Domingo, 11 de Dezembro de 2011
CHINA – 10 Anos na OMC/WTO (I)
Por: Vitor M. Trigo
vitor.trigo@gmail.com
http://osereoter.blogspot.com/
11 Dezembro de 2011
Parte I - A VIDA MELHOROU MUITO
Para alguns, contudo, o azul do céu ainda está pálido
Com a adesão à OMC (11 de Dezembro de 2001, faz hoje precisamente 10 anos), a China deu um enorme passo em frente, tornando-se no primeiro exportador mundial e no segundo importador. Foram 15 anos de árduas negociações. Após 10 anos de membro de pleno direito, justifica-se analisar no que resultou a conjugação do conhecimento estrangeiro com a capacidade de trabalho chinês, operando no espaço global.
De forma sintética, os resultados superaram as expectativas.
Os parceiros internacionais lamentam-se da inundação dos mercados com as exportações chinesas a preços muito baixos, por força do preço da mão-de-obra barata e dos subsídios estatais, bem como da artificial manutenção do baixo valor do yuan, da não observância de regras contra a contrafacção, e da facilidade com que as autoridades locais parecem fazer tábua rasa de acordos assinados, fruto duma cultura de negócios distante das práticas ocidentais. Obviamente, quando da adesão, a OMC julgou ter acautelado todas as vertentes, que, de facto, pareciam asseguradas nos primeiros tempos da adesão. As questões surgiram depois. A esperada revalorização do yuan foi uma dessas promessas sempre adiada.
No que respeita ao imenso mercado interno chinês, alvo desde sempre desejado pelas empresas ocidentais, a evolução também não correspondeu aos cenários mais optimistas, embora não estejam muito distantes do que se passa com outros países em desenvolvimento. A China tem-se revelado mais aberta às importações do que por exemplo o Japão, ou do que foi a Coreia do Sul nos anos 1980 e 1990. Uma evidência é a significativa presença da Walmart, facto que não se verifica por exemplo na Índia, outro colosso em desenvolvimento. Os riscos de investimento continuam ainda elevados para as pretensões estrangeiras. Na Índia por exemplo todo o processo é considerado mais simples e mais desburocratizado.
Mas, sem dúvida, que todo o comércio mundial beneficiou da entrada da China na OMC. O mundo dos negócios mantém a esperança no ritmo mais convicto de abertura ao exterior. Contudo, há que prestar atenção à recente aposta sistemática de substituição de investimentos estrangeiros por capitais nacionais, que as autoridades chinesas manifestamente estão a apoiar.
O Poder de Compra na China
Em 2008, o Banco Mundial revelou que “China is Poorer than we Thought, But No Less Successful in the Fight against Poverty” (ver artigo na íntegra, aqui).
Num artigo do WSJ, a pobreza global na China situar-se-ia em 2,300 yuan anuais, sensivelmente 6.3 yuan ou 1 USD por dia, à data da publicação 30 de Novembro de 2011. (Nota: para o Banco Mundial, a pobreza não é determinada em taxas de câmbio. Em 2005, o nível era de 1.25 USD PPP). É claro que comparar poderes de compra internacionais não é simples nem categórico. No entanto, em geral, considera-se como padrão de pobreza internacional a capacidade de consumir o que um americano conseguia comprar com 1.25 USD por dia em 2005 nos USA.
Ora quando se fala aqui em linha de pobreza, está-se a pensar em 2010, o que significa que à taxa de inflação de 6.3% corresponde a 5.46 yuan ou 0.87 USD por dia em 2005. Usando a referência do Banco Mundial citada, 5.46 yuan na China em 2005 equivaleria a 1.33 USD nos USA, igualmente em 2005.
Porque é que estes valores são, afinal, tão importantes? É porque a China considera que uma pessoa é pobre quando o seu rendimento é inferior a 1.33 USD por dia (PPP 2005), ao passo que o Banco Mundial fixa esta fasquia em 1.25 USD diários. Comparando, então rendimento com consumo, podemos concluir que quando uma pessoa consome 1.23 USD, poupando 0.1 USD, é considerada pobre pelos critérios do Banco Mundial mas não pelos da China.
Não é também negligenciável que as comparações, sendo supervisionadas pelo Banco Mundial, são tratadas na China pelo Serviço Nacional de Estatística chinês, o que se presta a manipulações até pela enorme diferença de poder de compra nas cidades do litoral quando comparadas com as aldeias do interior. Segundo o artigo do Banco Mundial atrás citado, esta diferença ronda em média 37%, o que significaria então que a linha de pobreza chinesa não seria 1.33 USD/dia, mas 1.83 USD/dia (PPP 2005). Valor ainda muito baixo, embora confortavelmente superior ao padrão do Banco Mundial.
Tudo o Que Sobe, Pode Descer
As pressões internacionais para que a China revalorize o yuan em alta são recorrentes. Conhecem-se as posições negativas das autoridades chinesas, afirmando que o valor da sua moeda apenas diz respeito ao país, reservando qualquer iniciativa nesse sentido para quando tal for julgado oportuno. Entretanto, sucedem-se as publicações técnicas ocidentais tentando provar que o yuan se encontra abaixo do seu valor comparativo real. Os índices Big Mac (fast food índex) da The Economist, são um exemplo paradigmático desta cruzada. Não parece, contudo, suficiente concluir que se um hamburger custa na China menos 44% do que nos USA, então isso é prova de que o yuan está 44% desvalorizado em relação ao USD.
Duma forma ou de outra, o Senado dos USA aprovou nova lei para obrigar o governo a julgar de forma correcta o estabelecimento dos preços das importações, objectivamente procurando elevar as taxas aos produtos importados da China.
Com o prosseguimento da crise internacional, novos dados surgiram – a actividade industrial chinesa abrandou, o crescimento da Índia caiu a pique, e o do Brasil revelou-se incipiente no terceiro trimestre deste ano, não se prevendo alteração de tendências para o quarto trimestre.
É expectável que a China venha a recorrer à valorização da sua moeda, face às colossais reservas de que dispõe, embora recentemente se venha sentindo algum abrandamento no crescimento. Nenhum movimento brusco é, contudo, esperado graças ao apertado controlo estatal a que o mercado de capitais chinês está sujeito. Com a economia global em desaceleração, a inflação preocupa menos as autoridades chinesas (ver aqui e também aqui), permitindo aliviar a instrumentalização política das taxas de câmbio.
A crise na UE pode vir também a diminuir a importação de produtos chineses pelo que, face à necessidade de manter o nível das exportações, não será de excluir uma desvalorização, ainda que limitada, do yuan no decurso de 2012.
Tudo o que sobe, pode realmente descer.
(Nota: artigo seguinte abordará que mudanças económicas e políticas acompanharam estes importantes 10 anos da história chinesa).
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