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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

CHINA – Medidas contra a ameaça de inflação (2) - Na Casa e na Alimentação

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
22 Dezembro de 2010

Na China tudo tem enormes dimensões e acontece muito depressa. A 20 de Novembro, e com base nos indicadores que foram dados a conhecer pelas autoridades chinesas no mês anterior, questionei-me sobre os reais impactes que a inflação desregrada poderia trazer a este gigante durante tanto tempo adormecido. Terminei o artigo dizendo que o início de 2011 nos iria trazer importantes novidades neste domínio. Mal poderia imaginar que um dia após, teria de voltar ao tema face às medidas que o poder acabara de anunciar para tentar controlar a subida generalizada dos preços que ameaçavam desestabilizar a nação.

E aqui estou de novo, ainda antes do fecho de 2010, reflectindo sobre tão importante questão. Os dados mais recentes sobre o aumento das despesas domésticas confirmam as preocupações com o agravamento da situação.


As despesas fixas de Liu Qi

A versão em Inglês do diário Sina publicou há quase um ano – 21 de Janeiro de 2010 – um interessante artigo sobre o aumento de preços na China, recorrendo ao exemplo de Liu Qi, uma jovem de 29 anos empregada há oito numa empresa de publicidade em Pequim.

Naquela quinta-feira, Liu Qi gastara 80 yuans (11.7 US$, 9 €) no supermercado – metade em comida, metade em necessidades diárias. Esta jovem que dispunha de 6500 yuans mensais, supostamente já deduzidos de impostos, afirmou gastar mensalmente 1200 yuans em comida, 1300 em alojamento e despesas associadas, 1000 a jantar fora e diversões com amigos, 500 em roupa, e 200 em comunicações de telemóvel, sobrando-lhe assim 2300 yuans, o equivalente a 260 €. A sua principal preocupação consistia em como juntar dinheiro para comprar uma casa.


O preço das casas na China

Na Segunda Circular de Pequim, em 2009, o preço de venda das casas em segunda mão aumentara 43% e os alugueres 5% em média, segundo o artigo citado. Esta não será a regra no imenso e muito diversificado território chinês, mas é um exemplo real.

Desde Fevereiro de 2009 que os protestos populares por causa desta cavalgada de preços vinham preocupando as autoridades, que implementaram novas regras para o sistema bancário, quer pela via fiscal quer pelos empréstimos concedidos a este tipo de negócio. Os resultados não se fizeram esperar, e o efeito directo sobre a inflação já foi praticamente insignificante em Novembro. O aumento do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) deverá fixar-se entre 3 e 4% em 2010, ano sobre ano.

Contudo, as despesas de habitação incluem outras rubricas para além do aluguer ou da amortização, como a água, a electricidade, e os custos de manutenção. O National Bureau of Statistics (NBS) calcula assim a evolução do peso das despesas com a habitação no cabaz IPC – 9.7% em 2000, 13.2% em 2006, estimando 13.6% para 2010 (a rubrica custos de aquisição de habitação não faz parte do cabaz IPC).

Apesar da tradicional falta de informações oficiais na China, os analistas não oficiais calculam que as pessoas como Liu Qi gastem com a habitação cerca de 20% dos seus rendimentos, longe dos 13.6% referidos pelo NBS.


A evolução dos preços no mercado

Segundo o Xiong Peng, analista sénior do Bank of Communications (BOC), os preços dos alimentos subiram 5.3% em Dezembro de 2009, o que justificou um agravamento de 1.74% no IPC. Os alugueres da casa ao subirem 1.5% foram responsáveis pelo crescimento de 0.21% do IPC.

O governo tem, portanto, pela frente duas frentes de batalha prioritárias para travar a inflação – Imobiliário e Alimentação.

Ao impor o reforço das reservas bancárias para 18%, o governo pensa que as concessões de crédito passarão a ser mais rigorosas. Dito doutra forma, dificultarão as acções especulativas nos domínios imobiliário e commodities, apesar de se saber que este tipo de medidas não é do agrado dos investidores, podendo mesmo vir a originar alguma desaceleração no crescimento económico .

Consideram os economistas que foi o excesso de liquidez, associado a deficientes políticas monetárias nos últimos oito anos, que fomentaram a especulação e trouxeram a inflação para níveis indesejáveis. O aumento dos custos de produção e a política de juros negativos, encarregaram-se do resto.


Os receios dos investidores

Os investidores não gostam de medidas disciplinadoras. Temem-nas, e é isso que está a acontecer.

Quem investe antecipa-se, não espera para reagir. E, de facto, a maioria dos analistas prevê que as taxas de crescimento da ordem dos 12% não voltarão a verificar-se, embora se pense que poderão rondar 7 a 8% durante a próxima década, um valor ainda muito elevado, atendendo a que, quanto mais uma economia cresce, mais difícil será manter as taxas de crescimento.

Mas todos estão cientes que forçar o aumento das reservas financeiras dos bancos, subir os juros, e controlar alguns preços cruciais não é suficiente, nem estruturante.


A bolha imobiliária está escondida?

Há uns meses, correu a notícia, entretanto desmentida pelas empresas de energia, que poderiam existir 64.5 milhões de habitações não ocupadas . O fundamento de tal estimativa baseava-se no não consumo de electricidade nessas casas por seis meses consecutivos. A ser verdade, isto significaria duas coisas – oferta de habitação não correspondida para cerca de 200 milhões de pessoas (um número, de facto, impressionante), e, ou os preços estariam propositadamente inflacionados, ou desadequados face às reais capacidades dos potenciais compradores.

Será que os actuais proprietários estão a apostar no aumento da inflação, esperando por melhor altura para venderem os apartamentos? Mas, esta opção tende a provocar, ela mesma, uma espiral inflacionista. Se não venderem pelo preço que pretendem, poderão vir a alugá-los por rendas mais elevadas, influenciando assim negativamente o IPC.

Contudo, e comparando com situação semelhante noutros países – USA, Islândia, Irlanda, UK, Espanha, etc. - onde ocorreram bolhas imobiliárias com as nefastas consequências que se conhecem, os analistas apreçam-se a estabelecer a diferença: na China não existe o perigo de bolha imobiliária em preços, mas pode haver em quantidade.

A história tem mostrado, que quando estas bolhas crescem juntas, os efeitos podem ser devastadores. O exemplo do Sudoeste Asiático na década de 1990 e de Taiwan nos finais de 1980, ainda estão bem presentes. Bem como os efeitos da bolha de preços americana que desencadeou a actual crise económica global, que ainda parece longe de estar superada.

Uma crise chinesa neste domínio, nos tempos mais próximos, poderia ter consequências avassaladoras a nível global.


A habitação na China é, de facto, um caso diferente

Tem-se construído imenso na China nos últimos anos. Calcula-se (sempre a mesma carência de informações fidedignas), que se tenham construído perto de 60 milhões de apartamentos privados nos últimos 10 anos. Actualmente, crê-se que estejam em construção mais cerca de 20 milhões de habitações particulares, e que as administrações locais e governamentais estejam a construir outros 20 a 30 milhões.

Nos últimos anos, cerca de 1000 milhões de metros quadrados habitáveis foram reconstruídos, faltando ainda proceder de igual forma sobre os 9000 milhões que continuam em condições insustentáveis para vida digna.

Não são só as autoridades políticas que estão envolvidas neste gigantesco processo, mas também as empresas que constroem para os seus trabalhadores habitarem, como no passado. Apesar disso, calcula-se que cerca de 200 milhões de trabalhadores migrantes, deslocados do interior para as periferias dos grandes aglomerados industrias e urbanos, continuem a viver em dormitórios subterrâneos, geralmente uma só divisão sem janelas. Um expediente a que muitos jovens recorrem em início de carreira.


As novas habitações chinesas

Calcula-se que, em 2009, a venda de casas novas na China, tenha representado mais de 14% do PIB – uma cifra impressionante. Surpreendente, também, é a dimensão média per capita dos novos apartamentos na maioria das cidades - entre 28 a 30 metros quadrados. Este valor situa-se entre as posições 148 e 153 da lista de 355 cidades mundiais, superando por exemplo, Las Palmas, Nápoles, Varsóvia, São Peterburgo, Zagreb, Belgrado, Gdansk, ou Budapeste.

Mesmo que o valor estimativo de 64.5 milhões de apartamentos desocupados, esteja errado, e que só metade deles se encontre nessa situação, isso equivale a cerca de 20% de todos os domicílios urbanos. Num mercado em tão rápida mutação, e com tantos cidadãos a deslocarem-se para outras localizações, esta taxa não se pode considerar anormal.

A questão muda de figura, se esta oferta estiver, de facto, distante da procura efectiva, e desadequada para o cidadão comum.

Os governos locais, altamente endividados por força dos investimentos que fizeram para atrair capitais, precisam das receitas provenientes das trocas imobiliárias. Especula-se, pois não se conhecem dados oficiais, que os governos locais e regionais tenham, em média, receitas correspondentes a 20% das dívidas acumuladas. Se as receitas do imobiliário não entrarem, só há uma alternativa – reduzir despesas. E sabe-se como os políticos são avessos a este caminho.


A renovação política

Dentro de menos de dois anos, a China irá para eleições. Os actuais dirigentes políticos darão lugar a uma nova classe de quadros, cada vez mais distantes dos valores que conduziram Mao e o Partido Comunista ao poder em 1 de Outubro de 1949. Possuem cada vez mais mentalidade capitalista.

Pelo que ficou exposto, conclui-se que se exigem medidas estruturantes. Os dirigentes chineses, que já deram imensas provas de serem exímios planeadores, sabem que adiar soluções pode custar muito caro, incluindo contestação social ao regime, se a economia interromper o ritmo de crescimento das duas últimas décadas.

Mas todos sabemos, também, como os políticos são avessos a tomar medidas impopulares antes de eleições.

Alguns perigos se vislumbram no horizonte, portanto. E não só para a China.

O que lá vier a acontecer interessará ao mundo inteiro.

sábado, 20 de novembro de 2010

CHINA – Irá a inflação condicionar o crescimento económico?

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
20 Novembro de 2010


Qualquer que seja o assunto que se relacione com a China continua a surpreender-nos pela magnitude, e pela volatilidade das informações, que evoluem a ritmos incríveis.

Quando alguns de nós começámos a debruçar-nos, no início dos anos 1990, sobre uma nova realidade do mundo dos negócios que apelidámos genericamente de “mudança” (quem não se recorda dos intermináveis seminários sobre “gestão da mudança”), estávamos longe de imaginar o que significa “mudança” na China nos dias de hoje.

Temos vindo aqui a abordar alguns dos desafios actuais do crescimento económico chinês, desde uma inicial atenção aos custos de produção, passando pela evidente mudança de estratégia e pela nova orientação para a qualidade, até termos chegado ao que designámos por absoluta necessidade de dinamização “forçada” do consumo, e à forma como os estrangeiros encaram este “boom”.

Eis-nos perante uma nova realidade, aliás previsível - o espectro da inflação.

De facto, a inflação ainda não é uma ameaça concreta, mas os preços estão a aumentar, o que basta para começar a preocupar os líderes chineses. Até Outubro os preços ao consumidor subiram 4.4%, o valor mais elevado nos últimos dois anos, verificando-se o impacte maior no sector alimentar. Os vegetais, por exemplo, encontram-se hoje mais caros cerca de 30% do que se encontravam há um ano.



Procurando explicações

As devastadoras enchentes do mês passado podem explicar os aumentos de preços pela escassez de fornecimentos. Igualmente a quebra das colheitas, a nível internacional, podem ter contribuído negativamente para a situação actual. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO, o custo das importações de alimentos no mundo pode ultrapassar este ano 1 trilião US$ , apenas 5 biliões menos do que o recorde de 2008.

Contudo, também a nível macroeconómico, existem algumas preocupações. Por exemplo, a banca chinesa parece poder vir a violar a quota de 7.5 triliões de yuans (cerca de 1.1. trilião US$), embora se venha a verificar pressão das autoridades em sentido contrário. Não espanta ninguém que mais dinheiro em circulação tenderá a favorecer aumento dos preços.



Que estão as autoridades a fazer para conter esta tendência?

O governo procura recorrer a medidas pouco habituais, mas que considera de eficácia imediata, como por exemplo: indexando a actualização dos subsídios de desemprego, pensões, e salários mínimos (na China os salários mínimos são estabelecidos por região), aos valores da inflação; redução das tarifas eléctricas, do gás, e dos transportes ferroviários para os fabricantes de fertilizantes; abastecimento suplementar de açúcar aos mercados.

Uma outra questão nesta área diz respeito ao aproveitamento que os comerciantes possam vir a fazer - se puderem vender mais caro, não facilitarão, por certo. E ainda há que prestar atenção a possíveis açambarcamentos, embora esta discussão ainda não se faça na praça pública.

Caso estas medidas não atinjam os resultados pretendidos, o governo poderá vir a intervir na distribuição de bens alimentares essenciais, como o arroz, a carne de porco, massas, e óleos, à semelhança do que fez em 2008.

Pelo menos numa coisa Lenine e Keynes concordam – nos efeitos da inflação. Lenine considerava-a como uma eficaz arma capaz de corroer o capitalismo. Keynes achava-a perniciosa para o capitalismo, porque desacreditava os empresários, e, consequentemente, o sistema. As autoridades chinesas não serão nem leninistas nem keynesianas, mas querem tirar partido do capitalismo, à sua maneira.



Como irão reagir os investidores estrangeiros?

Os números da inflação de 2010, e em particular os de Outubro, não vão ao encontro do que os investidores gostam de ouvir. O anúncio de que as autoridades estão a tomar medidas pouco habituais também não é um indicador animador. Várias fontes referem já que alguns investidores estarão a vender acções e commodities na expectativa dum significativo abrandamento do crescimento na China.

Conhecendo-se como os investidores internacionais são sensíveis a todos os indícios, é provável que estejam a exorbitar. Na realidade, a China está longe duma corrida galopante e generalizada dos preços, e mesmo que o crescimento venha a sentir alguma quebra, o mais certo é fixar-se à roda dos 7-8% anuais, na próxima década. Um valor ainda muito atractivo.

Onde se poderá vir a sentir maior alteração, poderá ser no sector da construção e venda de habitações. O acesso ao crédito nos últimos anos provocou uma corrida às hipotecas, e, por arraste, à construção de novas casas. Se se vierem a verificar restrições de monta nos créditos concedidos, poderá vir a revelar-se uma bolha no sector. As autoridades estarão atentas, por certo, ao que aconteceu nos USA, e estabelecerão medidas para que não aconteça o mesmo.

As mudanças na China processam-se a um ritmo tal que, no início do ano, o mais tardar, tudo o que aqui ficou dito, terá de ser revisitado.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

CHINA – O “boom” do consumo interno visto pelos estrangeiros

Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
08 Novembro de 2010

Em artigo anterior, “China “forçada” a dinamizar o consumo interno” [1], abordámos a importante alteração estratégica da China no sentido do crescimento sustentável, nele se tendo salientado que os gastos dos consumidores baixaram 15 pontos percentuais em relação ao PIB de 1990, passando de 45% para 30%. Referiu-se também que a China é um país com grandes assimetrias em termos de custo de vida.

Mercado gigantesco com grandes assimetrias

Estima-se que existam na China cerca de 250 milhões de famílias com rendimentos superiores a 1,000 US$ anuais, e cerca de 50 milhões com mais de 3,500 US$ [2] [3]. Estes números não são, naturalmente, exactos, como a própria Mckinsey noutro estudo refere quando revela que na China, o PIB per capita foi, em 2003 de 1,300 US$, ou seja, o equivalente a 5,000 US$, quando ajustado pela paridade do poder de compra [4]. De acordo com este estudo mais recente, em 2010, 40 milhões de famílias auferirão mais de 48,000 yuans anuais (ao câmbio, 6,000 US$), mas que equivalerá a cerca de 24,000 US$ em termos de paridade de poder de compra no estilo de vida americano. Estamos, portanto, perante valores que qualificam uma família de classe média nos USA.
Contudo, estamos a falar dum país imenso e duma população três vezes superior à Europa e seis vezes os USA. Se em Xangai o PIB per capita é cerca de 5,600 US$, em Chongqing, no interior, este valor baixa para um quinto – 1,100 US$ [5]. Percebe-se porque alguns empresários que afirmam que a China é uma nação, mas não é um mercado. Sendo muitos, então a apetência dos estrangeiros vira-se para os segmentos Premium, deixando os segmentos inferiores e médios entregues às empresas locais, o que não é difícil dados os preços praticados justificados pelos baixos custos. E, neste domínio, está o grande problema – os custos de produção na China estão a aumentar [6].
As empresas chinesas têm sabido tirar partido desta vantagem competitiva e, ao aprenderem com as técnicas comerciais estrangeiras, apresentam crescimento nos seus próprios mercados e mesmo em segmentos onde os estrangeiros eram maioritários (higiene e alimentação empacotada, por exemplo). É claro que as marcas internacionais não estando interessadas em canibalizar as suas marcas premium, preferem não arriscar guerras de preços. Fica a dúvida se realmente têm, nestas condições, alguma hipótese de competir.

Uma complexa cadeia de valor

Em Fevereiro de 2007, a IBM Corporation, apoiada num inquérito conduzido pela The Intelligence Unit da The Economist [7], num artigo intitulado Winning in China’s mass markets, elencou os principais problemas da cadeia de valor chinesa que constituem obstáculos às operações das multinacionais naquele país:
• Centralização – O passado centralista da sociedade chinesa, a que se juntam deficientes infra-estruturas, é considerado importante obstáculo à eficiência das operações;
• Distribuição – Demasiados níveis de distribuição, com muitos distribuidores nacionais, regionais, e locais, com pouco valor acrescentado entropiam o sistema;
• Gestão – limitada previsão, altos níveis de stocks, custos logísticos que chegam ao dobro do normal (por vezes 10% das vendas [8]), sendo habitual (77% das empresas) apresentarem benchmarks inferiores à concorrência [9], e, pior que tudo, devido ao elevado número de intermediários, incapacidade de estudar os clientes.
Daqui decorrem os riscos inerentes ao tempo necessário para ir da fábrica ao ponto de venda e a propensão para encontrar alguém, familiares ou amigos, que possam facilitar o processo.
Que alternativas se colocam, então?
• Alternativa #1 – Online e Televendas
Em 2007, as vendas por este canal atingiram 700 milhões de US$, valor igual ao melhor dia de vendas semelhantes nos USA, embora se tenha registado crescimento anual de 34% [10].
Este canal debate-se com a desconfiança dos chineses, mas pode crescer muito devido aos avultados investimentos em curso no domínio das comunicações.
A UPS e a PGL já têm operações significativas na China.
• Alternativa #2 – Lojas próprias
Sós ou em parceria, esta modalidade parece estar a ganhar adeptos. A Motorola, por exemplo, optou lojas próprias na cadeia Gome.
• Alternativa #3 – Vendas directas
Esta é a opção predilecta para produtos Premium e acesso a clientes-chave nas cidades níveis 1 e 2 [11]. A Amway, por exemplo, criou uma rede de mais de 200,000 agentes em 180 cidades.
• Alternativa #4 – Retalhistas Directos
É um canal em franca expansão quer por parte dos nacionais (Suning e Gome), como dos estrangeiros (Wal-Mart, Carrefour), com a enorme vantagem de reduzir os intermediários. Preferem instalar-se na periferia das cidades níveis 1 e 2 [11].

Os próximos passos

Como referido o caminho mais normal passará pelo encurtamento dos canais de distribuição. Mas o enfoque principal deverá passar pelo interesse sobre as cidades níveis 3 a 5 [12]. É previsível que os investidores optem por encurtar o mais possível a linha de abastecimentos dos pontos de venda, com forte atenção às práticas de venda, na logística, na terciarização, no outsourcing especializado, e na melhoria dos canais de informação.
O desejado aumento das vendas, das receitas, e dos lucros, deverá passar pela eficácia do acto de venda, longe do tradicional relacionamento excessivo dos chineses (“guanxi”), algo que não faz parte do rol de preferências dos investidores estrangeiros.
Noutros domínios se verificarão importantes apostas:
• Investigação & Desenvolvimento
Desenvolvimento de novos produtos de qualidade orientados para as características das populações chinesas, adaptados aos canais de distribuição, e compatíveis com a evolução dos níveis de vida. Os investimentos estrangeiros nesta área, insignificantes em 2001, atingiram em 2006 4 biliões de US$, com cerca de 750 a operarem regularmente [13].
A pressão para a disponibilização de produtos de qualidade a baixo custo pode ser ilustrada com os recentes anúncios de PCs da Lenovo (PCs a menos de 100 US$), que adquiriu a divisão de PCs da IBM em 2005. Releve-se que esta tendência não é exclusivo da China, como, por exemplo, a Tata fez na Índia ao decidir produzir um carro para 4 pessoas por menos de 3,000 US$ [14].
• Fornecedores locais
Os departamentos de compras estão a assumir lugar fundamental na nova estratégias de criação de valor, procurando encontrar junto de fornecedores locais, e de acordo com especificações locais, as componentes de que necessitam para a assemblagem e transformação dos produtos finais. Números oficiais revelam que esta fonte, já em 2006, representava 600 biliões de US$ (cerca de 9% da produção chinesa, prevendo-se que esta valor possa aumentar para 14% em 2009) [15].
• Recursos Humanos
Em 2005, a American Chamber of Commerce in China identificou os recursos humanos como a questão crucial a resolver para o desenvolvimento das vendas na China [16]. O requisito era claro - as empresas exigiam não só as pessoas certas, mas também bastante
pessoas em locais diferentes para colocarem no terreno mercados em massa, de altos volumes e baixos custos.
O paradoxo afigurava-se evidente – como seria possível estarem perante semelhante problema numa população de 1.3 mil milhões de pessoas? Para mais, em 2006, a China havia produzido 4.13 milhões de licenciados com formação em matemática e engenharia [17]. A verdadeira questão só poderia ser a identificação, acompanhamento, e orientação de talentos, porque falta não haveria, por certo. A má notícia foi a constatação de insuficiente preparação destes licenciados para os negócios, nomeadamente para servirem em multinacionais. A McKinsey chegou mesmo a concluir que só 10% destes recursos seriam aproveitáveis a curto prazo neste domínio [18].
Assim sendo, e perante outro dado entretanto verificado – os elevados níveis de rotação destes profissionais qualificados – forma accionadas as seguintes medidas:
1. Recrutamentos em massa
2. Adequado controlo salarial
3. Aposta nas cidades de nível 3 a 5 [12]
4. Especial atenção à formação de supervisores de vendas, marketing, compras, I&D, e gestão de canal
5. Implementação de programas de coaching, mentoring, e sistemas de recompensa
É desta forma que a China está paulatina e sistematicamente a percorrer, com a gestão do tempo que nós ocidentais temos alguma dificuldade a entender, o que identificou como “o caminho das pedras”.

“A longa viagem começa por um passo”, como diz o provérbio chinês.


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NOTAS:

[1] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/10/china-forcada-dinamizar-o-consumo.html
[2] https://www.mckinseyquarterly.com/Encouraging_consumer_spending_in_China_1555
[3] Para um ideia do que significam realmente estes valores expressos em yuans, pode-se multiplicar por 4, isto é, 1,000 US$ (ao câmbio oficial) na China representam poder de compra de 4,000 US$ nos USA.
[4] https://www.mckinseyquarterly.com/Retail_Consumer_Goods/Sectors_Regions/Marketing_to_Chinas_consumers_1472
[5] China Regional Statistical Reports, reproduzidos pela Mckinsey
[6] http://lugaraopensamento.blogspot.com/2010/09/estrategia-economica-chinesa-ensaia.html
[7] Pdf em http://www-900.ibm.com/cn/services/bcs/iibv/
[8] Butner, Karen. “Follow the leaders: Scoring high on the supply chain maturity model.” IBM Institute for Business Value. September 2005. http://www-935.ibm.com/services/us/index.wss/ibvstudy/imc/a1020839?cntxt=a1005268#1
[9] idem
[10] “China B2C Market Size Will Reach RMB 18.83 Billion in 2010.” Analysys
International. Jan 2007. http://english.analysys.com.cn/3class/detail.php?advertisement=002&id=261&name=report&FocusAreaTitleGB=&daohang=Report&title=
[11] Cidades de nível 1 e 2 são 25 (1-4 e 2-21), onde habita 9% da população (119 milhões de pessoas), que geram 34% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 16 e 30 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 24%, e 78% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[12] Cidades de nível 3 a 5 são 306 (3-19, 4-77, 5-209). Nelas habita 18% da população (239 milhões de pessoas), que geram 43% do PIB (2004) a uma margem de crescimento de 16%, com salários médios entre 11 e 21 mil yuans, onde a penetração de banda larga de internet é 12%, e 56% das pessoas possuem telemóvel.
(Fonte: China Statistical Yearbook.” 2005. Tratamento analítico: IBM Institute for Business Value 2007)
[13] Ministry of Commerce statistics. June 2006.
http://www.mofcom.gov.cn/aarticle/i/jyjl/l/200610/20061003365128.html
[14] “Car making in India, a different route.” Economist. December 13, 2006. http://economist.com/displayStory.cfm?story_id=8413155.
[15] “Novartis to Establish Drug R&D Center in China.” Wall Street Journal. November 6, 2006.
http://online.wsj.com/article/SB116277366653714013.html?mod=health_hs_pharmaceuticals_biotech
[16] “The AmCham-China White Paper: American Business in China.” The American Chamber of Commerce of the People’s Republic of China. May 16, 2006.
http://www.amchamchina.org.cn/amcham/show/content.php?Id=1570&menuid=&submid=
[17] 2005 National Statistics Bureau of China. October 19, 2006.
http://english.peopledaily.com.cn/200610/29/eng20061029_316147.html
[18] Farrell, Diana. “China’s looming talent shortage.” McKinsey Quarterly. November 2005.
http://www.mckinsey.com/mgi/publications/Chinatalent.asp

domingo, 10 de outubro de 2010

Alterações Ambientais (parte 3 de 3)

Petróleo, População, Novas Fontes de Energia
O Ficcionismo de “Uma Verdade Inconveniente”


Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
10 Outubro de 2010

A terminar a trilogia “Alterações Ambientais”, e como prometido, chegou a hora de abordar o romance de ficção “Uma Verdade Inconveniente” (UVI) [1] que Al Gore [2] publicou com tanto êxito, que até lhe valeu o Nobel da Paz de 2007. Pode gostar-se ou não do estilo literário do autor, mas o conteúdo, esse é facilmente contestável sob o ponto de vista científico. Foi o que Marlo Lewis Jr, PhD [3] fez na sua obra “A Ficção Científica de Al Gore” [4], utilizada aqui como referência sistemática.
Marlo Lewis Jr. desmonta ponto por ponto as principais mensagens alarmistas de AL Gore, mostrando como elas não passam de interpretações especulativas de fenómenos que podem não ter a origem antropogénica que Gore lhes atribui, chegando mesmo a afirmar que algumas são falsas. Da capa de “A Ficção Científica de Al Gore” consta: “As alterações climáticas resultam de ciclos naturais em que o ser humano tem pouca ou nenhuma influência. As consequências catastróficas imputadas à acção do Homem pelos propagandistas do aquecimento global não têm fundamento científico” [5].
Ninguém ousará negar que a actual dependência energética nos países desenvolvidos é uma questão premente. Veja-se por exemplo, como a Europa tem de inverter a perigosa dependência em que se encontra: A Irlanda importa 90.9% da energia que consome, a Itália 86.9%, Portugal 83.1%, Espanha 81.4%, Alemanha 61.9%, França 51.4%, Reino Unido 21.8%. A Dinamarca produz mais 36.8% do que consome. [6] Até sob o ponto de vista de segurança esta situação é muito perigosa.
Lewis aborda e desmonta mais de uma centena dos mais emblemáticos cavalos de batalha de Gore. Aqui se citam algumas consideradas como as mais convenientes para abordar as lutas internacionais que se avizinham.

As cíclicas oscilações térmicas do planeta

Contrariando o alarmismo dos catastrofistas, Gore incluído, Lewis estuda o passado longínquo mostrando que as oscilações térmicas da Terra têm sido cíclicas e, acima de tudo, naturais.
Os “Períodos Quentes”, com temperaturas superiores às que hoje estamos a verificar ocorreram entre 8000AC e 3000AC (Óptimo Climático Holoceno), 200AC a 50DC (Período Quente Romano), e 800DC a 1300DC (Período Quente Medieval). Os “Períodos Frios”, deram-se entre 1350AC e 1250AC (Óptimo Climático Idade do Bronze), 100DC a 700DC (Período Frio Idade das Trevas), e 1350DC a 1850DC (LIA – Little Ice Age). Como se observa, as altas temperaturas alternaram com as baixas, de forma cíclica. [7]
Questiona-se, então: Porque ignora Gore tão importantes dados? Não acompanham as suas teorias que atribuem ao homem e à combustão fóssil todos os males?
Idêntico raciocínio se aplica quando Gore pretende demonstrar que as neves do Kilimanjaro estão a derreter de forma irreversível devido ao aquecimento global do planeta (sempre e só com origem nas emissões de CO2). Ora, Lewis apresenta registos que mostram que a dita liquefacção constante e acelerada a que Gore se refere, não corresponde à realidade: Em 1950 o Kilimanjaro perdera 45% das neves em relação a 1900. Nesse período verificou-se um aquecimento do ar na zona. Contudo, de 1953 a 1976, numa altura em que as temperaturas desceram, voltou a verificar-se uma diminuição de 21% no volume total das neves. De 1976 a 2000, de novo debaixo de um aquecimento do ar, as neves voltaram a recuar 12%.
É patente o recuo das neves do Kilimanjaro, mas não se pode afirmar que essa perda seja acelerada, como Gore afirma. Tão pouco se pode dizer que este fenómeno se deva a gradual aquecimento global, que não se tem verificado. Lewis defende que o recuo das neves coincide com a mudança de ar húmido para ar seco que se verificou em toda a zona, que as levou a retraírem-se e não a fundirem-se. [8]

Calamidades naturais

Muita especulação e inverdades se encontram nas citações de Gore sobre as calamidades naturais que assolam a Terra de forma cada vez mais persistente a avassaladora. Eis o que Lewis revela e Gore ignora [9]:
• Desde 1950 que os tornados que afectam os USA (Gore refere-se principalmente aos USA em UVI) estão a diminuir. Se as consequências têm sido mais graves, isso deve-se a factores socioeconómicos, em especial a concentração das populações junto às costas e a falta de respeito pelas mais elementares regras de prevenção e segurança;
• O número de mortes devido a calamidades naturais (tornados, secas, e inundações) diminuiu 95% em relação a 1920 [10];
• As maiores secas nos USA ocorreram na segunda metade do século e em 1930, não nos anos mais recentes [11].
Também não corresponde à realidade, e só o oportunismo e o alarmismo podem justificar, que Gore defenda que o nível das águas dos oceanos esteja a subir a níveis assustadores. Eis o que Lewis revela [12]:
• O nível das águas dos mares subiu cerca de 1 mm por ano no século XX;
• Não é o Tamisa que está a subir, é Londres que se está a afundar – 60 cm no século XX;
• É verdade que o glaciar WAIS está a perder massa, mas também é verdade que o EAIS está a ganhar massa. Gore refere o primeiro e omite o segundo. No cômputo geral a Antárctida reduziu 0.09 mm por ano [13];
• É verdade que a Gronelândia está a recuar, mas é preciso dizer que a perda de 101 gTon, verificada entre 2003 e 2005, corresponde a um recuo de 2.8 cm por século [14]. Note-se que a perda de massa (água doce muito fria) no Árctico resulta em alteração considerável na Circulação Termohalina afundando mais tarde as correntes superficiais quentes que provêem do Pacífico Norte dirigindo-se para o Atlântico Norte junto às costas continentais [15].

Assim sendo

Coloca-se outra vez a questão: o que leva Gore a omitir informações tão importantes e a utilizar argumentos sem sustentação científica?
O objectivo da trilogia de artigos “Alterações Ambientais” não era travar a discussão sobre o possível aumento de temperatura do planeta. Nem debater sobre o efeito de estufa pela emissão de CO2. Estes artigos não visavam discussões técnicas. Tão pouco colocar Al Gore e os alarmistas do perigo ambiental em cheque.
Estes artigos foram escritos como contribuição para o melhor entendimento das guerras que se irão travar pelo acesso ao petróleo e outras fontes de energia, que irão fatalmente escassear à medida que as reservas forem diminuindo, e os países subdesenvolvidos forem tendo cada vez maiores necessidades energéticas. Em particular há que estar atento à forma como os países emergentes irão desenvolver as suas economias, a fim de alcançarem o bem-estar dos países desenvolvidos. No fundo, como ratear o que começa a escassear.

Nota final

A Caleidoscópio editou em 2008 outro interessante e sério trabalho intitulado “A mentira do Aquecimento Global – Mito ou Ciência?”, da autoria de Roy Spencer. Como síntese: “A terra não é um planeta frágil mas resiliente”. O autor defende que o sistema climático da Terra não é tão sensível às emissões de gás e ao efeito de estufa como muitos cientistas pensam. Vale a pena lê-lo.
Se o entusiasmo continuar, não percam também “O Mundo é Plano – Uma História Breve do Século XXI” (2007) e “Quente, Plano e Cheio” (2008), ambos de Thomas L. Friedman, editados pela Actual Editora. Numa perspectiva diferente, são obras igualmente fascinantes.

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NOTAS:

[1] Publicado em Portugal (2007) pela Gradiva, numa versão de 192 páginas para jovens, apoiada pela CGD. Uma versão integral data de 2006, tem 328 páginas e foi editada pela Manole, Brasil. Aqui para download: http://yesfilmes.org/2008/10/download-uma-verdade-inconveniente.html (cuidado: solicita o número do seu TM)
[2] Al Gore, jornalista de profissão, foi Vice-Presidente de Bill Clinton. Perdeu a campanha de 2000 para George W. Bush. O seu primeiro livro foi “A Terra em Balanço” (1993). Tornou-se um mediático ecologista.
[3] Marlo Lewis Jr é PhD em Governo (Harvard) e BA em Ciências Políticas (Claremont McKenna). Desempenha funções de Senior Fellow no Competitive Enterprise Institute
[4] Almedina (2008), 1ª edição, Bnomics
[5] Comenta Lewis que: “Al Gore tornou-se o representante de uma corrente alarmista que tenta condicionar as consciências dos cidadãos, jornalistas e políticos”
[6] El Pais, cit in Sábado n. 239, Nov 2008, p. 18
[7] Marlo Lewis Jr. (2008): A Ficção Científica de Al Gore, Cap. 2 – Os Glaciares de Montanha, Booknomics, p.p. 29-40
[8] op. cit., p.p. 29 - 31
[9] op. cit., p.p. 57 – 67
[10] op. cit., p. 211, Fig. 40, citando Goklany. Ver também op. cit., p. 204, Fig.29 (fonte: World Climate Report (2003), e Figs. 32 a 39, op. cit., pags206 a 210
[11] op.cit., p. 78
[12] op. cit., p.p. 117 - 134
[13] Lewis apresenta registos gráficos destes dados nas Figs. 68 e 69 p. 226 (op. cit.), citando como fontes, respectivamente, Velicogna e Wahr (2006) e Davis et al. (2005)
[14] A Gronelândia nos anos 1920 e 1940 era tão ou mais quente do que na década passada (Lewis 2008, p. 216, Fig 49), citando Chylek et al (2006)
[15] A corrente profunda fria da Circulação Termohalina parte do Atlântico Norte para o Pacífico Norte passando junto da Antárctida. Qualquer alteração neste circuito produzirá efeitos na flora e fauna dos oceanos e na Corrente Quente do Golfo que é ao grande estabilizar do clima no Hemisfério Norte. Ver esquema da Circulação Termohalina em Lewis (op.cit.) Fig. 53, p.218.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Alterações Ambientais (parte 2 de 3)

Petróleo, População, Novas Fontes de Energia
A Teoria “Beyond”


Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
07 Outubro de 2010

No artigo anterior Alterações Ambientais (parte 1 de 3) apresentei a colecção dos três textos previstos e abordei a Teoria Olduvai, ou do Declínio Terminal Eminente, cujo autor Richard C. Duncan, engenheiro e MS em energia eléctrica e PhD em engenharia de sistemas, defende. Como referi, de acordo com este autor o futuro próximo será catastrófico, se a humanidade não inverter os hábitos e a dependência energética concentrada no petróleo, carvão, e electricidade tradicional.
A perspectiva Beyond, da autoria dos PhD Mario Raich PhD e Simon Dolan também não é animadora. Debruça-se, no essencial, no crescimento incontrolado da população e nos efeitos sobre a humanidade e o planeta.

“Beyond”, ou Para Além da Zona de Conforto

Tive o prazer de assistir a uma conferência dos PhD Mario Raich e Simon Dolan em Lisboa [1]. Não conhecia estes autores que me surpreenderam pela coerência e pela objectividade. De facto, as suas intervenções não são muito optimistas no que respeita ao futuro que nos espera se persistirmos nos mesmos erros. As suas preocupações focalizam-se no crescimento incontrolado da sociedade humana e na incapacidade da Terra suportar esta pressão dentro dos actuais padrões de vida.
Em resumo, quais são as principais preocupações destes autores?
• Temos um estilo de vida insustentável
• Crescemos a 80 milhões pessoas / ano (uma nova Alemanha todos os anos)
• 90 % dos 1.5 mil milhões de jovens vivem em países em vias de desenvolvimento
• Iremos ter 50 milhões de desalojados nas próximas décadas, só por causa de inundações
• Enfrentaremos novas guerras e terrorismo
• Já ultrapassámos o “Pico do Petróleo” (Duncan afirma o mesmo, como relatado no artigo anterior)
• Precisamos de 15 mil milhões de euros para infra-estruturas (verba irrisória se comparada com o valor calculado por estes autores para reforçar a rede eléctrica mundial usando a tecnologia actual – 60 triliões de US$ até 2030 [2] )
• Vivemos um urbanismo insuportável (mil milhões de pessoas vivem em bairros degradados)
• A nossa vida é uma “Realidade virtual”

O quadro não é animador, e o discurso de Mario Raich segue a mesma linha - não é confortável ouvi-lo, o que não é de espantar pois o próprio considera a sua mensagem como “para além da zona de conforto”. Eis o que M Raich identifica com as grandes origens dos problemas actuais:
Demografia ► Deterioração Ambiental ► Migração ► Conflitos ► Pobreza
Note-se que alguns destes passos podem ser ultrapassados, alcançando-se o fim da linha de forma mais rápida e contundente. O resultado final é sempre o mesmo – insustentabilidade.
Detalhando um pouco, os autores observam que de acordo com os relatórios da UN [3]:
• Em 2005 existiam 200 milhões de migrantes;
• 1/3 destes eram migrantes sul-sul, o que é surpreendente;
• As UN calculam que dentro de 45 anos possam existir 2.2 milhões de migrantes dos países subdesenvolvidos para os países desenvolvidos;
• Destes cerca de 1.1 milhões poderão tentar migrar para os USA.
É claro que poderá argumentar-se que se não for assim, os países desenvolvidos terão de abandonar o actual conceito de estado social e outros institutos que se baseiam na colecta de impostos directos sobre o trabalho. E também não se podem negligenciar as remessas que esses migrantes canalizarão para os seus países de origem. No seu conjunto, em 2004, os países subdesenvolvidos captaram 130b US$ em investimentos externos e receberam 160b US$ em receitas dos seus emigrantes [4].
Como consequências mais gravosas destes fenómenos, salientam-se [5]:
• Procura crescente de proteínas, o que implica excesso de gado em pastagens escassas e consequente destruição de áreas florestais, para além de acréscimo significativo nas emissões de CO2;
• Produtividade e mobilidade acrescidas, com inerentes aumentos da temperatura ambiente;
• Degradação do cultivo das terras, pela procura acrescida de trabalhos urbanos, e consequentes migrações internas e externas;
• Aumento e concentração das populações, que contribuirão para a escassez de recursos:
• Maior esperança de vida, o que implicará populações cada vez mais envelhecidas e novos problemas no financiamento dos Estados.
Face a tão dura realidade e rejeitando qualquer hipótese das sociedades prosseguirem insistindo exclusivamente em valores materiais, Beyond propõe-nos um mundo novo centrado nas pessoas numa perspectiva holística.
A primeira camada de valores a colocar em torno das pessoas, funcionaria como filtros com a envolvente, a saber: Valores Emocionais, Valores Espirituais, Valores Éticos, e Valores Económicos. Seria este conjunto estruturante, que, através das suas ligações todos-a-todos, asseguraria o equilíbrio dos vectores dominantes no mundo novo: a Família e os Amigos, a Educação e o Desenvolvimento, a Filantropia e a Caridade, a Cultura e a Arte, o Trabalho e o Negócio, a Sociedade e a Política. [6]
Pode parecer um modelo demasiadamente vago, utópico até. Mas uma proposta de clivagem com as sociedades actuais, tem de ser suficientemente genérico para ser abrangente e reunir valores que não sejam rejeitados de imediato.
Gosto da mensagem, e penso que vale a pena encará-la com seriedade. Por isso a trago aqui com este detalhe. Julgo que ela poderá ajudar a:
• Purificar o ar, melhorar a qualidade das águas, e assegurar alimentação para todos sem aumentar a degradação do ambiente;
• Proteger os ecossistemas;
• Reduzir as emissões de CO2;
• Limitar a corrida às armas de destruição massiva;
• Explorar correctamente as nano e biotecnologias, e outras tecnologias emergentes;
• Limitar as guerras por recursos básicos, como a água potável;
• Conviver com o mundo virtual;
• Controlar as migrações em massa;
• Construir um mundo verde.
Releve-se que, partindo de enfoques distintos, as Teorias Olduvai e Beyond apresentam de comum: (1) leituras preocupantes da realidade actual; (2) perspectivas sombrias do futuro próximo; (3) urgência na tomada de decisões fracturantes sobre o nosso modo de vida colectiva; (4) recusa no aproveitamento simplista de fenómenos da natureza imputáveis a factores antropogénicos.
Considero particularmente interessante o estudo conjunto destas duas Teorias – Olduvai e Beyond.

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NOTAS:

[1] Mario Raich é um distinto pensador do futuro. Da sua actividade profissional destacam-se Visiting Professor (HEC, Paris), Visiting Professor (ESADE Graduate School of Business, Barcelona), GSM da Educatis University (Altdorf), Associate Professor e Founding Director do Institute for Strategic Innovation.
Simon Dolan, por muitos considerado utópico, insiste em que a sua preocupação se chama sustentabilidade. S Dolan é Doctor of Philosophy (Organizational ychology/Behaviour & Administration (University of Minnesota), Master of Arts (IR/Human Resource Management (University of Minnesota), M.A. Human Resource Management (Tel Aviv University), M. Sc. in Organizational Behavior (Tel Aviv University), e B.A. Labour Studies (Tel Aviv University).
Em conjunto editaram Beyond – Negócios e Sociedades em Transformação, 2008, Lisboa, Bnomics – Almedina, uma obra que dá gosto estudar e apreciar.
[2] Como referência, o PMB (Produto Mundial Bruto) em 2006 foi 67 triliões de US$ - Raich, M e Dolan S (2008): Beyond, pp. 99-114, pp. 120-125, Bnomics, Almedina
[3] op. cit. , p62
[4] op. cit. , p62
[5] op. cit. , p62
[6] op. cit. , p128

Alterações Ambientais (parte 1 de 3)

Petróleo, População, Novas Fontes de Energia
A Teoria Olduvai


Por: Vítor M. Trigo
vítor.trigo@gmail.com
05 Outubro de 2010

Enquadrando o tema

A ninguém passam despercebidas as alterações ambientais que estão a afectar o planeta. Deixamo-nos levar pelas notícias que inundam os média sem nos debruçarmos com um pouco mais de profundidade sobre o tema. Os jornalistas estão a fazer o que a sua profissão exige – que vendam – e todos sabemos que são as caixas rápidas, sintéticas, e dramáticas as que recolhem mais dividendos. Por isso, esses profissionais especulam com tanta persistência, ultrapassando questões éticas e deontológicas que dizem pautar as suas actuações. Mas não são só eles. O negócio é rentável e atrai famosos do chamado jet-set que, a mais das vezes, nada têm a ver com o assunto. É o caso de Al Gore, o mediático perdedor da política (alusão que utiliza para quebrar o gelo das suas palestras), que delicia multidões de desinformados que adoram assistir às suas palestras e ler os seus romances de ficção.
Negócio é negócio, e as oportunidades são para aproveitar. Decência e pudor não rendem fortunas.
Esta colecção de três artigos, intitulada genericamente Alterações Climatéricas, tentará mostrar que muito do que se diz e escreve sobre o tema não beneficia de suporte histórico nem científico – por vezes não passam de mera especulação, supostamente suportada em factos citados como reais, mas que não passam de descrições parcelares da verdade.
Nas duas primeiras partes abordam-se duas teses empiricamente justificadas - a Teoria Olduvai e a Teoria Beyond. Na terceira parte tentar-se-á divulgar um interessante estudo que visa desmontar a pretensa validade das teses catastrofistas e oportunistas duma série de ficcionistas, cuja face mais mediática é Al Gore, o ex-candidato à Presidência dos USA, “título” com que se apresenta ao seu dedicado, e normalmente desinformado, público.
No fundo, estes três artigos procuram, ainda que de forma simplificada, recolher as propostas que os autores seleccionados adiantam para as seguintes questões relacionadas com as alterações climatéricas, e em particular o designado aquecimento global: (1) Estaremos perante uma catástrofe natural incontrolável? A enfrentar um período de aquecimento global cíclico suportável? Ou face a uma estratégia de desenvolvimento errada, mas que ainda é reversível?
Avancemos, então.

A Teoria Olduvai

Também conhecida por Teoria do Declínio Terminal Eminente foi desenvolvida por Richard C. Duncan, MS em Energia Eléctrica e PhD em Engenharia de Sistemas [1]. Este autor debruça-se essencialmente sobre a questão do crescimento descontrolado da humanidade, reflectindo sobre cenários alternativos para o crescimento da população e sua sustentabilidade.
Baseado em dados dum estudo efectuado em 2004 pelas UN [2]:
• Numa previsão em baixa, a população mundial, que actualmente ronda os 6.7 biliões de pessoas, crescerá até cerca de 8b por volta de 2025, iniciando uma inversão de crescimento a partir de 2050, podendo vir a ser em 2100 cerca de 5.5b, baixando em 2150 para cerca de 4.5b, para atingir em 2300 entre 2.5b a 3b;
• Duas outras perspectivas, designadas como média e crescimento nulo, apontam para aumento progressivo até 10b por volta de 2100, mantendo-se então constante até 2300;
• Finalmente, na visão em alta, considerada como pessimista, prevê-se um aumento sistemático para 10b em 2050, 14b em 2100, 17b em 2150, 21b em 2200, 27b em 2250, e 36b em 2300.
Recorrendo a estudos de curto prazo, este autor analisa [3] o que poderá acontecer até 2050, estudando dados registados desde 1950 (em 1950 a população mundial rondava 1.8b, em 1975 cerca de 4b, e em 2000 era 6b):
• O estudo Meadows [4] aponta para crescimento até 6.9b por volta de 2020, atingindo um pico de 7.5b em 2025, iniciando uma queda para 6.5b em 2050;
• O estudo do USA Census Bureau [5] prevê idêntica evolução ao anterior até 2020. Este pico de 6.9b será o ponto de inflexão, a partir do qual se conhecerá um retrocesso para pouco mais de 5b em 2025, e uma queda tremenda para menos de 2b em 2050.
Face a estas informações, Richard C. Duncan prevê que por volta de 2012 se comecem a verificar blackouts energéticos permanentes um pouco por todo o mundo, que farão cair, por volta de 2030, os consumos efectivos de energia para valores semelhantes aos de 1930. Uma catástrofe de incalculáveis consequências, se nada for feito para evitar esta tendência [6]. Recorde-se que em 1930 o consumo de energia (medido em boe = barril of oil equivalent) per capita per year era 3.32, tendo atingido o pico em 1979 com 11.15 boe/c/year. [7] Tal significaria, por outras palavras e em consumos de energia como a conhecemos um retrocesso de cem anos!
A partir de 1992, Duncan alargou os estudos a outras fontes energéticas, nomeadamente ao petróleo, prevendo que a partir de 2007 este entraria em declínio acelerado até à extinção (a nota [8] é fundamental para se perceber o raciocínio de Duncan), precipitando a humanidade numa catástrofe malthusiana que conduziria ao desaparecimento da maioria da população ainda dentro do século XXI. Esta é a explicação para a previsão em baixa das UN atrás referida.
Como homem de ciência que é [9], Richard C. Duncan não se limita a dramatizar sobre o que receia poder vir a ser o futuro. Olha para a realidade e questiona porque não se envereda pelas soluções mais óbvias, aproveitando o petróleo enquanto existe, mas começando imediatamente a construir alternativas.
O quadro seguinte, mostra o potencial de uma das fontes de energia mais limpa que se conhece, e que não parece vir a esgotar-se em poucos anos.
Decomposição da energia emitida pelo Sol, em TeraWatts [10]:
• Emitida para a Terra – 178,000
• Imediatamente reflectida para o espaço – 53,000
• Absorvida e reflectida na forma de calor – 82,000
• Usada na evaporação de água (clima) – 40,000
• Capturada para fotossíntese (plantas) – 100
• Total usado pela Humanidade – 10
• Total usado pela sociedade USA – 2.5
A conclusão é tão óbvia que Duncan nem se preocupa em perder tempo a argumentar sobre ela. Apresenta-a. Tamanha evidência ainda não é suficiente para desalojar interesses instalados? O que é que falta, afinal?
Longe, muito longe mesmo, de descrever toda a riqueza da Teoria Olduvai, cujo aprofundamento se recomenda, este artigo visou revelar a visão de futuro nada risonho que o seu autor tem sobre o tipo de sociedade que desenvolvemos, aparentemente baseada na ideia de que os recursos do planeta são ilimitados.
Todos sabemos que isto não é verdade. Receamos, de facto, que o planeta um dia nos mostre os erros que estamos a cometer. Mas, no fundo, parece que mantemos uma velada esperança de que não tenhamos razão.

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NOTAS:

[1] Richard C. Duncan (2005) fundou o Institute on Energy and Man, 5307 Ravenna Place, NE, #1, Seattle, WA 98105. Pode encontrar muito completa informação sobre população, energia, petróleo, e a própria Teoria Olduvai em: http://www.dieoff.org./ e http://www.thesocialcontract.com/pdf/sixteen-two/xvi-2-93.pdf
[2] http://www.un.org/esa/population/publications/longrange2/2004worldpop2300 reportfinalc.pdf
[3] Duncan (2005): The Social Contract 2005 -2050. Em http://www.thesocialcontract.com/pdf/fifteen-three/xv-3-173.pdf, Duncan apresenta um estudo muito interessante sobre o pico na produção mundial de petróleo e suas implicações.
[4] Meadows et al (2004): Limits to Growth, The 30-year update. Interessante artigo sobre desenvolvimento e produção de petróleo aqui: http://www.independent.org/pdf/tir/tir_12_04_3_marxsen.pdf
[5] USCB (2004) 1950 – 2004
[6] Desenvolvimento em http://www.greatchange.org/ov-duncan,road_to_olduvai_gorge.html, elucidativa ilustração na Fig. 4 deste URL
[7] Para mais detalhada informação sobre
Energia: Romer (1985): Energy Facts and Figures, Amherst,MA: Spring Street Press BP (2006): BP statistics review of world energy, June 2006, www.bp.com
População: USCB (2006): Total Midyear Population, www.census.gov UN 2006): World Population to 2030, www.un.org
[8] Em 2006 o consumo global de energia repartiu-se da seguinte forma: Petróleo 35.43%, Carvão 28.15%, Gás Natural 23.46%, Electricidade Hídrica 6.27%, Electricidade Nuclear 5.79%, Eólica + Geotérmica + Biomassa + Solar 0.86%, Geotérmica + Biomassa + Solar não usada para electricidade 0.05%. http://edro.files.wordpress.com/2007/11/world-consumption-2006-abc.png http://edro.wordpress.com/energy/286w/
[9] Richard C. Duncan é engenheiro especializado em questões de energia. Alguns autores acham que ele não é um verdadeiro cientista, mas tão só um técnico qualificado. De facto, não consta que alguma vez ele se tenha dedicado à investigação em exclusividade. Duncan é Mestre em Energia Eléctrica e Doutor em Engenharia de Sistemas.
[10] www.hubertPeak.com/debate/oilcalcs.htm