviv University).
Em conjunto editaram Beyond – Negócios e Sociedades em Transformação, 2008, Lisboa, Bnomics – Almedina, uma obra que dá gosto estudar e apreciar.
[2] Como referência, o PMB (Produto Mundial Bruto) em 2006 foi 67 triliões de US$ - Raich, M e Dolan S (2008): Beyond, pp. 99-114, pp. 120-125, Bnomics, Almedina
[3] op. cit. , p62
[4] op. cit. , p62
[5] op. cit. , p62
[6] op. cit. , p128

Alterações Ambientais (parte 1 de 3)

Petróleo, População, Novas Fontes de Energia
A Teoria Olduvai


Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
05 Outubro de 2010

Enquadrando o tema

A ninguém passam despercebidas as alterações ambientais que estão a afectar o planeta. Deixamo-nos levar pelas notícias que inundam os média sem nos debruçarmos com um pouco mais de profundidade sobre o tema. Os jornalistas estão a fazer o que a sua profissão exige – que vendam – e todos sabemos que são as caixas rápidas, sintéticas, e dramáticas as que recolhem mais dividendos. Por isso, esses profissionais especulam com tanta persistência, ultrapassando questões éticas e deontológicas que dizem pautar as suas actuações. Mas não são só eles. O negócio é rentável e atrai famosos do chamado jet-set que, a mais das vezes, nada têm a ver com o assunto. É o caso de Al Gore, o mediático perdedor da política (alusão que utiliza para quebrar o gelo das suas palestras), que delicia multidões de desinformados que adoram assistir às suas palestras e ler os seus romances de ficção.
Negócio é negócio, e as oportunidades são para aproveitar. Decência e pudor não rendem fortunas.
Esta colecção de três artigos, intitulada genericamente Alterações Climatéricas, tentará mostrar que muito do que se diz e escreve sobre o tema não beneficia de suporte histórico nem científico – por vezes não passam de mera especulação, supostamente suportada em factos citados como reais, mas que não passam de descrições parcelares da verdade.
Nas duas primeiras partes abordam-se duas teses empiricamente justificadas - a Teoria Olduvai e a Teoria Beyond. Na terceira parte tentar-se-á divulgar um interessante estudo que visa desmontar a pretensa validade das teses catastrofistas e oportunistas duma série de ficcionistas, cuja face mais mediática é Al Gore, o ex-candidato à Presidência dos USA, “título” com que se apresenta ao seu dedicado, e normalmente desinformado, público.
No fundo, estes três artigos procuram, ainda que de forma simplificada, recolher as propostas que os autores seleccionados adiantam para as seguintes questões relacionadas com as alterações climatéricas, e em particular o designado aquecimento global: (1) Estaremos perante uma catástrofe natural incontrolável? A enfrentar um período de aquecimento global cíclico suportável? Ou face a uma estratégia de desenvolvimento errada, mas que ainda é reversível?
Avancemos, então.

A Teoria Olduvai

Também conhecida por Teoria do Declínio Terminal Eminente foi desenvolvida por Richard C. Duncan, MS em Energia Eléctrica e PhD em Engenharia de Sistemas [1]. Este autor debruça-se essencialmente sobre a questão do crescimento descontrolado da humanidade, reflectindo sobre cenários alternativos para o crescimento da população e sua sustentabilidade.
Baseado em dados dum estudo efectuado em 2004 pelas UN [2]:
• Numa previsão em baixa, a população mundial, que actualmente ronda os 6.7 biliões de pessoas, crescerá até cerca de 8b por volta de 2025, iniciando uma inversão de crescimento a partir de 2050, podendo vir a ser em 2100 cerca de 5.5b, baixando em 2150 para cerca de 4.5b, para atingir em 2300 entre 2.5b a 3b;
• Duas outras perspectivas, designadas como média e crescimento nulo, apontam para aumento progressivo até 10b por volta de 2100, mantendo-se então constante até 2300;
• Finalmente, na visão em alta, considerada como pessimista, prevê-se um aumento sistemático para 10b em 2050, 14b em 2100, 17b em 2150, 21b em 2200, 27b em 2250, e 36b em 2300.
Recorrendo a estudos de curto prazo, este autor analisa [3] o que poderá acontecer até 2050, estudando dados registados desde 1950 (em 1950 a população mundial rondava 1.8b, em 1975 cerca de 4b, e em 2000 era 6b):
• O estudo Meadows [4] aponta para crescimento até 6.9b por volta de 2020, atingindo um pico de 7.5b em 2025, iniciando uma queda para 6.5b em 2050;
• O estudo do USA Census Bureau [5] prevê idêntica evolução ao anterior até 2020. Este pico de 6.9b será o ponto de inflexão, a partir do qual se conhecerá um retrocesso para pouco mais de 5b em 2025, e uma queda tremenda para menos de 2b em 2050.
Face a estas informações, Richard C. Duncan prevê que por volta de 2012 se comecem a verificar blackouts energéticos permanentes um pouco por todo o mundo, que farão cair, por volta de 2030, os consumos efectivos de energia para valores semelhantes aos de 1930. Uma catástrofe de incalculáveis consequências, se nada for feito para evitar esta tendência [6]. Recorde-se que em 1930 o consumo de energia (medido em boe = barril of oil equivalent) per capita per year era 3.32, tendo atingido o pico em 1979 com 11.15 boe/c/year. [7] Tal significaria, por outras palavras e em consumos de energia como a conhecemos um retrocesso de cem anos!
A partir de 1992, Duncan alargou os estudos a outras fontes energéticas, nomeadamente ao petróleo, prevendo que a partir de 2007 este entraria em declínio acelerado até à extinção (a nota [8] é fundamental para se perceber o raciocínio de Duncan), precipitando a humanidade numa catástrofe malthusiana que conduziria ao desaparecimento da maioria da população ainda dentro do século XXI. Esta é a explicação para a previsão em baixa das UN atrás referida.
Como homem de ciência que é [9], Richard C. Duncan não se limita a dramatizar sobre o que receia poder vir a ser o futuro. Olha para a realidade e questiona porque não se envereda pelas soluções mais óbvias, aproveitando o petróleo enquanto existe, mas começando imediatamente a construir alternativas.
O quadro seguinte, mostra o potencial de uma das fontes de energia mais limpa que se conhece, e que não parece vir a esgotar-se em poucos anos.
Decomposição da energia emitida pelo Sol, em TeraWatts [10]:
• Emitida para a Terra – 178,000
• Imediatamente reflectida para o espaço – 53,000
• Absorvida e reflectida na forma de calor – 82,000
• Usada na evaporação de água (clima) – 40,000
• Capturada para fotossíntese (plantas) – 100
• Total usado pela Humanidade – 10
• Total usado pela sociedade USA – 2.5
A conclusão é tão óbvia que Duncan nem se preocupa em perder tempo a argumentar sobre ela. Apresenta-a. Tamanha evidência ainda não é suficiente para desalojar interesses instalados? O que é que falta, afinal?
Longe, muito longe mesmo, de descrever toda a riqueza da Teoria Olduvai, cujo aprofundamento se recomenda, este artigo visou revelar a visão de futuro nada risonho que o seu autor tem sobre o tipo de sociedade que desenvolvemos, aparentemente baseada na ideia de que os recursos do planeta são ilimitados.
Todos sabemos que isto não é verdade. Receamos, de facto, que o planeta um dia nos mostre os erros que estamos a cometer. Mas, no fundo, parece que mantemos uma velada esperança de que não tenhamos razão.

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NOTAS:

[1] Richard C. Duncan (2005) fundou o Institute on Energy and Man, 5307 Ravenna Place, NE, #1, Seattle, WA 98105. Pode encontrar muito completa informação sobre população, energia, petróleo, e a própria Teoria Olduvai em: http://www.dieoff.org./ e http://www.thesocialcontract.com/pdf/sixteen-two/xvi-2-93.pdf
[2] http://www.un.org/esa/population/publications/longrange2/2004worldpop2300 reportfinalc.pdf
[3] Duncan (2005): The Social Contract 2005 -2050. Em http://www.thesocialcontract.com/pdf/fifteen-three/xv-3-173.pdf, Duncan apresenta um estudo muito interessante sobre o pico na produção mundial de petróleo e suas implicações.
[4] Meadows et al (2004): Limits to Growth, The 30-year update. Interessante artigo sobre desenvolvimento e produção de petróleo aqui: http://www.independent.org/pdf/tir/tir_12_04_3_marxsen.pdf
[5] USCB (2004) 1950 – 2004
[6] Desenvolvimento em http://www.greatchange.org/ov-duncan,road_to_olduvai_gorge.html, elucidativa ilustração na Fig. 4 deste URL
[7] Para mais detalhada informação sobre
Energia: Romer (1985): Energy Facts and Figures, Amherst,MA: Spring Street Press BP (2006): BP statistics review of world energy, June 2006, www.bp.com
População: USCB (2006): Total Midyear Population, www.census.gov UN 2006): World Population to 2030, www.un.org
[8] Em 2006 o consumo global de energia repartiu-se da seguinte forma: Petróleo 35.43%, Carvão 28.15%, Gás Natural 23.46%, Electricidade Hídrica 6.27%, Electricidade Nuclear 5.79%, Eólica + Geotérmica + Biomassa + Solar 0.86%, Geotérmica + Biomassa + Solar não usada para electricidade 0.05%. http://edro.files.wordpress.com/2007/11/world-consumption-2006-abc.png http://edro.wordpress.com/energy/286w/
[9] Richard C. Duncan é engenheiro especializado em questões de energia. Alguns autores acham que ele não é um verdadeiro cientista, mas tão só um técnico qualificado. De facto, não consta que alguma vez ele se tenha dedicado à investigação em exclusividade. Duncan é Mestre em Energia Eléctrica e Doutor em Engenharia de Sistemas.
[10] www.hubertPeak.com/debate/oilcalcs.htm

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A estratégia económica chinesa ensaia a mudança e o mundo aguarda impaciente

A estratégia chinesa para o yuan, as matérias-primas, e a energia, sem esquecer o importante papel das forças armadas no cenário internacional, foi abordada em artigo anterior [1]. Também as relações entre a China e a Alemanha, e em particular o perigo da recuperação alemã demasiadamente dependente do “milagre económico chinês” já foram alvo de análise neste espaço [2].
Hoje, a reflexão incide na mudança estratégica que se parece vislumbrar na China. Num país onde o crescimento económico tem sido tão significativo e por tão longo período de tempo, uma mudança estratégica não tem só repercussões internas, interessa e afecta todo o mundo.
Visitemos, então, algumas áreas cruciais, estruturantes mesmo, onde se podem observar importantes opções estratégicas. Na China nada é deixado ao acaso, tudo é planeado. Quem pensar o contrário, não pode estar atento.

A tentativa de enterrar a imagem dos “baixos salários”

Durante décadas a China permitiu, ou fomentou mesmo, a imagem de país onde a mão-de-obra era abundante e barata.
Que é abundante ninguém duvida, pois a China conta com 1300 milhões de habitantes, dos quais 1000 milhões constituem a população activa. Daqui se infere que 300 milhões se encontram desempregados, cerca de 22% [3]. Não corresponde à realidade pensar que se trata unicamente de pessoas que não encontraram ainda ocupação. Muitos destes desempregados perderam, de facto, os seus postos de trabalho fruto de alterações importantes no tecido laboral [4]. Além disso, as autoridades chinesas terão também, e no curto prazo, de encontrar solução para cerca de 100 milhões de trabalhadores rurais que querem reconverter em urbanos.
Mas o esforço de actualização salarial no país é real [5], embora em média os rendimentos do trabalho continuem muito baixos quando comparados com os seus concorrentes e parceiros. Como referência, relevem-se os seguintes valores:
PIB (em triliões de US$): China – 8.791; UE – 14.953; USA – 14.256; Brasil – 1.995; Índia – 2.965; Rússia – 4.406.
PIB per capita (em US$): China – 6500; UE – 28213; USA – 46381; Brasil – 10296; Índia – 2972; Rússia – 15947. [6]
Para facilitar a comparação, os valores para Portugal são 233.4 mil milhões e 21800 US$, respectivamente.

Da produção em massa à qualidade e à especialização

Em 2009 a China ultrapassou os USA e a Alemanha em volume total de exportações. Segundo informações do próprio Departamento de Estatísticas da Alemanha, as vendas chinesas atingiram no ano passado 1.201 triliões de US$, enquanto que as exportações alemãs se ficaram pelos 1,121 triliões. Para se avaliar o que isto significa, diga-se que nos últimos 20 anos, as exportações chinesas aumentaram 20 vezes. Uma profunda preocupação para os alemães [7], dado que ninguém espera que esta tendência se inverta, nem que a Alemanha, ex-primeiro exportador mundial, recupere a posição perdida.
Mas a luta entre alemães e chineses não se resume aos montantes totais, desenrola-se violentamente batalha a batalha, mercado a mercado, produto a produto. Vejam-se, por exemplo, os seguintes casos ocorridos em 2009, só na indústria aumtomóvel:
- A justiça grega decide que o pequeno utilitário Noble não é um clone do famoso Smart, uma joint venture da Daimler e da Swatch, como a Mercedes pretendia [8];
- A BMW entrou com uma acção em tribunal para proibir a venda na Alemanha do SUV Shuanghuan CEO, alegando que se tratava dum clone do modelo X5 da marca alemã. Ganhou, mas não conseguiu parar as vendas do modelo chinês na Grécia e Itália, como pretendia [9];
- A Porsche viu-se confrontada no Salão Automóvel de Pequim com um clone do modelo Cayenne, produzido na China pela empresa Huatai, a um preço muito inferior. E não chega que os alemães afirmem que a qualidade e a segurança não se comparam com as do modelo original. Os compradores não se regem sempre pelos mesmos valores [10].

Em busca da ocupação de nichos

Os mercados de nicho, dadas as suas características de grande concentração de recursos, exigem estratégias muito peculiares tanto de defesa como de ataque. Os mercados ecológicos não podem ser apelidados de nicho na verdadeira acepção do termo, mas, em termos estratégicos, assemelham-se.
Proponho que nos debrucemos sobre três vertentes dessa tão actual participação com inequívoco impacte no terreno da Responsabilidade Social Comunitária: A Energia, em particular o aproveitamento da energia solar, e os Transportes, no sub-sector automóvel.
Até agora, em qualquer destes campos, a China tem-se destacado pelo recurso às tecnologias e meios de produção mais rentáveis, que não respeitam, como é conhecido, as recomendações das organizações ecologistas. Em particular relevo, encontra-se a produção de energia a partir de combustíveis fósseis, onde o carvão assume papel de negativo destaque, sabendo-se que o carvão representava em 2007, 70% da energia consumida no país [11]. Mesmo assim o governo chinês pôs em prática um agressivo plano para reduzir o impacte desta situação, mesmo em termos de segurança dos trabalhadores dessas minas (4,700 mortes só em 2006) – no dia 14.01.2008, um domingo, as autoridades anunciaram ter encerrado mais de 11,115 pequenas minas no país [12]. Apesar destas notícias, que foram bem recebidas pela comunidade internacional, continuam a surgir mensagens contraditórias que apontam no sentido da intensificação da exploração de carvão em super-minas, num plano que visa a abertura de 2º grandes minas até 2015 [13].

A energia solar

É consensual a ideia de que a exploração da energia solar é solução de futuro. Vários países, como Portugal p.e., anunciaram incentivos aos privados que optem pela instalação de soluções individuais deste tipo. Na Alemanha e no Japão, em particular nos casos da Siemens e da Sharp, os governos instituiram consideráveis apoios para que estas empresas apostassem no desenvolvimento de centrais fotovoltaicas [14], capazes de produzirem energia limpa em quantidade para justificar o interesse de outras indústrias na sua utilização. Gerou-se mesmo a ideia de que estas empresas estariam no topo destes investimentos. Esta é, contudo, uma parte da verdade – a indústria alemã está a deslocalizar esta produção para a China. A Alemanha continua responsável por cerca 50% das instalações de energia solar mundial, mas é a China que produz 50% dos produtos que alimentam esta indústria [15], e parece estar cada vez mais agressiva nesta investida [16].
Até parece que enquanto os países ocidentais continuarem a subsidiar as instalações de paineis solares, a produção chinesa, que exporta 70% do que fabrica, continuará a ser um “negócio da china”.

O sector automóvel

A China é um mercado muito importante para as exportações de carros de todo o mundo, em particular da Alemanha, onde a Audi, Mercedes, e BMW, continuam a alimentar a sede de luxo das novas classes com posses no país, e a VW encontrou um imenso filão no abatecimento de viaturas para a polícia e táxis, como refri em artigo anterior [17].
Mas a China, como já salientei no artigo que mesmo agora citei, já não se limita a ser a fábrica do mundo. Quer mais, aposta em joint-ventures como contrapartida negocial. Digamos que é “pegar ou largar” – quem quiser avançar com os benefícios da produção na China tem de facilitar acesso ao know-how. Pode imaginar-se o que isto significa para as grandes marcas alemãs que não podendo já satisfazer a procura chinesa a partir da Alemanha, e penalizados pelos elevados direitos de importação chineses, têm de instalar fábricas na China. E estamos a falar de AUDI A7, Mercedes S, e BMW 7, topos de gama, portanto.
E que dizer da GM envolvida em dramática luta pela sobrevivência? Estará em posição de exigir algo de significativo das autoridades chinesas? Não, claro.
Releve-se também o que se passa com as novas tecnologias. Conhecem-se os esforços dos grandes construtores no domínio da diminuição, ou messmo, independência dos combustíveis fósseis.
O mundo ainda desconhece uma empresa chinesa produtora de baterias para telemóveis, a BYD – Build Your Dreams [18] – que, a partir de 2003 passou a investir na fabricação de automóveis. Em 2008 iniciou a comercialização do primeiro modelo produzido em massa, e em 2009 vendeu mais de 448 mil carros na China. Uma aventura? Não parece, pois em 2008 Warren Buffet, que não costuma desperdiçar dinheiro, investiu 230 milhões US$ por 10% da BYD.

O feitiço e o feiticeiro

Os empresários de todo o mundo, em particular os alemães, queixam-se do plágio e contra-facção chineses.
Nos subsectores atrás citados, os industriais ocidentais continuam a argumentar que as cópias chinesas são mais baratas porque incorporam componentes de qualidade inferior e não respeitam as regras de segurança.
É por demais conhecido o drama dos produtores de software que não vêm respeitados os direitos de autor como pretendem. Nesta indústria, a situação ainda se torna mais difícil pelo facto da legislação chinesa ser bastante diferente da que se aplica em outros países [19].
No entanto, e apesar de todas as lamentações e protestos, os empresários ocidentais hesitam em levar as companhias chinesas a tribunal, por duas elementares razões: não acreditam nos tribunais locais, e temem eventuais represálias.
Terão algum dia coragem e condições para se retirarem do gigantesco mercado chinês?

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NOTAS:

[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-em-guerra-pelas.html
[2] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/china-e-o-mundo-alemanha-01.html
[3] http://economia.publico.pt/Noticia/desemprego-na-china-afecta-22-por-cento-da-populacao-activa_1455269
[4] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/08/os-custos-de-producao-na-china.html
[5] Em Junho deste ano, o salário minímo em Pequim passou a ser 960 yuans, um aumento de 20%. Este valor corresponde a cerca de € 114 ou 140 US$, segundo a agência noticiosa Xinhua. http://www1.folha.uol.com.br/mercado/784733-salario-minimo-chines-continua-subindo-em-2010.shtml
[6] Informações recolhidas em Setembro de 2010 em Wikipedia.
Veja aqui: China negoceia a compra de 150 novos Airbus, que pode chegar a 200, no valor de 16 mil milhões de euros: http://www.oje.pt/noticia.aspx?channelid=C32FD067-0BC2-4366-9A04-208E8B2DB854&contentid=FEA9442D-E537-45E4-927D-E8C704FB5CC1
e aqui, o “dia histórico” da entrega do primeiro Airbus A320 produzido na inteiramente na China: http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/8114464.stm
[7] http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL1484433-9356,00-CHINA+SUPERA+ALEMANHA+E+E+O+MAIOR+EXPORTADOR+DO+MUNDO.html
[8] http://www.noticiasautomotivas.com.br/justica-grega-diz-que-chines-noble-nao-e-um-clone-do-smart/
[9] http://www.noticiasautomotivas.com.br/bmw-vence-shuanghuan-ceo-nao-podera-entrar-na-alemanha/
[10] http://www.noticiasautomotivas.com.br/huatai-marca-chinesa-faz-um-clone-do-porsche-cayenne-para-o-salao-de-pequim/
[11] http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u363108.shtml
[12] idem
[13] http://www.capitalvue.com/home/CE-news/inset/%4010063/post/1202723
[14] The Economist tem revelado amiúde os valores suportados pelos contribuintes alemães por efeito da aposta de Angela Merkel na energia foto voltaica. http://www.economist.com/node/15213817%3Fstory_id%3D15213817
Apesar do esforço exigido aos contribuintes alemães, que alguns analistas estimam em € 14 biliões ao longo dos próximos 20 anos, só para os investimentos feitos em 2009, hoje já se questiona parar com esta ajuda, talvez por efeito da própria crise económica que afecta a Alemanha.
http://www.dw-world.de/dw/article/0,,5279253,00.html
[15] http://www.greenchipstocks.com/articles/crabs-are-good-for-you/1057
[16] http://www.gstriatum.com/pt/china-cresceu-150-na-producao-de-modulos-solares/
[17] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/china-e-o-mundo-alemanha-02.html
[18] http://en.wikipedia.org/wiki/BYD_Auto
[19] http://www.gov.cn/english/laws/2005-08/24/content_25701.htm